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Arquivo para a ‘Etica da Informação’ Categoria

Ressentimento na pós-modernidade

14 Set

Falamos da Sociedade do cansaço, um dos sintomas da condição humana AFrançaRevolucionáriana pós-modernidade, que para nós não é um movimento, mas uma era, com vários aspectos de abordagem.

Outro comum de nosso tempo, é o ressentimento, acentuado pela guerra e pela luta política ideológica, que dá áreas de retornar de maneira quase tão violenta quanto foi num início do século passado, mas haveriam contornos novos, sim, um é o ressentimento.

Na literatura filosófica, Nietzsche é quase sempre lembrado, mas não foi o primeiro a abordar o tema na literatura alemã, Eugen Düring por exemplo já utilizara n´O valor da Vida, o que fez foi ampliar a análise do tema elevando ela ao problema psíquico e também o social, diria quase uma previsão de futuro da Europa, pois eram visíveis no seu tempo as fissuras entre nações no velho continente.

Para Nietszche, o ressentimento está ligado a outra categoria sua que é a vontade de poder operante sobre o Outro, afirma em Por que sou tão sábio: ”O pathos agressivo está ligado de forma tão necessária à força quanto os sentimentos de vingança e rancor à fraqueza.”

Psiquicamente o termo está ligado a reviver um sentimento ou sensação anteriormente experimentada, ainda mesmo que positiva, pode ser considerada boa ou agradável, via de regra tem um acento negativo, enquanto a “persistência de um sentimento suscitado por uma injúria, uma injustiça, acompanhado de um desejo de vingança”, conforme afirma o dicionário Quillet, em sua versão de 1970.

As mídias de redes sociais são um reflexo disto, um conjunto de sentimentos irrefletidos, única e quase que exclusivamente são disparados a um primeiro impulso, quase sempre com um script já conhecido (por isso irrefletido), tentam vender seu rancor e não apenas a indignação, por o indigno nos coloca todos no mesmo barco, na mesma utopia.

Na França Republicana revolucionária, foi necessário impedir que o banho de sangue cessasse, para que a democracia pudesse avançar e a nova sociedade ser construída (gravura acima de autor desconhecido).

Não embarcaremos num novo tempo, como ressalta o trabalho de Peter Sloterdijk “todos no mesmo barco”, se não superarmos os rancores sociais, próprios de um fim de época.

Será que Nietzsche abordou a questão do perdão? com absoluta certeza, no trabalho de Miguel Barrenechea: As dobras da memória, ele fala do perdão como sinal de força e saúde – especulações sobre a filosofia de Friedrich Nietzsche, publicado em 2009.

 

 

Quando ver é outra coisa que contemplar

08 Set

Há um mal estar naquilo que é sempre dizer SIM, os filhos não devem ser DizerNopTrepreendidos, mas o Estado tem o direito de direcionar a educação deles, os alunos não podem ser contrariados em sala de aula, a existência de uma “positividade” chegou ao absurdo de institucionalizá-la.

Este incomodo ao contrário do que parece leva o indivíduo em especial, e a sociedade como um todo diante de um fosso entre o que é realmente verdadeiro e o que é falso, já não é mais o relativismo, mas a positividade da “vida activa”, a ausência de qualquer vita contemplativa.

Mantemos a “vida activa” entre aspas, porque diferente da filosofia discutida aqui, há o conceito de “engagement”.

Mesmo em termos da Bíblia, aqueles que se recolhem em um grupo parecem ter alcançado de modo mais elevado esta positividade, no entanto, é contrário ao que ensina a Bíblia, Mateus18,15-16:

“Se o teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo,

mas em particular, à sós contigo!

Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão.

Se ele não te ouvir,

toma contigo mais uma ou duas pessoas,

para que toda a questão seja decidida

sob a palavra de duas ou três testemunhas.”

É preciso entender que isto refere-se a justiça, uma vez que testemunhas devem ser chamadas para dizer o que de fato está sendo corrigido, não é a moral maniqueísta e menos ainda aqueles assuntos, que são importantes, mas que ficam no âmbito da religiosidade.

