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Arte, autonomia e ver

22 Nov

O que permanece velado na arte recente e que está presente no discurso de Hegel e mais ainda naCamponesasJacob aparente ruptura com a saída do “plano” para as formas tridimensionais do “polido” é ainda uma arte idealista daquilo que Hegel chamou de “autonomia” e que devido ao este idealismo, Rancière chamou de “autonomização”.

Esclarece Rancière que é a autonomização: “um desses elementos, a ´ruptura dos fios de representação´que os atavam à reprodução de um modo de vida repetitivo. É a substituição desses objetos pela luz de sua aparição. A partir daí, o que acontece é uma epifania do visível, uma autonomia da presença pictural.” (RANCIÈRE, 2003, p. 87)

É em última instância esta autonomização a famosa “arte pela arte” ou no sentido oposto a “utilitarismo da arte”, mas ambas não podem negar nem o aspecto específico da arte e sua ligação com as palavras nem a sua utilidade “tão útil quanto o útil” diria o escritor Vitor Hugo, mas trata-se de aceitar a emancipação do espectador pela “interação”.

Ver em arte escreve Rancière: “quer se trate de uma Descida da cruz ou um Quadrado branco sobre fundo branco, significa ver duas coisas de uma só vez” (Rancière, 2003, p. 87), que é uma relação entre: “a exposição das formas e superfície de inscrição das palavras.” (idem), onde as presenças são “dois regimes do trançado de palavras e formas.” (ibidem)

Para entender o problema da visão Rancière lança mão do quadro de Gauguin Camponesas no campo, há um “primeiro quadro: camponesas num quadro olham os lutadores ao longe” (Ranciére, 2003, p. 95), a presença e a maneira como estão vestidas mostram que é outra coisa então surge um segundo quadro: “devem estar numa igreja” (idem), para dar sentido o lugar deveria ser menos grotesco e a pintura realista e regionalista não é encontrada, então há um terceiro quadro: “O espetáculo que ele representa não tem um lugar real.  É puramente ideal. As camponesas não veem uma cena realista de pregação e luta. Elas veem – e nós vemos – a Voz do pregador, isto é, a palavra do Verbo que passa por essa voz.  Essa voz fala de combate lendário de Jacó com o Anjo, da materialidade terrestre com a idealidade celestial.” (Ibidem)

Assim desse modo afirma Rancière, a descrição é uma substituição, a palavra pela imagem, e as substitui “por outra ´palavra viva´, a palavra das escrituras.” (RANCIÈRE, 2003,P. 96)

Faz ainda uma ligação com os quadros de Kandinsky, escrevendo: “No espaço da visibilidade que seu texto constrói o quadro de Gauguin já é um quadro como os que Kandinsky pintará e que justificará: uma superfície em que linhas e cores se tornam sinais mais expressivos obedecendo a coerção única da ´necessidade interior´ ” (Rancière, 2003, p. 97), e já explicamos anteriormente não se trata nem de subjetivismo puro pois faz uma ligação com tanto com o pensamento interior quanto ao pensamento sobre a descrição no quadro.

O importante é a simbiose entre a imagem, as palavras e a visão decorrente de um “desvelar” da imagem que pode ser traduzida em palavras.

 

