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Arquivo para a ‘Etica da Informação’ Categoria

Fake news com dias contados

12 Fev

Noticias falsas, e também maliciosas ou tendenciosas são antigas, já citamos as denúncias que fazia Karl Kraus nos 20, também noticias de que a atriz Rita Hayworth (nome artístico de Margarita Carmen Cansino, famosa nos anos 50 e 60), que teria vivido mais dois anos, ou a propaganda enganosa que a Nike estaria dando camisas da seleção brasileira.
Agora há um software desenvolvido pela empresa de pesquisa Fraunhoffer-Gesellschaft, na Alemanha que desenvolveu um sistema que analisa automaticamente post das midias sociais e filtra falsas notícias e desinformação, podemos prever um futuro promissor.
É bom ressaltar que isto foi graças as novas tecnologias, a ferramenta faz um aprendizado por máquina (machine learning) que filtra as notícias e através de aprendizagem (no sentido de algoritmos por maquina) analisa conte+udos e metadados, verificando a interação do usuário e otimiza resultados em tempo real.
A ferramenta verifica ainda a quantidade de dados (processos de viralização), com gráficos de dados de envio, frequência e redes de seguidores.
Ulrich Schade, conforme o site da Fraunhofer, afirmou: “Nosso software pode ser personalizado e treinado para atender às necessidades de qualquer cliente. Nosso software pode ser personalizado e treinado para atender às necessidades de qualquer cliente. Para órgãos públicos, pode ser um sistema de alerta precoce útil”. 
Os metadados são usados como marcadores, e permitem assim uma marcação do posto com fake, ou seja, ele desempenha um papel crucial na diferenciação entre fontes autênticas de informação e notícias falsas.
Assim se um site com uma certa frequência de postagens é feita, qual e com que frequência um tweet é agendado e a que horas? O tempo de um post pode ser muito revelador, assim como a frequência do tweet e os seguidores.
Deve-se revelar também o país e o fuso horário do originador das notícias para sua correta identificação e localização, por isso as horas são essenciais.
Uma alta frequência de envio sugere bots, o que aumenta a probabilidade de uma notícia falsa, pode ser facilmente detectada e pode sinalizar um fake.
Os bots sociais em geral enviam seus links para um grande número de usuários, e isto é um exemplo, de como espalhar a incerteza entre o público, portanto nunca repasse.
As conexões e os seguidores da conta também podem ser um terreno fértil para os analistas, embora pessoas bem-intencionadas usem isto, a chance de ser um fake é grande, e agora uma ferramenta pode detectar isto, os dias do fake estão contado

 

A hermenêutica e a confiança

01 Fev

O fato que parece imprópria a ideia de pré-conceitos e principalmente de pré-concepções religiosas, culturais e principalmente científicas, são delas que a hermenêutica trata como a compreensão (verstehen) é que mesmo em círculos familiares e fechados elas estão presentes.
Embora, para exercício didático, coloque-se a hermenêutica fora dos ambientes fechados, ou nas bolhas de Peter Sloterdijk (Esferas I), também estes círculos explodem em conflitos e intolerâncias, mas devido não aos aspectos científicos e metodológicos, mas a questão da confiança, não há um autor com tratamento rigoroso para este caso, mas há o fenômeno.
Publicada em além de 2000 a 2004, a trilogia de Sloterdijk: Bolhas, Globos e Espumas, já com tradução em espanhol e inglês, tem em português apenas o primeiro volume, que saiu em 2017, feito pelo tradutor José Oscar de Almeida Marques para a editora Estação Liberdade.
O conceito analisado esta semana ser-aí, conceito heideggeriano central nesta trilogia e que evoca a presença no mundo como condição necessária à existência, pode ser transformado na leitura de Sloterdijk em ser-juntos, é o nosso parecer que esta coexistência precedendo a existência permite uma abordagem (não feita pelo autor) da questão da confiança.
A confiança existe em círculos próprios pela partilha da vida, a coexistência e a convivialidade, então é justamente pela deterioração destes dois aspectos que a confiança cai e estabelece-se mesmo em ambientes próximos alguma hostilidade.
A moda é culpar as novas mídias, mas isto é tão antigo que já na Bíblia se encontra a ideia que “um profeta só não é aceito na sua terra” (Marcos 6, 1-6), ou seja, o problema da confiança é mais grave nos círculos fechados do que nos círculos abertos, assim a hermenêutica parece razoável ao propor a abertura epistêmica da verdade, mas isto pode ser problemática para a confiança dos mais próximos.
A pergunta filosófica é quando uma verdade em círculos “fechados” pode ser verdade, a nossa resposta é a confiança interna de seus convivas (não pode significar fechamento) e a abertura ao mundo exterior, na leitura bíblica é curioso observar que logo em seguida os apóstolos são enviados “dois em dois” em Marcos 6:7 está escrito: “Chamando os Doze para junto de si, enviou-os de dois em dois e deu-lhes autoridade sobre os espíritos imundos”, cuidado a interpretação de imundos, pode ser vista como outras “visões de mundo” e não como sujos.

