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Arquivo para a ‘Linguagens’ Categoria

Realidade Mista e o Virtual

18 Jun

Em um artigo intitulado “Uma taxonomia de telas visuais de realidade mista|, Paul Milgram e Fumio Kishino, publicado na Revista ACM Information System   cunharam o termo “Realidade Mista” e o aplicaram pela primeira vez.

O artigo destes pesquisadores é fundamental porque não se esquivaram da pergunta o que é realidade virtual, e responderam de forma simples e direta ao separar o conceito virtual do real, ao dizer que “esses dois termos constituem a base agora onipresente do termo Realidade Virtual”.

Neste universo a intenção não é tão complexa, mas a “intenção básica é que um mundo ´virtual´ seja sintetizado, por computador, para dar ao participante a impressão de que esse mundo não é realmente artificial, mas é “real”, e que o participante está “realmente” presente dentro desse mundo”, afirmam os autores no deste artigo.

Foi isto que os fez criar o termo realidade mista, ao conversarem com diferentes investigadores, perceberam que “lidar com questões como se objetos específicos ou cenas sendo exibidas são reais ou virtuais, se imagens de dados digitalizados devem ser consideradas reais ou virtuais. se um objeto real deve parecer “realista”, enquanto um virtual não precisa.”

A ideia da Realidade Mista situa-se entre Realidade Virtual (RV) e a Realidade Aumentada (RA), mas o importante desta ideia é o acesso ao dia a dia de pessoas comuns, os capacetes e dispositivos de realidade virtual provocam uma sensação de mal-estar em muitas pessoas, e a realidade mista permite o uso fácil e simples destes conceitos.

Resumindo realidade mista é uma forma de fundir o mundo real com o virtual para produzir novos ambientes e formas de visualização em que os objetos físicos e digitais coexistam e possam interagir no mundo real, em tempo real.

Em 2015, a Microsoft causou impacto no mercado ao lançar seu produto HoloLens, mas o que parecia uma grande estratégia rapidamente caiu no descrédito pois o custo era muito alto, agora empresas como Acer. Samsung, Asus, Lenovo e Dell estão fabricando seus headsets, e o ambiente “Visualizador de Realidade Mista” da Microsoft dá popularidade a estes produtos.

Milgram, P. e Kishino, F. IEICE Transactions on Information Systems, A taxonomy of Mixed Reality Visual Displays, Vol E77-D, No.12 December 1994.

 

Pequenas coisas fazem diferença?

15 Jun

A resposta é afirmativa, embora muitas vezes imaginemos que um pequeno ato de concórdia, de honestidade ou de esperança possam significar um ato ingênuo, não o mesmo quando pensamos no sentido físico, porém o pensamento cotidiano continua sendo o mecânico.

A física quântica e a teoria da complexidade demonstraram isto (o nome caos é também mal interpretado, pois é o fato que nem tudo é linear), porém parece mais “organizado”, mais “lógico” a lógica binária do sim e do não, e neste caso também não tem a ver com o mundo digital, apenas com o pensamento idealista.

Também a sabedoria bíblica, e os ensinamentos de Jesus refletiam isto, ao dizer do evangelista Marcos O Reino de Deus é como um grão de mostarda que, ao ser semeado na terra, é a menor de todas as sementes da terra. Quando é semeado, cresce e se torna maior do que todas as hortaliças, e estende ramos tão grandes, que os pássaros do céu podem abrigar-se à sua sombra” (Mc, 4:31-32), quem já viu um grão de mostarda e viu sua árvore sabe isto.

É mais fácil e mais tentador seguir a corrente, porém se com pequenos gestos diários fazemos a diferença isto muda aos poucos a cultura a nossa volta, e pode se espalhar a outras pessoas, a mesma forma que um círculo vicioso é difícil de romper, um círculo virtuoso transforma os hábitos e o meio em que estamos inseridos.

Isto é válido para a natureza, por exemplo para a preocupação ecológica e não raramente já vemos muitas pessoas terem preocupação com a seleção de lixos, com as árvores e com os animais, isto fará diferença ao longo dos anos, é uma nova cultura que se cria.

