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Arquivo para a ‘Linguagens’ Categoria

Sobre a verdade, mas qual é o método ?

12 Set

A verdade positiva, estabelecida pela ciência e pelo iluminismo tiveram dois alicerces: a ideia (idealismo) ligada a experiência (empirismo), cuja tentativa inglória foi criar uma enciclopédia universal do conhecimento, o “sapere audi” (ousar saber) de Kant, com grandes feitos da modernidade foram insuficientes para abolir a guerra, criou uma crise de valores, uma concentração de riquezas e uma visão de mundo com sinais de fragilidade.
O que a transdisciplinaridade e os educadores sóbrios estão exigindo, uma volta as ciências que deem sentido a vida, ao humanísticos perenes, a Carta sobre o Humanismo de Heidegger, em que bradava: “mas nisto não se deve esquecer que “sujeito e objeto” são expressões inadequadas da Metafísica que se apoderou, muito cedo, da interpretação da linguagem, na forma da “Lógica” e “Gramática” ocidentais.” (Heidegger, 2005, p. 8).
O que chamamos de interpretação, afirma Heidegger no parágrafo 32 de “Ser e Tempo” (é mencionado em “Verdade e Método”), é na verdade desenvolver “as possibilidades projetadas da compreensão”, significa um processo dialógico onde seja possível reaver os pré-conceitos e uma nova “fusão de horizontes”, neste sentido o hermético é contraposto ao hermenêutico.
O pré-conceito, visto como antecipação da experiência humana, atesta o nosso vínculo a tradição na qual estamos mergulhados, mas é preciso o que Gadamer chama de “consciência-da- história dos efeitos” (tradução possível de “Wirkungsgeschichtliches Bewusstsein”), conforme explicação em seu texto “determinada por um devir histórico real, de tal forma que ela não possui a liberdade de situar-se em face ao passado”, dai sua critica a Dilthey.
O nosso distanciamento da verdade, Gadamer começa pela estética, uma cultura das aparências- pela qual começa seu livro, recapitula nos idealistas as ideias de gosto e de vivência (“Erlebnis”), esta última posta sempre com mais enfase, ainda que de modos distintos em Dilthey e Husserl , se desenvolverá de modo a falsear as “ciências do espírito” (ver em sua obra “A Extensão da Questão da Verdade à Compreensão nas Ciências do Espírito”), num esforço analítico de concretizar a chamada consciência histórica, nisto fundamenta-se toda sua crítica à hermenêutica romântica de Schleiermacher, à “Aufklärung” (Ilustração) e ao historicismo de Droysen, Ranke, Dilthey e Hegel.
Sua crítica vai ao fundo da noção de estética de uma obra de arte, quando um pintor, com certa técnica ou estilo, vai a pintura com uma certa técnica, o que se lê no quadro não é a alma do pintor, mas uma técnica própria da época, claro salvo raras exceções, em geral, é isto.
Sua análise é também a partir da analítica hermenêutica, ao criticar Schleiermacher dá-lhe também razão ao dizer que na obra de um artista, de um poeta, um escritor seria fundação perceber a intenção autoral, assim o exegeta a conheceria mais de perto do que o seu próprio autor e não apenas sua letra ou pintura, conhecer o Evangelho de São João seria, antes de nada, conhecer São João, nisto Gadamer rejeita o postulado da escola romântica.
Mas aceitará a escola romântica no “Vamos aos fatos” da “Aufklärung”: “este lê o texto joanino como protestante, aquele como católico, um terceiro como historiador da Palestina. Se varrêssemos todas essas pressuposições, talvez nas linhas escritas pudesse assomar um sentido prístino”, ora o Aufklärung” desejava o encontro de uma interpretação não preconceituosa, que afastasse tanto a tradição da autoridade, como a autoridade da tradição (isto é idealismo!), nisto os românticos estavam certos.
Restam dois senões, a resposta de Sloterdijk a Heidegger (Regras para o Parque Humano) e a pergunta de Ricoeur (O conflito das interpretações): seria então Verdade ou Método (ou, e não e), isto é, verdadeiramente ontológica?