 

A verdade em tempos de crise

31 Jan

A nova consciência hermenêutica, que procura estabelecer diálogos entre pré-conceitos, tornou o homem ora mais vulnerável a uma crise do pensamento, ora mais ortodoxo e rígido predisposto a intolerância, a uma verdade da “Monarquia do Medo” como define Martha Nussbaum em seu novo livro, favorável ao fechamento nas ditaduras e extremos atuais.
Mas o que é esta nova consciência ? define-a Hans Georg Gadamer assim: “consciência hermenêutica, que deve ser despertada e mantida desperta, reconhece que, na era da filosofia da ciência, a reivindicação de superioridade tem algo de quimérico e irreal sobre ela.” (GADAMER,  1997)
E acrescenta: “Mas embora a vontade do homem esteja mais do que nunca intensificando sua crítica do que fazia antes, a ponto de se tornar uma consciência utópica ou escatológica, a consciência hermenêutica procura confrontar essa vontade com algo da verdade da recordação: com o que ainda é e nunca mais real.” (Gadamer, 1997), ou seja, uma a-lethe (a Aleteia dos gregos), ou o não esquecimento (ou conhecimento da história).
O foco da subjetividade em oposição a objetividade é a verdadeira janela escura (Black Mirror fala apenas da cultura digital que tem apenas 30 anos), veja o que diz o hermeneuta: “O foco da subjetividade é um espelho distorcido. A autoconsciência do Indivíduo é apenas uma oscilação no circuito fechado da vida histórica“ (Gadamer, 1997), lembrando que autoconsciência é o grande construto hegeliano em substituição à consciência histórica.
O que acontece com a cilada história que nos metemos é além da crise do pensamento idealista e científico, os métodos neopositivistas estão ai, é fato que não conseguimos refletir de modo sobre a vida prático para a qual a má teoria se reivindica, a ausência da phronesis.
Para Gadamer, a Phronesis, ou sabedoria prática, emergente entre o ethos e o logos, diria indo mais além uma ontoética que admite a ontologia no Ser coletivo e no terceiro excluído entre o eu e o nós.
Afirma Gadamer sobre esta ontoética: “O entendimento não ocorre quando tentamos interceptar o que alguém quer nos dizer alegando que já o sabemos” (Gadamer, 1997), isto ocorre quando estabelecidos os pré-conceitos somos capazes de abertura a um verdadeiro epoché, que nos leva a uma fusão de horizontes e reorganiza o discurso.
Isto é muito difícil hoje, mas não impossível, se houver um mínimo de confiança entre dois discursos, mas a ciência positiva, o dogmatismo, o fundamentalismo e outros ismos não admitem isto, estão entrincheirados em sua “autoconsciência” que arrogam prática (apenas empíricas em geral) ou coletivas (círculos fechados muitos vezes).

