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Arquivo para a ‘Museologia’ Categoria

O primeiro contato com Gaudi

18 Mar

O artista, arquiteto e diria místico Antonio Gaudi i Cornet (1852-1926) só vai nos impressionar se andamos por sua obra, sentimos o seu “aroma”, tudo o que li nos livros foi abaixo, por isto foi mesmo meu primeiro contato. 
Foi uma decisão estratégica ver Gaudi em Barcelona de fora para dentro, a última coisa do primeiro dia foi ver a sua principal obra A Sagrada Família, no seu coração, nem sempre é aberta ao público, no nosso caso para uma missa: na cripta.
O dia seguinte foi para passear pelo cais e os locais onde Gaudi ia, também passamos pela esquina onde o Bonde (elétrico em Portugal) o atropelou, ficou dias incógnito até o reconhecerem e no terceiro dia faleceu.
Passei rapidamente, mas a Casa Vicens (1883-1888) é uma casa de verão desenhada por Gaudi, encomendado pelo dono de uma fábrica de tijolos e de ajulejos, Manuel Vicens, que deste 2016 tornou-se museu aberto ao público, marca seu estilo em transição.
As primeiras obras suas que fui ver, no dia seguinte, foram o candeeiro público na Praça, uma obra de sua juventude, a casa de Milà (foto) depois a Casa Batlló, feita de 1904 a 1906, com a companhia de um amigo Javier que me explicou o futurismo da obra com espaço para luzes e ar no interior do prédio, e os contornos rebaixados nas pontas, para não ofuscar a arquitetura do prédio ao lado.
Depois de passar por várias outras obras fomos a Sagrada Família, cujo projeto está sendo terminado por outros arquitetos respeitando as ideias de Gaudi, começou em 1883 e fez até o dia que foi atropelado.
As imagens estão todas do lado de fora, é uma verdadeira escola bíblica (ele dizia que ia fazer uma catequese de pedra e a fez), e dentro as luzes e o som dos órgãos de tubo (me pareceram dois, não confirmei), parecem ser um templo todo a orar, como foi definido “templo expiatório”, mas prefiro mesmo Catedral da Sagrada Família.~
De 1984 a 2005, sete de suas obras foram classificadas como patrimônio Mundial pela UNESCO e sua devoção católica que se intensificou durante sua vida, rua obra rica no imaginário e diria até na cosmogonia religiosa, levou a uma proposta de sua beatificação.

 

A Web fez 30 anos

13 Mar

Ainda confundem a internet, a Web e a Rede, embora possam estar superpostos, são aspectos diferentes que unidos deram uma cara ao mundo, os pessimistas dizem pior, os otimistas dizem que aponta para o futuro, os realistas dizem que é um novo tempo com dificuldades e facilidades, bem utilizadas serão promissoras para o futuro.
No dia 9 de março, no CERN onde trabalhava Tim-Berners Lee quando fez uma proposta de um interpretador para a Internet chamada pelo termo Web que significa teia (foto), a ideia de seu artigo original era uma facilidade de manusear textos científicos online que no mesmo momento que fossem escritos estivessem prontos para serem lidos, o que fazem blogueiros e twiteiros hoje, mas isto foi a Web 2.0 em 2005.
Em Genebra no CERN Berners-Lee se reuniu com Robert Cailliau, engenheiro informático pouco citado, mas foi de fato quem fez o primeiro sistema de hipertexto, a eles se juntaram outros especialistas para discutir o presente e o futuro da World Wide Web, ou a Web.
O evento, denominado Web @ 30, foi aberto no dia de ontem (12/03) pela Diretora Geral do CERN Fabiola Gianotti, em colaboração com duas organizações fundadas por Berners-Lee: a World Wide Web Foundation e o World Wide Web Consortium (W3C), recentemente o CERN restaurou o primeiro website e o navegador de modo online brower, mostrado no evento Hackathon (de 11 a 15 de fevereiro de 2019).
Os problemas de segurança, politicas de manutenção da internet livre, governos e estruturas empresarias desejam seu controle e em alguns países não é um serviço livre, fake news e outros foram temas de debate.
Um tema promissor para o futuro é o projeto SOLID, já fizemos um post sobre ele, está em pleno desenvolvimento com a colaboração de pesquisadores do MIT, mas a espectativa é alta e ainda haverá muito trabalho de especialistas para dar ao mundo uma Web confiável.
O hobista Suhayl Khan mostrou como acessar o browser em modo online usando tecnologia dos anos 1960 (quando só havia internet e com poucas facilidades) (Video: Suhayl Khan):