Pintura plana, palavra e pensamento

21 Nov
 O novo se constrói no diálogo com a tradição, não aquela que é fechada e ADamaDeRosaimpermeável, mas aquela que permite este diálogo pela grandeza de sua construção, que é o caso da pintura “plana” e sobre a qual pode-se construir o futuro da imagem, como pretende Jacques Rancière.
Esclarece Rancière: “a superfície reivindicada como meio (médium) próprio da pura pintura é, na verdade, outro meio (médium)” (Rancière, 2003), assim pode-se entender que mídia não é outra coisa senão médium, ou o que algumas áreas do conhecimento chamam de suporte, mas mídia ou médium são palavras mais atuais e remetem às “novas mídias”.
Sua crítica a Greenberg é porque seu formalismo “deseja fazer coincidir meio (médium) e material, o espiritualismo de Kandinsky, que faz dele um meio (milieu) espiritual, são duas maneiras de interpretar essa desfiguração. A pintura é plana à medida que as palavras mudam sua função de relação a ela.” (RANCIÉRE, 2003, pag. 88)
Rancière dará a ela uma ordem representativa, que conforme afirma servem de “modelo ou de norma”, é algo novo, pois se a palavra carece de subjetividade a pintura parece carecer de objetividade, ainda que esta separação seja idealista, ela existe e é quase uma norma na modernidade.
Desenvolve seu raciocínio: “como poemas, como história profana ou sagrada, elas desenhavam o arranjo que a composição do quadro devia traduzir.” (RANCIÉRE, idem)
Aqui se liga a palavra: “Jonathan Richardson recomendava ao pintor escrever a história do quadro primeiro, para saber se valia a pena pintá-lo” (idem), então aí está feita a ligação.
Explica que a crítica estética que emerge da época romântica não é normativa, não admite dizer o que o quadro deveria ser, diz só o que o pintor fez, é a ideia absoluta realizada.
Porém o equívoco é “articular de forma diversa a relação do dizível como o visível, a relação do quadro com aquilo que ele não é.  É reformular de outra maneira o como do ut pictura poesis, o como pelo qual a arte é visível, pelo qual sua prática coincide com olhar e depende de um pensamento.” (RANCIÉRE, 2003, ibidem)
E diria quase conclui: “a arte não desapareceu. Mudou de lugar e de função” (idem), ou seja, não se pode negar sua relação com o pensamento e com o olhar, no qual todos estão de acordo, mas não estão de acordo que o “olhar depende do pensamento” e este depende de modelos e normas, em última instância de ideais e ideologias.
Pode ver nos quadros de Kandinsky (Dama em Moscou e Mancha Negra I) onde plasmam a ideia do filósofo Steiner sobre a “ação paralela” ou a visão dupla, onde vemos um drama material em meio a rua, em outro plano, o espiritual, uma mancha negra que parecer viajar em nosso campo de visão, e também uma aura sobre uma mulher que sugere uma forma de pensamento feito na cor rosa, os quadros são ambos de 1912 e foram feitos de forma consecutiva.
RANCIÈRE, J. O destino das imagens. Trad.  . Rio de Janeiro: Contraponto, 2003.
 

Nem ponto, nem plano e nem polida

20 Nov
A arte contemporânea expressa no mundo digital, extrapola os sentidos humanosaMatisseKandinsky sendo sinestésica, multissensorial e multidimensional; não apenas quanto o plano pois não é seu ponto de partida mas principalmente no trato de estabelecer ligações entre corpos indo além do falado e pintado, para o projetado e multi-sensibilizado.
O ponto de partida é então o fractal, onde não há dimensões 0 (ponto), 1, 2 ou 3 (tridimensional), e a crítica ao plano começa aí mas ir desde dispositivos on-off (liga – desligada), passando pelos sentidos até chegar a realidade aumentada e a realidade projetada: o holográfico e o virtual.
A análise feita por Jacques Rancière em O destino das imagens, que parte da ideia que palavra e pintura se invertem onde: “a potência as palavras não é mais o modelo que representação deve ter como norma.” (RANCIÉRE, 2003, p. 86)
Retomando as análises clássicas de Hegel “pioneira nesse trabalho de redescrição que, diante das obras de Gerard Dou, Teniers e Adrian Brouwer, como das obras de Rubens e Rembrandt, ao longo de todo período romântico, elaborou uma visibilidade de uma pintura ´plana´(grifo do autor), de uma pintura ´autônoma´ … os verdadeiros quadros desprezados por Hegel, não é o que vemos de início.” (Rancière, 2003, p. 87), que proporciona a “ruptura dos ´fios de representação´ que atavam a reprodução de um modelo de vida repetitivo“ e acrescentaria ´idealista´ (RANCIÉRE, 2003, idem).
Mas haverá o movimento contrário e “Greenberg opõe a ingenuidade do programa antirrepresentativo de Kandinsky a ideia de que o importante não é o abandono da figuração, mas a conquista da superfície.” (RANCIÈRE, 2003, ibidem).
O que o francês Henri Matisse (1869-1954) e o russo Wassily Kandinsky (1866-1944) exploraram são mais do que cores, formas e novas superfícies (como os fractais) há algo da mistura “espiritual” na Composição VII e o Caracol de Matisse (nas figuras acima).
É claro que esta não é uma arte digital expressamente, mas uma epifania da ruptura com a representação da forma.
RANCIÈRE, J. O destino das imagens. Trad.  . Rio de Janeiro: Contraponto, 2003.
 

