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Arquivo para a ‘Noosfera’ Categoria

Pequenas coisas fazem diferença?

15 Jun

A resposta é afirmativa, embora muitas vezes imaginemos que um pequeno ato de concórdia, de honestidade ou de esperança possam significar um ato ingênuo, não o mesmo quando pensamos no sentido físico, porém o pensamento cotidiano continua sendo o mecânico.

A física quântica e a teoria da complexidade demonstraram isto (o nome caos é também mal interpretado, pois é o fato que nem tudo é linear), porém parece mais “organizado”, mais “lógico” a lógica binária do sim e do não, e neste caso também não tem a ver com o mundo digital, apenas com o pensamento idealista.

Também a sabedoria bíblica, e os ensinamentos de Jesus refletiam isto, ao dizer do evangelista Marcos O Reino de Deus é como um grão de mostarda que, ao ser semeado na terra, é a menor de todas as sementes da terra. Quando é semeado, cresce e se torna maior do que todas as hortaliças, e estende ramos tão grandes, que os pássaros do céu podem abrigar-se à sua sombra” (Mc, 4:31-32), quem já viu um grão de mostarda e viu sua árvore sabe isto.

É mais fácil e mais tentador seguir a corrente, porém se com pequenos gestos diários fazemos a diferença isto muda aos poucos a cultura a nossa volta, e pode se espalhar a outras pessoas, a mesma forma que um círculo vicioso é difícil de romper, um círculo virtuoso transforma os hábitos e o meio em que estamos inseridos.

Isto é válido para a natureza, por exemplo para a preocupação ecológica e não raramente já vemos muitas pessoas terem preocupação com a seleção de lixos, com as árvores e com os animais, isto fará diferença ao longo dos anos, é uma nova cultura que se cria.

A questão da honestidade é um reflexo do mundo da corrupção, se retirarmos pequenos atos de corrupção diária poderemos ao longo dos anos tornar a corrupção algo realmente hediondo disse uma ativista: “será lembrada de modo tão terrível quanto a escravidão.”

É preciso aplicar e ser resiliente em pequenos atos de atitudes cotidianas de verdade e justiça.

 

O todo e a parte

12 Jun

Uma questão essencial das pequenas coisas é não imaginá-las desvinculadas do todo, este é um problema complexo para o homem moderno, porque sua visão foi plasmada pelo idealismo para enxergar as coisas em pedaços, em partes isoladas, sem comporem um todo.

É assim para a filosofia, para as ciências, para as artes e até mesmo para a religião que vê Deus como a essência do “todo”, mas quase sempre segmenta-o de realidades humanas.

Um grande mestre e pensador sobre o tema, seu livro “A parte e o todo”, tem justamente este nome foi Werner Heisenberg (1901-1976).

O livro pode ser considerado sua autobiografia intelectual, onde faz diálogos com Einstein, Bohr, Planck, Dirac, Fermi, Pauli, Sommerfeld, Rutherford entre os nomes mais proeminentes da física de seu tempo, e também diálogos filosóficos com outros colegas.

Segundo diz o autor no prefácio: “A moderna física atômica lançou nova luz sobre problemas filosóficos, éticos e políticos. Talvez este livro possa contribuir para que os fundamentos dessa discussão sejam compreendidos pelo maior número de pessoas.”

É difícil resumir as ideias deste livro, segmenta-lo seria contradizer a própria proposta, porém o ganhador do prêmio Nobel da Física aos 31 anos (em 1932 portanto) pela formulação do princípio da Incerteza, afirmou sobre seu livro: “pretendi transmitir, inclusive aos que estão distantes da física atômica, uma impressão dos movimentos do pensamento (Denkbewegungen) que acompanharam a história do surgimento dessa ciência”.

A parte, por pequena que seja é essencial ao todo, a partir da moderna física atômica e quântica, e segmenta-la é realizar a fissão atômica, uma ruptura com a natureza e o homem.