Heidegger, M. Carta sobre o humanismo 2 ed. rev. Tradução de Rubens Eduardo Frias. São Paulo: Centauro , 2005

 

O Palácio de Cristal e a era digital

10 Set

Byung Chull Han descreve em suas que os conceitos de telecomunicações, ela foi anterior e fundamental para a internet, deve ser refletida com grande seriedade ontológica, pois é ela que designa a forma processual de densificação em números de interações e valores monetários, calcula-se que há dez milhões de e-mails por minuto e um trilhão de dólares ao dia (VÁSQUEZ ROCCA, 2012).

Esta alta densidade ocorre tanto na possibilidade maior e mais fácil de encontro entre agentes, quer na forma de transações (relacionais?), quer na forma de colisões, e isto descreve de certa forma o que lembra o chamado de Palácio de Cristal (idem).
O Crystal Palace de Londres, em 1850, já abrigava Exposições Universais e também centros de recreações que eram dedicados a “educação do povo”, esta sofisticada arquitetura, uma das mais imponentes do século XIX, antecipava um capitalismo globalizado e pretendia a absorção total do mundo que era produzido, muito antes da era digital.
Cita-o Dostoiévski e Walter Benjamin ainda mais frequentemente, e Sloterdijk (2005) usa-as em um artigo onde usa a ideia de Dostoiévski que encontro ali o culto a Baal como símbolo consumista e hedonista, onde uma doutrina das “finalidades” como um dogma do consumo.
Sloterdijk faz uma conexão com Benjamin: “O poder da metáfora do palácio de cristal de Dostoiévski para a filosofia da história é melhor medido quando justaposto à interpretação de Walter Benjamin das arcadas parisienses. A comparação é sugestiva porque num caso como no outro uma forma arquitetônica foi proclamada como a chave para o capitalismo. condição do mundo” (SLOTERDIJK, 2005, P. 279).
Será Byung Chull-Han que resolve esta dualidade ao estabelecer que há sempre um “mistério” que é desvelado e que isto é parte do belo e da verdade, que aos poucos se desvela.
É preciso pensar que apenas 4% do universo é conhecida, aquele da chamada da matéria bariônica, aquela composta de protóns, eletróns e neutrons, além de algumas subpartículas, a matéria escura que em parte é também bariônica e a chamada energia escura, uma força de ação repulsiva que permeia todo o espaço, são praticamente desconhecidas.

SLOTERDIJK, P. Crystal Palace. Chapter 33 of in Globalen Inneren Raum des Kapitals: Für eine philosophische Theorie der Globalisierung (In the Global Inner Space of Capital: For a Philosophical Theory of Globalization). Frankfurt am Main: Suhrkamp, 2005, pg. 265-276.
VÁSQUEZ ROCCA, Adolfo, “Sloterdijk: Modelos de comunicación ocultoarcaicos y moderno-ilustrados. Para una época de ángeles vacíos. Nómadas. Revista Crítica de Ciencias Sociales y Jurídicas, 2010 Disp.: http://www.ucm.es/info/nomadas/26/avrocca.pdf, Acesso em: setembro de 2018.

 