Governança, talentos e religião

17 Nov

O conceito de governança é, portanto aquele que se estende a um grupo aoEmpowermentmaior que uma burocracia ou tecnocracia de Estado, não se trata apenas de saber investir, olhar os interesses e fazer “o desenvolvimento”, mas principalmente render o muito ou o pouco que se tem.
Já se vai um bom tempo em que o desenvolvimento não significa necessariamente uma melhoria das condições de vida e da distribuição de renda da maioria da população, mas isto agora deve ser pensado em escala mundial, pois não há mais crise ou desenvolvimento isolado, porém é preciso dizer uma lição básica de economia: não se distribui o que não se tem, e ao mesmo tempo aumentar a fatia do bolo que se distribui.
Já se colocou nos posts anteriores a questão do assistencialismo, ressalva feita a regiões de vulnerabilidade e que não são poucas no planeta, no entanto é preciso produzir para que se poder distribuir e não o contrário se distribui que assim se produz, basta ver as regiões pobres do planeta onde a economia não anda.
Embora o raciocínio que uns tem mais e por isso outros tem menos tenha um fundamento de política econômica, não se pode pensar que seja possível distribuir o que não se tem, seria o mesmo que vender ilusões como fazem jogos de azar e os populismos de diversos tipos, volto a dizer, há a questão da vulnerabilidade e isto é sério.
A equação que deve ser feita, isto mostram os países com boa distribuição de renda é como colocar a economia e o que se produz nos lugares corretos, e conforme já indicamos anteriormente também não há um “manual de boas práticas” ou de “boa gestão”, é preciso gerenciar o que se tem de modo a torna-lo produtivo.
Uma parábola bíblica explica bem isto (Mt 25, 20-27), quando um patrão distribui talentos entre seus empregados dando 1 a um, 2 a outro e 5 a um terceiro, ao voltar se depara com a seguinte situação: “O empregado que havia recebido cinco talentos entregou-lhe mais cinco, dizendo: ‘Senhor, tu me entregaste cinco talentos. Aqui estão mais cinco, que lucrei’. O patrão lhe disse: ‘Muito bem, servo bom e fiel! Como foste fiel na administração de tão pouco, eu te confiarei muito mais. Vem participar da minha alegria!’
Chegou também o que havia recebido dois talentos, e disse: ‘Senhor, tu me entregaste dois talentos. Aqui estão mais dois que lucrei’. O patrão lhe disse: ‘Muito bem, servo bom e fiel! Como foste fiel na administração de tão pouco, eu te confiarei muito mais. Vem participar da minha alegria!’
Por fim, chegou àquele que havia recebido um talento, e disse: ‘Senhor, sei que és um homem severo, pois colhes onde não plantaste e ceifas onde não semeaste. Por isso, fiquei com medo e escondi o teu talento no chão. Aqui tens o que te pertence’.
O patrão lhe respondeu: ‘Servo mau e preguiçoso! Tu sabias que eu colho onde não plantei e ceifo onde não semeei? Então, “devias ter depositado meu dinheiro no banco, para que, ao voltar, eu recebesse com juros o que me pertence’”.
Parece uma lógica perversa, até mesmo financeira, mas não é, para não se enterrar talentos é preciso fazer “render” o que se tem, aplicá-lo para haver uma economia de multiplicação dos pães e de superação da miséria, é claro todos sabemos, há gente que interpreta esta parábola para o enriquecimento de alguns poucos, não é o que está dito.