É preciso, sobretudo separar o que é positivo do negativo fora do Maniqueismo, já o esclarecera no nosso post sobre o VER, onde o filósofo Chyul Han afirmara que: “capacitar o olho a uma atenção profunda e contemplativa, a um olhar demorado e lento.” (HAN, 2015, p. 51), o estar sujeito a estímulos sempre “positivos” na verdade nos frustra e não nos impele de fato para frente, para a “vita activa”.

 

Sociedade do Cansaço

30 Ago

O livro do coreano-alemão Byung-Chul Han “A Sociedade do Cansaço” analisa AsociedadeDoCansaçode modo mais profundo e menos individualista a questão mais profunda do ponto de vista ontológico do homem do final da modernidade: “Doenças neuronais como a depressão, transtorno de déficit de atenção com síndrome de hiperatividade (Tdah), transtorno de personalidade limítrofe (TPL) ou Síndrome de Burnout (SB) determinam a paisagem patológica do começo do século XXI” (HAN, 2017, p. 7).

A questão individual, do herói romântico de Dom Quixote que luta contra moinhos de vento, ou do determinismo histórico da questão da consciência em Dilthey, na verdade são traços do idealismo romântico, contornam o problema e tentam resolve-lo do ponto de vista apenas psicológico, sem considerar o social que é mais amplo.

A análise de Chul-Han vai neste sentido, dizer que  “o objeto de defesa imunológica é a estranheza como tal” (pag. 8), usando um conceito de Sloterdijk esclarece que o século passado foi uma época na qual se estabeleceu uma “divisão nítida entre o dentro e fora … a Guerra Fria seguia o esquema imunológico”.

Assim “mesmo que o estranho não tenha nenhuma intenção hostil, mesmo que ele não represente nenhum perigo, é eliminado em virtude de sua alteridade.” (pags. 8 e 9)

Explicará na página 10 que a “alteridade é a categoria fundamental da imunologia”, entra em cena a diferença que “não provoca nenhuma reação imunológica”, “o estranho cede lugar ao exótico”, o “tourist viaja para visitá-lo”.

O conceito é devido ao século XX onde a ideia de combater bactérias levou algumas pessoas ao extremo de considerar até mesmo os microrganismos necessários a  vida, como aqueles que também devem ser combatidos e não raramente encontrarmos alguém com este Toque.

Recupera o conceito de Immunitas de Roberto Esposito, considerando-a uma falsa hipótese, considerando o excesso de informação, esclarecendo aquilo que é comum ao combate de uma nova epidemia (pela imunologia): “a resistência contra o pedido de extradição de um chefe de Estado estrangeiro, acusado de violação dos direitos humanos, o reforço contra a imigração ilegal e as estratégias para neutralizar o ataque dos vírus de computador mais recentes?” (pagina 11), o autor dirá que nada as separa.

Dirá que “o paradigma imunológico não se coaduna com o processo de globalização … também a hibridização, que domina que domina não apenas o discurso teorético-cultural mas também o sentimento que se tem hoje em dia da vida, é diametralmente contrária precisamente à imunização.” (idem).

“A dialética da negatividade é o traço fundamental da imunidade.” (idem) e quantos discursos este traço nos lembra, aparentemente dentro de um “engagment” é na verdade vazio, pois é ausente de verdadeiras alternativas, é puramente imunológico por acusa o Outro.

Cita na página 15 Baudrillard que fala da “obesidade de todos sistemas atuais”, em época de superabundâncias, “o problema volta-se mais para a rejeição e expulsão” (idem).

Dá um diagnóstico certeiro, vale tanto para “sistemas disciplinares” (os pseudo-éticos) como para a lógica da produção: “o que causa a depressão do esgotamento não é o imperativo de obedecer apenas a si mesmo, mas a pressão de desempenho.” (pag. 27)

HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço, trad. Enio Paulo Giachini, 2ª. ed. Ampliada, RJ: Petrópolis, Vozes, 2917.

 

Pós-modernidade, uma volta ao início e a atual

09 Ago

O autor (Anthony Giddens) que estamos lendo, faz exatamente no capítulo da “confiança”Fiducia uma abordagem ao nihilismo fazendo uma crítica em bloco a Nietszche e Heidegger, com a qual não estamos de acordo, mas não deixa de ressaltar a importância de ambos, o primeiro por ter feito uma ruptura com o iluminismo, e o segundo (ainda que não diga diretamente) que a “nova perspectiva” (qual a do iluminismo??) superava a “tradição do dogma” (pg. 89).