 

O efeito borboleta e as pequenas coisas

11 Jun

Parecem que para mudar o mundo para mudar tudo devemos fazer coisas grandiosas, grandes projetos e na verdade não é bem assim, pequenas coisas podem fazer muita diferença, e a primeira coisa que podemos mudar somos nós mesmo, conforme a frase de Platão: “se quer mover o mundo o primeiro passo será mover-se a si mesmo”.
O efeito borboleta, pesquisado e defendido por Edward Norton Lorenz, que inclusive criou a figura ao lado, tem duplo sentido primeiro que ele descobriu que a batida da asa de uma borboleta poderia influenciar o clima, segundo que o gráfico que criou deste efeito (na física modelo de convecção do calor tem a forma das asas de uma borboleta.
Lorenz estava simulando modelos globais climáticos num computador, e executou outro modelo que retirando algumas casas depois da virgula o tempo de processamento seria menor e o resultado saia mais rápido, na prática mudou um pouco as condições do processo, e os resultados foram bastante divergentes.
Isto significa na prática que pequenas ações e intervenções em fenômenos podem ao longo de um percurso influenciá-los profundamente, o que nos dá esperança porque assim o pouco que fazemos de correto, de honesto e de inspiração ética pode no futuro mudar drasticamente as coisas, claro será preciso que outras pessoas façam pequenos atos.
Uma experiência pessoal foi perder uma pessoa querida por suicídio, me fez pensar muito imaginando o que poderia ter acontecido com aquela pessoa, depois de muito sofrimento uma psicóloga me explicou que não só sofrimentos e fatores sociais, mas também genéticos, físicos e emocionais poderia determinar a ação daquela pessoa.
Pensando no sentido positivo podemos fazer pequenos gestos, uma criança me pedia que jogasse bola com ela, estava apressado, parei e joguei uns cinco minutos com ela, ai o vizinho de um prédio que me viu com uma sacola na mão, me disse pode ir agora eu jogo com o miúdo (crianças em Portugal).
Também pensando no Brasil, o enorme sofrimento com todos acontecimentos sociais e políticos negativos, precisamos tentar enxergar pequenas ações que podem ser feitas, conscientizar as pessoas e ouvir quando alguém está muito convicto do seu ponto de vista.
Vejo que Portugal saiu da crise vencendo e recuperando o otimismo como povo, não perderam as esperanças, ainda que a crise tenha atingido muita gente e ainda hoje hajam reflexos, porém é perceptível a melhora.

 

O dualismo pós-moderno

07 Jun

Poder-se-ia discorrer sobre o dualismo da pós-modernidade, mas ler Hegel é demasiado enfadonho, mesmo para aqueles que dominam o discurso filosófico, e penso particularmente que a questão do objetivismo x subjetivismo, natural x cultural e outras questões postas pelo pensamento da modernidade, e que são correntes no cotidiano, está já em outro ponto.

O ponto que situo é o das dicotomias infernais de Eduardo Viveiros de Castro: “Metafísicas caníbales: líneas de antropologia postestructural” (Katz Editores, 2010), ainda que possa haver uma edição em português caiu em minhas mãos uma edição espanhola, traduzida do francês.

Me chamou a atenção porque ele começa o livro sobre questões que julgo fundamentais: o retorno às coisas, o perspectivismo, o multinaturalismo e a esquizofrenia antropológica.

O início do primeiro capítulo “Anti-narciso” confessa que abandonou a ideia de fazer um livro para escrever sobre ele, como fazia Borges, e lança uma pergunta: “o que deve ser conceitualmente a antropologia dos povos que estuda ?” e segue a esta: “Las diferenças e as mutações internas da teoria antropológica se explicam principalmente (e desde o ponto de vista histórico-crítico exclusivamente) por estruturas e conjunturas das formações sociais, dos debates ideológicos, dos campos intelectuais e dos contextos acadêmicos que surgiram os pesquisadores ? é esta a única hipótese pertinente? No seria possível proceder a um deslocamento da perspectiva que mostro que os mais interessantes entre os conceitos, os problemas, as entidades e os agentes introduzidos pelas teorias antropológicas tem sua origem na capacidade imaginativa das sociedades (ou dos povos, ou dos coletivos) que propõem explicar?” (Viveiros de Castro, 2010, p. 14).