A metáfora, o imaginário e o velamento

07 Set

Já postamos que o velamento é parte essencial da verdade e do belo, em Paul Ricoeur isto está mais claro em sua “Metáfora Viva” (1975), porque parte de sua hermenêutica fenomenológica está em relação essencial com a obra de arte, em que faz a passagem do momento arqueológico da hermenêutica para o teleológico, isto é, a lógica dos fins, além da lógica proposicional.
Já na mímesis grega, a produção artística e o novo tinham significado como instrumentos que dão sentido a realidade, porém a ultrapassa e pode-se dizer havia também algo teleológico.
Isto é inteiramente valido, pois ao ler a Metáfora Viva percebe-se que é uma releitura da Poética de Aristóteles, mas ele próprio esclarece a diferença ao expor que a metáfora vai além (meta) e transpõe (pher) para uma coisa que designa outro objeto, enquanto mimesis é a ideia de imitar.
Mas além da metáfora a questão importante em Ricoeur é a da imaginação, deve-se separá-la do virtual, as palestras inéditas de Paul Ricoeur nos Estados Unidos, foram documentadas e comentadas, isto já uma tradução, por George H. Taylor, onde aparece o conceito de “imaginação produtora” em 4 categorias: utópica, epistemológica, poética e sacro simbólica (Taylor, 2006), que me parecem mais ligadas ao virtual.
O próprio Aristóteles afirma que esta figura de linguagem (metonímia – substituição da palavra, sinédoque – substituem a parte pelo todo, etc.) é tangente a quem deseja expressas questões na oralidade e deve fazê-la na escrita.
Façamos uma passagem, usando recursos do virtual, da sintaxe (a estrutura da frase) ao sentido (sua semântica) chegando a lógica do discurso (a hermenêutica), isto sai de uma teoria da substituição do sentido (a falsa semântica em muitos discursos) para uma teoria do sentido, uma lógica subjacente ao hermenêutico, não mais como verdade dogmática, mas dialógica.
A questão da classificação cara ao enciclopedismo e iluminismo, resultará na questão de Gadamer se em toda ela não há uma metáfora subjacente, enquanto Derridá pergunta se não está nela toda a capacidade racionalista de classificar conceitualmente todos objetos.
Byung-Chul Han responde de maneira não dualista, a verdade e o belo estão “velados” e só que é capaz de ver através deste véu chega a “clareira” desejada, então a metáfora é um recurso e a hermenêutica dialógica um caminho, este caminho oscila entre o real e o virtual.
O virtual é assim o visível além do véu, e o real é o desvelado no atual, o represente, cuja memória no momento seguinte só poderá ser re-presentada ou atualizada.
Chul Han também fala do recurso da metáfora na Bíblia, como um recurso proposital para “para as tornar objeto de desejo”, penso que é mais que isto, é que alcançar a verdade se faz em passos e que grande parte da vida ainda é mistério.

RICOEUR, P. La Métaphore Vive, Paris, Éditions du Seuil, 1975.
TAYLOR, G. H., Ricœur’s Philosophy of Imagination. Journal of French Philosophy, Vol. 16, p. 93, 2006; U. of Pittsburgh Legal Studies Research.

 

Verdades, tautologias e crenças

05 Set

Li atônito que Noam Chomsky afirmou: “as pessoas não acreditam mais nem em fatos”, as crises  (não é única, pois há crises políticas, ideológicas e até humanitárias) embora todas com contorno econômico, a raiz profunda delas é para uma rejeição a própria cultura.

Alguns dirão identidade, embora não deva ser deixado de lado, os discursos que vejo nesta linha beiram o psicologismo, o conceito filosófico correto deve ser visto com a questão de relação, enquanto a psicologia vê como problemas de personalidade, comportamentos e funções mentais, então para mim é outra coisa.

No caso sociológico tem na ideia de auto-concepção, aspectos de representação social como uma pessoa única, ou em termos quantitativos o que a difere das outras em aspectos culturais, de gênero, de nacionalidade, agora identidade online ou algo que seja formativo da própria identidade.

Embora cultura entre como um aspecto sociológico,  ela é redutiva porque cultura é mais abrangente que aspectos de identidade e nacionalidades, Alfred Kroeber e Clyde Kluckhohn encontraram, pelo menos, 167 definições diferentes para o termo “cultura”, o que mostra a abrangência do termo.

Ficamos com uma definição reduzida, porém que incorpora elementos essenciais: todo aquele complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade” de Edward B. Tylor, para nosso tema pois envolve conhecimento, crenças e verdade.