 

Aroma, tempo e flores

11 Mar

O tempo urge, tempo é dinheiro, o ser e o tempo, porém a interpretação do tempo não é secundária, considerá-lo absoluto, ou mesmo a “quarta dimensão”, que depende dele, mas não o é, tempo é duração e quanto não o sentimos perde o “aroma”.
Assim o define Byung-Chul Han em seu “O Aroma do tempo: um Ensaio Filosófico sobre a Arte da Demora” (Relógio d´Agua, 2016) que usando Marcel Proust o define assim: “A sua estratégia temporal frente a essa época apressada consiste em contribuir para que o tempo recupere a duração, o Aroma” (Han, 2016, p. 57).
O romance de Proust que se refere é “Em busca do tempo perdido”, não se apresse não tem nada a ver com o universo digital, está falando de uma obra publicada em sete volumes entre o anos 1913 e 1925, em sete volumes, período da fundação da loja Pequeno Jardim em Lisboa, no Bairro Alto, na rua Garret, 61 (foto, ainda está lá).
Fala da “destemporalização” do Ser, perder a continuidade, a permanência, faz uma citação de Proust de algo que já senti, mas no sentido inverso: “O homem que fui já não existe, sou um outro”, e diz que isto é uma crise de identidade, senti a mesma crise porém num sentido oposto, algo que encontrei numa poesia portuguesa contemporânea chamada Café Orfeu.
Diz a poesia do português Manuel António Pina, ao final: “E a [vida] que eu regressava, lentamente como se antes do teu sorriso alguém (eu provavelmente) nunca tivesse existido”, claro fala de um encontro de uma pessoa, pode-se pensar o sorriso como vida (suposta no texto com meu acréscimo), ou como desejaria Marcel Proust um aroma encontrado, os cheiros que senti e provei em Lisboa.
Como penso em reflorescimento, tema de Martha Nussbaum para uma retomada do “aroma do tempo”, lembro de um fado de Amália Rodrigues que diz que “cheira bem, cheira à Lisboa”, a letra fala de flores na tapada, diz a letra do fado entre outros versos:
“Um craveiro numa água furtada
Cheira bem, cheira a Lisboa,
Uma rosa a florir na tapada
Cheira bem, Cheira a Lisboa”
Lisboa tem cheiro de flores e de mar, diz ao final, mas as flores são de plástico, e se não cuidarem (as sardinhas estão a desaparecer) o mar também será de plástico, mas estou a sonhar com um “reflorescimento”.
Segue o fado, da imortal Amália Rodrigues:

 

Vencedores do Oscar 2019

25 Fev

Green Book: o guia, levou o melhor filme, e Peter Farelly ao receber a estatueta afirmou “sabermos amar uns aos outros, apesar das diferenças”, Roma do mexicano Alfonso Cuarón levou três estatuetas e filme sobre a banda Queen foi o maior vencedor da noite, com quatro prêmios.
A Rapsodia além de Melhor roteiro adaptado, melhor Ator Coadjuvante com Mahershala Ali, melhor ator Rami Malek que interpretou Freddie Mercury.
Spike Lee ganhou seu primeiro Oscar real, pois havia recebido um prêmio honorário em 2006, foi o de roteiro original em “infiltrado na Klan”.
“Pantera Negra” levou 3 prêmios técnicos, com dois inéditos, além de trilha sonora, ganhou melhor figurino (o 1º para profissional negro) e melhor direção de arte (1º para uma mulher negra).
Lady Gaga não foi a Melhor Atriz, mas levou Melhor Música por “Shallow”, foi Olivia Colman de “A favorita”, que ao receber pediu desculpas a Glenn Close (“A Esposa”) que era a favorita de fato.
Ao fugir do círculo restrito de Hollywood com atores e diretores estrangeiros, também a magia parece mudar, os filmes Green Book e Roma deslocam-se para contar autobiografias, assim como o “Bohemian Rhapsody”, a magia ficou para Pantera Negra.
Há outros prémios claro, mas os badalados ficaram nesta linha.