A estas perguntas penetra finalmente na dicotomia infernal que considero essencial na modernidade: “Não será ali onde reside a originalidade da antropologia, nesta aliança, sempre equívoca, porém com frequência fecunda, entre as concepções e as práticas provenientes dos mundos do “sujeito” e do “objeto” ? “ (idem).

A pergunta então do “Anti-Narciso” é então epistemológica, isto é, política, e o autor afirma que se todos estão mais ou menos de acordo  que é preciso uma descolonização do pensamento, e nisto reside o “anti-narciso”.

O discurso de Viveiro de Castro é consistente porque afirma que o “outro” é sempre pensado e “inventado” de acordo com os sórdidos interesses do Ocidente, e depois irá discorrer sobre o “perspectivismo” e “multiculturalismo”, é impossível sintetizá-los num post, então só pontuamos estas perspectivas, chamadas pelo autor de “canibais” ou metafísicas da predação”.

O perspectivismo é a ideia que toda teoria é particular e depende da “perspectiva do sujeito”, ou multiculturalismo é a ideia da “convivência” de muitas culturas em diversas regiões, mas ambas carecem e uma “descolonização” do pensamento, então a dicotomia permanece.

 

Autoridade e co-imunidade

25 Mai

A palavra autor tem a raiz etimológica do latim “auctor” que significa “fonte”, “instigador” ou “promotor”, sugere alguém que deva fazer “augere” (aumentar, engrandecer ou melhorar) e o sufixo tor (um agente, o que faz a ação, como em doutor ou escultor), assim não há relação direta com poder ou originalidade, ele deve “aperfeiçoar” algo que existe.

A ideia que autoria confere poder ou a criação de algo originário é como vem da palavra também algo autoritário, o que pode-se interpretar como um exagero de autoria, uma quase exclusividade ou mesmo um excesso de poder.

As redes são uma forma contemporânea de estabelecer esta autoria de melhorar o que existe, de certa forma até de permitir que pessoas “anônimas” participam da co-autoria, ou no dizer de Sloterdijk da co-imunidade, e neste sentido podemos recuperar a palavra autoridade.

Na sabedoria da cultura oral as pessoas que falam com autoridade são aqueles que conhecem as raízes e as tradições de determinada cultura, são como bibliotecas vivas que guardam o patrimônio cultural de uma nação, etnia ou povo.

Ao dizer bíblico que Jesus falava com “autoridade”, além de alguém profundamente ligado a cultura judaica de onde se origina a cristã, ele também tinha uma ligação afetiva com sua cultura e seu povo, por isto além de saber o que falava, tinha empatia com a pessoa comum.

A ideia do estado moderno deverá sofrer mudanças, é inaceitável o modo como os políticos e gestores do Estado Moderno se comportam, não há confiança da população neles, os níveis de corrupção são imorais, e é preciso, sobretudo olhar os interesses do “bem comum”.

Mas as redes exigem mudanças na postura individual também, saber ouvir, gostaria da cultura do que é diferente, respeitar valores e tradições que não são como as nossas e não ter conceitos culturais como verdades definitivas, é tempo de mudança e exige uma mudança de mentalidade, as redes podem ajudar.