Diz o autor que “o pós-modernismo tem sido associado não apenas com o fim da aceitação de fundamentos como o ´fim da história’” (pg. 60) o que é verdade, mas deve-se fazer uma breve distinção entre pós-modernidade e pos-modernismo, o primeiro é o fenômeno o qual desde de Nietszche é apontando, mas desenvolvido com Husserl, Heidegger e Gadamer, já o segundo é a ideia que a próprio fenômeno já seja uma nova etapa da humanidade.

Chama ao exercício de tentar aproximar a questão da consciência história (nome que considero mais correto para a historicidade, veja-se Verdade e Método de Gadamer) de “futurologia” e vai chamar de “desencaixe” esta ideia que após mapear o passado possa se pressupor “uma orientação futura deste tipo” (pag. 61), então retoma a “elucidação do pensamento moderno”, mas não deixa de fazer o discurso convencional; “este processo como um processo de globalização, um termo que deve ter uma posição-chave no léxico das ciências sociais” (p. 62), o que não deixa de ser um discurso que faz um “desencaixe” com a tradição, para usar o argumento do próprio autor, deve-se rever o iluminismo sem apelar para ele.

O discurso e aqui encontramos contradições no seu modelo de confiança, a “apropriação reflexiva do conhecimento” que tenta negar o progresso do período iluminista ao afirmar: “deslocado a vida social da fixidez da tradição”, o que chama de “fixas simbólicas e sistemas perigos” que de fato envolvem confiança é colocado num modelo sistêmico, pois a vê como distintas do modelo de “crença baseada em conhecimento indutivo fraco”, o também é uma crença, o problema é justamente coloca-la em diálogo com a tradição para emergir o novo.

Vê o conhecimento com um “poder diferencial” com alguns indivíduos ou grupos mais aptos para adquiri-los, mas o processo de mundialização do conhecimento não é o inverso ?

Estamos de acordo com o poder dos valores e o impacto das consequências não pretendidas, conforme seu conceito que “à vida social transcende as intenções daqueles que o aplicam para fins transformativos”, não seria justamente isto a questão da consciência histórica ?

Sua hermenêutica dupla, que a vê como “a circulação do conhecimento social” que deve ser aplicado “reflexivamente” alteraria as circunstâncias originais, é puro romantismo.

Vai fazer alusões ao sua categoria-chave que é a globalização, com alguns enfoques diferentes de outros autores, mas dentro da visão fechado dos que seguem o modelo de sistema, não por acaso começa com considerações sobre McLuhann.

sem considerar o paradoxo do neo-positivista Kurt Gödel que afirmava que o sistema já tem suas contradições internas e só pode ser provado como verdadeiro por uma asserção externa, no caso da pós-modernidade que já é a externa, devemos dialogar com a tradição para que seus conceitos-chave: liberalismo, capitalismo, estado, lógica, legalidade, entre muitos outros, sejam feitos não apenas em uma dupla hermenêutica, mas numa hermenêutica aberta onde os pré-conceitos de qualquer hermenêutica “fechada” possa ser superada.

 

Confiança o que é ?

08 Ago

Conforme dissemos o tema da confiança é um tema recorrente na pós-modernidade, Confiançamas o que de fato ela significa, porque exatamente este tema entrou neste  tempo de mudanças?

As respostas de Giddens (1991) são muito relevantes e trazem boas reflexões, a partir da página até a página 65 que lemos em duas etapas, primeiro 9 questões da confiança:

1 – Ela está relacionada a uma ausência no tempo e no espaço, embora alguns autores deem preferencia ao tempo (O ser e o tempo, por exemplo) e outros ao espaço (os movimentos ocupa-se e os pensamentos do “engagement”).  Esclarece: não haveria necessidade de se confiar em alguém se suas atitudes e seus processos de pensamentos fossem visíveis.

2 – A confiança está “basicamente vinculada” à contingência e não ao risco como pode-se supor, ou seja, deve-se dar credibilidade em face de resultados contingentes, seja em relação a ação de indivíduos ou de sistemas.