Gree Book – Trailer

Roma – Trailer

 

A ilustre casa de Ramires, a venda

23 Jan

Este romance no mais maduro e também típico de Eça de Queiroz porque reflete sua técnica narrativa em uma linguagem um pouco arcaica, faz uma trama bem pensada na qual traz aspectos de Portugal do século XII, um povo heróico e até violento, e outros aspectos de Portugal do século XIX já com feições modernas.
A trama usa para isto uma técnica surpreende, usando um conto do século XII, o período heróico de Portugal e uma realidade do século XIX, em contraste.
O jovem Gonçalo Ramires procura através da política e de viagens para a África arranjar a vida, depois de reconstruir suas finanças retorna a Portugal e vai incorporando a estrutura e os valores de seus ancestrais, neste ponto Eça de Queiroz retrata os antepassados
No Seculo XII viveu Tructesindo Mendes Ramires, narrado como de espírito integro rígido e audaz e vai vingar seu filho Lourenço que viu morrer no alto da sua torre em uma emboscada de Lopo de Baião, antigo noivo da filha e traidor de Ramires e do rei Sancho I.
A história é de certa forma revivida pelo jovem Ramires que vê a irmã Gracinha Ramires que vê o ex-noivo a acedia-la e esta acaba casando-se com o inocente Barolo, revivendo o problema de seus antepassados.
A casa de Ramires existe na vida real, inclusive a famosa Torre, e está em ruínas e a venda é a notícia em Portugal, a Casa da Torre da Lagariça, em Resende (de Portugal), norte de Portugal na região de Viseu, está a venda por valores perto de 1 milhão de euros.
Vou quase todo dia a Confeitaria Cister, local predileto de Eça de Queiroz, perto de onde trabalho, brinco que não o encontro ali … mas sua alma e pensamento parecem presentes.

Queiroz, Eça. A ilustra casa de Ramires. Primeira versão em 1900  (em epub, em pdf).

 

Uma releitura dos reis magos

04 Jan

Em tempos de fundamentalismo e intolerância religiosa, uma releitura dos reis magos que foram adotar e também “contemplar” o nascimento de Jesus é essencial para o diálogo.

A primeira necessária é que Deus se comunicou com os “magos” do oriente, ela pode reabrir corações fechados para re-ligações (religião do verbo em latim religare que é religar), pois eles não eram sequer religiosos no sentido convencional, mas magos e Deus os religou.

A segunda é que a comunicação divina foi através de astros, que significa que eles podiam entender esta linguagem e que Deus falou na língua humana deles, ou seja, há formas além das dogmáticas de comunicação entre Deus e os homens, mesmo não crentes.

A cosmologia é uma parte antiga e fundamental da filosofia, sua evolução e composição estuda o universo, e vem desde a antiguidade, os pré-socráticos a estudavam, buscam também a explicação da origem e da transformação da natureza e do universo e constroem mitos e divindades, criando uma relação entre seres mortais e imortais.

Então Deus não é tão indiferente a isto, uma proposta universal não deve desconsiderar a cosmologia, e se deseja construir uma cosmogonia, isto é princípio e fim de toda a vida, então uma escatologia é também construída, e a escatologia cristã pode estar relacionada a esta, não é afinal Deus princípio e fim de tudo ?

Esta segunda releitura, a questão dos astros, de fato ainda hoje se buscam evidencias cosmológicas da estrela que os Reis Magos seguiam, um astro, um cometa, isto poderia ajudar a datar o natal de uma data mais precisa.

