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Heidegger e o Poder

18 Out

Embora possa se fazer uma especulação sobre a questão do poder no conceito de pre-sença que é uma resposta de Heidegger ao racionalismo, o ser-para-o-fim “não se origina primeiro de uma postura que, às vezes, acontece, mas pertence, de modo essencial, ao estar-lançado da presença, que na disposição (do humor) se desvela dessa ou daquela maneira.” (Heidegger, 2015, p. 327).

É a ideia que este ser-lançado, a presença “existe para seu fim” (idem), o para está destacado por que está na relação com o conceito para-si de Hegel, e através disto seria possível fazer a especulação do que é de fato a relação que Heidegger vê com o poder, a partir da presença.

O caminho que faremos é mais direto, porque Heidegger analisou diretamente esta questão, estudando a questão da vontade de Poder em Nietzsche, e o eterno retorno que de modo indireto, fizemos a análise no eterno do estado e queremos aprofundar o conceito.

A afirmação que em nossos instintos estão sempre presentes as ideias de vontade de poder, eterno retorno (em alemão Ewige Wiederkehr) e super-homem (em alemão übermensch), e os dois últimos são conduzido pela vontade de poder, portanto sua categoria principal.

O ente para Nietzsche não é pensado como ser, mas como querer inerente á vontade, assim o ente que quer sempre a si mesmo de modo instável e insaciável é o que o torna, um ente metafísico do querer e não necessariamente do Ser.

Em Nietzsche é um “torna quem tu és” que vale e não o princípio socrático “conhece-te a ti mesmo” que é mais próximo do ser ontológico, e Heidegger vai propor o “confronto” que é a revisão da fundamentação originária do pensamento ocidental, em torno da essência e em sua necessidade, descrita assim: “se uma consideração mais originária sobre o ser deve se tornar necessária a partir de uma urgência histórica do homem ocidental, então esse pensamento s+o pode acontecer na confrontação com o primeiro começo do pensamento ocidental.

Essa confrontação se dá plenamente, ela mesma permanece fechada em sua essência e necessidade, enquanto a grandeza, quer dizer, a simplicidade e a pureza da tonalidade afetiva fundamental do pensamento e a força do dizer adequado se recusarem para nós.” (Heidegger, 2015, p. 479).

Não por acaso, o brasileiro nietzschiano Oswaldo Giacóia Jr escreveu “Heidegger urgente: introdução a um novo pensar” (Três estrelas, 2013) que é um guia para leitura de Heidegger muito precisa, esclarece que Heidegger pretende reatar um pensamento ainda mais “radical e originário do que aquele que foi vivenciado na Grécia … “ (Giacóia Jr, 2013, p. 46), para corresponde à verdade do Ser como desvelamento (alétheia) diria ainda mais um retorno a sua essência.

Neste contexto o Ser, numa nova poiésis (a maneira criativa e infinita de pensar o Ser), deve antes de tudo a vontade de poder que está presente no messianismo e na mitologia de todo pensamento contemporâneo, fonte das bases autoritárias de fazer política e de sociedade.

O eterno retorno é o conceito mais frágil, não há a questão da consciência histórica nem do tempo, o que diferencia profundamente do circulo hermenêutico de Heidegger.

GIACÓIA JÚNIOR. Oswaldo. Heidegger urgente – Introdução a um novo pensar. S.P. Três Estrelas, 2013.

HEIDEGGER, M. Ser e tempo, 10a. edição, Trad. Revisada de Marcia Sá Cavalcante, Bragança Paulista, SP: Editora Universitária São Francisco, 2015.

 

O dasein e a razão

17 Out

Antes de penetrar no conceito de ser-no-mundo, tradução provisória de dasein, é preciso compreender em que ponto a ontologia se distancia do racionalismo cartesiano, em que ponto se aproxima, para quem deseja um mergulho mais profundo “Meditações Cartesianas” é muito recomendável (post), já quem Husserl foi professor de Heidegger e este guardou alguns conceitos.

As duas categorias cartesianas bem conhecidas para “coisa” são a res extensa e a res cogitans, sobre as quais escreveu Heidegger: “Sem dúvida esse ente [com relação a Deus] necessita de produção e conservação, mas dentro dos entes criados [ou só considerando estes] … existe algo que não necessita de outro ente, no tocante a produção e conservação das criaturas, por exemplo do homem. Tais substâncias são duas: o res cogitans e o res extensa” (Heidegger, 2015, p. 144).

