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O mal simbólico e o paraíso perdido

19 Fev

A reflexão do mal simbólico feita pelo filósofo francês Paul Ricoeur remete ao estudo da linguagem e o uso da hermenêuticaadamicSymbols para dizer o que é a manifestação do mal na realidade, não se trata só da violência, mas essencialmente do mal em diversos níveis da realidade.

Ao explorar a função simbólica do mal, recorreu aos mitos primários como a queda de Adão que se revela na necessidade de reconhecer o símbolo como meio de compreender a realidade, no caso do mito adâmico, as três grandes religiões monoteístas: judaísmo, islamismo e cristianismo.

Expurgar o mal além do sentido ontológico que tratamos nos posts anteriores, e caminhar para o entendimento das implicações éticas que se pautam pela busca da tomada de consciência de si, parecem vazias e mal explicadas as raízes da violência quando não reconhecem o “símbolo”.

A ideia presente no mito adâmico da expulsão do paraíso, e que isto se dá pelo uso do “fruto proibido” já foi cantado em prosa e verso em livros (Eça de Queiroz escreveu Adão e Eva no paraíso), músicas e até mesmo tratados filosóficos como o de Paul Ricoeur na atualidade, porém a incompreensão desta presenta no “ser” ou nas esferas de imunologia como quer Petr Sloterdijk, parecem desconhecer os conceitos de “valor” e “riqueza” como querem Edgar Morin e Patrick Viveret (Como viver em tempos de Crise).

Longe de apelos apocalípticos é preciso compreender a complexidade do percurso atual da história humana, é sim uma crise com aspectos profundos, mas são aqueles momentos em que uma grande virada se anuncia, a nosso ver a “virada ontológico”, uma mudança de raízes profunda em nosso ser, e isto não tem nada de líquido e será bastante sólido.

A humanidade já deu grandes saltos, nos períodos das grandes civilizações do oriente: os Persas, os Babilônicos e os Egípcios, mas nas civilizações latino americanas também: Astecas, Incas e Maias.

Estas civilizações descaíram, mas outras a seguiram por caminhos diversos, o que parece falso é o paradigma desenvolvimentistas, pois ainda que seja desconhecido o humano é prevalente, fizemos muito no período da modernidade, mas suas idealizações do Indivíduo, do Estado e da propriedade individual parecem falsas, não significa necessariamente uma saída pelo modelo socialista, mas sem dúvida significará alguma saída coletiva, o ser-aí individual parece do-ente, e algo mais presente na relação ser-com-outro ética parece um caminho viável.

 

Imunologia e a verdadeira ascese

16 Fev
Para entendermos a ascese possível, temos que superar então o paradigma dosaQuaresma “afetos e paixões” presentes desde a origem da civilização ocidental, ele é uma abertura nas bolhas individualizadas em sistemas imunológicos, mas o que são os sistemas imunológicos ?
“Sistemas imunológicos são expectativas de danificação e violação, somatizados ou institucionalizados, que se baseiam na distinção entre o próprio e o estranho” (Sloterdijk, 2009, p. 709).
É fácil e possível reconhecer um sistema imunológico por uma metáfora do organismo biológico individual, este é o passo novo de Sloterdijk, ele vê em suas “Esferas” o indivíduo em círculos concêntricos cada vez maiores, criando dois sistemas imunológicos, e depois expandem na perspectiva cooperativa e convivencional.
A existência humana é um sistema imunológico social, e segundo o filósofo alemão quando funciona, segurança jurídica, prevenção social e sentimentos de pertencimento além do pequeno círculo da própria família, ele pode expandir-se.
Temos assim os círculos pessoal e familiar, ambos concêntricos, mas que devem ir além do em-si.
O terceiro, por isto postamos sobre o mal simbólico-ontologico, entramos num plano no qual a validação das normas intergeracionais, compensa (e recompensa) a certeza da morte individual e estabiliza a imagem do mundo, parece um plano ainda individual mas não é, é uma ascese na qual “expurgamos” o mal ontológico.
Asceses individuais e até mesmo familiar se não são solidárias e coletivas tendem a criar um “fechamento” do ser, um em-si do-ente.
Assim como o sistema imunológico biológico, tanto o sistema solidário como o simbólico podem passar por crises e superá-las (claro que podem fracassar também), o que significa esta morte individual ? no caso dos dois sistemas imunológicos sociais, é a morte e ressurreição coletiva.
Na passagem bíblica dos 40 dias de deserto de Jesus, se admitimos este humano como Deus não precisaria fazer isto, ele faz sua morte individual, é significativa a passagem em Marcos 1,12-13 “ … o Espírito levou Jesus para o deserto. E ele ficou no deserto durante quarenta dias, e aí foi tentado por Satanás. Vivia entre os animais selvagens, e os anjos o serviam”, depois começou sua vida pública, diria “coletiva”.
SLOTERDIJK, P. Du musst Dein Leben ändern. Über Antropotechnik. Frankfurt, Suhrkamp, 2009.
 

