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Arquivo para a ‘Linguagens’ Categoria

Vita activa

11 Set

Ainda Chyul-Han, o coreano-alemão de “A sociedade do cansaço”, parte da análise Ativode Vita Activa de Hanna Arendt (traduzimos Vita do latim, para vida até aqui), explicando que ela parte da prevalência na vida cristã da vida contemplativa, esclarece em nota que ela busca “uma mediação entre vita activa e vida contemplativa… assim descrita por São Gregório: ´temos de saber: quando exigimos um bom programa de vida, que passe da vita activa para a vita contemplativa, então, muitas vezes, é útil se a alma retorna da vida contemplativa para a ativa, de tal modo que se chama da contemplação que se acendeu no coração transmita toda sua perfeição à atividade.” (HAN, 2015, p. 39)

Esclarece o autor, que ela [Arendt]: “uma nova ligação de sua nova definição da vita activa com o primado da ação” (pag. 40), ela vai para um ativismo heroico, mas que ao contrário de seu mestre Heidegger que “pautou um agir decisivo no tema da morte” (idem), ela se orienta na possibilidade do próprio “nascimento do homem e no novo começo, em virtude de seu caráter nascivo, os homens deveriam realizar esse novo começo pela ação.”

Explica o autor que esta ação como nascimento, contém uma dimensão quase religiosa: “o milagre consiste no fato de os seres humanos pura e simplesmente nascerem, e juntos com esses, dá-se o novo começo que eles podem realizar pela ação em virtude de seu ser-nascido… “ (pags. 40 e 41),  citando Hanna Arendt.

Mas concerta uma possível interpretação moderna, pois Arendt que via na ação heroica inaudita de todas as capacidades humanas um “findar numa passividade mortal” (pag. 41).

Assim esclarece que as descrições de Arendt do animal laborans moderno não são aqueles da sociedade do desempenho, o animal “pós-moderno é provido do ego ao ponto de quase dilacerar-se. Ele pode ser tudo, menos passivo.” (pag. 41)

Acrescenta que a “perda moderna da fé, que não diz respeito apenas a Deus e ao além, mas á própria realidade, torna-se vida humana radicalmente transitória” (pag. 42).

Reivindica o homo sacer de Agamben, “são como mortos-vivos. Aqui, a apalavra sacer não significa ´amaldiçoado´, mas “sagrado”. Ora, a própria vida desnuda, que acabou se tornando radicalmente transitória, despida é sagrada, de modo que deve ser conservada a qualquer preço.” (HAN, 2017, p. 46).

HAN, B. C. A sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017

 

 

Pedagogia do ver e negatividade

06 Set

Já falamos de potência aqui, a famosa categoria de “vontade de Potência” Contemplarprimeira em Nietzsche e depois em Schopenhauer, lemos em Além do Bem e do Mal §36 assim: “O mundo visto de dentro, o mundo determinado por seu ‘caráter inteligível’ – seria justamente ‘vontade de potência’, e nada mais”, no entanto, tem mais sim, pois é também Vontade de Poder.

Se Thomas de Aquino define potência dividindo em Ato e Potência, pode-se reler em Assim falou Zaratrusta deste modo: “Potência é aquilo que quer na Vontade. E o que é a potência? É um eterno dizer-SIM, e isto tem tudo a ver como nosso modo de pensar e sentir, o filósofo germano-coreano Chyul Han, vê nisto um equívoco do pensamento ocidental, no empuxo: “daquela positivação geral do mundo, tanto o homem quanto a sociedade se transformam numa máquina desempenho autista.” (HAN, 2015, p. 56).

A potência se afirma na vontade quando diz “Sim” ao devir, pois é a afirmação pura de sua própria efetivação, a alegria provém da afirmação. E o sentido é o resultado destas forças, afirmou Nietzsche em Assim falou Zaratrusta.