Sistemas que ignoram as crenças não são verdadeiros, mas tautológicos, mesmo admitindo uma intersecção entre crenças e conhecimento, pois ignoram que há conhecimento ligado ás crenças (figura inferior).

Sistemas que admitem que em toda cultura há crenças, podem diferenciar o conhecimento presentes em culturas diferentes e que possuem um núcleo de conhecimento distinto, mas em ambos podem haver verdade, é um conhecimento dialógico e relacional.

A arte, a moral e os costumes que estão dentro destas culturas podem não ter relação com a verdade, mas cada uma tem um núcleo diferente de conhecimento (x e y na figura) que tem relação com a verdade, os fatos e atitudes ajudam a manter esta verdade relacional.

 

Schlemmer e o Virtual

04 Set

Muitas são as possibilidades biográficas para Oskar Schlemmer (1888—1943), para entender o humanismo de Schelemmer, começo pela sua disciplina “O homem” que ele ministrou na Bauhaus em “Matéria de ensino: o homem”, tendo como objetivo “familiarizar o aprendiz com o homem todo, fazendo-o a partir de dois tipos distintos de consideração: o aparamento visível e a sua apresentação”, como aparece no site: www.tipografos.net/bauhaus/.
A ideia do bale triádrico parte de três participantes (dois do sexo masculino e um feminino), 12 danças e 18 figurinos, há forte influência do teatro de marionetes, a ideia de movimentos maquínicos, síntese de sua visão da modernidade dividida em dois movimentos principais: a mecanizada, que torno o homem como uma máquina e o corpo um mecanismo, e, a dos impulsos primordiais, as profundezas de nossos impulsos criativos.
Ele via na geometria coreográfica da dança uma síntese, as origens dionisíacas e emocionais da dança, que torna rígida e apolínea em sua forma final, mas queria estar livre da bagagem histórica da ópera e do teatro, e assim, ver o homem transformado pelo traje e pela dança.
Ele viu nos fantoches e marionetes movimentos superiores os seres humanos, fazendo uma leitura a partir do virtual diria que tem uma “gramática”, e usando um raciocínio de Schelemmer pode se dizer que “o meio de toda arte é artificial”, sendo, portanto, um artefacto virtual.

Ao analisar o corpo como geometria: viu a cabeça e os olhos como círculos, assim o corpo torna-se uma estatueta de onde deriva o traje, e finalmente, os movimentos da dança e a musica surgem dai, formando o “todo” do homem por onde iniciamos a análise de seu trabalho.
Nascido em 04 de setembro de 1888, completaria 130 anos hoje, razão que está no Google.

 

Julia 1.0: uma nova linguagem de computação

03 Set

Quando o cenário das lijguagens de computação não parecia mais apresentar novidades, surge um projeto audacioso do MIT que pode mudar esta lógica, trata-se da linguagem Julia, desnecessário dizer que é open source.
Em um evento de Londres em 2018, o JuliaCon os desenvolvedores: o professor Alan Edelman, Jeff Bezanson, Stefan Karpinski e Viral Shah liberaram o Julia 1.0, declaron Edelman na época: “Julia vem revolucionando a computação científica e técnica desde 2009”, trabalharam desde este ano em uma nova linguagem que combinavam Ruby, MatLab, C, Python, R e outras além de ter recursos paralelos, de inteligência artificial e fácil conexão com bancos de dados semiestruturados.
Os comandos são parecidos aos já populares C, C++ e Java, por exemplo, o programa de calculo das raízes da equação do 2º. Grau:

function quadratic2(a::Float64, b::Float64, c::Float64)
  sqr_term = sqrt(b^2-4a*c)
  r1 = quadratic(a, sqr_term, b)
  r2 = quadratic(a, -sqr_term, b)
  # pode retornar múltiplos valores sem uso da palavra return
  r1, r2
end

