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Arquivo para a ‘Noosfera’ Categoria

O reencantamento do Mundo e do Ser

14 Fev

Na modernidade o homem tentou superar seu sentido de existência projetando-se sobre uma racionalidade subjetivista, transcender tornou-se apreender e compreender o objeto pelo sujeito cognoscente, aquele que é capaz de conhecer “tudo”, o “sapere audi” de Kant.
O projeto moderno desalojou o ser, e desencantou o mundo, fazer poesia ou música parece romântico demais, ainda que o projeto estético da modernidade seja exatamente este, mas o romântico moderno é idealista, quer o impossível, separado do mundo em falsa objetividade.
Fala-se do ter, a corrente utilitarista que vê o mundo e também o ser segundo o valor de uso, Marx lembra também o valor de troca, porém o encantamento reside fora destes dois valores, é um não-valor no sentido de moeda, mas é “tão útil quanto o útil!” afirma Victor Hugo sobre a Arte, reclamando um valor além do convencional, dir-se-ia falta poesia e beleza.
O sociólogo francês Michel Maffesoli é um estudioso do assunto e também de “tribos urbanas”, e seu primeiro esclarecimento sobre o encantamento é que “não é o futuro que importa, mas o presente” (Fronteiras do Pensamento), chama-a de presenteísmo, já as correntes tanto idealistas em geral estão sempre projetadas num futuro, e pouco realizam dentro de um mundo concreto.
Ao ver e estudar as tribos urbanas, vê nelas uma dimensão emocional, mas do lado positivo, vê que é possível observar nos movimentos dos indignados de Madri como outros de contestação, esta dimensão emocional, que pode ser perigosa é verdade, mas é parte do Ser.
Outro que fala do tema é o escritor moçambicano Mia Couto, conhecido em todo o mundo, fala sobre a importância de não “podarmos o encantamento, a capacidade de fascinação, do êxtase diante das pequenas coisas.
Estar em Portugal produziu em mim um reencantamento, o fado, a comida, a convivência e também as pequenas coisas, um respeito pessoal maior, o cumprimentar pelo nome, o ritmo mais compassado da vida, a arquitetura, a história, a poesia e enfim a vida.

 

Navegar em águas mais profundas

08 Fev

Aprendi com o dr. Oswaldo Giacóia, que conhece como poucos a filosofia de Nietzsche que sua inquietação de juventude era que a escola pacifica, penso que deveria levar os alunos a curiosidade, ao interesse pela cultura senão o crescimento humano fica estagnado.

Navegar é preciso, diziam navegadores portugueses, mas a frase é mais antiga, foi o general romano Pompeu, que encorajava marinheiros medrosos com a frase: “Navigare necesse, vivere non est necesse”, Petrarca no século XIV que transformou em navegar é preciso, viver não é preciso.

Fernando Pessoa, a quem alguns creditam a frase, na verdade dizia: “quero para mim o espírito desta frase”, e agora estamos em tempos de navegar pela Web (a internet é só a base desta plataforma), mas também de olhar para os confins do universo e sonhar com viagens nos buracos de minhoca, que Einstein-Rosen previram e a astrofísica descobriu.

Isto significa também ir para mares mais profundos, no sentido metafórica, no conhecimento, nas artes e na cultura, a única arma consistente contra uma ignorância que passa a militância, não é pós-verdade, eu diria é um pós-clareira, uma fase de obscurantismo moderno.

Também no sentido espiritual, a leitura bíblica por exemplo, no evangelho de Lucas, quando os pecadores já lavavam as redes e estavam desanimados com a pescaria, Jesus lhes encorava Lc 5:4: “avança para águas mais profundas, e lançai vossas redes para a pesca”, Pedro acredita e o faz em consideração ao mestre.

A reação correta em tempos de recuos e aparente estagnação a melhor atitude não é ficar parado, isto pode levar a preguiça e ao comodismo, é acreditar e ir em frente, é preciso neste caso um pouco de fé.

Uma verdadeira espiritualidade vai contra a corrente de pessimismo que no fundo não é só descrença em Deus, mas também na humanidade, que sempre encontra novos caminhos para navegar, porque viver é preciso.

O vídeo abaixo navega no Núcleo da Nebulosa Lagoon.  