Mas Han para tornar sua análise precisa divide a potência em duas formas: “A potência positiva é a potência de fazer alguma coisa. A potência negativa, ao contrário, é a potência de não fazer, para falar com Nietzsche: para dizer não … distingue-se da mera impotência, a incapacidade de fazer alguma coisa.  A impotência é simplesmente o contrário da potência positiva.” (HAN, 2015, p. 57).

O raciocínio que aproxima Han de Thomas de Aquino, e a meu ver define sua ontologia já que percebo este traço em outros trabalhos seus, é o aprender a ver, explica ele: “capacitar o olho a uma atenção profunda e contemplativa, a um olhar demorado e lento.” (HAN, 2015, p. 51).

A falta de espírito falta de cultura repousaria na “incapacidade de oferecer resistência a um estímulo” afirma o coreano HAN leitor de Nietzsche, e afirma que ele nada mais faz do que propor a “revitalização da vita contemplativa.” (HAN, 2015, p. 52)

Conclui, ou praticamente conclui porque volta neste capítulo a falar da negatividade, faz uma lógica absurda se “tivéssemos a potência apenas de pensar algo, o pensamento estaria disperso numa quantidade infinita de objetos. Seria impossível fazer a reflexão (Nachdenken),pois a potência positiva, o excesso de positividade, só admite o continuar pensando (Fortdenken). (HAN, 2015, p. 58).

Thomas de Aquino, Nietzsche, de certa forma Hegel, e vários filósofos contemporâneos discutiram isto antes do mundo virtual e maquínico, mas fica para o próximo post.

HAN, B.C. A sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes , 2015.

 

O que a tragédia de Edipo Rei ensina

17 Ago

Há nesta tragédia de Sófocles, um claro conflito entre o livre arbítrio e o destino, e questionaEdipo até que ponto somos donos de nosso destino, se consideramos que existe uma força superior a nossa simples vontade humana, viveremos de maneira mais humilde e aceitaremos o destino de nossas vidas, ainda que lutemos para melhorar nossa sorte (que os gregos chamavam de fortuna). 

A tragédia narra a estória de Édipo, filho de Laio e Jocasta, era o rei de Tebas, a cidade que fora assolada por uma peste. Ao consultar o oráculo de Delfos, Édipo descobriu algo trágico sobre sua vida: ele foi amaldiçoado pelos deuses. Ele estava destinado a casar com sua mãe, com quem teve dois filhos e duas filhas, e a matar seu pai, o rei que governava a cidade antes de Édipo.

Seu pai Laio sabia da maldição e quando tive o filho abandonou amarrado a uma árvore entre Tebas e Corinto e sendo encontrado por um pastor foi criado por ele, já adulto Edipo decide retornar a Tebas e mata seu pai, em Corinto se casa com sua mãe Jocasta, sem saber quem ela era, e mais tarde ao saber que era sua mãe ela se mata e Édipo perfura os próprios olhos.

Perambulando pela cidade encontra a Esfinge, ser mitológico metade mulher e metade leão que aterrorizava Tebas com seus enigmas, a Esfinge lhe propõe o anima: “Qual é o animal que de manhã tem quatro pés, dois ao meio dia e três à tarde?

Édipo responde que essa figura é o homem, porque o homem na infância engatinha, na idade adulta anda ereto com os dois pés, e na velhice necessita da bengala (o terceiro pé) para se apoiar, mas no fundo a Esfinge lhe propõe o enigma sobre quem é o homem e o que é sua vida.

A estória carregada de simbolismo, influenciou até a psicanálise que chama os dramas da infância de “complexo de Édipo”, o casamento com a mãe também significa a relação que mandemos mesmo em idade adulta com a figura feminina ainda hoje numa sociedade machista.

Também a relação de Édipo com o sábio Tirésias é particularmente interessante, este não possuía a visão física, mas tinha sabedoria, enquanto Édipo que tinha a visão física lhe falta uma visão interior, quando começa esta visão quando desabafa com Jocasta: “Com esta narrativa me traz a dúvida ao espírito, mulher. Como perturba minha alma”, mas a rainha também é ambígua ao dizer que entregou o bebê a um pastor de sua confiança, o que mostrava sua incredulidade com os oráculos, tendo uma postura autoritária.