Assim o dualismo cartesiano não é só entre duas substâncias finitas, que são naturalmente distintas, mas entre as duas finitas e o infinito, e Heidegger esclarece logo a seguir retomando a ontologia medieval, as vezes chamada de fundamental ou ontoteologia por outros autores, a questão de como o ser é designado como “ente cada vez referido” (Heidegger, 2015,p. 145), ou seja, “nas afirmações Deus é ou o mundo é, predicamos o ser … a palavra ´é´ não pode indicar o ente cada vez referido no mesmo sentido (αυυωυúς, unívoce), já que entre ambos existe uma diferença infinita do ser, se a significação do ´é´ fosse unívoca, então o criado teria o mesmo sentido do não criado ou o não criado seria rebaixado a um criado” (idem).

Resolve a querela do universal, entre realistas e nominalistas, “Ser não desempenha a função de um simples nome [pensavam os nominalistas] pois em ambos casos compreende-se ´ser´ “ (ibidem), explicita e supera a escolástica que “apreende o sentido positivo de significação do ´ser´ como significação ”analógica” para distingui-la da significação unívoca ou meramente sinônima” (ibidem).

As aspas são do próprio Heidegger para indicar a analogia do ser enquanto substância, e estendendo para o contemporaneidade nem o analógico nem digital são ser, pertencem só ao ôntico, ou em nossa denominação aos artefactos. 

Finalmente rebaixa a ontologia cartesiana que “fica muito aquém da escolástica” que deixou sem discussão o sentido do ser e o caráter da ´universalidade´ desse significado contido na ideia da substancialidade” (ibidem), embora reconheça que mesmo a ontologia medieval questionou muito pouco este sentido.

Embora vá recuperar em alguns aspectos Descartes, constata para o seu tempo e vale ainda hoje, sequer nos libertamos da crise do pensamento europeu do século passado, “a ontologia cartesiana do mundo ainda é hoje vigente em seus princípios fundamentais”, a materialidade.

Heidegger, M. Ser e tempo, 10a. edição, Trad. Revisada de Marcia Sá Cavalcante, Bragança Paulista, SP: Editora Universitária São Francisco, 2015.

 

Morreu Paul Allen

16 Out

Co-fundador com Bill Gates da Microsoft (foto), teve fortuna igualável e foi de fato o grande desenvolvedor da Microsoft, Bill Gates tinha trabalhado antes da Microsoft apenas numa versão da linguagem Basic, foi ele que sugeriu a compra do QDOS, sistema desenvolvido por Tim Paterson quando trabalha na Seattle Computer Products, de onde surgiu o MS DOS, cuja venda para a IBM é a origem do projeto milionário da Microsoft.

Paul Allen conhecia o sistema MVT da Xerox Palo Alto, que foi inspiração para as primeiras versões do Windows, mais tarde também investiram no Explorer numa versão fortemente competitiva com o Netscape, que desencadeou a chamada guerra dos navegadores Web.

Paul Gardner Allen  criou uma fundação com seu nome em 1988 para administrar projetos filantrópicos, entre 1990 e 2014 doou mais de 500 milhões de dólares a mais de 1500 organizações sem fins lucrativos, a maioria destinada a projetos de tecnologia, artes e cultura, mas também uma significativa fatia para desenvolvimento social (cerca de 100 milhões de dólares).

Morreu ao 65 vítima de câncer em sua cidade Seattle, onde era dono do time de basquete.

 

Visão científica e ontologia

16 Out

A ciência contemporânea é fruto de uma construção de conceito “a priori”, que pode ser pensada como aquilo que é anterior a experiência ou à percepção, em termos de filosofia isto corresponde a duas formas de conhecimento ou argumento, quando dizemos na minha experiência eu sinto que … é o argumento da percepção, quando digo vejo isto da seguinte forma … significa que tenho uma visão de mundo e estou recorrendo a ela.

Na fenomenologia ontológica também é admitido um “a priori”, mas não significa uma “construção apriorística”, pois ela deve estar desvinculada da “empiria”, pois na verdade mesmo que não consigamos explicitar a nossa visão de mundo, ela foi social e culturalmente construída, o que no circulo hermenêutico são os pré-conceitos, no sentido que estão de alguma forma formulados.

Assim como tanto a pesquisa científica como a ontologia tem conceitos “a priori” elas podem convergir, mas na prática a ontologia requer uma purificação, ou seja, a explicitação de quais são os preconceitos, por exemplo, o idealismo ou a cultura.