A versão lançada no dia 7 de agosto de 2018, e sua versão estável no dia seguinte chamada de Julia 1.0 coloca-a definitivamente no universo das linguagens de programação da atualidade.
O release par oa Julia 1.0 (Julia 1.0.0-rc1) foi lançado em 7 de agosto de 2018 e a versão final um dia depois. A equipe escreveu que o código que é executado sem avisos no Julia 0.7 será executado de forma idêntica no Julia 1.0.
Julia usa JIT (MCJIT [50] do LLVM) que gera código de máquina nativo diretamente, antes de uma função ser executada pela primeira vez, não são bytecodes executados em uma máquina virtual (VM) ou traduzidos como o bytecode em execução, como copor exemplo, Java, a JVM ou Dalvik no Android, é código nativo mesmo.
Julia também é usada para impulsionar carros autônomos e impressoras 3-D, bem como aplicações em medicina de precisão, realidade aumentada, estruturas genômicas, aprendizado de máquina e gerenciamento de risco.
Conforme afirmou o professor Edelman: “O lançamento da Julia 1.0 indica que Julia está pronta para mudar o mundo técnico combinando a produtividade de alto nível e a facilidade de uso do Python e do R com a velocidade veloz do C ++”, mudanças vem ai.

 

O zoológico humano e a antropotécnica

30 Ago

Numa conferência realizada em 17 de julho de 1999, que era dedicada a Heidegger e Lévinas, no castelo de Elmau na Baviera, o filósofo Peter Sloterdijk tratou de temas polêmico como a manipulação genética e lançou a ideia de uma “antropotécnica”, provocando fortes reações na Alemanha e também no Brasil no caderno Mais+ da folha de São Paulo “O novo zoológico do homem” foi destaque de capa em 10 de outubro de 1999.

As ideias do filósofo já haviam sido apresentadas em uma cidade Suíça da Basiléia, mas agora a reação era a relação do humanismo com os meios de comunicação, uma interpretação mais midiática do humanismo, que provocou reação do filósofo Habermas e de um articulista da prestigiosa revista alemão Der Spiegel, onde uma polêmica se iniciou com o articulista Thomas Assheuer que o indicava que Sloterdijk “propagandeia a seleção pré-natal e o nascimento opcional: técnica genética como crítica social aplicada .. traços de retórica fascistas” foi publicada na prestigiosa revista.  

Em 9 de setembro do mesmo ano Sloterdijk publicou na Die Zeit, duas cartas abertas uma dirigida a Assheuer e outra a Reinhard Mohr, que o atacou também, mas afirmando que o mentor destes ataques era Jürgen Habermas, e de modo ainda mais provocativo intitulou seu artigo de “Die Kritische Theorie ist tot”, traduzindo A teoria crítica está morta.

A polêmica cresceu e os artigos de Manfred Frank e Ernst Tungendhat publicados em 27 de setembro no Spiegel, fazia um dossiê do livro de Sloterdijk, as Regras para o Parque Humano já era um livro, trazendo na capa uma estátua no estilo de Arno Breker, escultor do III Reich, agrupando ícones de Hitler, Nietzsche e o Superman das histórias em quadrinhos, a ovelha Dolly e Lara Croft, uma heroína de jogos virtuais de computador, a polêmica se formou.

O ponto de partida de Sloterdijk não era esse, confesso que foi minha reação numa primeira leitura também, mas o seu ponto de partida era, e sua presença no colóquio dedicado a Heidegger e Lévinas provam isto, uma frase do poeta Jean-Paul no inicio do livro: “livros são cartas dirigidas a amigos, apenas mais longas”, um humanismo ligado a escrita.

Também a referência á humanitas de Cícero, uma oposição à selvageria e brutalidades que era os espetáculos no anfiteatro humano, mostra ao contrário de seus detratores, a preocupação com um pré-fascismo atual (ler o post de ontem), que vinha se desenhando e agora já é realidade em várias partes do planeta, e lembramos que o “humanismo nacional” do século XIX foi justamente onde se desenharam as duas guerras mundiais do século XX.