Não é por acaso que Aristóteles considerou a obra Édipo Rei como símbolo da tragédia grega.  

 

 

A tragédia e o destino

16 Ago

A incompreensão da dor e da tragédia em nossos dias nos faz criar abismos Atragediae dores ainda maiores, não somos capazes de abraçar a própria dor e a alheia, mas há esperança.

A tragédia era derivada da poética e também da tradição religiosa da Grécia Antiga, possuindo raízes nos chamados ditirambos, cantos e danças realizados em homenagem e honra ao deus grego Dionísio, que os gregos chamavam do deus Baco.

Alguns afirmavam que as canções eram criadas pelos sátiros, que eram seres que cercavam Dionísio em suas festanças, foi isto que deu origem ao nome, das palavras gregas τράγος e ᾠδή, que significam respectivamente bode e canto, originaram na palavra tragosoiodé, canções dos bodes, daí a expressão bebeu como um bode, mas o importante aqui é a questão da tragédia como dor e desencanto, assim o derivado des-em-canto.

Mas a mudança, criticada por Nietzsche, foi a feita por Euripides que viveu de 480 a.C. a 406 a.C. , que opunha-se a Sófocles por ser realista demais e pessimista demais, mas o mundo dos deuses, já em Sófocles, se mostrava ausente e incompreensível, mas com Eurípides tornou-se algo ainda mais distante, de onde vem a expressão moderna “humano demasiado humano”.

Assim a sociedade do desencanto, gostamos não da tragédia da vida, mas do realismo trágico da violência, do mau feito e do mundo em desencanto.

É disto que bebem os tiranos, os extremistas e os insanos, por isto vemos uma crescente onda de racismo, intolerância e má política, só os tiranos podem se aproveitar deste ambiente, veja-se Charlotesville.

 

 

Sistemas peritos, confiança e fé

10 Ago

Toda a teoria de Giddens, revista em alguns aspectos nos posts anteriores,almoco_1932 é condicionada a estruturação e ao que chama de sistemas peritos, mas estes por sua vez estão fundamentados naquilo que chama de confiança também já explicada nos posts, com ressaltas a questão da fé.

Os sistemas peritos, conforme vistos por Giddens são o mais importante mecanismo de desencaixe, descritos assim:  “sistemas de excelência técnica ou competência profissional que organizam grandes áreas dos ambientes material e social em que vivemos hoje”. Apesar da maioria das pessoas leigas consultarem, apenas periodicamente, profissionais mas todos eles sob grande suspeita, por isto tantas teorias novas e tantos “sistemas alternativos”.

Embora o autor admita que a fé: “a confiança é inevitavelmente, em parte, um artigo de ” (Giddens, 1991, pag. 39), porém acrescenta: “há um elemento pragmático na , baseado na experiência que estes sistemas [peritos] geralmente funcionam como se espera que eles o façam” (idem).

Admite por último que embora fé e confiança “estejam intimamente ligadas” faz uma distinção entre as duas e se fundamentará para isto a distinção que Luhmann faz em faz em sua obra sobre confiança Trust and Power (Chichester: Wiley, 1979), o resto fica muito vago.

É importante dizer que esta fé não é propriedade exclusiva das cosmogonias ocidentais, na verdade todas religiões mesmo as não ocidentais terão alguma forma de fé, que isto sim é necessário distinguir de crença como crença em um só Deus (religiões monoteístas), em muitos Deuses (politeístas), onde não só humanos mas também animais, plantas, rochas, características naturais possuem “alma” sem diferenciá-las do mundo físico.

A fé é uma adesão a alguma hipotese que a pessoa aceita sem nenhuma prova racional e isto está na origem etimológica do latim fide, aqui razão não tem o significado moderno, mas o de raciocínio feito na mente, assim ela não seria cega, mas apenas antes de qualquer raciocínio, um epoché moderno, ou seja, tem uma forma de razão que é aceitar coisas além de nossos pré-conceitos.