 

Espiritualidade, fé e razão

07 Fev

A ausência de uma espiritualidade consistente que leve a alma humana a maior paz e harmonia não significa e não deve significar uma ignorância de problemas contemporâneos de justiça, verdade e também de fé.
Como a vida é envolta em mistério, não podemos dizer que estamos racionalmente em perfeita consciência de nossa vida, da vida social e da vida do planeta, aliás, nunca faltou tanto esta consciência.
Assim nunca se falou tanto do apelo a fé, ou ao psicologismo e a estruturas de uma ascese espiritualidade, “uma vida de exercícios” afirma Peter Sloterdijk, mas em geral pouco acrescenta ao desconforto humano da vida humana atual, o que está ocorrendo de fato ?
Já dissemos e repetimos, em discurso as vezes um pouco distante para quem conhece pouco a estrutura do pensamento moderno, ou quem pensa que tudo acontece de 20 ou anos para cá, quando as bases do pensamento ocidental estão de certa forma no início da modernidade, com algumas coisas do renascimento que por sua vez remete a filosofia clássica da Grécia.
Ora também a fé é no fundo uma estrutura de pensamento, as vezes de pensar pouco e isto leva a uma manipulação por parte de uns e ao fundamentalismo por parte de outros, algo como: Jesus te ama, só Deus nos ilumina ou algum apelo do gênero, veja se isto resolve de fato os problemas de quem faz estes apelos, em geral não.
Assim é preciso pensar na modernidade, não apenas os avanços tecnológicos que a nosso ver em geral são benéficos, mas o seu uso como pode ser o uso de diversos objetos, no sentido da episteme (a sistematização do conhecimento ou do pensamento) também a fé é um objeto, mesmo que abstrato.
Duas encíclicas papais falaram da relação fé e razão (não a razão cartesiana, mas o raciocínio), declaradamente entre a Fides et Ratio de João Paulo II e indiretamente a encíclica Spe Salvi de Bento XVI na qual cita Platão, Lutero, Kant, Bacon, Dostoievski, Engels e Marx, leiam lá.
Destaca-se na Fides et Ratio o artigo 56: “Compreende-se que, num mundo dividido em tantos campos de especializações, se torne difícil reconhecer aquele sentido total e último da vida que tradicionalmente a filosofia procurava”, apontando uma crise na razão.
Quando estamos andando no escuro, com pouca luz precisamos de ter fé, mas a razão nos ajuda aonde por o pé, a caminhar em passos mais seguros e sentir o ambiente.

 

O mistério e o espiritual

06 Fev

Tanto a física quanto a matemática já ultrapassaram não apenas as dimensões ideais: o ponto, a reta, o plano e o cubo, introduzindo as dimensões fracionarias as quais pertencem os fractais, imersos no espaço de Hausdorff, mas também pela adoção da quarta dimensão.
O trabalho pioneiro foi feito por Charles H. Hinton (post) em A New era of Thought (1888), anterior a dimensão quântica de Werner Heisenberg e a descoberta dos Buracos de Minhoca (Worm Holes) na qual já se imaginam viagens intergalácticas como vista no filme de ficção Interestelar (2014), e no filme Contacto (1997, baseado no livro de Carl Sagan).
Hinton após fazer um diálogo com o idealismo Kantiano dirá sobre a natureza sensorial humana: “na percepção instintiva e sensorial do homem e da natureza, tudo é oculto, o que a reflexão traz depois à consciência. Podemos estar conscientes um pouco mais alto do que cada homem individual quando olhamos para os homens. Em alguns, essa consciência atinge um ponto extremo, e se torna uma apreensão religiosa.”, ou seja, admitia o aspecto espiritual (post). 
É nesta dimensão acima do individual que Teilhard Chardin trabalhou sua noosfera, pode haver uma consciência maior quando as pessoas trabalham juntam, isto é, obvio no plano humano, mas não tão obvio no plano espiritual, não significa só estar de acordo, mas admitir uma esfera espiritual, uma noon (espírito) esfera, a noosfera.
Como é possível penetrar nesta dimensão, fazer os homens trabalhar espiritualmente juntos, isto está acima da oração ou meditação espiritual, na qual a pessoa se eleva individualmente e hoje até para o tratamento médico é recomendável, mas uma ação espiritual coletiva.
O interessante é observar que tanto Chardin que pensava numa espécie de consciência cósmica, que lhe valeu um afastamento dos dogmas católicos (ele era padre), mas também o matemático Charles Hinton parece caminhar na direção da quarta dimensão, Salvador Dali também falou disto em seu Manifesto Místico (1951) e em conversas com o matemático Thomas Banchoff.
Assim como o discurso filosófico de Hinton, a antropologia filosófica de Chardin em uma de suas obras seminais “O fenômeno humano” parecem discorrer sobre aspectos de um mesmo tema, uma espiritualidade que leve a uma consciência coletiva maior e a sentir o Universo como corpo e como parte da Noosfera, aproximando o que é substancial do que é espiritual.
A razão que tanto Chardin como Hinton foram descartados no seu tempo é que procuraram penetrar num mistério, que Einstein também penetrou junto ao físico Rosen, os buracos de minhoca são chamados também Ponte de Einstein-Rosen (figura), sendo consistente com a teoria da relatividade.
O que está além do físico, ou o meta-físico nem sempre lhe é contraditório, mas pode ser exatamente a solução de alguns dos mistérios da natureza, 90% do universo é massa ou energia escura, das quais pouco se sabe e as descobertas recentes são enormes, veja a partícula de Higgs (incorretamente chamada de Deus) e os buracos negros com várias descobertas novas.