GADAMER, H.G. Verdade e Método. tradução de Flávio Paulo Meurer. – Petrópolis, RJ: Vozes, 1997. (pdf)

 

Verdade e diálogo

30 Jan

A falência dialógica e o crescimento da polarização política em nosso tempo, que tem como vítima a própria democracia, vem da ausência de pensamento hermenêutico que é essencialmente dialógico e paradigmático (no sentido de encontrar a fusão de horizontes) e um beco sem saída para os discursos ortodoxos.
A fenomenologia traz desde o princípio a questão de fazer um vazio para ouvir o Outro, o que os gregos chamam de epoché, ou a suspensão dos juízos sobre as coisas, o que pode parecer parecido com o cogito cartesiano, mas não o é, Husserl esclareceu isto em meditações cartesianas, que já fizemos alguns posts aqui.
O epoché é a chamada redução fenomenologia, é olhar uma coisa mudando os óculos (figurativamente é claro) para enxergar a essência das coisas, algo difícil nos dias de hoje, onde a aceleração dos juízos e dos pré-conceitos não permitem uma meditação, contemplação ou relação dialógica verdadeira, o que se chamou no post anterior de verstehen.
Uma vez que o diálogo depende de um círculo hermenêutico que envolve a relação com os nossos pré-conceitos, visto como positivo aqui é importante isto, significa que devemos fazer calar os nossos pré-juízos sobre as coisas que serão ditas e nunca optar pelo: isto não !!!
O problema central da filosofia racional-idealista da modernidade é que separou sujeito de objeto e isto foi para o dia-a-dia da cultura religiosa a mais alta filosofia acadêmica, as “coisas” são “impuras” e no entendo o mundo da vida (lebenswelt de Husserl), a visão de mundo (o que Heidegger chamou de weltanschauung) significam retornar as “coisas” como elas são.
O próprio conhecimento não é outra coisa que esta relação interprete-coisa: “O conhecimento, ou seja, o ato de eu dar ao mundo um caráter inteligível, se dá, portanto no encontro entre a consciência e as coisas” afirmou Husserl, explicando o que é ir a “coisa” mesma.
Ora nossos conflitos envolvem não apenas as relações humanas, como como elas se dão na relação com as coisas: o dinheiro, a saúde, o trabalho, os alimentos, a própria natureza (incluindo a nossa própria), a comunicação (que não nasceu no mundo digital), enfim quase tudo envolve a relação com a coisa e nossa consciência disto.
O diálogo, considerando os pré-conceitos, com a possibilidade de fusão de horizontes (que não é necessariamente o consenso), é fundamental em tempos de crise e de pré-conceitos.

 

A verdade tem um método ?

29 Jan

O objetivo de Gadamer em sua obra Verdade e Método (Gadamer, 1997) era de recriar o conceito de compreensão (Verstehen), que significava entender o conhecimento como o que tem como um atributo da experiência de mundo do ser humano, compatível a visão de mundo de Heidegger e que fez a partir de dois pressupostos, parte o conceito de Lebenswelt (mundo da vida) de Husserl, e a crítica da separação idealista que dividia o sujeito cognoscente, sendo que este já é objeto no mundo; daquilo que é o objeto de conhecimento.
Na sua definição de fenomenologia como hermenêutica através da retomada do sentido do ser no Dasein, que ficou conhecida sob o nome de hermenêutica da facticidade.
As ciências naturais, entendo-as como as matemáticas, físicas e químicas, faço restrição as zoológicas e biológicas, podem ser explicadas enquanto esclarecimento (já era o termo do iluminismo) ou entendimento, por causa de sua natureza lógica, o termo em alemão é erklären, enquanto a sociologia e a histórica passam pelo entendimento (verstehen) introduzido na filosofia pelo historiador filósofo alemão Johann Gustav Droysen (1808-1884), e adotado por Hans-Georg Gadamer.
Mas este termo é uma visão ampliada de entendimento uma vez que inclui o Outro, pois também está contido nele os sentidos de empatia e diálogo, é, portanto, uma ampliação do conceito de Heidegger de Weltanschauung, composto de Welt (‘mundo’) e Anschauung (visão, contemplação, ponto de vista ou convicção), de Cosmovisão ou visão de mundo.
O método então proposto por Gadamer é a explicitação do círculo hermenêutico já proposto em Heidegger, mas agora com a superação da historicidade idealista de Dilthey e a incorporação do Outro (verstehen) no mundo da compreensão.
Podemos dizer que admitindo a visão de mundo do Outro é possível um círculo hermenêutico que nos conduza a verdade, o problema do idealismo contemporâneo é que o Outro seguirá o conceito de Autoridade, as referências lógico-dedutivas que incorporam determinados dogmas ou círculos dogmáticos sem incluir o Outro.
Porém é preciso distinguir que entre dois discursos sem facticidade hermenêutica há conflito.