A antropotécnica e a ascese desespiritualizada

15 Fev

Para definir sua antropotécnica, Sloterdijk vai estabelecer a relação das relações dentro das religiõesaoVazio atuais como os mais puros procedimentos antropotécnicos:

“Se reduzimos essas “religiões” às suas características essenciais, surgem três complexos básicos dos quais cada um tem uma relação clara com a dimensão antropotécnica. Primeiro, do lado dogmático: um clube de exercícios ilusionistas, rigidamente organizado, cujos membros no decorrer do tempo estão sendo impregnados com as concepções do milieu. Em seguida, do lado psicotécnico: um roteiro de treinamento para a exploração de todas as chances na luta de sobrevivência. Observamos, por fim, o topo do movimento; podemos ver tudo, mas nenhum “fundador de religião”: na nossa frente está um inescrupuloso, radicalmente irônico, flexível para todos os lados, business-trainer” (Sloterdijk, 2009, p. 168).

Vendo também a Scientologia e o movimento olímpico como religiões, ele usa o conceito de habitus, mas sem deixar de criticar o desenvolvimento feito tanto por Pierre Bourdieu como por Marx, resolvendo o problema de como a base ou a “infraestrutura” social se refletiria na “superestrutura” ou como a concepção geral da sociedade consegue penetrar o indivíduo de forma duradoura, eis o seu habitus feito como um procedimento antropotécnico.

Para atualizar e historicisar seu conceito ele recorre ao conceito de habitus em Tomás de Aquino e de hexis em Aristóteles, que “…descreve um processo aparentemente mecânico sob os aspectos da inércia  da superação para explicar a encarnação do espiritual. Eles identificam o homem como aquele animal que pode o que deve, se alguém se importou em tempo com suas habilidades.” (idem, p. 289).

Segundo o autor ao apresentar sua própria teoria do desenvolvimento cultural, a própria humanidade, apesar do fato de encontrarmos costumes e tradições diferentes em cada momento da sua história, não seguiu o roteiro conservador da identidade, por isto esta questão é falsa, embora seja referencia para muitos autores contemporâneos.

A conclusão sobre esta ascese desespiritualizada é treinamento, deixar-se operar: deixar-se-informar, deixar-se-divertir, deixar-se-servir, deixar-se-curar, deixar-se-transportar, e se este é, para o autor, o ser-aí, sua contraposição não é a negatividade geral, mas deveria ser o epoché geral, o deixar-se esvaziar, pode haver o ser-aí-não-ser que poderia se complementar como onto-antropotécnica, a luz do habitus social, fazendo uma releitura das condições antropotécnicas atuais e capaz de criticá-las, seria um ser esvaziado total, um não-ser-aí que é também ser.

SLOTERDIJK, P. Du musst Dein Leben ändern. Über Antropotechnik. Frankfurt, Suhrkamp, 2009.

 

 

