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Arquivo para a ‘Etica da Informação’ Categoria

A dimensão do eu-tu de Buber

12 Jul

As ideias de Martin Buber contribuem para a integração de uma concepçãoIandYou filosófica do ser humano a uma atitude diante deste.

Em sua obra, Buber trata do homem no mundo, de suas múltiplas possibilidades de existir, dependendo de como se coloca.

As palavras-princípio eu-tu e eu-isso assinalam modos de ser do homem, formas de responder à realidade, que sempre solicita um posicionamento.

O eu que se abre para um tu não é como o eu que se relaciona com um isso, ou seja, a forma de relacionamento estabelecida fundamenta o modo de ser. Por isso, a relação produz diferentes possibilidades de a pessoa estar no mundo.

Eu-tu e eu-isso são parte do movimento humano, sendo inseparáveis, alternando-se constantemente a cada relacionamento (Buber, 1923/2001). Na atitude eu-tu, a pessoa entra em relação, deixa-se impactar, deixa-se atravessar pela presença viva do outro, seja este outro uma pessoa, uma situação, uma obra ou um ente qualquer. Há nesse instante uma dimensão intensiva, não mensurável ou redutível à temporalidade, espacialidade e questões objetivas. O mundo do tu não tem coerência no espaço e tempo: é um campo de forças, de presença, de vitalidade. Não pode ser apreendido ou aprisionado em representações: sempre escapa. Não se reduz à percepção: é intenso, vivo, pulsante. Sempre ressurge diferentemente, em contínua transformação. A atitude eu-isso, por sua vez, leva ao experiencial de forma objetiva as situações.

O mundo do isso ou da objetividade ordena o real, transformando-o em habitável e reconhecível.

Para Buber (1923/2001), a melancolia do destino humano é que o tu se torna, irremediavelmente, um isso, o que é necessário para a compreensão do processo vivido.

Não se consegue manter sempre a atitude eu-tu, pois o homem é incapaz de habitar permanentemente no encontro, a existência é pautada pela alternância entre as atitudes eu-tu, eu-isso e seus desdobramentos.

Na perspectiva buberiana, a experiência implica um distanciamento reflexivo, situando-se no âmbito do isso, enquanto a relação está no âmbito do tu. A relação é vivência, não experiência. Ao encontrar alguém no modo eu-tu, a consequente perda do espaço, do tempo e a desestabilização do eu possibilitam contemplação, novas sensações, atravessamentos.

A relação eu-isso, ao contrário, situa a pessoa no mundo dos objetos, ordenando e sendo extremamente necessária para a elaboração e a produção de significados, desde que não se torne a forma predominante de relação com o mundo.

Para Merleau-Ponty (1945/1999), ao perceber o outro apenas como um isso, objetificando-o, há um afastamento da sua presença viva, o objeto é só outro Ser, uma representação,  mas o que é o mundo e o outro como “representação” ?

 

A ética e a moral sem esforço

07 Jul

Estabelece-las como regras, imposições e todo o esforço idealista para estabelece-laEticaSimples como “regra de estado”, que faz parte do cotidiano e por isso julgamos correta, não condizem com aquilo que de fato gostaríamos que fosse a nossa vida do dia-a-dia inundada por escândalos pessoais e coletivos.

Porque muitas vezes pessoas simples conseguem conduzir sua vida de modo mais correto do que pessoas doutas e elaboradas: juízes, promotores, políticos e até mesmo gente com alta titulação universitária ? a razão é que esqueceram a elaboração mais comum e simples destes valores:

Assim são valores éticos, aqueles que elaborados dentro de uma certa estrutura social, infelizmente a nossa é complexa e sem princípios claros, deveriam conduzir o nosso modo de agir social a um consenso, onde o conjunto das morais individuais poderiam auxiliar a atitude social de cada pessoa.

Por outro lado, a moral refere-se aqueles valores que adquiridos em família, e depois em sociedade ao longo da vida, nos faz discernir entre o certo e o errado.

Ambos se referem ao certo e errado, um de acordo com as regras sociais estabelecidas ou não, que é o que nos dá uma “ética” e outro que a partir de valores que deveriam ser dados em família, são mais tarde guias para nossas consciências em determinadas atitudes que devemos adotar perante o Outro.