Significa em última análise um passo a frente não no escuro, mas no mistério e ainda mais importane que isto é encontrá-lo avante, significa sair do limite do “sistema”.

A maioria das pessoas dá este passo por se encontrar (aparentemente) diante de um abismo, de um vazio, porém poderia fazê-lo conscientemente (assim não é totalmente cego) se acreditasse no que vem pela frente, tipo faça e tenha fé que tudo está bem, como a foto clássica de trabalhadores numa viga suspensa no que seria hoje, o RCA Rockefeller Center, tirada no dia 20 de setembro de 1932 e publicada no New herald Tribune em 2 de outubro daquele ano.

 

Pós-modernidade, uma volta ao início e a atual

09 Ago

O autor (Anthony Giddens) que estamos lendo, faz exatamente no capítulo da “confiança”Fiducia uma abordagem ao nihilismo fazendo uma crítica em bloco a Nietszche e Heidegger, com a qual não estamos de acordo, mas não deixa de ressaltar a importância de ambos, o primeiro por ter feito uma ruptura com o iluminismo, e o segundo (ainda que não diga diretamente) que a “nova perspectiva” (qual a do iluminismo??) superava a “tradição do dogma” (pg. 89).

Diz o autor que “o pós-modernismo tem sido associado não apenas com o fim da aceitação de fundamentos como o ´fim da história’” (pg. 60) o que é verdade, mas deve-se fazer uma breve distinção entre pós-modernidade e pos-modernismo, o primeiro é o fenômeno o qual desde de Nietszche é apontando, mas desenvolvido com Husserl, Heidegger e Gadamer, já o segundo é a ideia que a próprio fenômeno já seja uma nova etapa da humanidade.

Chama ao exercício de tentar aproximar a questão da consciência história (nome que considero mais correto para a historicidade, veja-se Verdade e Método de Gadamer) de “futurologia” e vai chamar de “desencaixe” esta ideia que após mapear o passado possa se pressupor “uma orientação futura deste tipo” (pag. 61), então retoma a “elucidação do pensamento moderno”, mas não deixa de fazer o discurso convencional; “este processo como um processo de globalização, um termo que deve ter uma posição-chave no léxico das ciências sociais” (p. 62), o que não deixa de ser um discurso que faz um “desencaixe” com a tradição, para usar o argumento do próprio autor, deve-se rever o iluminismo sem apelar para ele.

O discurso e aqui encontramos contradições no seu modelo de confiança, a “apropriação reflexiva do conhecimento” que tenta negar o progresso do período iluminista ao afirmar: “deslocado a vida social da fixidez da tradição”, o que chama de “fixas simbólicas e sistemas perigos” que de fato envolvem confiança é colocado num modelo sistêmico, pois a vê como distintas do modelo de “crença baseada em conhecimento indutivo fraco”, o também é uma crença, o problema é justamente coloca-la em diálogo com a tradição para emergir o novo.

Vê o conhecimento com um “poder diferencial” com alguns indivíduos ou grupos mais aptos para adquiri-los, mas o processo de mundialização do conhecimento não é o inverso ?

Estamos de acordo com o poder dos valores e o impacto das consequências não pretendidas, conforme seu conceito que “à vida social transcende as intenções daqueles que o aplicam para fins transformativos”, não seria justamente isto a questão da consciência histórica ?

Sua hermenêutica dupla, que a vê como “a circulação do conhecimento social” que deve ser aplicado “reflexivamente” alteraria as circunstâncias originais, é puro romantismo.

Vai fazer alusões ao sua categoria-chave que é a globalização, com alguns enfoques diferentes de outros autores, mas dentro da visão fechado dos que seguem o modelo de sistema, não por acaso começa com considerações sobre McLuhann.

sem considerar o paradoxo do neo-positivista Kurt Gödel que afirmava que o sistema já tem suas contradições internas e só pode ser provado como verdadeiro por uma asserção externa, no caso da pós-modernidade que já é a externa, devemos dialogar com a tradição para que seus conceitos-chave: liberalismo, capitalismo, estado, lógica, legalidade, entre muitos outros, sejam feitos não apenas em uma dupla hermenêutica, mas numa hermenêutica aberta onde os pré-conceitos de qualquer hermenêutica “fechada” possa ser superada.