 

Novas linguagens e mudanças

11 Mai

Em outras épocas guardadas, as devidas proporções, as mudanças que ocorreram em etapas anteriores também causavam impressão forte nas pessoas, mas foram tecnologias disruptivas as que mais influenciaram, as lentes para óculos e telescópios, permitiram a leitura dos primeiros livros impressos, e graças aos telescópicos, a revolução de Copérnico aconteceu.
A mudança de paradigmas que acontece causa espantos, mas é preciso o que se realizará de fato, o que é possível numa realidade mais longínqua e o que poderá acontecer nos próximos anos, já indiquei em alguns post, A física do impossível, de Michio Kaku (2008).
O autor cita no início deste livro, a frase de Einstein: “Se inicialmente uma ideia não parecer absurda, então ela não terá qualquer futuro”, é preciso um pensamento forte e chocante como este para entender que se devemos apostar na inovação, e este é o momento histórico disto, deve entender que grande parte de coisas disruptivas serão inicialmente absurdas.
Falando de coisas mais distantes, no início dos microcomputadores, chegou-se a declarar que eles não teriam utilidade para muitas pessoas, o mouse era desajeitado e “pouco anatômico” quando surgiu, e ainda há muita desconfiança na “inteligência artificial”, não só entre leigos no assunto, entre estudiosos também, outros idealizam um “cérebro eletrônico”, mas nem a Sophia (o primeiro robô a ter cidadania) e o Alexa Amazon tem de fato “inteligência”.
O que é preciso frear, e isto no tempo de Copérnico valia para a visão teocêntrica, hoje há também uma sociopatia anti tecnologia que beira o fundamentalismo, se há injustiças e desigualdades elas devem ser combatidas no plano em que estão, no social e político.
Roland Barthes afirmou que toda recusa de uma linguagem “é uma morte”, com a adoção de tecnologia por milhões de pessoas esta morte se torna um conflito, primeiro entre gerações, e depois entre concepções de desenvolvimento e educação diferentes.
Aos estudiosos faço a recomendação de Heidegger, afirmava sobre o rádio e a televisão que apenas meia dúzia de pessoas entendiam o processo e claro com o poder financeiro podem controlar as editorias destas mídias, mas também pode-se responder no campo religioso.
A leitura do evangelista Marcos Mc 16,17-18 “Os sinais que acompanharão aqueles que crerem serão estes: expulsarão demônios em meu nome, falarão novas línguas; 18se pegarem em serpentes ou beberem algum veneno mortal, não lhes fará mal algum; quando impuserem as mãos sobre os doentes, eles ficarão curados”.
Isto precisa ser atualizado para os novos meios e linguagens modernas, assim como, o avanço da medicina que permitirá curar doenças e dar maior qualidade de vida a muitas pessoas.

KAKU, M. A física do Impossível: uma exploração científica do mundo dos fasers, campos de forças, teletransporte e viagens do tempo. 1ª. Edição. Lisboa: Editorial Bizâncio, 2008.

 

Tendências da Inteligência artificial

10 Mai

No final dos anos 80 as promessas e desafios da Inteligência artificial pareciam desmoronar a frase de Hans Moracev: “é fácil fazer os computado- res exibirem desempenho de nível adulto em testes de inteligência ou jogar damas, e é difícil ou impossível dar a eles as habilidades de um garoto de um ano quando se trata de percepção e mobilidade”, em seu livro de 1988 “Mind Children”.

Também um dos maiores precursores da IA (Inteligência Artificial) Marvin Minsky e co-fundador do Laboratório de Inteligência Artificial, declarava no final dos anos 90: “A história da IA é engraçada, pois os primeiros feitos reais eram belas coisas, máquina que fazia demonstrações em lógica e saía-se bem no curso  de cálculo. Mas, depois, a tentar fazer máquinas capazes de responder  perguntas sobre históricas simples, máquina … 1º. ano do cicio básico. Hoje não há nenhuma máquina que consiga isto. (KAKU, 2001, p. 131)

Minsky junto com outro precursor de IA: Seymor Papert, chegou a vislumbrar uma teoria d’A Sociedade da Mente, que buscava explicar como o que chamamos de inteligência poderia ser um produto da interação de partes não-inteligentes, mas o caminho da IA seria outro, ambos faleceram no ano de 2016 vendo a virada da IA, sem ver a “sociedade da mente” emergir.

Graças a uma demanda da nascente Web cujos dados careciam de “significado”, os trabalhos de IA vão se unir aos esforços dos projetistas da Web para desenvolver a chamada Web Semântica.