 

Empoderamento, Autonomia e Estado

16 Nov

Magdalena Sepúlveda Carmona (2013) aponta claramente a relação entre apovertyemponderamento e pobreza: “A falta de poder é uma característica universal e básica da pobreza. A pobreza não é apenas uma falta de renda, mas sim caracteriza-se por um ciclo vicioso de impotência, estigmatização, discriminação, exclusão e privação material, que se reforçam mutuamente. ”
Emponderamento é algo sobre o desenvolvimento complexo chamado de “fuzzword” (Cornwall, 2007), parecido ao conceito de buzzword que surgiu em torno de novas tecnologias e campos de negócios como o e-commerce, assim como este o “fuzz” permite complexidade de múltiplas interpretações e definições, muitas vezes refletindo a uma predisposição teórica ou ideológica de seus expoentes, mas a ideia é um “fuzzie” de negócios para o mundo civil.
Ibrahim e Alkire (2007) enumeraram 32 definições diferentes, mas sobrepostas deste novo conceito,
Usaremos aqui uma definição baseada em Eyben (2011) que é aceita em muitos documentos internacionais de forças tarefas da ONU, por exemplo, onde:
“O empoderamento acontece quando indivíduos e grupos organizados podem imaginar seu mundo de forma diferente e realizar essa visão mudando as relações de poder que as mantiveram na pobreza, restringiu sua voz e privou-as de sua autonomia”.
A palavra auntomia aqui é importante, porque difere do assistencialismo que dá “esmolas” mas não empondera, pois significa capacitar populações de modo sustentável e irreversível, não basta assistir é preciso que no futuro os indíviduos e pessoas sejam autonomos, isto é e fato “boa gestão” de recursos.
Uma abordagem de capacitação é tanto um fim em si mesmo quanto um meio de erradicar a pobreza e a exclusão em seu sentido mais amplo (multidimensional), isto afirmam desde humanistas profundos até economistas que não veem de modo preconceituoso populações pobres.
As experiências efetivas de empoderamento tendem a envolver num “triângulo mágico”, nome dado em alguns relatórios, onde o ambiente da sociedade civil ativa, funcionários públicos ou líderes políticos comprometidos e mecanismos de aplicação que garantem que estas iniciativas “tenham coragem”.
Isso significa que a organização da sociedade civil no seu conjunto é um ativo e sua fraqueza ou ausência é um problema. Os governos precisam nutrir organizações independentes e ativas da sociedade civil e proteger o espaço em que podem operar.
A boa notícia é que a história parece estar firmemente do lado do empoderamento, como o alargamento e o aprofundamento globais dos direitos humanos, ainda que tenhamos retrocessos conservadores, a criação dos sistemas que superem áreas de vulnerabilidade e os programas sólidos de economias mais criativas é o futuro.

CARMONA, M. S. 2013. Report to the UN Human Rights Council of the Special Rapporteur on extreme poverty and human rights. United Nations General Assembly.
CORNWALL, A. 2007. Buzzwords and Fuzzwords: Deconstructing Development Discourse. Development in Practice, 17, 471-484.
EYBEN, R. 2011. Supporting Pathways of Women’s Empowerment: A Brief Guide for International Development Organisations. Pathways Policy Paper. Brighton: Pathways of Women’s Empowerment RPC.
IBRAHIM, S. & ALKIRE, S. 2007. Agency and Empowerment: A proposal for internationally comparable indicators. OPHI Working Paper Series.

 