3 – A confiança é diferente da fé em uma pessoa ou sistema, ela é o que deriva desta fé, assim tem pouca fé quem pouco confia, é o elo entre fé e crença, conforme Giddens, é isto que a distingue do “conhecimento indutivo fraco”, pois em certo sentido ela deve ser “cega”.

4 – O autor fala em confiança em fichas simbólicas ou sistemas peritos, mas claro que isto não se baseia na fé, pode ser de uma certa fé em sistemas, mas “diz respeito antes ao funcionamento apropriado do que à sua operação enquanto tal”, aqui enganam-se muitos.

6 – Na modernidade, a confiança existem em contextos: a) consciência geral da atividade humana, b) escopo transformativo amplamente aumentado da ação humana, pelas instituições modernas, Mas o conceito de risco substitui o de fortuna, mas não quer dizer que os pré-modernos não tinham noção de risco ou perigo, apenas que as causas naturais e o acaso substituíram as cosmologias religiosas, leia por exemplo “Acaso e caos” de David Ruelle, embora noutro contexto.

7 – Risco e perigo estão intimamente ligados, mas não são o mesmo, o risco pressupõe o perigo, mas o perigo é um risco mal calculado e inconsequente.

8 – Risco e confiança se entrelaçam, a confiança serve para reduzir ou minimizar os perigos.

9 – O risco não é uma questão individual, existem “ambientes de risco” e a tradição ou o termo que prefiro usar “a cultura originária” é um modo de integrar e monitorar a ação espaço-temporal de uma comunidade.

Não pulei a quinta não, apenas foi para ressaltar é possível como diz o autor, neste ponto “uma definição” que é a “crença na credibilidade” de uma certa pessoa ou sistema, tendo em vista “o conjunto dos de resultados e eventos”, claro isto é envolto de “amor” ou “princípios”.

Aqui entendemos porque é pós-moderno, pois isto deve pressupor valores e voltaremos a isto.

 

Pós-modernidade e confiança

07 Ago

O livro de Anthony Giddens que se refere Às consequências Modernidade analisepós-modernismoPt que o  “estilo, costume de vida ou organização social que emergiram na Europa a partir do século XVII e que ulteriormente se tornaram mais ou menos mundiais em sua influencia” (Giddens, 1991, p. 17-20) aprofunda o tema sobre a (in)existência de uma  “pós-modernidade” que não tem a menor importância, pois é apenas uma questão terminológica, já que sabemos que a modernidade passou, e que hoje não basta inventar novos termos para a compreensão dos fenômenos sociais, mas dizer o que de fato é a própria natureza da Modernidade.

Entre os diversos tópicos abordados ali um é assunto recorrente em minhas leituras, que é o o ritmo da mudança da era da Modernidade e o escopo da mudança, pois já algumas das transformações sociais penetram virtualmente no mundo todo e com isto a natureza intrínseca das grandes instituições modernas, sem nenhuma correspondência em períodos históricos anteriores, já acontecem como por exemplo “o sistema político do Estado-nação, a dependência por atacado da produção de fontes de energia inanimadas, ou a completa transformação em mercadoria de produtos e trabalho assalariado”, uma vez que idealistas como Hegel pretenderam que estas instituições fossem “eternas”.

Um segundo relevante é a relação com o conhecimento, para ele “o conhecimento sociológico espirala dentro e fora do universo da vida social, reconstituindo tanto este universo, como a si mesmo como uma parte integral deste processo” (Giddens, 1991, p. 24) como quer o cientificismo moderno, mas parece também estar em cheque.

O terceiro tema particularmente importante, é o tema da confiança, já tratado em autores como Nicklas Luhmann e Talcot Parsons , afirma Giddens citando a definição de confiança feita pelo Oxford English Dictionary, que esta seria compreendida como “crença ou crédito em alguma qualidade ou atributo de uma pessoa ou coisa, ou a verdade de uma afirmação” (GIDDENS, 1991, p. 38).