O que levou Heidegger a perguntar na sua Carta sobre o humanismo, e o livro de Sloterdijk é uma resposta, se uma manifestação cega de antropocentrismo levou a três concepções de confrontos trágicos do século XX: “o bolchevismo, o fascismo e o americanismo”, em sua resposta afirma Sloterdijk que o cristianismo, o marxismo e o existencialismo foram as três alternativas humanistas que “evitam a radicalidade última da questão sobre o ser humano” (Sloterdijk, 1999, p. 23).

A separação do homem em relação a natureza, e ao animal que na visão de Heidegger não +e a racionalidade, na imagem de Sloterdijk, Heidegger caminha entre eles como um anjo colérico em sua espada de fogo (idem, p. 25), marcando a clivagem ontológica entre o ser da biologia e o homem enquanto clareira do Ser, para quem o Ser se apresenta como Ser que escolhe para sua guarda, em sua busca para a “pacificação” que duas guerras mundiais sepultaram, e agora parecem esta no horizonte ao longe.

 

Porque é importante ler Sloterdijk

29 Ago

Informei no último post que além das esferas de Sloterdijk, li somente as Esferas I que foi publicada em português, que tenho minha própria esfera emprestada de Chardin: a noosfera, e as outras de Sloterdijk tenho comentários do próprio autor e de leitores e interpretes dele.
Um resposta que li recentemente de uma entrevista dele, me deu uma síntese importante de minha proximidade do pensamento dele, ao ser perguntado sobre o que esperava do mundo acadêmico, afirmou em tom cerimonial: “A partir do século 19 (pensemos em Kierkegaard, Schopenhauer ou Nietzsche), o mundo dos filósofos se divide entre aqueles que, como eu, buscam uma aliança com os meios de comunicação de seu tempo (naquela época, a literatura; hoje, a imprensa, o rádio e a televisão), e aqueles que não o fazem, apostando no clássico vínculo entre a universidade e as editoras de livros como seu único biótopo cognitivo”, entre muitas coisas que li, esta é a mais genial.
Não aposto nas Mídias de redes sociais, blogs como este que escrevo a dez anos, por modismo ou afirmação do meu pensamento, mas porque penso que é importante dialogar com o que é hoje mediático, me recusei a algum tempo, por exemplo, ao Twitter que é impulsivo e colérico.
Outro ponto de contato é sua visão da zona de conforto, na mesma entrevista veiculada no caderno Mais+ da Folha de São Paulo de 2003, mas que fortuitamente encontrei num site para reler o que havia me influenciado na época, que me fez logo comprar o livro: Regras para o Parque Humano, publicado pela estação Liberdade na virada do milênio, mas logo parei de ler.
Só retomei anos mais tarde alertado por um aluno para a importância de seu pensamento.
Esse ponto de segurança, portanto não é zona de conforto, explica: “Estamos pensando como o ser humano arquiteta a segurança de sua existência. Como ele vive? Como previne futuras eventualidades e catástrofes? Como se defende? Como se integra em suas culturas, entendidas como comunidades de luta? É uma mudança de paradigma: da filosofia para uma imunologia geral”, isto é, procuramos um “lugar” para estar seguro, há ai uma analítica do lugar, diria na minha análise, em frontal oposição ao pragmatismo niilista e kantiano.
Uma antevisão de Sloterdijk não pode deixar de ser percebida nesta entrevista, ao prever o fascismo nos EUA: “Do ponto de vista da teoria dos meios de comunicação, o fascismo é o monotematismo no poder. Se uma opinião pública se estrutura de tal maneira que a uniformização aumenta demais, temos um sintoma pré-fascista”, há vários pontos do planeta com este sintoma, e é claro, podemos mergulhar numa nova era fascistóide da pré-guerra.
Não há como deixar de ver isto em posições na America Latina, e no Brasil em particular.