O fato que em última instância será o Estado e não a família, o grupo social e a relação com o Outro que devem estabelecer estes limites entre o certo e o errado, o que seria então os moldes para uma cultura coletiva vigente, fez como que a “autoconsciência” proclamada por Hegel e por juristas entrasse num processo confuso.

Em uma cultura em crise, com desconfianças cada mais profundas nas ações do Estado, e com a falsificação de uma educação para uma “mínima moral” cada vez mais vacilante, o caldo da crise cultural que se vive engrossou,  e temos dificuldade com as noções mais simples.

Vale a leitura bíblica que afirma que “revelastes aos pequeninos e as escondestes dos sábios e doutores” (Mt 11, 25), claro não é regra geral, mas aquela sabedoria velha e “arcaica” de nossos pais e avós parecem resolver questões nas quais sábios e doutores se enrolam a ponto de não encontrarem mais a saída.

 

IoT e a segurança de dados

21 Jun

Muitos aspectos de segurança de dados foram desenvolvidos, mas há uma máxima daIoTSecurity computação que afirma que nenhum sistema é totalmente seguro, e se prevemos um crescimento exponencial das conexões com a internet das Coisas (IoT – Internet of Things), é um fato que o problema de segurança tenha também um crescimento nesta proporção.

Enquanto o mundo da IoT já chegou (smartphones, relógios, TVs, carros, óculos e outros aparelhos, nos de pode dizer que há uma plataforma IoT realmente segura e com operacionalidades simples.

Para os especialistas, um desses recursos básicos de segurança é a criptografia de dados, mas ela deverá estar agregada ao tratamento de Big Data, já que este para o volume de dados atuais já é praticamente indispensável, com a IoT será compulsório.

Os dispositivos IoT transacionam toneladas de dados, a criptografia já é um aspecto óbvio destes dados porém, ainda é raramente usada, menos ainda se pensamos de ponta a ponta, isto é, do produtor ao consumidor de dados, e então neste aspecto a IoT é mais sombria.

Com os avanços na computação quântica, a criptografia poderá também não ser suficiente para proteger dados vitais, pois computadores quânticos podem descobrir as chaves criptográficas ainda mais rapidamente, e os algoritmos ainda que eficiente agora, não há dado totalmente seguros,  as chaves dos criptogramas com uso de computação quântica serão mais rapidamente abertas, e enquanto a maioria dos hackers não tem acesso a esse nível de computação podemos estar seguros, mas por quanto tempo ?

É preciso começar desde já a repensar dois assuntos, o tratamento de dados por BigData e as chaves criptográficas a prova de computação quântica antes que estes recursos estejam nas mãos dos hackers.

Privacidade de dados, muitas vezes vitais para determinados sistemas, estão e estarão em cheque cada vez mais.  

 

Esfera pública: transparência e utopia

20 Jun

O termo “esfera pública”, popularizado pelos conceitos desenvolvidos porTransparencia Jünger Habermas (1929- ), em especial no livro publicado em 1962, “Mudança estrutural da esfera pública”, que é uma tradução para a palavra alemã, Öffentlichkeit, substantivação do adjetivo öffentlich (público). “Publicidade”, que é usado de certa forma também como “tornar público” Publizität é por sua vez um termo empregado no sentido de tornar público certos debates judiciais.

O tema volta a ter atualidade não apenas pela situação do Brasil, mas o uso de “publicização” feitas tanto na campanha de Trump como de Marie Le Pen, além dos inúmeros e já incontáveis casos de denúncias de corrupção no Brasil e outros países da América Latina e do planeta.

A ideia geral de Habermas, grosso modo, é que a publicidade crítica é subvertida pela publicidade/propaganda, onde a opinião pública passa a ser objeto de manipulação tanto dos meios de comunicação de massa como por parte das políticas partidárias e administrativas, mas o termo não deve ser confundido com as dificuldades público/privadas do estado.

Posteriormente Habermas relativizou o termo, pois as experiências políticas e sociais que desmentiram uma total despolitização da esfera pública mostram também fatos curiosos como uma certa volta ao nacionalismo, e a questão da transparência pública é questionada.