 

O auge do idealismo e o Espírito

05 Fev

O espírito visto fora da Noologia, nome cunhado pelo Escritor brasileiro Mario Ferreira dos Santos ao estudo da Noosfera, o resto é puro idealismo na filosofia ou falsificação espiritual da teologia.
A influência na teologia contemporânea (entre muitas outras) pode ser vista na obra de Karl Ranner, tanto em Hörer des Wortes (HW) em sua tradução espanhola Oyente de la palabra (Ouvinte da Palavra), ou como no espírito do mundo, sua tese de O espirito do Mundo (1967), onde apesar da influência de Tomas de Aquino e até mesmo de Heidegger, não abandonou por completo sua influencia original de Kant.
Escreveu Francisco Taborda sobre Rahner: “O que Rahner faz em HW pressagia toda sua caminhada teológica posterior, caracterizada pela perspectiva transcendental que implica a presença de uma filosofia interna à teologia e traz a marca da virada antropológica da modernidade”, ou seja, apesar de tentar conciliar seu pensamento com Tomás de Aquino e Heidegger, sua matriz principal está em “Ouvinte da Palavra” (1963), onde afirma: “se o homem se acha defronte ao Deus de uma possível revelação, se esta revelação, caso tenha lugar, deve produzir-se na história humana … etc.” (RAHNER, 1967, p. 213).
Mas dialogar teologia é complexo atualmente, e infelizmente a simplificação levou ao fundamentalismo, que é a pior das tragédias, pois Deus é Omnisciente, então não é simples, pois o Amor é algo tão complexo que jamais alguém o codificou, poetas e filósofos tentaram.
Na filosofia o auge desta tentativa idealista foi Fenomenologia do Espírito, praticamente uma tentativa de desvendar a Trindade, usando as categorias em-si, de-si e para-si, mas cujo conceito de autoconsciência o trai, pois o para-si que poderia ser além de si, é na verdade um retorno ao eu do em-si.
Assim o Deus transcendente, está “morto” para Kant, pois é pura relação de imanência, o que é diagnosticado por Hegel (2007, p. 173) gerando assim a ideia que o Deus histórico, o mesmo de Rahner negando-se o aspecto absoluto, espiritual acima do temporal, “a sensação de que Deus Ele mesmo está morto” (idem).
Gadamer ao fazer a releitura de Hegel, desvela este Espírito visto como uma imanência: “Se trata de uma progressão imanente, que não pretende partir de nenhuma tese imposta, senão seguir o automovimento dos conceitos, e expor, prescindindo por inteiro de toda transição designada desde fora, a conseqüência imanente do pensamento em contínua progressão”. (GADAMER, 2000, p. 11)
Não é isto o Espirito Santo trinitário da cristandade, mas uma visão de espirito imanente apenas humano.

GADAMER, Hans-Georg. La dialéctica Hegel: Cinco ensayos hermenéuticos. 5ª ed. Trad: Manuel Garrido. Madrid: Ediciones Cátedra, 2000.
HEGEL, Georg Wilhem Friedrich. Fé e Saber. Trad: Oliver Tolle. São Paulo: Hedra, 2007.
RAHNER, Karl. Oyente de la Palabra: fundamentos para una filosofía de la religión. Barcelona: Hélder, 1967.