 

O vazio e a transfiguração: espiritual ou existencial

04 Ago

A transcendência de Kant e de todo idealismo não é senão a negação existencialTransfiguraçãoJesus do objeto, ou diríamos no raciocínio de Husserl o objeto-no-mundo, sua mundialidade, mas o que acontece nessa variação entre minha percepção e o mundo ?

Segundo Husserl, os objetos do mundo se apresentam sob vá-rias perspectivas (Abschattungen), assim uma cadeira diante de mim pode ser apreendida sob diversas variações de perfil (Abschattung).

Para apreender conforme a epoché, o objeto deve ser submetido às diversas variações possíveis de perfil no intuito de se apreender a essência desse mesmo objeto, isto é, aquilo que permanece inalterado no mesmo, e isto é sua redução fenomenológica (epoché) ou um depurar do fenômeno a fim de se alcançar o objeto com total evidência, a essência do fenômeno, ou seja seu eidos (de onde veio a ideia moderna), mas esta variação é objetiva e subjetiva ao mesmo tempo, a isto chamou de variação “eidética”.

Chegamos então a epoché, o fazer um vazio completo usando a redução transcendental, onde mergulhamos num estado que pode parecer uma perda da consciência do mundo real, mas ao contrário de tornar o fenômeno mais problemática, ao re-apresentar o fenômeno de maneira transcendente, ele é mais consciente, mais evidente.

Na passagem bíblica da transfiguração, onde Jesus aparece “transfigurado”, os apóstolos queriam ficar ali pois o mundo “eidético” (ao lado apresentamos o belo quadro de Giovanni Bellini que representa a figura, vemos a Trindade tendo Jesus ao centro e duas figuras mais velhas ao lado, porque a razão idealista é incapaz de tornar-se verdadeiramente eidética, isto é, ver a mesma pessoa em três perfis, e mais grave, uma humana, uma sumamente divina e feliz a terceira não é nem uma pomba nem um fogo, mas outra figura humana, o renascentista Bellini não era ainda um idealista (veja ao fundo um camponês em sua vida normal), mas ainda havia nele o dualismo céu e terra, os apóstolos queriam permanecer ali, mas Jesus quer descer do monte Tabor e volta a terra:

O evangelho de Mateus diz que Pedro pensava tratarem-se de três pessoas bíblicas, ao afirmar: “Pedro tomou a palavra e disse: ‘Senhor, é bom ficarmos aqui. Se queres, vou fazer aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés, e outra para Elias. Pedro ainda estava falando, quando uma nuvem luminosa os cobriu com sua sombra … saiu uma voz que dizia: Este é meu filho amado … “, humano e transcendente, precisaram de concílios para estabelecerem a natureza divina e humana de Jesus, mas a Trindade é ainda `oculta´ para os que apenas só divinizam ou humanizam Deus, os sujeitos e objetos, então o “mundo relacional” continua complicado, eis a crise cultural e espiritual do mundo moderno, mas relação com o objetivo e subjetivo. 

 

O vazio e a epoché em Husserl

03 Ago

Se há alguma semelhança entre a epoché husserliana e a dúvida metódicaConscienciaPleiadeana de Descartes, é simples aparência, pois o epoché (colocar entre parêntesis) serviu para Husserl adentrar ao âmago das aparições das coisas à consciência.

Assim esta suposta semelhança entre os dois filósofos não autoriza quer dizer que a epoché, ao pôr o mundo de lado, ponha em dúvida a existência das coisas, e esta dúvida conduzirá o idealismo, com a Crítica da Razão “Pura”de Kant e outros que virão depois um dualismo entre o mundo objetivo e o subjetivo.