Teólogos como Teilhard Chardin não deixaram de considerar a hipótese cosmológica, a noção de um universo cristocêntrico ajuda a uma interpretação não fundamentalista de uma escatologia mais complexa, e por isso recorremos no post anterior a São Gregório de Nazianzeno.

A terceira é que os reis magos foram “contemplar” o menino-Deus, além da vita activa, Hannah Arendt também falou dela em A condição Humana (publicado em 1956, com edição brasileira de 2009), que vem da conferencia Trabalho, Obra e Ação (publicação brasileira de 2006), mas já falavam desta questão Aristóteles no bios politikos e a vita negotiosa ou actuosa em Agostinho, e, recentemente Byung Chull Han em A sociedade do cansaço.

Mas não vieram adorar apenas, onde o elemento oferecido incenso é essencialmente isto, mas também trouxeram ouro no sentido de riqueza e mirra no sentido de sacrifícios oferecidos.

Os reis magos deveriam significar a abertura do cristianismo a outras linguagens que também são uma expressão do infinito, do universo e da vida construída de modo sagrado em todos e em tudo.

 

Cultura e cristianismo

03 Jan

Uma das fortes reivindicações de pensadores da crise da modernidade é a abertura do pensamento a espiritualidade, ao universo metafisico e ao mistério de que mesmo os mais céticos devem reconhecer, mais de 90% do universo que são massa e energia escuras,  e são estudados.
A cultura contemporânea separou o saber dito científico, mas que é também cultural, do saber teológico, espiritual e cristão, não foi sempre assim, e o diálogo sempre é possível.
Ainda antes do período Romano, São Gregório Nazianzeno (ícone a direita), era conhecedor do helenismo e o cultivador da cultura antiga dentro da cultura cristã, por isso foi chamado Gregório Teólogo, logos é estudo e assim alguma sistemática e metodologia eram necessárias.
Gregório nasceu em Arianzo, na Capadócia, perto de Nazianzo, ele e o irmão realizaram estudos de retórica e filosofia e depois estudaram também em Alexandria e Atenas.
Quando falamos de ritos de Niceia e de Constantinopla, estamos fazendo dos cismas de seu tempo, entre o Concílio de Constantinopla (381), e o que Gregório foi chamado por seu arcebispo para liderar na tentativa de unificar a fé cristã, o Concílio de Antioquia, em 368, que discutia a Trindade.
No campo teológico além da contribuição para a compreensão do Espírito Santo, para o qual cunhou uma palavra nova que era a “processão”, em suas palavras: “O Espírito Santo é realmente um Espírito, vindo realmente do Pai, mas não da maneira do Filho, pois não é por geração e sim por ‘processão’,”, por isto o rito e credo niceno-constantonopolitano são diferentes.
Mas sua teologia mais compatível com os dias atuais a aposcatátase, a crença que no final dos tempos Deus colocará toda a criação em harmonia com o Reino dos Céus, compatível com as ideias de Teilhard Chardin e de teólogos que aproximam o sagrado do “profano”.
Sua contribuição concreta para o mundo contemporâneo e a crise da modernidade é a visão da “vita activa” e “vita contemplativa” como realidades não separadas, e que o filósofo atual Byung-Chull Han usa palavra analisar a sociedade atual que diz ser do “cansaço” pela ausência da vita comtemplativa.
O mundo contemporâneo tem sua própria ascese do corpo, do idealismo ou de uma fé sem qualquer espiritualidade, que Peter Sloterdijk chama de “desispiritualizada”, feita apenas de exercícios, ou como preferimos sem interiorização.
O mundo que pretendeu libertar-se das superstições caiu nas formas mais ridículas: jogar pedrinhas num poço, banhar-se de sal grosso, vestir roupa de certas cores no início do ano, evitar gato preto e outras mais ridículas ainda, “sapere aude” tornou-se “sapere ad ineptias” (saber coisas bobas).
Gregório Nazianzeno socorrei-nos.