A crise e as cinzas

14 Fev

A crise econômica, política e social é mundial, mas a brasileira tem mais cara de quarta-feiraasCinzas de cinzas do que de carnaval, mas é possível sobre-viver nesta crise ?
Um livro sugestivo e profundo é o livro em parceria de Edgar Morin e Patrick Viveret: Como viver em tempo de crise? (Bertrand Brasil, 2013) que sugerem no livro  “Arrisco a hipótese que talvez tenhamos chegado a um momento de ruptura” (pag. 22), mas qual ruptura ?
Relembra Ortega y Gasset “não sabemos o que acontece, e é justamente o que acontece”, diz isto sobre a dificuldade de se relacionar fatos, a revolução digital, o ressurgimento de nações (armênio, curdos, croatas entre muitos outros), o grande saltos dos tigres asiáticos, enfim uma gama grande de relações novas, e agora novas tensões e guerras na África.
Os pragmáticos, que desconhecem a complexidade, querem ser práticos, ignoram a teoria ou repetem apenas um único autor, a ilusão de uma teoria “universal”, o que precisamos afirma Morin e Viveret: “o presente, o real não é aquilo que parece estável … é preciso estar aberto para o incerto, para o inesperado.” (p. 25).
Mas indagam os autores: “qual seria então, a boa notícia? Uma conscientização da amplitude, da complexidade, dando conta de um novo começo. Estamos em um período de crise planetária e não sabemos o que sairá disso; aquilo que der conta da possibilidade de transcender esta crise será uma boa notícia.” (p. 27).
Viveret escreve no capítulo “O que faremos de nossas vidas”, afirmando que devemos sair positivamente preservando o melhor”, mas paradoxalmente “mantendo a lucidez de que nelas existe o pior” (p. 44), parece que não dá uma solução definitiva, mas podemos reencontrar o melhor das “sociedades e civilizações tradicionais”, sendo preciso conhecer estas civilizações.
Saliente o autor que é “preciso reapropriar-se democrática e semanticamente das palavras ´valor´e ´riqueza´cuja raiz reich (em alemão) remete ao poder criador.” (p. 60 e 61).
Relembra também Karl Polanyi, em seu livro “A grande transformação”, “analisa as economias de mercado, que são legítimas, para as sociedades de mercado, que são perigosas, ou seja, o momento em que a mercantilização invade o conjunto do universo social.” (p. 61).
O autor nos dá como remédio sair da dupla infernal “excitação/depressão”, para ir em direção a outra dupla: “intensidade/serenidade” (p. 76).
Finalizam o livro com a frase: “é preciso crescer em humanidade”, este é o desafio atual, para renascermos das cinzas.

 

Os bas-fonds e o Carnaval

13 Fev

Caminhando pelas ruas centrais de minha cidade natal, Bauru de São Paulo, passo por uma moçaaoCarnavalMedieval já com um feijão e corpo de uma senhora, com uma sandália com amarras e peças de couro prateadas, vestindo um short que mal se fecha na grossa cintura, uma camiseta escura com a torre Eiffel e a palavra Paris estampados em dourado, lembrei-me do livro de Dominique Kalifa: Os Bas- Fonds: História de um imaginário (edUsp, 2017).
O livro comprei por engano no final de ano achando tratar-se da origem das Boas-Festas, os tradicionais cumprimentos de final de ano, mas ao abrir o livro entendi tratar-se das “cidades em crise”, o sujo, o seboso e o disforme, o Reino dos Indigentes, Sodoma, Roma e Babilônia, enfim alguns dos capítulos do livro de Dominique Kalifa.
De fato o centro das cidades tornaram-se periferias, ao menos nas cidades médias, e os centros foram para os shoppings em alguns condomínio fechados para dentro dos condomínios, onde há clubes, bares, lojas e até mesmo capelas, privatizando o footing.
Diz o autor, “os bas-fonds … se compreende instantaneamente” (Dominique, 2017, p. 11), talvez no francês, no português demorei para ligar a periferia (que hoje frequente o comércio central) e as fantasias do Carnaval (ao menos o brasileiro, feito por gente da periferia).
Encontro já no início do livro a ligação com o carnaval: “os bas-fonds se estendem por um terreno móvel, vago, em que a realidade, a pior das realidades, está em conluio com o imaginário, um terreno em que o ´social´ é constantemente redefinido pelo ´moral´, em que os seres de carne e osso se misturam com personagens de ficção.” (idem, p. 11).]
Esclarece que da figura ´positiva´ do filósofo grego Diógenes “o pobre de Deus, o “pobre do Cristo”, “o pobre com Pedro” da idade Média, surge no séc. XIII “na França e na Inglaterra, os termos de vagond e de vagrant” (pag. 69), que o autor chama da “invenção do mau pobre”.
Percorrendo a história, Dominique vai citar inúmeros autores: “a comparação dos proletários ameaçadores aos índios da América constitui um motivo recorrente, que explica, em parte, o imenso sucesso [na época] dos romances de Fenimore Cooper.” (pag. 109), cita ainda: Balzac, Sainte-Beuve, Dumas, George Sand, Maxime du Camp, Eugène Sue, Bérange e outros citados em páginas anteriores, se apaixonam pelo “Walter Scott dos selvagens” (de Henri Couvain).
Só para dizer o quanto é universal, lembro também “Bola de Sebo” conto de Guy de Maupasanti, e o filme Rale (Donzoko, 1957) cuja tradução para o francês foi Bas-fonds, filme pouco conhecido do diretor japonês Akira Kurosawa, sem falar do épico “Les miserables”.
A origem do carnaval entretanto é mais controversa, o Carnaval de Veneza ou talvez a festa dos loucos, descrita em 1445  como “festa dos loucos” feita na faculdade de Teologia de Paris (gravura moderna acima).
A transformação da alegria do imaginário de pobres, tornou-se quase todos lugares, uma festa privativa em que se assiste o desfile do imaginário dos bas-fonds. .
Kalifa, Dominique. Os bas-fonds: História de um imaginário, trad. Márcia Aguiar, São Paulo: Edusp, 2017.