 

A imunologia de Sloterdijk

28 Ago

O conceito imunológico de Sloterdijk, bem anterior ao processo de retorno ao nacionalismo que mergulhamos em diversos países, e até mesmo na America Latina, não é apenas uma explicação de forma individualizadas de viver, mas agora também da sociedade como um todo.
Mas Sloterdijk partiu da vida individualizada (ou biós, do grego) que era caracterizada como uma fase de sucesso de sistemas imunológicos, ou seja, a fase em que a relação com o homem com a natureza era de aprendizado, a definição da biologia sistêmica, para explicar que não pode existir uma forma de vida que não se preocupe com a conservação de suas estruturas imunitárias.
Assim afirmou o autor: “Se citarmos a afirmação metabiológica segundo a qual sistemas imunológicos seriam incorporações de expectativas de lesões ou expectativas de algum dano, fica claro que as culturas humanas, na medida em que essas representam a totalidade de procedimentos preventivos – ou, podemos dizer, as tradições –, são elaboradas com maior sensibilidade contra imunidade do que as espécies animais e vegetais. E nem todo mundo sabe que o conceito da imunidade originalmente não foi um conceito biológico, mas sim jurista, que foi utilizado como metáfora na biologia” (Critica da razão cínica, 1983).
Platão tinha um sistema parecido, mas fez uso de imagens e analogias na esfera “pastoral” para falar sobre a formação do individuo, para Sloterdijk esta associação s+olida entre o professor e o pastor, alunos e rebanho, só se dissolveu com pedagogias reformadas do século XX: “Na época, isso aconteceu após a Segunda Guerra Mundial, em instituições como Summer Hill, onde o aluno passou a ser pensado como um rebanho que se autoeduca” (SLOTERDIJK, 1983)
Sloterdijk acrescenta que a questão pedagógica de como educar o ser humano é sobreposta por um drama biológico evolucionário: “A segunda descoberta da necessidade de formar o ser humano como ser humano propriamente dito – ou seja, imunizá-lo com a domesticação contra a sua própria associabilidade – ocorreu no século XIX, quando Charles Darwin colocou o ser humano no final da série de evolução, em sua teoria sobre as espécies” (Sloterdijk, 1983), afirmou em sua obra.
Nosso ponto de vista é que há também uma esfera espiritual na qual o homem evolui, seu espírito evolui, a Noosfera, conforme descrevera este Teilhard Chardin.

 

Uso de Inteligência Artificial na educação

31 Jul

Segundo o relatório do grupo  editorial britânico Pearson   a Inteligência Artificial vai impactar positivamente o ensino nos próximos anos, diz o texto: “Imagine companheiros de aprendizagem ao longo da vida alimentados por Inteligência Artificial que possam acompanhar e apoiar estudantes ao longo de seus estudos – – dentro e fora da escola – ou novas formas de avaliação que medem a aprendizagem enquanto ela está a decorrer, moldando a experiência de aprendizagem em tempo real”.

Os que tem reticências e até mesmo oposição ao ensino com auxílio de IA argumenta que automatiza e individualiza o processo de aprendizagem, e a educação não seria assim, porém há muitas razões para defender esta nova ferramenta de apoio nas aulas.

A favor, a utilização destas ferramentas permitirá aos professores a avaliação do desempenho e a supervisão da aprendizagem de cada estudante, de forma individualizada, mas isto significa que dará mais atenção as fragilidades, e usando métodos estatísticos, agir e corrigir de forma mais rápida estas fragilidades.

Já quanto ao dispositivo, além do treinamento que assistentes pessoais tipo Alexa despertam, a aprendizagem de cada estudante permite pela acumulação de dados dar ao docente uma visão mais precisa do aluno no espaço virtual que ajude à evolução intelectual do aluno.

O questionamento e as discussões deverão se alargar até que a machine learning já esteja tão evoluída que sua presença no processo educacional seja irreversível.