 

Coisas desconhecidas do Natal

24 Dez

A primeira que deveria ser óbvia é que é o nascimento de Jesus, claro que a data é imprecisa, porém o recenseamento no tempo do imperador Caio Julio César Otaviano Augusto, que foi imperador de 27 a.C. a 14 d.C. é incerto a data, mas o ano é provavelmente alguns anos antes, ou seja estamos defasados de 6 a 8 anos, devido uma defasagem no calendário de Julio Cesar.
Foi o Papa Gregorio XIII (1502-1585) que em 24 de fevereiro de 1582, através da Bula Inter gravíssimas, substantiu o calendário de juliano, corrigindo-o com anos bissextos, como o mês de fevereiro que alterna para 29 dias de seis em seis anos, e os meses alternando de 30 e 31 dias, mas a defesagem do nascimento de Jesus permaneceu
O nascimento de Jesus entretanto é fato isto, ainda que a data seja incerta, pois segundo o Momentum Ancyranun, Augusto realizou três recenseamentos em seu Império.
O presépio foi criado por São Francisco de Assis, e provavelmente os animais foram inseridos pelo amor de Francisco pelos animais e pela natureza, mas a árvore veio depois na Alemanha.
Os pinheiros eram colocados no Natal na Alemanha, nele eram colocadas maçãs e pedras preciosas, as bolas vieram bem mais tarde, mas foi a Inglaterra que popularizou os pinheiros.
A Música Noite Feliz foi criada pelo padre Joseph Mohr que pediu ao músico amigo nada menos que Franz Gruber que transformasse seu poema em música, a poucas horas do Natal fez uma melodia simples para violão, a história do órgão quebrado e outras são lendas, em 1818 foi cantada pela primeira vez e tornou-se a musica mais popular de Natal.
A Música Jingle Bells foi criada por James Pierpoint em 1857, talvez por causa dela apareceram os sinos, mas as girandolas já existiam quando os pinheiros foram para a Inglaterra, ali fala de correr na neve num trenó puxado pelo cavalo, então o trenó e a neve entraram no Natal.
Em 1965 foi tocada na nave Apolo no espaço, tornando-se a primeira música no espaço.
A estátua da Liberdade, projetada pelo escultor francês Frédéric Auguste Bartholdi, foi realizada por Gustave Eiffel, embora dedicada em 28 de outubro de 1886, foi um presente de Natal do povo francês ao povo americano.
A figura bondosa do velho barbudo de Natal que doa presentes deve-se a São Nicolau, bispo católico do século IV que na Noite de Natal levava presentes as crianças mais humildes, a figura do Papai Noel (papai Natal em Portugal) deve-se a refrigerante popular, fizemos um post em anos anteriores esclarecendo a propaganda do refrigerante iniciada em 1920.

Para os cristãos é a chegada do Emanuel, o Deus conosco, a presença do divino entre os homens para nunca mais se apagar, a salvação vem não só da crença neste fato, mas principalmente na vivencia de seus ensinamentos no dia-a-dia: amar a todos, construir um mundo justo, lembrar de quem sofre e tornar o mundo melhor.

 