A questão da honestidade é um reflexo do mundo da corrupção, se retirarmos pequenos atos de corrupção diária poderemos ao longo dos anos tornar a corrupção algo realmente hediondo disse uma ativista: “será lembrada de modo tão terrível quanto a escravidão.”

É preciso aplicar e ser resiliente em pequenos atos de atitudes cotidianas de verdade e justiça.

 

O dualismo pós-moderno

07 Jun

Poder-se-ia discorrer sobre o dualismo da pós-modernidade, mas ler Hegel é demasiado enfadonho, mesmo para aqueles que dominam o discurso filosófico, e penso particularmente que a questão do objetivismo x subjetivismo, natural x cultural e outras questões postas pelo pensamento da modernidade, e que são correntes no cotidiano, está já em outro ponto.

O ponto que situo é o das dicotomias infernais de Eduardo Viveiros de Castro: “Metafísicas caníbales: líneas de antropologia postestructural” (Katz Editores, 2010), ainda que possa haver uma edição em português caiu em minhas mãos uma edição espanhola, traduzida do francês.

Me chamou a atenção porque ele começa o livro sobre questões que julgo fundamentais: o retorno às coisas, o perspectivismo, o multinaturalismo e a esquizofrenia antropológica.

O início do primeiro capítulo “Anti-narciso” confessa que abandonou a ideia de fazer um livro para escrever sobre ele, como fazia Borges, e lança uma pergunta: “o que deve ser conceitualmente a antropologia dos povos que estuda ?” e segue a esta: “Las diferenças e as mutações internas da teoria antropológica se explicam principalmente (e desde o ponto de vista histórico-crítico exclusivamente) por estruturas e conjunturas das formações sociais, dos debates ideológicos, dos campos intelectuais e dos contextos acadêmicos que surgiram os pesquisadores ? é esta a única hipótese pertinente? No seria possível proceder a um deslocamento da perspectiva que mostro que os mais interessantes entre os conceitos, os problemas, as entidades e os agentes introduzidos pelas teorias antropológicas tem sua origem na capacidade imaginativa das sociedades (ou dos povos, ou dos coletivos) que propõem explicar?” (Viveiros de Castro, 2010, p. 14).

A estas perguntas penetra finalmente na dicotomia infernal que considero essencial na modernidade: “Não será ali onde reside a originalidade da antropologia, nesta aliança, sempre equívoca, porém com frequência fecunda, entre as concepções e as práticas provenientes dos mundos do “sujeito” e do “objeto” ? “ (idem).

A pergunta então do “Anti-Narciso” é então epistemológica, isto é, política, e o autor afirma que se todos estão mais ou menos de acordo  que é preciso uma descolonização do pensamento, e nisto reside o “anti-narciso”.

O discurso de Viveiro de Castro é consistente porque afirma que o “outro” é sempre pensado e “inventado” de acordo com os sórdidos interesses do Ocidente, e depois irá discorrer sobre o “perspectivismo” e “multiculturalismo”, é impossível sintetizá-los num post, então só pontuamos estas perspectivas, chamadas pelo autor de “canibais” ou metafísicas da predação”.

O perspectivismo é a ideia que toda teoria é particular e depende da “perspectiva do sujeito”, ou multiculturalismo é a ideia da “convivência” de muitas culturas em diversas regiões, mas ambas carecem e uma “descolonização” do pensamento, então a dicotomia permanece.

 

Abelhas, cigarras e redes

28 Mai

Foi estudando os cris-cris das cigarras em bandos, que são sincronizados, que Duncan Watts decidiu estudar redes e encontrou o orientador Donald Strogatz e começou a estudar redes, os fenómenos dos mundos pequenos e dos seis graus de separação, a tese de doutorado de Duncan que depois virou artigo foi “The structure and dynamics of small-world system” (1997).

O estudo foi um sucesso e até hoje o artigo é um dos mais lidos em estudos de Redes Sociais.

Mas agora temos um caso inverso, as abelhas parecem aos poucos perder sua força e como polenizadoras da natureza sua ameaça de extinção começa a preocupar ecologistas, pesquisadores e agora também investigadores de Computação.