 

A hermenêutica e a confiança

01 Fev

O fato que parece imprópria a ideia de pré-conceitos e principalmente de pré-concepções religiosas, culturais e principalmente científicas, são delas que a hermenêutica trata como a compreensão (verstehen) é que mesmo em círculos familiares e fechados elas estão presentes.
Embora, para exercício didático, coloque-se a hermenêutica fora dos ambientes fechados, ou nas bolhas de Peter Sloterdijk (Esferas I), também estes círculos explodem em conflitos e intolerâncias, mas devido não aos aspectos científicos e metodológicos, mas a questão da confiança, não há um autor com tratamento rigoroso para este caso, mas há o fenômeno.
Publicada em além de 2000 a 2004, a trilogia de Sloterdijk: Bolhas, Globos e Espumas, já com tradução em espanhol e inglês, tem em português apenas o primeiro volume, que saiu em 2017, feito pelo tradutor José Oscar de Almeida Marques para a editora Estação Liberdade.
O conceito analisado esta semana ser-aí, conceito heideggeriano central nesta trilogia e que evoca a presença no mundo como condição necessária à existência, pode ser transformado na leitura de Sloterdijk em ser-juntos, é o nosso parecer que esta coexistência precedendo a existência permite uma abordagem (não feita pelo autor) da questão da confiança.
A confiança existe em círculos próprios pela partilha da vida, a coexistência e a convivialidade, então é justamente pela deterioração destes dois aspectos que a confiança cai e estabelece-se mesmo em ambientes próximos alguma hostilidade.
A moda é culpar as novas mídias, mas isto é tão antigo que já na Bíblia se encontra a ideia que “um profeta só não é aceito na sua terra” (Marcos 6, 1-6), ou seja, o problema da confiança é mais grave nos círculos fechados do que nos círculos abertos, assim a hermenêutica parece razoável ao propor a abertura epistêmica da verdade, mas isto pode ser problemática para a confiança dos mais próximos.
A pergunta filosófica é quando uma verdade em círculos “fechados” pode ser verdade, a nossa resposta é a confiança interna de seus convivas (não pode significar fechamento) e a abertura ao mundo exterior, na leitura bíblica é curioso observar que logo em seguida os apóstolos são enviados “dois em dois” em Marcos 6:7 está escrito: “Chamando os Doze para junto de si, enviou-os de dois em dois e deu-lhes autoridade sobre os espíritos imundos”, cuidado a interpretação de imundos, pode ser vista como outras “visões de mundo” e não como sujos.

 

Verdade e diálogo

30 Jan

A falência dialógica e o crescimento da polarização política em nosso tempo, que tem como vítima a própria democracia, vem da ausência de pensamento hermenêutico que é essencialmente dialógico e paradigmático (no sentido de encontrar a fusão de horizontes) e um beco sem saída para os discursos ortodoxos.
A fenomenologia traz desde o princípio a questão de fazer um vazio para ouvir o Outro, o que os gregos chamam de epoché, ou a suspensão dos juízos sobre as coisas, o que pode parecer parecido com o cogito cartesiano, mas não o é, Husserl esclareceu isto em meditações cartesianas, que já fizemos alguns posts aqui.
O epoché é a chamada redução fenomenologia, é olhar uma coisa mudando os óculos (figurativamente é claro) para enxergar a essência das coisas, algo difícil nos dias de hoje, onde a aceleração dos juízos e dos pré-conceitos não permitem uma meditação, contemplação ou relação dialógica verdadeira, o que se chamou no post anterior de verstehen.
Uma vez que o diálogo depende de um círculo hermenêutico que envolve a relação com os nossos pré-conceitos, visto como positivo aqui é importante isto, significa que devemos fazer calar os nossos pré-juízos sobre as coisas que serão ditas e nunca optar pelo: isto não !!!
O problema central da filosofia racional-idealista da modernidade é que separou sujeito de objeto e isto foi para o dia-a-dia da cultura religiosa a mais alta filosofia acadêmica, as “coisas” são “impuras” e no entendo o mundo da vida (lebenswelt de Husserl), a visão de mundo (o que Heidegger chamou de weltanschauung) significam retornar as “coisas” como elas são.
O próprio conhecimento não é outra coisa que esta relação interprete-coisa: “O conhecimento, ou seja, o ato de eu dar ao mundo um caráter inteligível, se dá, portanto no encontro entre a consciência e as coisas” afirmou Husserl, explicando o que é ir a “coisa” mesma.
Ora nossos conflitos envolvem não apenas as relações humanas, como como elas se dão na relação com as coisas: o dinheiro, a saúde, o trabalho, os alimentos, a própria natureza (incluindo a nossa própria), a comunicação (que não nasceu no mundo digital), enfim quase tudo envolve a relação com a coisa e nossa consciência disto.
O diálogo, considerando os pré-conceitos, com a possibilidade de fusão de horizontes (que não é necessariamente o consenso), é fundamental em tempos de crise e de pré-conceitos.