O que fez que posteriormente Habermas desenvolvesse a ideia da ação comunicativa, consagrada no livro (em algumas edições como a inglesa em dois Volumes) “The theory of communicative action”, publicados em 1984, mas o que negligenciado que também ali foi necessário um reparo, colocando a questão da “nova intransparência”, onde ao mesmo tempo que admite o esgotamento utópico, vê um horizonte onde há alguma fusão entre o pensamento utópico e a consciência histórica.

Habermas cita os cenários utópicos da idade Média: “Thomas Morus e sua Utopia, Campanella com Cidade do Sol, Bacon com sua Nova Atlantis”, sua atualização nos tempos  modernos por “Robert Owen e Saint Simon, Fourier e Proudhon rejeitavam o utopismo violento”, e há uma atualização com “Ernst Bloch e Karl Mannheim” que na visão de Habermas “purificaram o o termo ´utopia’ “, mas negligencia a análise feita de Manheim por  Paul Ricoeur em cursos feitos na Universidade de Chicago em 1975, que depois virou livro: “A ideologia e a utopia”.

A análise de Ricoeur mostra que distorção ideológica se baseia no fato de considerar apenas a estrutura simbólica da vida social, em geral vista sobre a perspectiva da justificações e identificações de grupos sociais, embora necessária, não é suficiente para fazer projeções para o futuro, onde o uso de inovações e agentes sociais transformadores são necessários.

HABERMAS, J. A nova intransparência. In: Novos Estudos CEBRAP, nº 18, set. São Paulo: Ed. Brasileira de Ciências Ltda, 1987.

 

Entre o público e o privado: a transparência

19 Jun

O termo parece um slogan de propaganda político, e de fato pode ser, a ideia que tudoSociedadeTransp pode ser revelado e o controle de aparatos, principalmente presidenciais, sobre o que pode e deve ser divulgado pode ao contrário do que anunciam muitos, estar fortalecendo serviços feitos às sobras, o desaparecimento da privacidade, o colapso da confiança e aspectos cruciais para manter a democracia e o controle econômico.

O livro de Byung-Chul Han é uma denúncia que o ideal da transparência pode ser tão falso quanto as piores utopias e mitologias modernas: a desconfiança de todos e a falta de privacidade por uma “homogeneização” da interpretação dos fatos.

Qualquer pessoa com instrumentos adequados pode obter informação sobre praticamente qualquer assunto, desde que disponha de instrumentos e muitas vezes força econômica para fazê-lo, e isto já revela uma das possíveis manipulações.

Grupos poderosos, grupos perigosos e principalmente políticos mal-intencionados podem usar a informação disponível para fazer uso inadequado da informação disponível.

Depois de publicar A Sociedade da Transparência, A Sociedade do Cansaço e A Agonia de Eros do filósofo germano-coreano Byung-Chul Han entra em outra seara.

Sociedade da Transparência é uma tradução de Miguel Serras Pereira direta do texto alemão Transparenzgesellschaft, no original, de Byung-Chul Han. Em Portugal o livro foi publicado em Setembro de 2014, na colecção Antropos, da editora Relógio D’Água.

Byung-Chul Han denuncia neste livro: “A Sociedade da Transparência” (Editora Espelho d´Agua, 2014) é que a transparência total é um ideal falso, e segundo o autor a mais forte e perigosa das mitologias contemporâneas, revela sua ingenuidade e estranheza “quando chegou na Alemanha: De filosofia não sabia nada. Soube quem eram Husserl e Heidegger quando cheguei a Heidelberg” (HAN, 2014).

Critica o que chama de “transparência é desprovida de transcendência” (idem, p. 59): “A sociedade positiva evita toda a modalidade de jogo da negatividade, uma vez que esta detém a comunicação. O seu valor mede-se exclusivamente em termos de quantidade e de velocidade da troca de informação. A massa da comunicação aumenta também o seu valor econômico. Os vereditos negativos toldam a comunicação (HAN, 2014, p. 19).

Qual o remédio, há informações que devem permanecer privativas, mas quais ? quem as controlará ? eis as questões que devem ser respondidas.

Han, B.C. A Sociedade da Transparência. Lisboa: Relógio D’Água, 2014.

 

Escatologia em tempos de crise

16 Jun

Quando o império Romano dava sinais de decadência, muitas pessoas se desesperaramReinoDeDeus e diziam o fim está próximo, também no final da idade média, no período da peste negra os sentimentos eram iguais, toda cultura e todo processo civilizatório tem uma escatologia, quer dizer, o que aconteceu no seu fim, que não quer dizer necessariamente o “fim do mundo”.