GADAMER, H.G. Verdade e Método. tradução de Flávio Paulo Meurer. – Petrópolis, RJ: Vozes, 1997. (pdf)

 

Sem noção e meias verdades

28 Jan

O fato que tudo possa ser mera “opinião” é que cria e desenvolve o sem-noção, termo popular para falar da doxa, o que era mera opinião sem um conhecimento organizado que fundamente e torne séria determinada opinião sobre assuntos, o que é chamado episteme na antiguidade clássica.
O fato que a verdade quase sempre permanece encoberta é que estamos em busca da re-velação, embora a use também, se atentarmos para o termo significa velar de novo, e não des-velar, tirar o véu, a antiguidade clássica também tinha um nome para isto: a-letheia (lethe, “esquecimento”), a como negação significa: não esquecer.
Revelação está mais próximo do que Aristóteles chamou de endoxa (ἔνδοξα), ao contrário de Platão que considerava a doxa mera opinião, Aristóteles a revaloriza entendendo que muitas das crenças e opiniões populares pode vir de consenso de sabedorias antigas, como diz no meio popular, nossos pais “sabiam das coisas”.
Pode-se encontrar na obra Tópicos traduzida do grego por Jacques Brunschwig (1967), uma definição direta de Aristóteles:
“Endoxa, por outro lado, são aquelas [opiniões] que se baseiam no que pensam todos, a maioria ou os sábios, isto é, a totalidade dos sábios, ou a maioria deles, ou os mais renomados e ilustres entre eles”. (Aristoteles, 1967, 100b20-22).
O fato que um conjunto de opiniões viram as chamadas “lendas urbanas”, para isto estou recorrendo ao termo popular sem-noção, é que determinadas verdades ditas de modo bastante incisivos e persuasivos tornam-se meias-verdades públicas, e assim tem necessidade de um desvelamento, mas a raiz disto está no pensamento e não nas mídias, que servem apenas de veículos propagadores de ideias, que também os jornais, rádios e TVs já fazem.
Na década de 20 Karl Kraus, um dramaturgo que escrevia contra o mau jornalismo, a serviço de meias-verdades e a favor de interesses bem determinados mostra que o fato é antigo, mas qual a origem ? Vejo duas bem claras.
Primeira uma episteme, os saberes construídos mesmo em academias e livros com muito pouca historicidade, usam-se aforismos (Karl Kraus tem um livro com este nome, mas dizia que eram meias-verdades ou mais que verdades), a própria organização do conhecimento com vícios de logicismo e visão unilateral das questões, devido a pouca transdisciplinaridade dos discursos.
Mas há uma razão pública, além da epistémica que é mais profunda, gostamos de omitir opinião sobre tudo e pensar pouco, aprofundar sobre certo tema ficou “fora de moda”, ou seja, a preguiça mental leva-nos a isto (as novas midias são posteriores ao fenômeno de superficialidade), não há como ser profundo sem duvidar do próprio pensamento, ser ouvir o outro, sem abrir-se a conhecimentos novos que acontecem todos os dias.
O já sei no que vai dar, já sei o que pensa ou não vale a pena estudar, ler e aprofundar, levou a uma cultura sem noção, pouca profundidade, imediatismo e isto não tem nada de líquido, é uma sólida ignorância, as vezes militante e relutante a abrir ou desvelar, fica no re-velar.
Aristóteles. Topiques. Tome I: Livres I-IV. Texte établiet traduit par Jacques Brunschwig. Paris, Les Belles Lettres, 1967

 