 

A verdade tem um método ?

29 Jan

O objetivo de Gadamer em sua obra Verdade e Método (Gadamer, 1997) era de recriar o conceito de compreensão (Verstehen), que significava entender o conhecimento como o que tem como um atributo da experiência de mundo do ser humano, compatível a visão de mundo de Heidegger e que fez a partir de dois pressupostos, parte o conceito de Lebenswelt (mundo da vida) de Husserl, e a crítica da separação idealista que dividia o sujeito cognoscente, sendo que este já é objeto no mundo; daquilo que é o objeto de conhecimento.
Na sua definição de fenomenologia como hermenêutica através da retomada do sentido do ser no Dasein, que ficou conhecida sob o nome de hermenêutica da facticidade.
As ciências naturais, entendo-as como as matemáticas, físicas e químicas, faço restrição as zoológicas e biológicas, podem ser explicadas enquanto esclarecimento (já era o termo do iluminismo) ou entendimento, por causa de sua natureza lógica, o termo em alemão é erklären, enquanto a sociologia e a histórica passam pelo entendimento (verstehen) introduzido na filosofia pelo historiador filósofo alemão Johann Gustav Droysen (1808-1884), e adotado por Hans-Georg Gadamer.
Mas este termo é uma visão ampliada de entendimento uma vez que inclui o Outro, pois também está contido nele os sentidos de empatia e diálogo, é, portanto, uma ampliação do conceito de Heidegger de Weltanschauung, composto de Welt (‘mundo’) e Anschauung (visão, contemplação, ponto de vista ou convicção), de Cosmovisão ou visão de mundo.
O método então proposto por Gadamer é a explicitação do círculo hermenêutico já proposto em Heidegger, mas agora com a superação da historicidade idealista de Dilthey e a incorporação do Outro (verstehen) no mundo da compreensão.
Podemos dizer que admitindo a visão de mundo do Outro é possível um círculo hermenêutico que nos conduza a verdade, o problema do idealismo contemporâneo é que o Outro seguirá o conceito de Autoridade, as referências lógico-dedutivas que incorporam determinados dogmas ou círculos dogmáticos sem incluir o Outro.
Porém é preciso distinguir que entre dois discursos sem facticidade hermenêutica há conflito.

GADAMER, H.G. Verdade e Método. tradução de Flávio Paulo Meurer. – Petrópolis, RJ: Vozes, 1997. (pdf)

 