Na escatologia cristã o Reino de Deus está próximo (Mt 3,2) e mesmo sua presença entre os homens (Mt 12,28) é uma escatologia dizem os teólogos e exegetas, do “já”e também do “ainda não”, já porque Jesus-Deus veio habitar entre os homens, ou seja entrou na história, mas não ainda porque é preciso que um conjunto de fatos históricos se desenrolem para que o homem tenha “vida plena”, que significa tão somente condições mínimas de dignidade.

O tempo presente é lugar dos homens, é preciso portanto consciência histórica, mas aquela romântica de Dilthey, já postamos isto, é romântica no sentido que apenas condições ideais e não factuais para que a consciência histórica nos impulsione a construir uma vida digna.

Na escatologia cristã, para aqueles que não atingem a profundidade dos acontecimentos históricos, o Reino de Deus vai crescendo sem que o homem saiba como (Mc 4,26-27), mas as contradições da vida cotidiana interpelam a ausência de profundidade, ou a consciência mais romântica que apesar de crê que os fatos “são vontade de Deus”, acrescento na história, não podem olhar numa lógica histórica porque creem “idealmente” deslocados de sentido.

Em face a lei judaica, Jesus agirmou a liberdade e o a dignidade humana (Mc 2,27: Mt 12,8-12; lc 11,37-42), em face ao sistema “religioso” ele afirma que todos são filhos de Deus (Mt 12,6; 12,12-13; 24,1-2) e inclui a TODOS (Mt 8,5-10, Mc 7,24-30), mas talvez o que todos devam ler em relação a política com mais atenção são os direitos de TODOS os homens (Jo 19,11); Lc 22,25-26; sem dúvida sem excluir os pobres, mas guarda a fraternidade em lugar sério em (Mt 6,9; Mc 14,37), e com questionamentos profundos (Mt 27,49; Mc 15,34).

É por isso que será condenado a morte, porque quer colocar o homem além das estruturas e sistemas puramente humanos, os detentores de poderes políticos e religiosos não podiam e não podem aceitar um não-poder que é feito por Amor, com Humildade e sem hipocrisia; quem quiser segui-lo tome sua cruz, mas terá o Reino dos Céus já aqui, mas não ainda.

 

Epistemologia e Ciência

30 Mai

De modo amplo e filosófico episteme é um conceito daquilo que é realEpisteme e verdadeiro, assim de caráter científico, que se opõe a opiniões insensatas e sem fundamento, vem da filosofia grega, e em especial do platonismo.

Para uma definição mais ou menos consensual, no campo científico,  epistemologia é o ramo da filosofia que estuda a origem, a estrutura, os métodos e a validade do conhecimento (daí também se designar por filosofia do conhecimento).

Não se pode deixar de vinculá-la com a metafísica, a lógica a psicologia

No entanto este conceito tem variado de formas, por exemplo, segundo Foucault (1926-1984) é um paradigma (portanto algo a ser investigado) segundo o qual se estruturam, em determinada época, os múltiplos saberes científicos, conforme especificidades de seus objetos.

Outra corrente metodológica importante que funda uma espectrologia moderna é a fenomenologia, ela dá importância aos fenômenos da consciência, os quais devem ser estudados em si mesmos – tudo que podemos saber do mundo resume-se a esses fenômenos, a esses objetos ideais que existem na mente, cada um designado por uma palavra que representa a sua essência, sua “significação”.

Um dos fundadores da fenomenologia é Edmund Husserl (19859-1938), filósofo, lógico e matemática, que cunhou a palavra Lebeswelt (lógica da vida), a partir da qual tentou conciliar o dualismo entre historicismo e psicologismo, embora ainda preso a conceitos metafísicos.

Pai da psicologia social, seu volume dos Prolegomena, ou “Investigações lógicas” é uma crítica ao psicologismo, ao afirmar que um sistema associativo pode associar e dissociar ao mesmo tempo, não se pode pensar que A é “A” e ao mesmo tempo pensar que A é “não A”, pois não se refere à possibilidade do pensar, mas à verdade daquilo que é pensado.