Pequena história da verdade

25 Jan

“A verdade não está com os homens, mas entre os homens!” esta frase seminal do filósofo Sócrates já trás em si duas partes da verdade, não confundir com meias verdades, a primeira é que ao estar nos “homens” significa um argumento onto-lógico e não apenas lógico, e a segunda que estando “entre” não poderá estar com apenas um homem, é preciso dia-logo, ou seja, dois lados.
Assim procedia Sócrates ao perguntar (o seu método), porém a própria questão é se perguntar não será apenas lógico, ou seja, a pergunta pode já fazer parte de uma resposta, enquanto qual é a pergunta para se ter a verdade?
Depois de Sócrates, Platão e Aristóteles se destacam sobre a verdade, Platão fará diferença entre a Doxa (em grego: δόξα) que é a crença comum ou opinião popular e embora seja diferença da Episteme (ἐπιστήμη) como conhecimento, levou a uma clássica oposição de erro á verdade, que tornou-se de grande interesse a filosofia ocidental.
Episteme de onde vem epistemologia é o conjunto do conhecimento construído metodologicamente, mas também não é apenas lógica, sua pretensão é criar campos de relações, continuidades e descontinuidades entre práticas discursivas.
Aristóteles vai acrescentar o conceito de “endoxa”, crenças que podem ser sustentadas por sábios ou pela tradição para reconhecimento das crenças da cidade, ela é testada e portanto mais estável que a “doxa” convencional.
Ao final da idade média debatiam-se nominalistas e realistas, sobre a existência de universais e particulares, sendo a verdade enquanto realidade tendo apenas particulares ou tendo a possibilidade de encontrar universais, por exemplo, se todo homem é um animal, então um homem particular é um animal.
Será a ideia que existem universais que construirá o iluminismo moderno, mas sua base de verdade é racional e também existencial, posso duvidar de tudo, mas não de que existo, ou seja, para a própria ação de duvidar é necessário que eu exista.
Mas o racionalismo leva a duvidar da existência exterior, a clássica divisão corpo e mente, Imannuel Kant afirma que as percepções dos sentidos são posteriores à experiência enquanto é necessário um a priori universal, usando o argumento dos realistas, chama-o de juízo analítico enquanto os primeiros são os sintéticos, feitos a partir da junção de informações.
O ápice do idealismo é Hegel, que estabelece vários conceitos ideais: o estado, o espírito e a ética, porém a crise da modernidade retornará a velhos dilemas: a linguagem, o discurso e o que é a coisa ou o Ser, há então três reviravoltas: a linguística, a ontológica e a do “sagrado”.
Karl Klaus (1874-1936) já reclamava sobre a verdade no meio jornalístico, é verdade que a indústria cultural movimentou massas, e as Mídias de redes agora também, mas e a verdade?
A grande revanche do sagrado no cristianismo, ocorre quando Jesus ao fazer a leitura numa sinagoga abre a passagem de Isaías 61: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa-nova … “, e disse hoje se realizou esta profecia.
A busca dos fundamentos perdidos, de formas de espiritualidade (as vezes bizarras é certo), de nova forma de conforto para a alma humana em tribulação não é outra coisa: ausência de uma verdadeira transcendência que leva a “clareira”, a “revelação” e ao desvelamento da verdade.

 