Com a epoché de Husserl não se pretende propriamente duvidar da existência do mundo e de seus objetos, nem muito menos ainda rejeitar a intuição que temos de conhece-lo, reduzindo a consciência a alguma espécie de transcendência.

O mundo ancorar-se-á apenas sob o aspecto como se apresenta na consciência “reduzido à consciência”, como já defendemos aqui, o método fenomenológico de Husserl promove uma revisão no cogito cartesiano.

O método husserliano da redução fenomenológica traz consigo ainda outras noções que devem ser aqui apresentadas: o transcendente e o transcendental, sendo o transcendente, a consciência como a vê Husserl, é a percepção cotidiana e habitual que temos das coisas do mundo, não uma cadeira mas esta cadeira, esta árvore, este livro, assim o transcendental “é a percepção que a consciência tem de si mesma” (ABBAGNANO, 2000, p. 973).

Pode-se então dizer que “o transcendente é o mundo exterior” enquanto o transcendental “é o mundo interior” da consciência (HUSSERL, 2008, p. 18), foi assim que redefiniu as noções de noema noese, pois existiam na antiguidade.

Este vazio para apreender o objeto, uma vez que acontece na ‘consciência pura’ ou ‘transcendental’, são as vivências perdem inteiramente o seu caráter psicológico e existencial para conservarem apenas a relação pura do sujeito plenamente purificado ao objeto enquanto consciente, e isto é o desocultar, o conhecer.

Há uma distinção entre o objeto percebido e o noema: “o noema é distinto do próprio objeto, que é a coisa; p. ex., o objeto da percepção da árvore é a árvore, mas o noema dessa percepção é o complexo dos predicados e dos modos de ser dados pela experiência.” (ABBAGNANO, 2000, p. 724).

Em que medida esta experiência pode ser “transcendental” é a questão final.

ABBAGNANO, N. Dicionário de filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

HUSSERL, E. A crise da humanidade europeia e a filosofia. Porto Alegre; EDIPUCRS, 2008.

 

Aspectos da fenomenologia

02 Ago

Tanto as ciências chamadas “puras” como outras ciências experimentais,consciencia-intencionalidade partem dos dados empíricos ou hipóteses “práticas” para daí desenvolver seus postulados, Husserl advertia que  a instabilidade dos dados empíricos assim como boa parte dos postulados teóricos não fornecem o rigor necessário no que concerne à investigação filosófica.

Nos aspectos essenciais a ciência positivista ou estringe seu campo de análise ao experimental, ou considera como “fenômeno” regiões que estão veladas por algum rigor metodológico limitando uma análise geral mais compreensiva e não explicativa de determinados fenômenos.

O que Husserl entendia por “análise compreensiva” é aquela que se referência a consciência e esta por sua vez está fundada em vivências (Erlebnis) do mundo se dão na e pela consciência, de onde vez seu postulado “toda consciência é consciência de algo”.

É nesta perspectiva que Husserl toma de seu mestre Franz Brentano sua categoria mais essencial a intencionalidade, assim a intenção é uma característica geral desta consciência.

Eis o primeiro ponto na análise do fenômeno, então diferente do cogito cartesiano que ganha um significado novo a partir da intencionalidade (a consciência de algo) que ao contrário de ser “clara e distinta” como queria Descartes, é dirigida (tem intenção) de algo.

Além da intencionalidade Husserl considera a intuição e a evidência apodítica, sendo a intenção de um objeto (o exemplo é um livro sobre a mesa), havendo o “conteúdo significativo” (Bedeutungsintention) de algo, então “significamos intencionalmente” (meinen) algum objeto, sem considerar ainda a sua presença,

A intuição é então o preenchimento duma intenção, então pode considerar a “evidência” é a consciência da intenção, portanto é intuitiva, mas na medida que existe uma “consciência do fenômeno”, e neste sentido é apodítica, ou seja, é evidente por si, não há necessidade de provas.