Giddens adverte a mudança deste tema para o de sistemas, como no caso de Luhmann, onde:

“Um dos significados disto, numa situação em que muitos aspectos da Modernidade tornaram-se globalizados, é que ninguém pode optar por sair completamente dos sistemas abstratos envolvidos nas instituições modernas. Este é mais obviamente o caso de fenômenos tais como o risco de guerra nuclear ou de catástrofe ecológica.” (GIDDENS, 1991, P. 88).

Tanto a ideia crença como a de crédito , para o autor, estão vinculadas de algum modo à ideia de fé.

O próprio Giddens esclarece que Luhmann distingue fé e confiança, ressaltando que esta deve ser compreendida especialmente em relação ao risco, um termo originado a partir da época moderna.

Sem concluir o que entende-se por confiança ainda, pós-modernidade refere-se, na visão de Giddens ao processo em que: “todos os fundamentos preexistentes da epistemologia se revelam sem credibilidade; que a história é destituída de teleologia e consequentemente nenhuma versão de progresso pode ser plausivelmente defendida; e que uma nova agenda social e política surgiu … “ (GIDDENS, 1991, P. 36)

GIDDENS, Anthony. As conseqüências da Modernidade. Tradução de Raul Fiker. São Paulo: Unesp, 1991.

 

O que falta  na 4ª. Revolução industrial

31 Jul

Li o livro do criador do Fórum Mundial de Economia, Klaus Schwab, é impressionante o cenário que descreve, passando pelo mundo digital chama o sistema de contabilidade de dinheiro digital, o blockc4thRevolutionhain, de “livro-caixa distribuído” (mal traduzido como  livro-razão), afirmando que “cria confiança, permitindo que pessoas que não conheçam (e, portanto, não têm nenhuma base subjacente de confiança), colaborem sem ter de passar por uma autoridade central neutra – ou seja, um depositário ou livro contábil central.” (Schwab, 2016, p. 27), indo da categoria física ao mundo biológico, mas talvez falte algo: uma “alma” para isto tudo.

Os céticos e fundamentalistas vão continuar a bradar: injusto! poder da tecnociência ! uma autêntica desumanização ! sim pode ser, mas simplesmente protestar ou torcer o nariz não vai fazer o avanço rápido e vertiginoso da tecnologia recuar, nem mesmo o apelo ecológico, mais tecnologia é muitas vezes mais ecologia, vejam os LEDs, a energia solar e o controle agora possível por dispositivos sensores em plantas, florestas e até mesmo micro-organismos.

Talvez um problema que mereça questionamento sério é a desigualdade, mas Schwab não fugiu do assunto, ao explicar nas páginas 94 e 95 a emergência de” ecossistemas orientados para a inovação, oferecendo novas ideias, modelos de negócios, produtos e ser viços, e não aquelas pessoas que podem apenas oferecer trabalho menos qualificados ou capital comum” (Schwab, 2016, p. 94), e conclui “o mundo atual é muito desigual” (p. 95).

O fenômeno da desigualdade é sem dúvida o mais preocupante, mesmo em países que pode- se pensar menos desiguais, o índice Gini por exemplo na China, aponta o autor, subiu de 30 na década de 1980 para 45 em 2010.

Aponta mais ainda que os níveis de desigualdade: “aumentam a segregação e reduzem os resultados educacionais de crianças e jovens adultos.” (idem, p. 95), isto mudou por exemplo o padrão da chamada “classe média”, que nos EUA e Reino Unido tem o preço de “um bem de luxo”, afirma o autor.

Ao contrário do que se possa pensar, o Global Risks Report do Fórum Mundial de 2016, fala de “des-empoderamento” do cidadão, embora haja campanhas como “get-out-the-vote” (sai para votar), já que em muitos países o voto não é obrigatório, mas os conteúdos que nós consumimos online são miseráveis, carecem de verdade e de fatos, e eles influenciam.

Não falta ao autor os conceitos de identidade, moralidade e ética, expressos no capítulo da página 100, fala da OpenAI, iniciativa presidida por Sam Altman, presidente da Y Cominator e Elon Musk e CEO da revolucionária Tesla Motors, que acredita que a melhor maneira de desenvolver a AI é torna-la gratuita para todos e fazer que ela seja emponderada  para melhorar os seres humanos, mas seu programa é abstrato e pouco realístico, ainda que o apresente no quadro H o limite ético.