Um estudo que está sendo desenvolvido pela Universidade de Exeter, no Reino Unido, procura criar um “espaço virtual seguro” para as ameaças que as abelhas são confrontadas, criando um modelo computacional de dinâmica populacional de abelha em resposta a variáveis como pesticidas, parasitas e perda do habitat.

A ferramenta preditiva é chamada Bumble-BEEHAVE foi desenvolvida por Grace Twiston-Davies para ser um “sistema livre e fácil de usar” que “leva em consideração os muitos fatores complicados que interagem para afetar os zangões.

O resultado +e um espaço virtual seguro para testar as diferentes opções de gerenciamento, este modelo pode testar “seis espécies de abelhões britânicos em um ambiente que tem várias fontes de néctar e pólen”.

A pesquisadora Juliet Osborne, da Exeter, observa que a “simulação permite aos pesquisadores entender os efeitos individuais e interativos dos múltiplos estressores que afetam a sobrevivência do zangão e os mecanismos de feedback que podem proteger uma colônia contra o estresse ambiente que pode levar ao colapso a colônia em espiral.”

Ao ver em Portugal a quantidade de pólen no ar, que causa muitas doenças respiratórias, comecei a pensar neste grave problema que pode afetar a toda natureza, sem as abelhas a ameaça de um empobrecimento e desertificação será real.

 

Autoridade e co-imunidade

25 Mai

A palavra autor tem a raiz etimológica do latim “auctor” que significa “fonte”, “instigador” ou “promotor”, sugere alguém que deva fazer “augere” (aumentar, engrandecer ou melhorar) e o sufixo tor (um agente, o que faz a ação, como em doutor ou escultor), assim não há relação direta com poder ou originalidade, ele deve “aperfeiçoar” algo que existe.

A ideia que autoria confere poder ou a criação de algo originário é como vem da palavra também algo autoritário, o que pode-se interpretar como um exagero de autoria, uma quase exclusividade ou mesmo um excesso de poder.

As redes são uma forma contemporânea de estabelecer esta autoria de melhorar o que existe, de certa forma até de permitir que pessoas “anônimas” participam da co-autoria, ou no dizer de Sloterdijk da co-imunidade, e neste sentido podemos recuperar a palavra autoridade.

Na sabedoria da cultura oral as pessoas que falam com autoridade são aqueles que conhecem as raízes e as tradições de determinada cultura, são como bibliotecas vivas que guardam o patrimônio cultural de uma nação, etnia ou povo.

Ao dizer bíblico que Jesus falava com “autoridade”, além de alguém profundamente ligado a cultura judaica de onde se origina a cristã, ele também tinha uma ligação afetiva com sua cultura e seu povo, por isto além de saber o que falava, tinha empatia com a pessoa comum.

A ideia do estado moderno deverá sofrer mudanças, é inaceitável o modo como os políticos e gestores do Estado Moderno se comportam, não há confiança da população neles, os níveis de corrupção são imorais, e é preciso, sobretudo olhar os interesses do “bem comum”.

Mas as redes exigem mudanças na postura individual também, saber ouvir, gostaria da cultura do que é diferente, respeitar valores e tradições que não são como as nossas e não ter conceitos culturais como verdades definitivas, é tempo de mudança e exige uma mudança de mentalidade, as redes podem ajudar.

 