Já havia dispositivos os softbots, ou simplesmente bots, robôs de software que navegavam pelos dados brutos procurando “capturar alguma informação”, na prática eram scripts escritos para Web ou para a Internet, que poderiam agora ter uma função mais nobre do que roubar dados.

Renasceu assim a ideia de agentes inteligentes, vinda de fragmentos de código, ela passa a ter na Web uma função diferente, a de rastrear dados semiestruturados, armazená-los em bancos de dados diferenciados, que não são mais SQL (Structured Query Language), mas procurar questões dentro das perguntas e respostas que são feitas na Web, então estes bancos são chamados de No-SQL, e eles servirão de base também para o Big-Data.

O desafio emergente agora é construir taxonomias e ontologias com estas informações dispersas na Web, semi-estruturadas, que nem sempre estão respondendo a um questionário bem formulado ou a raciocínios lógicos dentro de uma construção formal clara.

Neste contexto emergiu o linked data, a ideia de ligar dados dos recursos na Web, investigando-os dentro das URI (Uniform Resource Identifier) que são os registros e localização de dados na Web.

O cenário perturbador no final dos anos 90 teve uma virada semântica nos anos 2000.

KAKU, M. A física do Impossível: uma exploração científica do mundo dos fasers, campos de forças, teletransporte e viagens do tempo. 1ª. Edição. Lisboa: Editorial Bizâncio, 2008.

 

A singularidade e os tecnoprofetas

09 Mai

Antes de Jean-Gabriel Ganascia falar sobre o Mito da Singularidade, a ideia que as máquinas iriam ultrapassar o homem em capacidade humana, já havia sido analisada por Hans Moracev em seu trabalho: Homens e Robots – o futuro das interfaces humanas e robótica, o cuidadoso e ético Ganascia não deixou de citá-lo.

Existem grupos que estudam as questões éticas que isto envolve como o Centro para o estudo do risco existencial na Universidade Cambridge, mas também grupos empenhados neste projeto com a Universidade de Singularidade, com patrocinadores de peso como o Google, a Cisco, a Nokia, a Autodesk e muitos outros, mas também há estudos éticos como o Instituo para a Ética e as Tecnologias Emergentes que Ganascia participa, e o Instituto da Extropia.

Na conta dos tecnoprofetas, a palavra foi cunhada por Ganascia, um gênio preconceito Kurzweil é um dos mais extravagantes, injetava drogas no corpo se preparando para receber a “mente computacional”, porém com previsão para 2024 já falou e agora é para 2045 a 2049, algo que é incrível para alguém que se diz não ter crenças, pois este fato é muito longínquo, se ocorrer.

Ganascia pensa que isto é uma falsa profecia e Moracev analisa as difíceis possibilidades reais.

O instituto Gartner que trabalha com previsões razões prevê computação neuronal ainda engatinhando com previsões para daqui a 20 anos, interfaces como Alexa da Amazon e Sophia da Hanson, são máquinas de interação com humanos que aprendem coisas da linguagem cotidiana, mas estão longe das chamadas máquinas de uma inteligência artificial geral, isto porque o raciocínio humano não é um conjunto de cálculos proposicionais como pensam.

Alguém poderá argumentar mais isto é porque as pessoas são ilógicas, mas isto segundo qual lógica, o que sabemos é que homens não são máquinas e o que perguntamos se máquinas são homens, é a pergunta essencial que inspirou a série Blade Runner, o livro de Philip K. Dick “Andróides sonham com ovelhas elétricas” de 1968, que inspirou Blade Runner.

Penso que sonhos, imaginação e virtualidade são faces da alma humana, robôs não tem alma.

 

Clareira e revelação

04 Mai

Haverá no turbilhão de respostas e angústias do homem do nosso tempo, presentes mais do que nunca no nosso pensamento cotidiano e também naqueles que procuram as raízes de nossas dificuldades contemporâneas ? qual é o labirinto sem saída que entramos ?