È preciso descobrir nas fissuras do avanço tecnológico aspectos de desenvolvimento da sensibilidade humana, do apreço pelo Outro, onde ambientes colaborativos e de coworking favorecem isto, mas o que se ouve é ainda uma gritaria fundamentalista contra a tecnologia.

 

Nossa ética e moral  originárias

21 Jul

A ética contemporânea passou por transformações, porém sua origem está nojoio e trigo período clássico tanto de Platão como Aristóteles a desenvolveram, salientamos que é importante análise a República de Platão assim como a Política de Aristóteles considerando a ética do “ser”, ou seja, a ética ontológica e a partir dela a política como promotora da justiça.

Escreveu Aristóteles no livro V DE sua Ética a Nicômaco : “Com vistas a justiça e injustiça, devemos indagar quais são as espécies de ações com as quais elas se relacionam, que espécie de meio termo é a justiça, e entre que extremos o ato justo é o meio termo …. “ (Aristóteles, 2001, p. 9)

Aristóteles esclarece que justiça e injustiça podem ser termos ambíguos devido a proximidade dos termos, mas como “a ambiguidade não é notada, enquanto no caso de coisas muito diferentes designadas por uma expressão comum, a ambiguidade é comparativamente óbvia …” (Aristóteles, 2001, p. 91.

O fato que diversos autores tratam como ambivalência e pouco percebem que há também uma ambiguidade, significa que percebem o problema de valores enquanto não percebem a aplicação diferente dos mesmos, afirmou Aristóteles: “o termo ´injusto´ se aplica tanto as pessoas que infringem a lei quanto as pessoas ambiciosas (no sentido que quererem mais do que aquilo que têm direito) e iníquas, de tal forma que as cumpridoras da lei e as pessoas corretas serão justas. O justo, então, é aquilo que é conforme a lei e correto, o injusto é o ilegal e iníquo” (Aristóteles, 2001, p. 91-92) .

Assim em Aristóteles, diferentemente que para o homem moderno, o ilegal e iníquo, o ético e o moral se aproximam, então não há ambiguidade nem ambivalência sobre o que fazem.

Na Modernidade como o Ética é estabelecido por uma ética de Estado, o contrato estabelecido desde o Leviatã de Hobbes até o Contrato Social de Rousseau o que se estabeleceu foi uma forma social para o que é legal, confinando no privado e pessoal o que seria o iníquo, curiosamente e sabiamente a Bíblia Sagrada sempre irá se referir ao iníquo, aquele cujas atitudes pessoas não são ética nem morais.

A parábola do Joio e do Trigo, o joio é o que nasce no meio do trigo mas não produzem os grãos de trigo, e só se pode separar depois da colheita, assim é a iniquidade, são grãos individuais de injustiça e de falta de ética, independentemente das leis do Estado e dos contratos que sendo justos ou não, irão crescer e conviver junto na sociedade, mas produzem colheitas diferentes.

Não se trata assim de uma interpretação meramente moralista ou fundamentalista, o que é ético produz frutos de equidade que são os grãos individuais, como estes grãos são pessoas, podem exercer seu livre arbítrio para produzirem grãos de trigo que sejam proveitosos.

 

ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco. Tradução do grego, introdução e notas Mário de Gama Kury, 4ª. ed. Brasilia: Editora Universidade de Brasilia, 2001.

 

 

A dimensão do eu-tu de Buber

12 Jul

As ideias de Martin Buber contribuem para a integração de uma concepçãoIandYou filosófica do ser humano a uma atitude diante deste.

Em sua obra, Buber trata do homem no mundo, de suas múltiplas possibilidades de existir, dependendo de como se coloca.

As palavras-princípio eu-tu e eu-isso assinalam modos de ser do homem, formas de responder à realidade, que sempre solicita um posicionamento.

O eu que se abre para um tu não é como o eu que se relaciona com um isso, ou seja, a forma de relacionamento estabelecida fundamenta o modo de ser. Por isso, a relação produz diferentes possibilidades de a pessoa estar no mundo.