Emponderamento civil e Estado

15 Nov

Hoje é dia da República no Brasil, que perspectivas podemos ter emacivil societyPT termos de um Estado moderno ?
Um dos raros autores a tratar o empoderamento da sociedade é David John Framer que pensa a distribuição do poder governamental em favor da cidadania, não se trata de uma concessão do governante ou uma benesse que é dada a sociedade, é a força de reconhecer a incapacidade do Estado para sociedade promover soluções em ambientes de alta complexidade, que é característica da sociedade moderna.
A abertura à democratização das funções administrativas não é uma novidade absoluta do direito brasileiro, a experiência mais notória de deu a partir da Constituição de 88 com Conselhos em vários sistemas administrativos relacionado ao desenvolvimento dos serviços sociais, mas chamo a atenção a Constituição da Islândia feita por crowdsourcing e promoveu uma limpeza no país, no falimento de 2008.
Para se identificar a matriz teórica que esta iniciativas de governanças começaram a surgir, é fundamental para retificar os vícios identificados nos já quase 30 anos desta constituição, seja pelos bloqueios que se fizeram dentro destes novos modelos, do tipo “bloquear a pauta” e impedir avanços quando o determinado partido está no poder, quer por incompreensão da sociedade do modelo proposto.
Se tratam de iniciativas que devem partir da sociedade, não apenas a participação consentida ou de determinado matiz ideológico, mas o conjunto da sociedade devem sentir a governança, o deferimento ao que seja a compreensão do que é a democracia, da qual trata Bobbio (2000, p. 386) naquilo que chama de “poder em público”, a sociedade deve ser a promotora de um modo de decidir coletivo, isto que poderia ser chamada de uma abertura dentro da abertura democrática, ou amadurecimento democrático da sociedade brasileira.
Não é Estado mínimo, com menos poder, incapaz de alterar processos administrativos e judiciais que levem a sociedade a um ponto mais justo e transparente.
FRAMER, D. J. The languagem of public administration, Bureaucracy, modernity and posmodernity. USA: The Universidade of Alabama Press, 1995.
BOBBIO, Norberto. Teoria geral da política. A filosofia política e as lições dos clássicos. Trad. Daniela Beccaccia Versiana, 9ª. Imp. RJ: Elsevier, 2000.

 

Questões administrativas do Brasil

14 Nov

A já afirmada incompetência do Estado para cumprimento de seus deveresaoEstadoBrasil no campo da garantia aos direitos fundamentais, com alternâncias de propostas de modelos para boa administração em situações de regimes jurídicos justos, parecer ser ideia nova, mas não é.

O problema de nosso novo milênio é velocidade própria de surgirem soluções salvadoras, que não se permitem às ideias dos benefícios conquistados ao longo dos tempos, tanto para a aplicação correta das ideias, quanto para a avaliação justa do que foi feito.

O estado não admite um manual de “boas práticas” porque ele muda com o tempo e de acordo com o contexto social, e neste aspecto não se podem negar a influência das novas mídias que impulsionam as redes sociais para o bem e para o mal, por isto os Tribunal Eleitorais e também os sistemas de governança devem admitir novas “práticas”.

A Era Vargas por exemplo, propunha-se a consolidar uma nova configuração do aparelho de Estado, criar novas instituições como a manifestação das bases da formação da sociedade brasileira, é de Lustosa da Costa (2008, p. 843)

É de García de Enterría (1998) a indicação da importância do período pós-Revolução de 1930, para consolidar nova configuração ao aparelho do Estado, ao criar novas instituições como manifestação das bases da formação da sociedade moderna, onde a regulação jurídica, seria um instrumento de contenção do poder e de estabelecimento de uma potência governamental ativa, forte e universal, capaz de concretizar o projeto de reestruturação de sociedade.

Na verdade, o impulso ao capitalismo industrial, associado ao prestígio ao racionalismo, resultou em um ambiente que demandava da nova burocracia “…uma função econômica essencial: a coordenação das grandes empresas produtoras de bens e serviços, fossem elas estatais ou privadas…” conforme afirma Bresser Pereira (2001),   mas que só iria se concretizar com o apoio americano no período de esforça de guerra “dos aliados” com a Companhia Siderurgia Nacional, criada em apoio aos americanos na II Guerra Mundial.

O desenvolvimentismo, entretanto, viria no início da gestão de Juscelino Kubitschek encontra a proposta de reforma administrativa, originária ainda do período Vargas, que depois criou neste governo a Comissão de Estudos e Projetos Administrativos (CEPA), que era “paralela”.

O nome “paralela” foi dado por Lima Junior (1998) para o projeto “50 anos em 5”, onde as autarquias, sociedade de economias mistas e outras estruturas em choque com o Congresso.

As ações administrativas de seu projeto de “50 anos em 5” de Juscelino, reservando-se a atuação executiva propriamente dita às autarquias, sociedades de economia mista e outras estruturas, num emprego daquilo que Lima Junior (1998, p. 10) qualifica como verdadeira “administração paralela”.