 

A política líquida

12 Fev

Incapaz de fazer uma leitura correta do processo atual de mundialização, a política em todoAGeringonçaPortuguesa globo se desenvolve numa falsa dicotomia direita-esquerda, pois só é de direita de fato (defesa do mercado, volta ao conceito de riqueza das nações, defesa do trabalho braçal sem as máquinas, etc) num estilo cômico de Trump, e só é de esquerda de fato (defesa da intervenção sagrada do estado em toda econômica e todas áreas humanas, tais como arte, religião e escolaridade), a modo do infantilismo do ditador da Coréia do Norte:  Kim-Jong Um.

O Brasil não é diferente, o quadro que se movia no eixo do Lulopetismo e militarismo a moda Bolsonaro não é senão uma repetição da história, aliás a corrupção e os golpes não foram outra coisa senão a repetição da história, desde a proclamação da república, o getulismo, o tenentismo e o golpe militar são antecedentes de uma classe dominante que se apossa do Estado Brasileiro desde a Proclamação da República de forma institucional estamentária (conceito de Estamento de Max Weber), e, talvez antes no período monarquista, mas sem esquecer as reformas pombalinas.

No Brasil as reformas pombalinas são importantes por que são a presença do Estado Iluminista mais profunda e talvez a mais radical da América Latina, mas historiadores e políticos se esquecem disto, aliás uma demonstração clara é o lema positivista “Ordem e Progresso” (e o Amor, era o lema positivista) estampado na bandeira e o lema do governo Temer.
A modernidade líquida de Bauman, em seus últimos escritos praticamente a abandonou, é conveniente a religiosidade política brasileira que permanece no dualismo, sem a possibilidade de encontrar uma resposta na terceira via, esperamos que ela aparece, e não seja o Hulk.
Sem compreender que mais do que um mal estrutura como quer a esquerda religiosa, ou o mal líquido como quer pensadores da modernidade, o processo de uma nova mundialização é já necessário, sem ela não haverá fim da corrupção, redistribuição de renda, tolerância religiosa, racial e principalmente política, para dar resposta ao mausoléo modernista, que só não é mais líquido porque a vida continua a pulsar no planeta.
A política líquida não tem forças para impulsionar esta mudança, está presa numa falsa dicotomia dualista, não tem fundamento humanitário apela para o Estado-Providência porque o Estado é sua crença, e não o homem concreto, aquele que sofre com esta política líquida.
Talvez de onde menos esperamos venha uma resposta, a geringonça portuguesa (foto – representação da coalisão que governa Portugal), enquanto isto vamos embalando uma falsa alegria em meio ao carnaval, mas a quarta-feira vem aí.

 

A exclusão e os leprosos de hoje

09 Fev

Não é raro mesmo em lugares de relativa calma e bem estar social, que oaosLeprosos homem se sinta incomodado e desalojado de tudo que vive e sente a sua volta: as famílias não são mais somente lugar de conforto, no Brasil os índices de violência doméstica assustam, até mesmo espaço de laser como campos de futebol e outros esportes se encontram brigas, corrupções e diversos tipos de violência, sem falar a sociedade em geral que vive taxas alarmantes.

Pensamos que o isolamento é a solução, quando não sozinhos também em grupos e muitas vezes em grandes grupos, também formamos nossas bolhas de “segurança”, não são mais espaços de conforto pois ele é quase inatingível, mas de segurança.

Alargando o conceito do individualismo para o de microesferas e esferas de Sloterdijk, o espeço que encontramos saindo do em si e caminhando para o de si não é suficiente, nele sentimos a ausência de algo essencial, se não podemos atingir a esfera espiritual, a qual chamo de noosfera (esfera do espírito), devemos entender os processos de exclusão das “bolhas”.

Primeiro porque são irreais nos dias de hoje, vivemos uma exposição ampla, Byung-Chul Han fala disco e no livro recentemente de Domenico de Mais (post da segunda-feira) também fala da “desorientação” social, e, portanto, não se trata de liquidez, mas de esferas fugazes e uma nova relação com a exclusão: as periferias existências e suas “bolhas” de segurança.