Toda investigação Científica realiza uma a priori que é a “fixação dos setores dos objetos” e só é possível a partir de uma abertura originário ao ser do ente, ou seja, qual é a experiência ordinária que ela tem do mundo, por vezes difícil de explicitar e questionar.

Para que um verdadeiro questionamento científico seja feito é preciso determinar a região dos entes, muitas vezes chamada de contextualização mas esta no máximo só corresponde a uma visão romântica de história (ler Gadamer), a região significa ser levada ao horizonte da experiência original, o horizonte da relação fundamental do ente que questiona com o mundo questionado, em geral feito às avessas.

Na filosofia medieval, toda a discussão destes a priori levam querela dos universais de Boécio(470-525 d.C.), que traduziu a Isagoge do grego para o latim, logo percebeu o magnífico programa que as questões de Porfírio anunciavam.

No fundo a querela é se existem universais, quais seriam eles, que desencadeou uma luta entre nominalistas (tudo é nome) e realistas (eles existem independentes dos nomes).

A analítica existencial “está antes de toda psicologia, antropologia e, sobretudo, biologia.” (Heidegger, 2015, p. 89), embora já o dizemos no post anterior Paul Ricoeur afirma que há em Heidegger (diria em toda ontologia) um a priori que se fundamenta na antropologia, que chamamos de originária por razões culturais.

Heidegger, M. Ser e tempo, 10a. edição, Trad. Revisada de Marcia Sá Cavalcante, Bragança Paulista, SP: Editora Universitária São Francisco, 2015.

 

O ser e o mundo

15 Out

Heidegger criou uma escola filosófica ao criar uma visão de ser e de mundo, que retorna a uma questão básica essencial que a filosofia deixou escapar: existir e ser.

Mas a expressão ser no mundo, com grande influencia social e também psicológica, foi rapidamente consumida na banalização conceitual por ser aparentemente óbvia.

A expressão ser no mundo, que fez e faz escola no conhecimento psicológico e social, é daquelas que facilmente se prestam à banalização e a empobrecimentos, talvez mesmo pela sua abrangência e aparente obviedade.

O tema está no seu tratado Ser e Tempo (Sein und Zeit), de 1927, que tinha como tarefa recolocar a questão do “sentido do ser”, que foi esquecida pela metafísica tradicional ocidental a partir da modernidade, mas para ele também pelos antigos.

Isto aconteceu na modernidade por ter-se convertido o ser numa ontologia da substância, aquela que visualiza o ser em geral a partir da primazia da “coisa”, ou, dito de outro modo, que toma a “coisa”, como paradigma de representação para tudo o que “é”, pressuposto básico do que a filosofia objetivista traduziu como tudo que é objeto, reduzindo a metafísica e a visão da essência em “superstição”.

Assim para se alcançar a visão do ser é preciso em primeiro lugar, entender o que ée o ser do ente que recoloca a questão do ser (para Heidegger esquecida), ou seja o ser do homem, o dasein (deixo aqui propositalmente sem tradução).

Toda a primeira seção da obra é devotada a análise do dasein (daseinsanalyse), ou seja o desenvolvimento da estrutura do ser no mundo, com um horizonte fundamental para poder ser abordada a questão do ser em geral.

Estas estruturas ontológicas vistas na análise do dasein como: ocupação, disposição, compreensão, discurso, etc. não podem e não devem ser confundida com os seus correlatos ônticos ou empíricos (ah a prática!), elas são: afeto, desejo, conhecimento, linguagem, que na verdade são apenas fundamentação existencial.

A analítica existencial “está antes de toda psicologia, antropologia e, sobretudo, biológica” (Heidegger, 2015, p. 89), embora Paul Ricoeur observe que há uma antropologia filosófica “em função de sua abertura ontológica” (Tempo e Narrativa, 1994).

 

Heidegger, M. Ser e tempo, 10a. edição, Trad. Revisada de Marcia Sá Cavalcante, Bragança Paulista, SP: Editora Universitária São Francisco, 2015.

 

Pode acontecer o impossível

12 Out

Talvez seja o que mais podemos esperar quando estamos numa situação que não há para onde correr, deve haver uma saída, recorremos a física e a filosofia, talvez falte a teologia ou alguma forma de mistério acessível ao ser humano.

Um raciocínio que devemos fazer nestes casos é muito simples, se formos pelo caminho que já é conhecido teremos a mesma resposta, mas o novo não é necessariamente uma mudança de rota, pode ser, é o que pensamos nas eleições brasileiras, um eterno retorno ao mesmo.