Pulamos o Regime Militar, merece uma discussão a parte devido a ditadura e pouco diálogo, no início do governo José Sarney, a Nova República, a pensada nova Lei Orgânica da Administração Pública Federal, para substituir o Decreto-Lei 200/67, e implantar-se ainda a Escola Nacional de Administração Pública (ENAP), de nítida inspiração francesa.

A compreensão do que é o estado, o tipo de Administração Pública que se queria no Brasil redemocratizado envolveu uma prévia compreensão do modelo de Estado que nele se pretendia ter, na perspectiva da Lei Maior de 1988, a chamada Constituição Cidadã.

GARCÍA DE ENTERRÍA, Eduardo.  Revolución Francesa Y administración contemporânea. 4ª ed., Madrid: Civitas, 1998.

LIMA JUNIOR, Olavo Brasil de.  As reformas administrativas no Brasil: modelos, sucessos, fracassos.  in  Revista do Serviço Público, Ano 49, Número 2, abr-jun 1998, p. 5-32.

LUSTOSA DA COSTA, Frederico.  Brasil: 200 anos de Estado; 200 anos de administração pública; 200 anos de reformas. Revista de Administração Pública,  Rio de Janeiro 42(5):829-74, set/out. 2008,Disp em: < http://www.scielo.br/pdf/rap/v42n5/a03v42n5.pdf> Acesso: nov 2017

 

“Paradise papers” e a corrupção mundial

13 Nov

Depois do SwissLeaks (veja nosso post) e do Panamá papers (outro post),asBermudas agora surgem os novos paraísos fiscais em ilhotas pelo mundo, denunciados como “Paradise papers”.

A denúncia, que envolve a rede de Jornalistas Investigativos de mais de 80 países, denuncia fraudes fiscais com base no vazamento de 13.5 milhões de documentos financeiros, vindo de um escritório internacional de advocacia com sede nas ilhas Bermudas, o Appleby, que foram primeiro obtidos pelo jornal alemão Suddeustsche Zeitung.

Entre as personalidades mundiais estão a Coroa Britânica, a cantora Maddona e o campeão mundial de formula 1 Louis Hamilton, mas aparecem os ministro Henrique Meirelles da Fazenda e o ministro Blairo Maggi da agricultura, além do empresário Paulo Leman. Dono da Ambev, a marca Heinz e a rede de lanchonetes Burger King.

Segundo o relatório pessoas ligadas a Trump como o secretário do comércio Wilbur Ross, e ligadas a Putin da Rússia, como seu genro, além de mais de 100 corporações multinacionais, tais como Apple, Nike e Uber, fogem de impostos por manobras contábeis habilidosas.

Ter dinheiro em paraísos não significa atos de corrupção, mas o fato de buscar paraísos fiscais com baixa tributação, e usar empresas “offshore” (ao pé da letra fora das costas, quer dizer sem muita fiscalização) pode ser um indício de evasão de divisas e também corrupção.

As informações detalham movimentações financeiras de mais de 120 mil pessoas desde 1950 e 2016, segundo a BBC de Londres não é um vazamento, mas uma enchente.

Parafraseando um jornalista, “é preciso passar o mundo a limpo”, deve emergir uma nova cidadania planetária que não suporte mais isto, e segundo análise de Big Data no Brasil, a palavra corrupção foi a mais citada este ano aqui, talvez seja o “ano da corrupção”.

 

 

Verdade e Prudencia

10 Nov

A parábola das virgens prudentes fala da atenção que devemos ter a verdadeaoCirculoHermeneutico e devemos zelar por ela, e o zelo é a eterna vigilância, no caso da hermenêutica é não se distanciar da reformulação e interpretação de nossos pré-conceitos, que não significa abandonar os princípios, isto é, estar diante da Verdade.

É como diz a parábola (Mt 25,1-2) “Reino dos Céus é como a história das dez jovens que pegaram suas lâmpadas de óleo e saíram ao encontro do noivo. Cinco delas eram imprevidentes, e as outras cinco eram previdentes Reino dos Céus é como a história das dez jovens que pegaram suas lâmpadas de óleo e saíram ao encontro do noivo.

Cinco delas eram imprevidentes, e as outras cinco eram previdentes.” e não sabiam a hora que o noivo ia chegar, assim quando este chega querem emprestar das prudentes.