Não haverá solução se não houver um salto além do de si, é um além aquilo que foi mal definido na filosofia como um para si, embora aí também ocorra o perigo do fideismo e do subjetivismo, é nele que reencontramos as esferas abertas de nossos sonhos, de nossa poesia e de uma visão de mundo sem exclusão, o problema que Heidegger chamou de Weltanschauung.

Oscilando entre uma pieguice religiosa e um materialismo rasteiro pseudo-religioso, a visão de mundo necessária transformar-se numa visão de mundo sem exclusão  deve superar preconceitos ideológicos, e tornar-se uma visão que todos possam fazer parte.

No tempo em que a hanseníase (a lepra) era o pior tipo de exclusão, e era inclusive consideradas um pagamento pelo “mal”, as palavras de Jesus podem resumir bem a exclusão daquele tempo em Marcos quando um leproso pede a ele de joelhos: “Se quiseres, podes purificar-me!” Jesus estendeu a mão, tocou nele e disse: “Quero. Seja purificado!”  (Marcos 1,40-41).

As lepras hoje são muitas, olhemos a nossa volta e quanta gente excluída nas diversas bolhas que olham ao seu redor e dizem altivos: “não são nossa gente” pois estes “são impuros”.

 

Exclusão e choque imunológico

08 Fev

A ideia de Petr Sloterdijk que a história é “uma colisão de sistemas imunológicos”, poderia aImunologiamuito bem ser traduzida para ser entendida como o “choque de exclusões”, e a ideia que as pessoas que fazem isto são apenas as religiosas é falsa e ideológica.
Em entrevista e no diálogo feito nas Fronteiras do Pensamento, o filósofo afirmou: “Marx estava errado quando pretendia que toda crítica devia começar com a crítica da “religião”. A verdadeira crítica tem de começar pelos falsos conceitos. A ideia de que Deus queria destruir a humanidade no Dilúvio é uma expressão pesada de como as pessoas podem se sentir culpadas, mas é um conceito falso. A ideia de que as viúvas devem ser queimadas com seus maridos também é um falso conceito. Para colocar a questão paradoxalmente como ela é: [religião] não tem nada a ver com religião.”, veja no site Gauchazh.
A ideia que religião, no sentido filosófico e teológico, não tem nada a ver com religião, religação a Deus e aos nossos semelhantes é facilmente demonstrada bastando ler os teólogos que estão mais preocupados com uma religião “imune” (dos Outros, quem são os outros?) e menos com a inclusão de pessoas que são invisíveis para o mundo contemporâneo.
O filósofo que escreveu a “Crítica da Razão Cínica” em 1986, afirmou na referida entrevista, que esclarece muito o cenário político mundial: “Em nossos dias, a síndrome do cinismo como uma revolta agressiva contra a ideia de justiça, progresso e boa vontade está novamente alterando o campo partidário. Vejo muito poucos elementos “conservadores” nos novos movimentos de direita em todo o mundo, se por conservadorismo entendermos o justo sentimento pelos valores do passado. Percebo, em vez disso, muita raiva contra a civilização como tal e um ódio profundo contra as “elites” – sintomas que conhecemos muito bem das tentações totalitárias do século 20. Entre os intelectuais franceses tem havido, nos últimos meses, um debate significativo sobre a nova “desmoralização”.”
Além da exclusão imunológica, provemos em escala social uma “desmoralização”, a religião que inclui leprosos, viúvas, mulheres e pobres, nada tem a ver com a imunológica

 

Individualização e perdas da relação

07 Fev

Todo processo de individualização moderno foram formas de isolamento do aOrfeu-atenassujeito, inicialmente dos objetos (a famosa ruptura kantiana entre objetivismo e subjetivismo), depois dos indivíduos entre si, mas Sloterdijk vamos mais longe, afirma-a “anatômica”.

A forma de sua crítica é um dos pilares do Estado-nação patético, a formulação de Rousseau que foi “o inventor do homem sem amigo, que só podia pensar o outro complementar na forma de uma natureza maternal imediata ou de uma imediata totalidade nacional.” (Sloterdijk, 2016, p. 248).

Dá uma explicação mais sólida a solidão do homem moderno: “Se o indivíduo não consegue se completar e se estabilizar por meio de aplicações bem-sucedidas das técnicas de solidão – por exemplo, nos exercícios artísticos e solilóquios escritos – ele está destinado a ser absorvido pelos coletivos totalitários” (p. 349) por isto, escreve em Esferas I sobre as bolhas.