As respostas não são as mesmas, mas o diagnósticos quase sempre são os mesmos, além da liquidez baumaniana pessimista, o diagnóstico são as necessidades de educação para a vida, o respeito à diversidade, a distribuição de renda e a capacitação do homem para este futuro.

Embora a maioria já sinta e veja o despertar desta nova época, as reações as mudanças que são mais do que necessárias, são urgentes, estão aí maior equilíbrio no planeta, controle dos paraísos fiscais, eliminação das armas atômicas, e, principalmente o respeito à diversidade.

O que nos impedem ainda são os fechamentos em bolhas, que apesar da “liquidez” não podem ter solidez, uma vez que são efêmeras e basta olhar a sua volta encontrará pessoas de outras visões de mundo, de outras culturas e de outras religiões, isto é sólido e definitivo.

O que nos chama atenção Byung-Chul Han em a Expulsão do Outro, creio que é seu livro mais recente, é que a tendência a uniformização, até mesmo o desejo disto parte de valores não tão sólidos, a exigência de um estado centralizador e “forte”, a falta de diálogo realmente aberto entre religiões, culturas e principalmente correntes ideologicamente centralizadas, não levará a bom termo a tarefa de uma nova sociedade mais coletiva, mais dialógica e fraterna.

Não há mais resposta única, partido único, Portugal por exemplo, criou a Gerigonça, mas ainda somos escravos de convicções e apostas em correntes únicas totalitárias que falharam a muito.

A mensagem bíblica é antiga, mas parece ainda pouco praticada, o tempo da servidão passou, diz a passagem bíblica, de Jesus aos seus convivas Jo (15,15) “Já não vos chamo servos, pois o servo não sabe o que faz o seu senhor. Eu vos chamo amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai”, mas a escravidão está aí, diz Chul Han: “a comunicação global e dos likes só tolera os mais iguais; o igual não dói!”, eis a escravidão de hoje.

 

Esclarecer a clareira

03 Mai

O homem sempre quis a luz, sempre andou em busca da “clareira”, o Mito da Caverna de Platão não é senão isto, a luz nas capelas e artes medievais, o esclarecimento (Aufklärung) que Kant apontava como a saída do homem de sua menoridade e as atuais “clareiras” de Heidegger e o “esclarecer as clareiras” de Sloterdijk, o plural é por minha conta.
Na arte medieval a “luz” deve estar associada à arte, ainda que os textos de Boécio, Tomás de Aquino, Averrois e muitos outros são dignos de leitura e análise, foi nas artes que a ideia de luminosidade mais foi presente, um exemplo, é a igreja Saint-Chapelle (foto) consagrada em 1248, com exemplo da desmaterialização das paredes e substituição por vitrais.
Aquilo que devia ser o exercício de plena liberdade, a grande aposta da modernidade, na verdade confinou o humanismo num beco sem saída, basto fazer a pergunta se vivemos numa época esclarecida, opiniões de todos os matizes filosóficos responderão: não é uma época esclarecida, então a pretensão do esclarecimento deu em cegueira e crise civilizatória.
As respostas de Heidegger sobre a “clareira” em meio a esta floresta de questões (alguns acham que é só de informação) foi a retomada do ser, sem dúvida importante, porém a resposta de Sloterdijk às cartas sobre o humanismo a coloca-a em questão: que é “clareira”.
Não tenho uma resposta definitiva, como a de Sloterdijk também não é, ainda que aponte “as esferas” como os círculos de aprisionamento do ser, do pensamento e diria aqui, até a religião.
Minha resposta contempla o livro de Byung-Chul Han “A expulsão do outro”, a opção por uma sociedade massificada, uniformizada e por isto sem valores destruiria a riqueza humana da diversidade, mas é justamente esta diversidade que parece se rebelar, e poderá dar frutos.
Esclarecer a clareira, em face de crise civilizatória de nosso tempo, não poderá encontrar mais resposta, como no passado, na ideia do pensamento único, a diversidade é hoje necessária.