O novo neste caso é uma relação nova entre a classe política e a sociedade, entre ricos e pobres, e em especial, fora do dogmatismo de cada corrente de pensamento, difícil muito difícil, os ressentimentos são sérios e as ofensas são graves, mutuamente graves.

Recorro a uma passagem bíblica, a do jovem rico que ao aproximar-se de Jesus diz que gostaria de ganhar a vida eterna e Jesus responde Mc 10, 19-20: “Tu conheces os mandamentos: não matarás (sic), não cometerás adultério (opa), não roubarás (corrupção não), não levantarás falso testemunho (fake news), não prejudicarás ninguém (negros, indios, lgbts), honra teu pai e tua mãe (não está escrito honra o estado)”, mas o jovem responde “Mestre tudo isso tenho observado desde a minha juventude”, mas ao propor que doe seus bens, ele vai embora.

Espera não terminou, exegetas e fundamentalistas ignoram o trecho seguinte, no qual até os apóstolos ficam assustados imaginando-se também ricos, e como o são os políticos de hoje, mas Jesus acrescenta: Mc 10, 27: Para os homens isso é impossível, mas não para Deus. Para Deus tudo é possível”.

Há então agora entendemos, está tudo aí, não ainda não, pois tanto o jovem rico quanto os apóstolos tem um “chamado” a uma mudança de rota, e o trecho final é o mais importante Mc 10,29-30 “Em verdade vos digo, quem tiver deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos, campos, por causa de mim e do Evangelho, receberá cem vezes mais agora, durante esta vida — casa, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições — e, no mundo futuro, a vida eterna”.

Poder ganhar o mundo, podem ganhar as eleições, mas em paz com Deus e com a consciência é outra coisa.

 

 

Possibilidades do impossível

11 Out

As dificuldades de ir além do futuro “possível”, dentro dos limites da visão de mundo e do imaginário popular coloca a história em limites quase intransponíveis, e um futuro logo ali na esquina que todos desejam: maior equilíbrio social, respeito a natureza, segurança, tolerância em diversos níveis, educação (em transformação é importante observar) parecem quase impossíveis, o resultado é um eterno retorno.

Voltam os velhos modelos de nacionalismo (o de nação e cultura nacional são importantes), de egoísmo económico e principalmente de divisão e violência política, ainda que apenas verbal.

A razão principal é a ignorância que os fatores comunicacionais, sociológicos e antropológicos mudaram, embora isto exploda nas ruas e manifestações o tempo todo, a saída de uma região de segurança (de conforto é relativo, pois o desconforto é geral) parece impossível.

Isto reflete no conjunto dos pensamentos, elaborações e discursos cotidianos, velhos chavões e retóricas estão de volta, mas será que nada mudou ? creio que já mudou, mas é preciso uma nova “visão de mundo”, um além do bem e do mal, não com Nietzsche preconizava um século e meio atrás, ele próprio disse a seu amigo Jacob Burkhardt: “Peço-lhe que leia este livro (se bem que ele diga as mesmas coisas que o meu Zaratustra, mas de uma forma diferente, muito diferente”, creio que diria hoje ainda mais.

Voltando agora 14 séculos, Santo Agostinho convertia-se deixando o maniqueísmo para aderir a um cristianismo hoje quase irreconhecível, ideológico de duas faces: instrumentalização de esquerda e fundamentalista de direita, creio que Jesus diria: “perdoai-os não sabem o que fazem”, contextualizado sim, pois os ataques são viscerais e literalmente violentos.

É possível uma síntese disto tudo, talvez já que recuamos de diversas formas ideologicamente a um marxismo que chega no máximo a escola de Frankfurt, de outro lado, ou um nacionalismo pré-cambriano, a síntese poderá vir depois desde se houver uma reflexão, agora não há.

Apagar incêndios, evitar um retorno a um autoritarismo sombrio, contornar falácias de fake news, tentar estabelecer um diálogo sobre propostas essenciais: segurança, educação e saúde.

Autocríticas, penso que são impossíveis para discursos messiânicos, é preciso olhar o planeta como um todo e refletir sobre este “eterno retorno”, ao meu ver não há modelos novos, não há pensamento “novo” (nenhuma alusão ao partido de news yuppies), não vejo pensamento novo, não vejo nenhuma nova “clareira”, apenas velhos discursos ideológicos e religiões que mataram Deus, que nada tem a ver com os que preconizam “armar-vos uns aos outros”.