Novas linguagens e mudanças

11 Mai

Em outras épocas guardadas, as devidas proporções, as mudanças que ocorreram em etapas anteriores também causavam impressão forte nas pessoas, mas foram tecnologias disruptivas as que mais influenciaram, as lentes para óculos e telescópios, permitiram a leitura dos primeiros livros impressos, e graças aos telescópicos, a revolução de Copérnico aconteceu.
A mudança de paradigmas que acontece causa espantos, mas é preciso o que se realizará de fato, o que é possível numa realidade mais longínqua e o que poderá acontecer nos próximos anos, já indiquei em alguns post, A física do impossível, de Michio Kaku (2008).
O autor cita no início deste livro, a frase de Einstein: “Se inicialmente uma ideia não parecer absurda, então ela não terá qualquer futuro”, é preciso um pensamento forte e chocante como este para entender que se devemos apostar na inovação, e este é o momento histórico disto, deve entender que grande parte de coisas disruptivas serão inicialmente absurdas.
Falando de coisas mais distantes, no início dos microcomputadores, chegou-se a declarar que eles não teriam utilidade para muitas pessoas, o mouse era desajeitado e “pouco anatômico” quando surgiu, e ainda há muita desconfiança na “inteligência artificial”, não só entre leigos no assunto, entre estudiosos também, outros idealizam um “cérebro eletrônico”, mas nem a Sophia (o primeiro robô a ter cidadania) e o Alexa Amazon tem de fato “inteligência”.
O que é preciso frear, e isto no tempo de Copérnico valia para a visão teocêntrica, hoje há também uma sociopatia anti tecnologia que beira o fundamentalismo, se há injustiças e desigualdades elas devem ser combatidas no plano em que estão, no social e político.
Roland Barthes afirmou que toda recusa de uma linguagem “é uma morte”, com a adoção de tecnologia por milhões de pessoas esta morte se torna um conflito, primeiro entre gerações, e depois entre concepções de desenvolvimento e educação diferentes.
Aos estudiosos faço a recomendação de Heidegger, afirmava sobre o rádio e a televisão que apenas meia dúzia de pessoas entendiam o processo e claro com o poder financeiro podem controlar as editorias destas mídias, mas também pode-se responder no campo religioso.
A leitura do evangelista Marcos Mc 16,17-18 “Os sinais que acompanharão aqueles que crerem serão estes: expulsarão demônios em meu nome, falarão novas línguas; 18se pegarem em serpentes ou beberem algum veneno mortal, não lhes fará mal algum; quando impuserem as mãos sobre os doentes, eles ficarão curados”.
Isto precisa ser atualizado para os novos meios e linguagens modernas, assim como, o avanço da medicina que permitirá curar doenças e dar maior qualidade de vida a muitas pessoas.

KAKU, M. A física do Impossível: uma exploração científica do mundo dos fasers, campos de forças, teletransporte e viagens do tempo. 1ª. Edição. Lisboa: Editorial Bizâncio, 2008.

 

Tendências da Inteligência artificial

10 Mai

No final dos anos 80 as promessas e desafios da Inteligência artificial pareciam desmoronar a frase de Hans Moracev: “é fácil fazer os computado- res exibirem desempenho de nível adulto em testes de inteligência ou jogar damas, e é difícil ou impossível dar a eles as habilidades de um garoto de um ano quando se trata de percepção e mobilidade”, em seu livro de 1988 “Mind Children”.

Também um dos maiores precursores da IA (Inteligência Artificial) Marvin Minsky e co-fundador do Laboratório de Inteligência Artificial, declarava no final dos anos 90: “A história da IA é engraçada, pois os primeiros feitos reais eram belas coisas, máquina que fazia demonstrações em lógica e saía-se bem no curso  de cálculo. Mas, depois, a tentar fazer máquinas capazes de responder  perguntas sobre históricas simples, máquina … 1º. ano do cicio básico. Hoje não há nenhuma máquina que consiga isto. (KAKU, 2001, p. 131)

Minsky junto com outro precursor de IA: Seymor Papert, chegou a vislumbrar uma teoria d’A Sociedade da Mente, que buscava explicar como o que chamamos de inteligência poderia ser um produto da interação de partes não-inteligentes, mas o caminho da IA seria outro, ambos faleceram no ano de 2016 vendo a virada da IA, sem ver a “sociedade da mente” emergir.

Graças a uma demanda da nascente Web cujos dados careciam de “significado”, os trabalhos de IA vão se unir aos esforços dos projetistas da Web para desenvolver a chamada Web Semântica.

Já havia dispositivos os softbots, ou simplesmente bots, robôs de software que navegavam pelos dados brutos procurando “capturar alguma informação”, na prática eram scripts escritos para Web ou para a Internet, que poderiam agora ter uma função mais nobre do que roubar dados.