Dá uma explicação anatômica para isto: “o sujeito solitário moderno não é o resultado de sua própria escolha, mas um produto fracionário da rude separação do nascimento e da placenta.” (p. 350), assim como já tinha falado do coração na relação com o Outro, agora percorre o aspecto originário, a ligação do filho com a mãe pela placenta, isto ajuda a compreender seu conceito de “individualismo anatômico”.

Recorre novamente ao romance de Orfeu e Eurídice para explicar a ruptura, na mitologia grega Orfeu era filho da musa Calíope com o Apolo ou Éagro, rei da Trácia, conhece Eurídice e se apaixona e casa com ela, mas a beleza de Eurídice atrai um apicultor Aristeu, mas Orfeu a persegue e na perseguição ela tropeça numa serpente que mordeu seu calcanhar e a mata.

Então a simbologia de Orfeu que serve ao homem moderno é a busca da relação, mas sem abandonar seu “individualismo anatômico” não consegue chegar a comunhão, a ligação umbilical que o impede de “relações verdades”, orgânicas embora cante louvores a “pura relação” como fazia Orfeu que a enaltece em suas canções (foto).

Talvez Sloterdijk não conheça, mas o ditador popular: “olhando para o próprio umbigo” que tem exatamente um sentido individualista, neste caso é olhando para a relação perdidas.

SLOTERDIJK, P. Esferas I: bolhas. Trad. José Oscar A. Marques São Paulo: Estação Liberdade, 2016.

 

O ser em esferas e o ser-de-si

06 Fev

Sem dúvida alguma o maior mal de nossos temos junto com a exclusão econômicaasBolhas e social, é a exclusão por características humanas específicas: doenças, tipo físico e até mesmo intelectual.

Já destacamos em nossos posts, a importância da tríade das Esferas de Petr Sloterdijk: Esferas, na qual descreve diversos aspectos de uma sociedade isolada em “bolhas” (nome do primeiro livro, já com tradução para o português) “Esferas I: bolhas” (Estação Liberdade, 2016).

Trata-se de um lugar, a esfera, onde se pode proteger, não é lugar de conforto mas de segurança, que no tratamento dado por Sloterdijk é a tradição do pensamento, que aparece como um lugar de proteção de uma humanidade que, para se proteger, se mura de pedras, armas, canções e ideias, e não seria de esperar de modo diferente para o mundo cibernético.

No conceito de Sloterdijk, que é diferente daquele tratado como “identidade” pois as esferas tem identidade que são fugazes, trata o problema humano onde estamos quando estamos no mundo? Por isso é uma consequência do pensamento de Heidegger o “ser-no-mundo”.

A sociedade atual dissolveu suas relações protetoras de intimidade em relações cinzentas formais, a questão se transfigura: onde estamos quando estamos no descomunal, na falta de abrigo da exterioridade absoluta, portanto é um problema maior que o enfoque de Domenico de Mais, não se trata apenas a perda de projetos sociológicos, mas de uma ruptura humana.

Não é também apenas o mal estar da modernidade, de fundo puramente psicológico como o tratado por Freud, o sentido que Sloterdijk dá para a “bolha” é o que se pensa por “espírito” ou “alma” é apenas o “ar” da vida insuflado em um espaço partilhado

Isto é claro já no pensar o espaço interior, início de seu livro, quando Sloterdijk demonstra a pendência de sua microesferologia com relação à psicologia contemporânea, aquilo que a filosofia chama de si (Hegel usa esta categoria para diferenciar o em-si), de si e passou a permitir se pensar o surrealismo da espacialidade humana, a saber, de ser conteúdo e continente, assim quando se fala de produção de conteúdo dever-se-ia falar do continente.

A crença religiosa na fusão mística e no encantamento fisiológico dos casos descritos por Sloterdijk, que fala do coração e da alma de figuras como Catarina de Sena e Raimundo de Cápua, que fala da troca do próprio coração com o de Vristo, revelavam o caráter relacional dos corpos humanos e que encontra até mesmo no Banquete de Platão e que foram anulados pelo “individualismo anatômico”, segundo o autor, quando se começa a dissecação de cadáveres, nos séculos XVI e XVII.

Apesar de uma linguagem que vai do poético ao mordaz, a crítica que Sloterdijk faz ao nosso tempo para ser fundamental, que poderia ser grosso modo dita como “ser-em-esferas”.