Minha saída, retornar ao ser, em seu ente: o homem em sua persistente existência neste mundo, o ser-no-mundo com suas consequências e riscos.

 

O futuro e nossa vida em 2100

10 Out

Já escrevemos alguns posts sobre Michio Kaku, sobre algumas de suas especulações em torno da física, agora queremos dar com um ele um salto no futuro, diferente daquilo que fazem os tecnoprofetas (nome dado por Jean Gabriel Ganascia aos criadores de mitos tecnológicos), Kaku especula usando a física e sendo otimista.

Escreve: “em 2100, nosso destino é de se tornar como os deuses que outrora adorávamos e temíamos. Mas nossas ferramentas não serão como varinhas mágicas e poções, mas a ciência dos computadores, a nanotecnologia, inteligência artificial, biotecnologia e acima de tudo, a teoria quântica, que é a base das tecnologias anteriores.” (KAKU, 2011),

Se posicionamento como um físico quântico, o termo é impróprio mas diria teórico, ele pergunta: “Mas onde está toda essa mudança tecnológica líder? Onde está o destino final desta longa viagem em ciência e tecnologia?”, sua resposta é surpreendente.

Responde de forma sociológica: “o ponto culminante de todos estes transtornos é a formação de uma civilização planetária, o que os físicos chamam de Tipo I civilização”, não surpreendente para quem faz a ligação de toda mecânica newtoniana com a lógica que dura até nossos dias para o direito, as ideias económicas e as teorias do estado.

E avança: “a menos que sucumbirmos às forças do caos e da loucura, a transição para uma civilização planetária é inevitável, o produto final da enorme, inexorável força da história e tecnologia para além de qualquer controle.”

Futuristas já previam o escritório sem papel, porém o caos burocrático faz o papel ainda ser gasto desmesuradamente, o trabalho em casa ainda não é realidade, mas poderá ser.

Também os cybershoppers de compras online, os cyberstudents tornando obsoletas as salas de aulas, e muitas universidades iriam fechar por falta de interesse dos jovens.

O que vemos é cyberclassrooms proliferando e as universidades ainda registram número recorde de alunos, professores que fazem sucesso dando palestras sobre filosofia, física e aparatos tecnológicos, quebra-cabeças gigantes de mídia tentam manipular a cabeça das pessoas, mas “as luzes da Broadway brilham ainda tão intensamente quanto antes”.

Mas a tecnologia continua sendo combatida como um dos “males de nosso tempo”, e segundo Kaku o ponto é: “sempre que houver conflito entre tecnologia moderna e os desejos dos nossos ancestrais primitivos, esses desejos primitivos ganham cada vez mais.” E conclui: “esse é o princípio homem das cavernas”.

Kaku conta uma história parecida aos dias de hoje, assistiu um filme que mudou sua vida era o “Planeta Proibido”, com base na peça de Shakespeare: “A tempestade”, no filme astronautas encontram uma civilização antiga, mas milhões de anos a nossa frente.

A descoberta da Caverna de Chauvet no sul da França, onde redescobrimos o homem primitivo capaz de uma arte e uma subjetividade comparável ao nosso tempo, não é senão a ideia deste Homem das Cavernas que subsiste em nós e insiste em não ir ao futuro.

O livro não termina ai, sua crença no futuro é forte e resiliente, mas uma frase de Schopenhauer traduz bem sua visão:  pessoalmente acrescentaria mas os limites são maiores que nossa visão.

 

KAKU, M. Física do Futuro: como a ciência irá transformar nossa vida diária, no ano de 2100. 2011.

 

Sustentabilidade e economia

09 Out

Os ganhadores do prêmio Nobel de Economia: William Nordhaus da Universidade de Yale e Paul Romer da Universidade de Nova York, embora toda a imprensa esteja falando apenas do aspecto da sustentabilidade pelo clima, tem o lado da tecnologia como fundamental, Romer fez teses importantes nesta área.

Deixo os comentários sobre William Nordhaus sobre “Economics and Policy Issues in Climate Change” para economistas e ecologistas, não consigo avaliar o alcance do seu trabalho.

Romer ganhou principalmente pelo trabalho “Increasing Returns and Long run Growth”, pois o prêmio conjunto é justificado pelo aspecto da sustentabilidade, mas seu trabalho “Endogenous Technological Change” tem igual importância.