Um último aspecto é o hylé, a “matéria subjetiva” que compõe uma percepção qualquer, embora hajam os “dados hiléticos” que seriam “dados constituídos pelos conteúdos sensíveis, que compreendem, além das sensações denominadas externas, também os sentimentos, impulsos, etc.” (dicionário ABBAGNANO, 2000, p. 499) . não são apenas a “matéria” sobre a qual a consciência se dá, e não são empíricos.

Aparece então o epoché husserliano, que é o colocar em parêntesis, exploraremos depois.

 

A importância da fenomenologia

01 Ago

A importância da fenomenologia de Husserl, é que realizou de uma só vez aFenomenologia1 crítica ao psicologismo, através de seu posto mais avançado de seu mestre Franz Brentano, ao relativismo característico de nosso tempo e da modernidade e ao historicismo, em um trabalho pouco conhecido de J.F. Lyotard) ele frisou: “a esperança cartesiana de uma Mathesis universalis renasce em Husserl” (1957, p. 6), ainda que Lyotard mais tarde o critique.

O tema da epoché não é retornar a um retorno ao tema clássico da antiguidade, mas aquilo que chamou de “tese de um pressuposto: o homem está mergulhado em uma espécie de ´tese geral, isto é, uma compreensão implícita do mundo; o mundo é então essencialmente familiar ao homem, e, é dentro desta naturalidade que pretende-se dizer o que é conhecer o real:

“Eu tenho consciência de um mundo que se estende sem fim no espaço, que tem um desenvolvimento sem fim no tempo … descubro [o mundo] por uma intuição imediata, tenho experiência dele.” (1991, p. 37)

Ele entende por atitude natural, aquela  que não cessa “de realizar o mundo como ontologicamente válido … Minha vida em todos os seus atos é de parte a parte orientada ao ente que pertence a tal mundo, … são interesses por coisas do mundo, realizando-se em atos que concernem a essas coisas, enquanto elas são correlato de minha intenção.” (1989, p. 519).

Então é sobre esse “ser no mundo” (Husserl foi aluno de Heidegger e sua expressão é anterior), é um Selbstverständlichkeit, e isto não pode ser posto em dúvida, então como se realiza seu epoché ? é tornar-se cético e como isto como a abstenção ante a inconstância no “espetáculo do mundo”, ou o que Husserl definiu como “distância em relação às validações naturais ingênuas” (Husserl, 1989, 154), mas esclarece que não é a “crítica ao conhecimento”.

A consciência do meio natural como uma “realidade existente” (daseiende: talvez daí Heidegger tirou seu dasein), mas ele questiona a duração dessa atitude: “É algo que persiste tanto quanto dura a atitude, isto é, tanto quanto a vida da consciência vigilante segue seu curso natural” (Husserl, 1991, p. 96).

O importante e isto está em seu opúsculo Meditações Cartesianas, não se trata de estabelecer uma “dúvida universal” pois não põe o ser em dúvida, mas somente os seus atributos, assim assume tensões universalistas, e agora é a fenomenologia que pode, com propriedade, ser concebida como transcendental, uma vez que permite por epoché uma “alteração total da atitude natural da vida” (Husserl, 1989, p. 168), colocando em cheque a objetividade como tal.

A epoché é então “uma certa suspensão do ulgamento que se compõe com uma persuasão da verdade que permanece inabalada” (Husserl, 1991, p. 100)

Ao operarmos esta epoché original, já o estudo de Lyotard sobre fenomenologia me 1956 também apontava isto, mostra a insuficiência que o procedimento radical de Descartes como dúvida tinha limitações, dito por Husserl assim:

“sendo dado que toda tese ou todo julgamento pode ser modificado com plena liberdade, e que todo objeto sobre o qual refere-se o julgamento pode ser posto entre parênteses, não permaneceria margem para julgamentos não modificados, ainda menos para uma ciência.” (Husserl, 1989, p. 102).

HUSSERL, E. La crise des sciences européennes et la phénoménologie transcedentale. Trad. G. Grande. Paris: Gallimard, 1989.

HUSSERL, E. Idées directrices pour une phénoménologie. Trad. Paul Ricoeur. Paris> Gallimard, 1991.