Fará também a crítica ao historicismo, em seu artigo “Filosofia como ciência rigorosa“, de 1910-11, tema que mais tarde será retomado por hans-Georg Gadamer em sua “A Questão da consciência histórica.”

 

O que é capacitar em sociedade ?

24 Mai

A reconstrução dos argumentos de Adam Smith, em sua “A Teoria dosCapacitar sentimentos morais”, os quais aplicava à economia, fez Amartya Sen (1988) desenvolver alguns aspectos críticos de quais seriam os princípios duradouros da teoria econômica convencional para criar uma teoria que poder-se-ia chamar de uma teoria econômica sustentável, que ao mesmo tempo que garante a liberdade não permite que alguns cidadãos permaneçam a margem do processo.

Essa visão fez Amartya Sen desenvolver o que é chamado de “abordagem das capacitações” (1880 com desenvolvimentos posteriores (1985, 1988a e 1988b) e com trabalhos correlatos como o de Martha Nussbaum (1986, 2009), colocando-a no centro da questão da distribuição de renda e também a valorização de pessoas sem nenhuma privação de liberdade.

O princípio que move um auto interesse é o descrito assim por Sen (1988, p. 11):  “O reforço das condições de vida deve ser claramente um objectivo essencial – se não o essencial – de todo o exercício econômico e que a valorização [da pessoa]  é parte integrante do conceito de desenvolvimento (abordagem das capacidades) .” (SEN, 1988a, p. 11).

Nesta perspectiva a busca do bem-estar social é meta privilegiada, única capaz de dar pleno sentido às escolhas sociais envolvidas nas estratégias de desenvolvimento, assim a chamada base na “abordagem das capacitações” (capabilities approach), colocado o desenvolvimento como tendo um conjunto de expansão das capacitações das pessoas para fazer aquilo que valorizam, sem eliminar as liberdades que permitam as escolhas e as oportunidades destas de exercerem atividades como agentes econômicos capacitados.

A ideia é que cada agente tem “atividades” (doings) e “existências” (beings), chamadas genericamente de “funcionamentos” (functionings), cada um com uma importância para a avaliação da natureza do desenvolvimento e a liberdade de escolha (SEN, 1988a).

A ideia de capacitação, apresentada no trabalho de Sen (1982 [1980]), é justamente um reflexo da liberdade para realizar funcionamentos que tenham valor, e neste sentido são também são características onde cada indivíduo na situação real tem de “ser” e de “fazer”.

Referências:

NUSSBAUM, Martha. A fragilidade da bondade: fortuna e ética na tragédia e na filosofia grega. São Paulo, Martins Fontes, 2009.

SEN, A. K. Equality of What ? In: SEN, A. K. Choice, Welfare and Measurement. Oxford: Basil Blackwell, 1982. ch. 16. 25, 1980.

____. Desenvolvimento como liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. (em inglês The Concept of Development. In: Handbook of Development Economics, vol. 1. Amsterdam: North Holland, 1988 (1988a). p. 10-26.)

____. On Ethics and Economics. Oxford: Basil Blackwell, 1988 (1988b).

 

A questão da justiça social

22 Mai

A corrosão em que se encontram a maioria das instituições ocidentais, mas tambémAIdeiaJustiça boa parte das orientais, é o fermento onde cresce o fanatismo político e o fundamentalismo, o que se vê é um grande número de candidatos oportunistas em eleições de países ditos “centrais”.

Em sua obra, Amartya Sen mostra que o pensamento sobre as instituições já é bem antigo, e as separa em duas grandes correntes de pensamento o “institucionalismo transcedental” (Hobbes, Rousseau, Kant e Rawls) e a “realização baseada na comparação” (Karl Marx, Jeremy Bentham, Mary Wollstonecraft e John Stuart Mill).

Conforme já postamos aqui em diversos tópicos, a base do pensamento idealista, o qual se supõe em transcendentais institucionalistas, infelizmente incluo boa parte do pensamento religioso contemporâneo, e como Sen enfatiza duas características são comuns: trata-se do foco numa sociedade perfeita e no olhar sobre perfeitas e justas instituições, neste sentido ideal, um ideal quase platônico e que supõe se não justas, o menor mal.