O Círculo Hermenêutico é uma boa dica para a prudência, o diálogo (no círculo o Texto) para a compreensão parte de um pré-figuração (ou pré-conceitos), deve por uma distanciação positiva (se não escutar e abrir-se torna-se negativa) suspender julgamentos e pela explanação do Outro (o falante ou o autor do Texto) promover novos insights e novas possibilidades de relacionamento, chegando então a apropriação do texto e do discurso em nova configuração.

A possibilidade de uma grande transformação nos relacionamento entre o Mesmo e o Outro promove uma nova transformação levando uma nova compreensão.

A sabedoria não é fruto de um ego inflado, de bolhas de “sabedoria” e nem de pílulas de sapiência, é fruto de relações realmente humanas e só elas leva a VIDA, a boa CULTURA e a BOA POLÍTICA, enfim a nova sociedade.

 

Compreensão e Hermenêutica

09 Nov

A compreensão leva a sabedoria e certamente sabedoria é o oposto deahermeneuticaDilthey ignorância, mas é possível uma sabedoria que brote da tradição e da vivência sábia, porém mesmo estas deverão ter presentes interlocutores que mergulharam em pensamentos e reflexões de outros, e que estes leram em algum lugar a tradição e os problemas da humanidade.
A ideia que apenas em um livro exista toda sabedoria é refutada até mesmo pelo filósofo cristão Tomás de Aquino com sua famosa máxima; “desconfie do homem de um livro só”, também Marx foi ler a economia “capitalista” de Adam Smith e Ricardo para escrever seu famoso “O capital”, mas é preciso dizer que poucos leem a Bíblia, o Capital, ou qualquer outro livro de referência básica ao pensamento de “tradição” que afirmam ter.
Edmund Husserl, Martin Heidegger, Hans-Georg Gadamer, Emmanuel Lévinas, Paul Ricoeur, Edgar Morin e muitos outros atestam que há uma crise no pensamento, ao menos no pensamento ocidental, pois há pouca leitura e aprofundamento no pensamento do mundo árabe e do oriental, o africano é quase incógnito.
Outra ideia é a de reduzir a cultura a ideologias, sendo que o exercício delas é na maioria das vezes submeter as culturas ao seu esquema de pensamento, Paul Ricoeur escreveu “a ideologia é esse menosprezo que nos faz tomar a imagem pelo real, o reflexo pelo original” (Ricoeur, 2013, pag. 84) e esta talvez seja o maior confucionismo de nosso tempo.
Sabedoria envolve compreensão, e a hermenêutica é a ciência da compreensão, porque envolve interpretação, superação de pré-conceitos, compreensão e diálogo e revisão d conceitos, o assim chamado círculo hermenêutico, cuja elucidação é feita por Gadamer.
Ainda que Gadamer o veja como preso a um historicismo romântico, Dilthey identificou três classes de compreensão: a primeira que ele chama de “juízos e as formações do pensamento maiores”, relacionada a ciência que inclui tanto as naturais como as ciências humanas, são exemplos um livro texto de biologia ou de matemática, mas também pode incluir conceitos como gravidade e outros presentes no senso comum; o segundo é a experiência vivida e são estas que levam as ações mas deveriam passar pelas primeiras, chama isto de nexo vital.
Exprime sobre a segunda como “tirando a elucidação de como uma situação, um propósito, um meio e um nexo vital se interseccionam numa ação, ela não permite nenhuma determinação inclusiva da vida externa da qual surgiu”.
A terceira a mais essencial são as expressões da experiência vivida, dita assim por Dilthey: “Uma expressão da experiência vivida pode conter mais nexo de vida psíquica do que qualquer introspecção pode perceber”, assim em parte ocorre devido a aspecto da compreensão que ainda não se percebe, penetrar nisto leva a um círculo hermenêutico voltando a juízos e formações maiores, embora Dilthey não tenha formulado assim, seria o círculo hermenêutico.
DILTHEY, W. Obras escolhidas – vol. 3 A fundação do mundo histórico nas ciências humanas, 2002.
RICOEUR, P. Hermenêutica and Ideologias, 3ª. Edition, São Paulo: Vozes, 2013.