Armação e artefacto

17 Jan

É um equívoco imaginar que a modernidade terminou com a discussão da metafísica, o que na verdade fez foi substituir o conjunto das reflexões essenciais pela objetividade da técnica, não vista como esquecimento do ser que ocorre na filosofia ocidental desde Platão até Nietzsche.
Aristóteles estabeleceu as quatro causas: a causa formal, cada coisa existe como forma que define a sua essência enquanto forma, causa material do que a coisa é feita, sua matéria; causa eficiente que é a origem da coisa, e, causa final, a razão de algo existir.
Para Heidegger estas causas são modos de trazer a coisa a uma presença no mundo, o que Platão chamou de poiesis, o ocasionar daquilo que passa e avança do não-presente a presença (Heidegger, 1949, p. 19), e trazer a presença é produzir, ou para usar o termo de Flusser, é o fabrico, o fato que a natureza é usada em função da produção e algo.
Assim, a arte e o artesanato são uma poíesis, e mesmo a phýsis pode ser considerada uma poíesis, por exemplo o emergir de uma floração, faz com a natureza produza a flor, assim recupera-se o conceito de techné com três aspectos emergentes da modernidade: a arte, o artesanato e a pýshis, o que faz o desocultamento do ser do ente, pelas suas causas.
A causa formal, a forma dada pelo artesão, a causa material, o material usado pelo artesão, a causa eficiente define de onde o material é proveniente e a causa final, o uso do artesanato.
A introdução o conceito de artefacto, é usando um argumento de Heidegger o fato que a técnica moderna provoca um ocultamento pelo fato de ser algo que o homem não domina, o seu recurso maquínico torna o homem dependente dela sem perceber sua causa final.
Chamamos de artefacto o recurso da técnica, enquanto arte que permite expressar o sentido e causa final da técnica, sem reduzi-la ao meramente técnico, e, portanto, tendo relação não apenas com o homem, mas com sua humanidade.
O reposicionamento do homem perante o mundo que se reconfigura devido ao artefacto não é um evento que acontece ao ser, mas que lhe corresponde, ou seja, que lhe afeta, a tomada de consciência do artefacto, que tem origem no ente, tem como imperativo sua apropriação.
Heidegger, M. Carta sobre o humanismo / Martin Heidegger (1946). 2ª. ed. rev. Tradução de Rubens Eduardo Frias. São Paulo: Centauro – 2005.

 

A ideia de ser e o puro ser

11 Jan

Enquanto a ideia de ser fica limitada apenas ao Ser-coisa, embora existente permanece idealizado e separado da própria “coisa”, natureza e substância que também é, o Ser-em- relação só existe enquanto a existência do Outro, senão não há relação, e a forma básica de relação é a linguagem.
Se admitimos a existência do Ser, como diria a filosofia existe algo e não o nada, que não é um porque (porque existe algo, por exemplo), uma uma ex-sistência que vai redefinir o que Freud havia chamado de inconsciência, segundo J. Lacan vai precisar: “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”, portanto é forma primária de relação, mas a linguagem não se limita a ela.
Como Lacan a define há três formas de registros – real, simbólico e imaginário, segundo a tríade freudiana: a inibição, o sintoma e a angústia, o inconsciente conforme Lacan habita um lugar inusitado, um lugar da ex-sistência em um plano de três consistências aplainadas conforme o esquema dos círculos ao lado, pela tragédia do fim da vida de Lacan pouca gente se dá conta de sua precisão, veja o esquema proposto acima.
O que é o ex-sistente ? Disse Lacan: “se define, em relação a uma certa consistência , se afinal de contas não é senão esse fora, que não é um não dentro, se essa ex-sistência é de alguma maneira isso ao redor do qual se evapora uma substância, (…) , disso não resulta menos que a noção de uma falha, que a noção de um buraco ainda em algo tão extenuado que a ex-sistência conserva seu sentido, que já lhes disse (….) que há no Simbólico um reprimido, há também no Real algo que faz buraco, há também no Imaginário”, o que de certa forma aproxima-se de Freud e não escapa de seu psicologismo.
Esta definição ainda que criticamos o seu psicologismo, aproxima-se do sentido ontológico Heideggeriano, existe fora, e aqui podemos dizer fora da consistência, ou seja, pois não é como afirma o próprio Lacan um é “não dentro”, na linguagem idealista separando sujeito de objeto, o ex-sistir existe em uma posição de ex-centricidade, no sentido de relação a algo, no dizer psicológico de Lacan “o um que cai da definição de outros lugares, mas que a eles não está incorporado”, aqui subsiste o dualismo.
A ideia de resistir a ideia de puro Ser, que significa existir Deus que é centricidade e extrapola a ex-centricidade e a justifica, porque o Ser é na filosofia antiga, e no sentido ontológico atual “não ser” também é criando uma terceira hipótese ao terceiro excluído da lógica idealista: o Ser é e Não-ser não é.
A má relação com os objetos através da transcendência idealista é aquela que faz uma separação entre sujeitos e objetos, típica da sociedade moderna, sendo também uma deturpação da relação com os objetos (dinheiro, objetos pessoais e as coisas da natureza) sendo e como religião tem equívocos, que justifica a desigualdade social e até mesmo a “sacralização” da relação com estes, como se riqueza fosse “presente de Deus” e não uma contingência humana.
O esquema proposto por Lacan embora válido possui uma lacuna ontológica, pois se de um lado podemos relacionar o Real, o Imaginário e o simbólico, aquilo que pertence somente ao imaginário-simbólico é na verdade fantasia humana, existe enquanto possibilidade Virtual, mas não se atualiza.
O Virtual é o Real passível de atualização, neste sentido é “Virtus” aquilo que pode existir enquanto Ser, mas que ainda é só presente, para ser real precisa se atualizar.
Esta lacuna surge daquilo que é novo, que ainda é potencial no sentido da ontologia antiga, e que é virtual no sentido da ontologia do fenômeno, pode fazer pouco sentido pois faz parte ainda do imaginário, tendo uma representação simbólica primária (poderá ter várias reinterpretações) e está no plano do inconsciente tanto da rejeição como da inibição pelo desconhecimento da novidade.
LACAN, J. O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1979.