Outra eminente autora que faz incursões sobre a Teoria da Capacitação é Martha Nussbaum, que faz a seguinte diferenciação sobre a obra de Sen: “Amartya Sen está preocupado com comparações acerca do padrão de vida dos indivíduos, já ela estaria conectada ao debate sobre “como capacitações”, …, podem prover uma base para princípios constitucionais centrais, em que cidadãos tenham o direito de fazer exigências para seus governos”, assim pode-se observar que ela não se separa do institucionalismo idealista, embora seu trabalho se aproxime quanto a “capacitação” do trabalho de Sen.

Já o trabalho de Amartya Sen vem, a mais de 30 anos, esboçando o que é uma verdadeira Teoria da Justiça, num sentido bem amplo, tendo como objetivo clarificar o que podemos pensar em termos de superação das injustiças,                 ao invés de oferecer resoluções de como tratar de uma justiça perfeita”, conforme escreve Sen em um trabalho recente.

A abordagem que pretendemos, deve respeitar cada pessoa como uma finalidade e uma fonte de agência e valor em seu próprio direito, se é que podemos dizer assim, uma justiça ontológica.

Ora não por acaso o trabalho de Paul Ricoeur sobre o Justo (2008), inicia-se justamente com uma crítica a Rawls, embora em sentido diferente ao de Nussbaum e Amarthya Sem, ele também o define como

Ao defender a importância de proporcionar felicidade as pessoas, a sentença de Amarthya Sen na Teoria da Capacitação é mortal: ““Capacitação é um tipo de poder. Felicidade, não.”

NUSSBAUM, Martha.  Non-Relative Virtues: An Aristotelian Approach, 1990. In NUSSBAUM, Martha e SEN, Amartya (Eds.), The quality of life. Oxford: Clarendon Press, 1993.

Ricoeur, Paul. O justo 1: a justiça como regra moral e como instituição. BENEDETTI, Ivone G. [Trad.]. São Paulo: Martins Fontes, 2008, vol. I.

Sen, Amartya. A ideia de justiça. SP: Cia das Letras, 2011.

 

Existe então espírito da Verdade

19 Mai

No processo hermenêutico ele brota do diálogo e ação de pessoas que não EspiritoVerdadeapenas desejam a Verdade e a Justiça, mas são capazes de dialogia de acordo com a consciência histórica.

Teilhard Chardin estabeleceu em sua Noosfera como este processo de interação se dá dentro da Noosfera, uma esfera do espírito segundo a qual o conjunto dos vetores da Vida, Chardin era além de padre um paleontólogo, que já opera desde o início do Universo, mas dentro do qual um ramo da vida, que ele chama de “mancha dos antropoides” um ramo os organismos vivos que possui consciência e podemos dentro desta consciência determinar uma consciência histórica agora ampliada pela Noosfera de Chardin, como consciência histórica na flecha da evolução do universo.

Claro que este ponto “factual” histórico é preciso e determinado, mas se o vermos ao longo da história do universo e de uma cosmogonia mais ampla podemos entender que fazemos parte de uma gênese deste Universo e de uma escatologia da qual não podemos escapar, nossos espíritos estão conectados dentro de uma Noosfera na qual evoluímos ou a deterioramos.

Este Espírito na escatologia bíblica é descrito assim em João 14, 15-17: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos, e eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Defensor, para que permaneça sempre convosco: o Espírito da Verdade, que o mundo não é capaz de receber, porque não o vê nem o conhece.”

Longe de uma interpretação fundamentalista, que por si só jamais seria parte de uma verdadeira hermenêutica, a solidariedade com o conjunto da humanidade, a interpretação de seus caminhos num momento aparentemente confuso da história, é possível lançar luz sobre o pragmatismo utilitarista e idealista que vigora no pensamento contemporâneo, alguma luz que brota de uma Sabedoria Universal, onde a própria história dos seres vivos pode ser contata.

Um Espírito da Verdade, significa a clareza de princípios, valores e principalmente, de um comportamento sempre reto nas pequenas coisas do dia a dia, solidário e atento aos infelizes, respeitoso com os diferentes e generoso com os mais humildes; não há como se enganar, só tem consigo o Defensor aqueles que cooperam concretamente para o avanço da “flecha” da vida, num sentido construtivo e amplo, sempre aberto aos que são diferentes, sem fechamento epistêmico e com abertura hermeneutica.