Só para se ter uma ideia, o artigo de tecnologia tem mais de 27 mil citações, pois a tese central que a tecnologia auxilia o desenvolvimento, contradiz a falácia que a tecnologia prejudica o desenvolvimento e ajuda a concentração de renda, contra isto trabalhou também Elinor Ostrom (a primeira mulher Nobel de Economia), Saskia Sassen e até mesmo o marxista Frederic Jamenson.

A definição necessita de conhecimento do Modelo de Crescimento Solow Grow (Jones, 1988), que indica que o progresso técnico exógeno, entenda-se de influência externa, assim como endógeno é aquilo que tem influência interna, isto é central, pois as análises são feitas de modo sistemicos.

Isto acontece por razões não explicadas no modelo, as técnicas de inovação endógenas de mudança atribuem progressos técnicos a esforços sistemáticos pelos agentes de economia, uma inovação claramente não é fator previsto num sistema.

O modelo de explica, por exemplo, quantas empresas poderiam começar a gastar recursos melhorando a tecnologia, em vez de simplesmente aumentar quantidades de recursos e capitais, pode-se pensar, mas a empresa vai demitir, não é assim.

Se os custos adicionais são apenas relativos a tecnologia eles podem e em geral são menores que os investimentos em passivos e pessoal, não se justificando diretamente as demissões, o que acontece é que a inovação desativa algumas funções, mas cria novas, muitas vezes em número igual ou até superior e com salários maiores pela especialização.

Para entender estes efeitos há um trabalho, o que li para este post, escrito com Luis A. Rivera-Batiz (pdf), intitulado. “International trade with endogenous technological change”, no qual usam dois setores fundamentais na industria: um setor de pesquisa e desenvolvimento que produz inovações, e outro, de manufatura que produz bens de consumo e capital físico.

Analisam o efeito de alocação, que refere-se a mudanças na produção setorial pela alocação de insumos básicos entre setores, como um modelo de países, justamente na contramão do que diz o pensamento de conservador de hoje, favorecer os insumos “dentro” dos países, também usado no Brasil ao nível de comércio que era favorecer o consumo interno, o modelo mostra que isto não é sustentável a longo prazo, por isto sustentabilidade a longo prazo.

Jones C (1998). Introduction to Economic Growth. W.W. Norton, 1998, 1rst Edition, 2002 Second Edition.

 

Isto é solido ou líquido

08 Out

Parece uma brincadeira, não é a pergunta que aparece no projeto do site Solid, na verdade a pergunta lá é: O que é Solid ? o novo projeto para internet de Tim Berners-Lee e o MIT.

Depois da Web 2.0 que incluiu todo mundo, porém carecia de validar os dados, autoria e pensamentos, emergiu a partir de 2009 a Web 3.0, através do Linked Data, e isto está na composição do nome de Solid: Social Linked Data, embora a ideia do acrônimo central ela faz todo sentido, a ideia principal é descentralizar a Web, dar maior segurança dando aos usuários as possibilidades de controle total sobre o uso dos dados, como explica um artigo de Klint Finley na conceituada revista Wired.

A ideia principal é dar aos usuários individuais controle total sobre o uso de seus dados, porém com validação, autoria e tratamento de dados através do conceito de ligação entre eles (linked data).

A principal startup deste projeto é a Inrupt, segundo a revista Wired: “se tudo correr como planejado a Inrupt será para a Solid o que a Netscape foi para os iniciantes na rede (Web): uma maneira fácil de entrar, a revista foi convidada a conhecer o projeto no escritório de Berners-Lee, que revelou várias preocupações.

Apesar de todo bem que alcançamos, o ciclo de desigualdade e divisão, capturado por forças “poderosas que usam para seus próprios interesses”, disse Berners-Lee e acrescentou: “sempre acreditei que a rede é para todo mundo. Por isso, eu e outros lutamos aguerridamente para protege-la”,  e agora um passo decisivo foi tomado.

A tela da Inrupt reunirá funções como o Whatsapp, google Drive, Spotify e Google Drive, parece tudo igual, a diferença é que o controle será pessoal, o indivíduo definirá suas prioridades e estratégias e não algoritmos das redes sociais.

Também é uma necessidade emergente porque basta olhar a tela de seu celular ou do computador, pessoalmente instalo poucas coisas, e vemos uma infinidade de aplicativos que nem usamos, é como um guarda roupa cheio de roupas velhas esperando uma ocasião que não vem.

O Projeto SOLID veio para ficar, ainda que seja um novato e muita coisa seja apenas promessa, é fácil de perceber sua viabilidade, necessidade e potencialidade pela chancela do MIT.