A ascese mariana

21 Dez

Alguém pode perfeitamente perguntar: se Deus existe porque não se apresenta logo e mostra sua cara? Seria mais fácil reconhecê-lo e aceitá-lo, ora isto foi feito, o problema é aceitar um menino Deus nascido em Belém.
Era justo, porém a espera do povo judeu no período anterior da vinda do Messias, disse o profeta Miquéias (Mq 5:2) “Deus deixará seu povo ao abandono, até o tempo em que uma mãe der à luz; e o resto de seus irmãos se voltará para os filhos de Israel”.
Quando nasce Jesus duas realidades são preparatórias, a ascese de João Batista, seu primo que o reconhecera ainda no ventre de sua mãe Isabel, quando Maria a visita já grávida, e depois de adulto João vai para o deserto, vive de comer insetos e mel, uma ascese dura e uma pregação de preparação para mudanças que viriam.
A ascese de Jesus começa com Maria grávida que recebe a saudação de Isabel (Lc 1:42-43): “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar?”.
O que dizem os exegetas e estudiosos da Bíblia deste pequeno trecho, centro da revelação e da ascese de um menino que está para nascer? O que significa a mãe do meu Senhor ?
A ascese e a revoluções deste menino-Deus começam por sua mãe Maria, que permanecerá quase em silencio em toda Bíblia, mas não ausente, a capacidade de excuta, de “vita contemplativa” que reclama o filósofo Byung-Chul Han, um mundo barulhento sem escuta.
A ascese é extremamente útil para o mundo contemporânea, e começa pela Paideia mariana, a escuta, a presença feminina no mundo machista, autoritário e ruidoso; o mundo atual precisa de silencio, abertura e aceitação do Outro.
A pintura de Fra Angelico chamada “a virgem da humildade” do pré-renascimento (1395-1455) ilustra bem esta face de Maria (foto).
A ascese de João Batista não é desprezível, foi preparação para a vinda, é preciso ir além encontrar alegria, conforto e porque não prazer na escuta, no silêncio e na meditação.
O homem que se arroga prático, activo e protagonista, precisa de parada, de recuperar os sentidos para poder sentir que é também “bendito” e não “maldito”.
Que uma nova ascese se inicie no Natal, alegria e esperança de um mundo novo.

 

O espiritual na arte, quase esquecido

15 Nov

Além de Kandinsky, um contemporâneo reconhecido como tendo influência na arte espiritual, há outros três catalães quase esquecidos de forte influência espiritual: Raymond de Sebonde, autor da Teologie Natural; Gaudí, criador do gótico mediterrâneo, e Salvador Dali, incorretamente visto como surrealista paranóico-crítico, explicamos a seguir.
Disse Dali após uma longa fase que ele mesmo disse que tinha influência psicológica e indiretamente de Freud, integrasse numa nova fase, onde seu quadro Christus Hypercubus será um marco, e pode mesmo se relacionar a contemporaneidade com a Física Quântica, a quarta dimensão do universo (o Hipercubo), e de certa forma ao tesseracto de C. H. Hilton.
Diz em seu Manifesto Anti-matéria escreve com todas as letras: “no período surrealista, quis criar a iconografia do mundo interior e do mundo maravilhoso, do meu pai Freud … Hoje, o mundo exterior e o da física transcenderam o mundo da psicologia, ele declarou “meu pai hoje é o dr. Heisenberg”, assim é um Dali pós-surrealismo como ele próprio se proclama.
postamos anteriormente algo sobre isto, porém desenvolvemos aqui um pouco mais.
Proclamou Dali sobre sua obra: ”Eu Dalí, reatualizando o misticismo espanhol, vou provar com a minha obra a unidade do universo, ao mostrar a espiritualidade de todas a substâncias”, na qual o uso de substância não é por acaso, pois está falando mesmo do universo físico, mas pode ser também aquele que Teilhard Chardin chamou de “universo cristocêntrico”, ou seja, a sua Noosfera no sentido mais substancial da palavra, ou no sentido físico do universo.
Esta dimensão, além de ser estudada na Física das Partículas e na Astrofísica, apareceu em filmes como “Contato” (1997, direção de Robert Zemeckis) baseado na obra de mesmo nome de Carl Sagan, e recentemente o filme Interestelar (direção de Christopher Nolan, de 2014), ilustrado na imagem acima, e a possibilidade da quarta dimensão, do universo estar imerso num hipercubo é científica.
Einstein havia previsto um fenômeno relativístico Lense-Thirring ( homenagem a Josef Lense e Hans Thirring) que ficou por um bom tempo sem comprovação até que esse efeito começou a ser detectado em satélites artificiais e desde então passou a ser estudado como possibilidade real, é um efeito de um giroscópio devido ao campo magnético gravitacional.
Começa amanhã em Lisboa, no Palácio de Ceia, o evento Artefacto 2018, entre outras obras, apresentará uma Ode ao Christus Hypercubs feita pelo Dr. Jônatas Manzolli da Unicamp, que contará com a pianista Helena Marinho do Aveiro e a solista Beatriz Maia.