Pequena história da verdade

25 Jan

“A verdade não está com os homens, mas entre os homens!” esta frase seminal do filósofo Sócrates já trás em si duas partes da verdade, não confundir com meias verdades, a primeira é que ao estar nos “homens” significa um argumento onto-lógico e não apenas lógico, e a segunda que estando “entre” não poderá estar com apenas um homem, é preciso dia-logo, ou seja, dois lados.
Assim procedia Sócrates ao perguntar (o seu método), porém a própria questão é se perguntar não será apenas lógico, ou seja, a pergunta pode já fazer parte de uma resposta, enquanto qual é a pergunta para se ter a verdade?
Depois de Sócrates, Platão e Aristóteles se destacam sobre a verdade, Platão fará diferença entre a Doxa (em grego: δόξα) que é a crença comum ou opinião popular e embora seja diferença da Episteme (ἐπιστήμη) como conhecimento, levou a uma clássica oposição de erro á verdade, que tornou-se de grande interesse a filosofia ocidental.
Episteme de onde vem epistemologia é o conjunto do conhecimento construído metodologicamente, mas também não é apenas lógica, sua pretensão é criar campos de relações, continuidades e descontinuidades entre práticas discursivas.
Aristóteles vai acrescentar o conceito de “endoxa”, crenças que podem ser sustentadas por sábios ou pela tradição para reconhecimento das crenças da cidade, ela é testada e portanto mais estável que a “doxa” convencional.
Ao final da idade média debatiam-se nominalistas e realistas, sobre a existência de universais e particulares, sendo a verdade enquanto realidade tendo apenas particulares ou tendo a possibilidade de encontrar universais, por exemplo, se todo homem é um animal, então um homem particular é um animal.
Será a ideia que existem universais que construirá o iluminismo moderno, mas sua base de verdade é racional e também existencial, posso duvidar de tudo, mas não de que existo, ou seja, para a própria ação de duvidar é necessário que eu exista.
Mas o racionalismo leva a duvidar da existência exterior, a clássica divisão corpo e mente, Imannuel Kant afirma que as percepções dos sentidos são posteriores à experiência enquanto é necessário um a priori universal, usando o argumento dos realistas, chama-o de juízo analítico enquanto os primeiros são os sintéticos, feitos a partir da junção de informações.
O ápice do idealismo é Hegel, que estabelece vários conceitos ideais: o estado, o espírito e a ética, porém a crise da modernidade retornará a velhos dilemas: a linguagem, o discurso e o que é a coisa ou o Ser, há então três reviravoltas: a linguística, a ontológica e a do “sagrado”.
Karl Klaus (1874-1936) já reclamava sobre a verdade no meio jornalístico, é verdade que a indústria cultural movimentou massas, e as Mídias de redes agora também, mas e a verdade?
A grande revanche do sagrado no cristianismo, ocorre quando Jesus ao fazer a leitura numa sinagoga abre a passagem de Isaías 61: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa-nova … “, e disse hoje se realizou esta profecia.
A busca dos fundamentos perdidos, de formas de espiritualidade (as vezes bizarras é certo), de nova forma de conforto para a alma humana em tribulação não é outra coisa: ausência de uma verdadeira transcendência que leva a “clareira”, a “revelação” e ao desvelamento da verdade.

 

Da água para o vinho

18 Jan

Os artefactos humanos não são em si maus, ainda que hajam perigos.
O fato ocorrido nas bodas de Canaa na Galileia, o primeiro milagre público de Jesus, antecipando o seu tempo de vida pública, a pedido da mãe Maria, trás pelo menos três constatações não fundamentalistas que saltam os olhos, a primeiro evidente é o vinho.
Jesus gostava de vinho, o fato narrado em João (Jo 2:1-11), significa que o Mestre não só gostava de festas e vinho, mas também o queria em boa quantidade, a ponto de responder ao pedido da mãe, mas não sem antes contestá-la, a segunda evidencia não fundamentalista, disse a mãe (Jo 2,4): “Mulher, por que dizes isto a mim? Minha hora ainda não chegou”.
Não há dúvida que a bebia causa não apenas acidentes de transito, brigas e confusões como chega a desagregar família, o alcoolismo e a dependência são uma doença é claro, mas há quem saiba beber e estabelecer limites para suas ações após a bebida.
Porém o fato mais fundamental é que ao escolher o vinho e mais tarde o pão para deixar sua memória, significa que não apenas usa os filhos da natureza ou da terra, mas os artefactos, ou seja, aquilo que preciso da interferência humana para tornar-se alimento, o trigo transformado em pão, a uva transformada em vinho.
Isto significa que a natureza espiritual “divina” não nega e ao contrário valoriza o trabalho e o fruto das mãos humanas, não dessacraliza o humano, mas ao contrário ao valorizá-lo torna-o mais digno, e poder-se-ia dizer mais divino.
Assim cada artefacto humano produzido em função de um bem da humanidade, traz em si já uma dignidade e uma valorização que não devem ser desprezadas, não havendo, portanto, separação, ou se houver é ténue, entre o que é sagrado e o que é humano.
A ascese desespiritualizada do mundo contemporâneo nada mais é que “uma vida de exercícios” como diz Peter Sloterdijk desprovida de sentido humano no sentido mais profundo, até mesmo daquilo que entendemos por alegria e prazer.
Foi o esvaziamento do sentido de Ser que levou a uma espiritualidade idealista e fora do sentido da vida, transformá-la da água para o vinho significará, portanto, entender que o vinho veio naturalmente da água e precisou do artefacto humano para transformar a uva esmagada em vinho e depois servi-la como dádiva dos deuses.