 

Cultura e cristianismo

03 Jan

Uma das fortes reivindicações de pensadores da crise da modernidade é a abertura do pensamento a espiritualidade, ao universo metafisico e ao mistério de que mesmo os mais céticos devem reconhecer, mais de 90% do universo que são massa e energia escuras,  e são estudados.
A cultura contemporânea separou o saber dito científico, mas que é também cultural, do saber teológico, espiritual e cristão, não foi sempre assim, e o diálogo sempre é possível.
Ainda antes do período Romano, São Gregório Nazianzeno (ícone a direita), era conhecedor do helenismo e o cultivador da cultura antiga dentro da cultura cristã, por isso foi chamado Gregório Teólogo, logos é estudo e assim alguma sistemática e metodologia eram necessárias.
Gregório nasceu em Arianzo, na Capadócia, perto de Nazianzo, ele e o irmão realizaram estudos de retórica e filosofia e depois estudaram também em Alexandria e Atenas.
Quando falamos de ritos de Niceia e de Constantinopla, estamos fazendo dos cismas de seu tempo, entre o Concílio de Constantinopla (381), e o que Gregório foi chamado por seu arcebispo para liderar na tentativa de unificar a fé cristã, o Concílio de Antioquia, em 368, que discutia a Trindade.
No campo teológico além da contribuição para a compreensão do Espírito Santo, para o qual cunhou uma palavra nova que era a “processão”, em suas palavras: “O Espírito Santo é realmente um Espírito, vindo realmente do Pai, mas não da maneira do Filho, pois não é por geração e sim por ‘processão’,”, por isto o rito e credo niceno-constantonopolitano são diferentes.
Mas sua teologia mais compatível com os dias atuais a aposcatátase, a crença que no final dos tempos Deus colocará toda a criação em harmonia com o Reino dos Céus, compatível com as ideias de Teilhard Chardin e de teólogos que aproximam o sagrado do “profano”.
Sua contribuição concreta para o mundo contemporâneo e a crise da modernidade é a visão da “vita activa” e “vita contemplativa” como realidades não separadas, e que o filósofo atual Byung-Chull Han usa palavra analisar a sociedade atual que diz ser do “cansaço” pela ausência da vita comtemplativa.
O mundo contemporâneo tem sua própria ascese do corpo, do idealismo ou de uma fé sem qualquer espiritualidade, que Peter Sloterdijk chama de “desispiritualizada”, feita apenas de exercícios, ou como preferimos sem interiorização.
O mundo que pretendeu libertar-se das superstições caiu nas formas mais ridículas: jogar pedrinhas num poço, banhar-se de sal grosso, vestir roupa de certas cores no início do ano, evitar gato preto e outras mais ridículas ainda, “sapere aude” tornou-se “sapere ad ineptias” (saber coisas bobas).
Gregório Nazianzeno socorrei-nos.