Eu-tu e eu-isso são parte do movimento humano, sendo inseparáveis, alternando-se constantemente a cada relacionamento (Buber, 1923/2001). Na atitude eu-tu, a pessoa entra em relação, deixa-se impactar, deixa-se atravessar pela presença viva do outro, seja este outro uma pessoa, uma situação, uma obra ou um ente qualquer. Há nesse instante uma dimensão intensiva, não mensurável ou redutível à temporalidade, espacialidade e questões objetivas. O mundo do tu não tem coerência no espaço e tempo: é um campo de forças, de presença, de vitalidade. Não pode ser apreendido ou aprisionado em representações: sempre escapa. Não se reduz à percepção: é intenso, vivo, pulsante. Sempre ressurge diferentemente, em contínua transformação. A atitude eu-isso, por sua vez, leva ao experiencial de forma objetiva as situações.

O mundo do isso ou da objetividade ordena o real, transformando-o em habitável e reconhecível.

Para Buber (1923/2001), a melancolia do destino humano é que o tu se torna, irremediavelmente, um isso, o que é necessário para a compreensão do processo vivido.

Não se consegue manter sempre a atitude eu-tu, pois o homem é incapaz de habitar permanentemente no encontro, a existência é pautada pela alternância entre as atitudes eu-tu, eu-isso e seus desdobramentos.

Na perspectiva buberiana, a experiência implica um distanciamento reflexivo, situando-se no âmbito do isso, enquanto a relação está no âmbito do tu. A relação é vivência, não experiência. Ao encontrar alguém no modo eu-tu, a consequente perda do espaço, do tempo e a desestabilização do eu possibilitam contemplação, novas sensações, atravessamentos.

A relação eu-isso, ao contrário, situa a pessoa no mundo dos objetos, ordenando e sendo extremamente necessária para a elaboração e a produção de significados, desde que não se torne a forma predominante de relação com o mundo.

Para Merleau-Ponty (1945/1999), ao perceber o outro apenas como um isso, objetificando-o, há um afastamento da sua presença viva, o objeto é só outro Ser, uma representação,  mas o que é o mundo e o outro como “representação” ?

 

A ética e a moral sem esforço

07 Jul

Estabelece-las como regras, imposições e todo o esforço idealista para estabelece-laEticaSimples como “regra de estado”, que faz parte do cotidiano e por isso julgamos correta, não condizem com aquilo que de fato gostaríamos que fosse a nossa vida do dia-a-dia inundada por escândalos pessoais e coletivos.

Porque muitas vezes pessoas simples conseguem conduzir sua vida de modo mais correto do que pessoas doutas e elaboradas: juízes, promotores, políticos e até mesmo gente com alta titulação universitária ? a razão é que esqueceram a elaboração mais comum e simples destes valores:

Assim são valores éticos, aqueles que elaborados dentro de uma certa estrutura social, infelizmente a nossa é complexa e sem princípios claros, deveriam conduzir o nosso modo de agir social a um consenso, onde o conjunto das morais individuais poderiam auxiliar a atitude social de cada pessoa.

Por outro lado, a moral refere-se aqueles valores que adquiridos em família, e depois em sociedade ao longo da vida, nos faz discernir entre o certo e o errado.

Ambos se referem ao certo e errado, um de acordo com as regras sociais estabelecidas ou não, que é o que nos dá uma “ética” e outro que a partir de valores que deveriam ser dados em família, são mais tarde guias para nossas consciências em determinadas atitudes que devemos adotar perante o Outro.

O fato que em última instância será o Estado e não a família, o grupo social e a relação com o Outro que devem estabelecer estes limites entre o certo e o errado, o que seria então os moldes para uma cultura coletiva vigente, fez como que a “autoconsciência” proclamada por Hegel e por juristas entrasse num processo confuso.

Em uma cultura em crise, com desconfianças cada mais profundas nas ações do Estado, e com a falsificação de uma educação para uma “mínima moral” cada vez mais vacilante, o caldo da crise cultural que se vive engrossou,  e temos dificuldade com as noções mais simples.

Vale a leitura bíblica que afirma que “revelastes aos pequeninos e as escondestes dos sábios e doutores” (Mt 11, 25), claro não é regra geral, mas aquela sabedoria velha e “arcaica” de nossos pais e avós parecem resolver questões nas quais sábios e doutores se enrolam a ponto de não encontrarem mais a saída.