Renasceu assim a ideia de agentes inteligentes, vinda de fragmentos de código, ela passa a ter na Web uma função diferente, a de rastrear dados semiestruturados, armazená-los em bancos de dados diferenciados, que não são mais SQL (Structured Query Language), mas procurar questões dentro das perguntas e respostas que são feitas na Web, então estes bancos são chamados de No-SQL, e eles servirão de base também para o Big-Data.

O desafio emergente agora é construir taxonomias e ontologias com estas informações dispersas na Web, semi-estruturadas, que nem sempre estão respondendo a um questionário bem formulado ou a raciocínios lógicos dentro de uma construção formal clara.

Neste contexto emergiu o linked data, a ideia de ligar dados dos recursos na Web, investigando-os dentro das URI (Uniform Resource Identifier) que são os registros e localização de dados na Web.

O cenário perturbador no final dos anos 90 teve uma virada semântica nos anos 2000.

KAKU, M. A física do Impossível: uma exploração científica do mundo dos fasers, campos de forças, teletransporte e viagens do tempo. 1ª. Edição. Lisboa: Editorial Bizâncio, 2008.

 

Esclarecer a clareira

03 Mai

O homem sempre quis a luz, sempre andou em busca da “clareira”, o Mito da Caverna de Platão não é senão isto, a luz nas capelas e artes medievais, o esclarecimento (Aufklärung) que Kant apontava como a saída do homem de sua menoridade e as atuais “clareiras” de Heidegger e o “esclarecer as clareiras” de Sloterdijk, o plural é por minha conta.
Na arte medieval a “luz” deve estar associada à arte, ainda que os textos de Boécio, Tomás de Aquino, Averrois e muitos outros são dignos de leitura e análise, foi nas artes que a ideia de luminosidade mais foi presente, um exemplo, é a igreja Saint-Chapelle (foto) consagrada em 1248, com exemplo da desmaterialização das paredes e substituição por vitrais.
Aquilo que devia ser o exercício de plena liberdade, a grande aposta da modernidade, na verdade confinou o humanismo num beco sem saída, basto fazer a pergunta se vivemos numa época esclarecida, opiniões de todos os matizes filosóficos responderão: não é uma época esclarecida, então a pretensão do esclarecimento deu em cegueira e crise civilizatória.
As respostas de Heidegger sobre a “clareira” em meio a esta floresta de questões (alguns acham que é só de informação) foi a retomada do ser, sem dúvida importante, porém a resposta de Sloterdijk às cartas sobre o humanismo a coloca-a em questão: que é “clareira”.
Não tenho uma resposta definitiva, como a de Sloterdijk também não é, ainda que aponte “as esferas” como os círculos de aprisionamento do ser, do pensamento e diria aqui, até a religião.
Minha resposta contempla o livro de Byung-Chul Han “A expulsão do outro”, a opção por uma sociedade massificada, uniformizada e por isto sem valores destruiria a riqueza humana da diversidade, mas é justamente esta diversidade que parece se rebelar, e poderá dar frutos.
Esclarecer a clareira, em face de crise civilizatória de nosso tempo, não poderá encontrar mais resposta, como no passado, na ideia do pensamento único, a diversidade é hoje necessária.

 

O século das luzes kantianas

30 Abr

O século XVIII foi comemorado por muitos filósofos como século da Filosofia, parecia que o iluminismo tinha triunfado de maneira irreversível, sua ideia de estado, a ciência como forma de retirar o homem das trevas, enfim tudo parecia ir de vento em popa.

Antes de tudo o que era esclarecimento para Kant, sem dúvida o maior precursor, assim como Hegel a síntese de toda a filosofia idealista do iluminismo, o esclarecimento (Aufklarung) seria a saída do homem de sua menoridade, do qual ele própria seria culpa, veja que culpa aqui não é o conceito cristão de desvio, mas aquela própria da qual o estado seria o guardião.

Assim a menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a direção de outro indivíduo, é o individualismo perfeito, o homem sem a direção de qualquer outro indivíduo, por isso só ele é culpado de essa “menoridade”, depender do outro.

Isto está consumado na máxima do imperativo categórico: “age de tal forma que o seu agir possa ser universal”, e não deve ser confundido com a regra de ouro: “faz aos outros aquilo que gostaria que fosse feito a você”, porque esta inclui o Outro.

É também equivocada a ideia que o idealismo tenha um fio de ouro que o conduza ao platonismo, que por sua vez não pode ser isolado do “materialismo” de Aristóteles, estes equívocos estão explicitados em Gadamer: “O problema da consciência histórica”, cujo ponto central é justamente separar a consciência idealista e romântica de história, para a real.

O texto a Sétima Carta de Platão, favorece o diálogo com o Outro, a dialética dialógica de enfrentar contrários e saber como completar o chamado círculo hermenêutico, onde os pré-conceitos podem passar por uma fusão de horizontes e um posterior esclarecimento que leva a novas reformulação.

Platão afirma na Sétima Carta: “… só depois de esfregarmos por assim dizer, uns nos outros, …. nesses colóquios amistosos de perguntas e respostas …  é que brilham sobre cada objeto a sabedoria e o entendimento … “ (Platão 344 b-c)

Para Gadamer o Círculo Hermenêutico, verdadeiro método de filosofar, é a-letéia, pois: “Qualquer Insight que podemos possuir emerge em um discurso humano finito, e por isso, apenas parcialmente … Nossos insights, em outras palavras são marcados por nossa discursividade.  O que nos é dado nos é dado do ocultamento [léthe] e em um lapso de tempo de volta a ele. Daí porque nossa verdade humana é a-letheia, jamais absoluta”. (GADAMER, 1980, p. 103-104)

PLATÃO, Carta VII (Trad. Do grego e notas de José Trindade Santos e Juvino Maia Jr). Rio de Janeiro: PUC-Rio/Loyola, 2008.

GADAMER, H.G. Dialogue and Dialectic, eight hermeneutical studies on Plato, Binghamton, NY: Yale University, 1980, p. 91-123.

 

A vida: origem e destino

26 Abr

Para existir vida é essencial a água e alguns outros elementos em abundância: oxigênio, carbono, hidrogênio, nitrogênio, cálcio, fósforo, enxofre, potássio, sódio, cloro e magnésio, assim a busca por planetas habitados ou habitáveis procura-se estes elementos, sobre a vida em outros planetas o cientista Arthur C. Clarke afirmou: “ou estamos sozinhos no universo ou não estamos, qualquer uma das hipóteses é assustadora”.

Tão importante quanto a origem da vida, que ainda é um enigma, é investigar as sociedades originárias que estão submersas sobre as camadas subterrâneas de nossa sociedade, alguns são capazes de ver estes traços e entender que a modernidade não é o destino eterno dos homens, outros mergulhados nos conflitos de nosso tempo querem eternizá-la como se fosse o último estágio civilizatório humano.

Compreender o que é a vida, é também compreender de onde viemos, se na perspectiva cientificista da modernidade temos que saber se viemos da matéria ou não, e para esta questão recomendo o livro de Terrence Deacon “Incomplete Nature: how mind emerged fom matter“ (veja nosso post), exatamente porque une a perspectiva antropológica com a diria cosmológica, num sentido mais amplo que inclui as cosmogonias das diversas culturas e civilizações.

O assunto é demasiado amplo para um post, por isso conto uma experiência estando em Portugal, fui visitar uma destas pequenas cidadezinhas portuguesas Coruche, não são as aldeias que são ainda menores, e lá me deparei com vestígios dos homens pré-históricos na região, os primeiros sinais civilizatórios ocidentais: colunas romanas, aquele que acreditam ser o primeiro sino de Portugal e também início da evangelização cristã na região, a Igreja de Nossa Senhora do Castelo tem este nome por ter sido feita sobre as ruínas de um castelo.

Assim uma civilização soterra a outra, também a cidade fica numa região limítrofe entre o Reino de Portugal e o de Al-Andaluz, onde viviam muçulmanos árabes e onde está a origem dos desenhos dos azulejos de Portugal, senti que tudo isto se compunha numa civilização originária de Portugal desconhecida, e nós netos desta civilização originária.

Não deixa de ter, como em todo Portugal os campos de videiras, quase todo lugar tem uma.

Como está escrito no museu de Coruche sobre a cidade: “O céu, a terra e os homens”, é conhecida também pela produção de cortiça.