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Arquivo para a ‘Noosfera’ Categoria

O sentido da solidariedade e boas festas

14 Dez

Parece consumismo, até gente com religiosidade pode condenar, mas o espírito de dar e abrir a mão ao outro, a quem sofre e também aos parentes e amigos tem referência bíblica.

Todos de alguma forma esperamos uma “salvação” e que esperavam ser real e concreta, João Batista, que antecedeu Jesus e era primo dele, pregava no deserto e a multidão que o seguia tinha estão angústia, perguntavam-lhe: Que devemos fazer?” João respondia: “Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo!” (Lucas, 3,11).

Sua fama era grande e por isso iam para lá também cobradores de impostos, e gente do império Romano, o próprio Herodes o conhecia e o temia, pois ele dizia a ele que não poderia ter desposado a esposa do irmão.

João dizia ao povo que além de fazer os habituais sacrifícios religiosos deviam também ser solidários com o povo e compartilhar seus bens, tudo isto era uma preparação a vinda do Salvador e ao mesmo tempo uma preparação espiritual.

A solidariedade de nossos tempos implica na aceitação de povos e culturas diferentes das habituais de cada povo, o planeta vive uma miscigenação de raças e credos, e o exercício do respeito e da liberdade de culto é fundamental para nosso tempo.

Por outro lado, cresce a intolerância, uma reação daqueles que não aceitam as diferenças culturais e religiosas, o resultado é o crescimento de sentimentos nacionalistas e com uma dose exagerada de fundamentalismo, o diálogo e a tolerância são remédios para este mal.

A lição de João Batista para seu povo, além de ceder discípulos a Jesus e também ter enviado mensageiros para perguntar se Ele de fato era o messias, tinha um exercício junto ao povo judeu de torná-lo mais aberto e solidário preparando-o para o “salvador”.

Os aspectos messiânicos deste tempo, também haviam dezenas de falsos messias no tempo de Jesus, também crescem, mas é fato identificá-los pela falta de solidariedade e exercícios de valores necessários a uma vida espiritual verdadeira.

Preparar os caminhos, aplainar as montanhas e descobrir as veredas são necessários para isto, o perigo de engano e de destempero em tempo de mudanças são inevitáveis, porém não deve levar aqueles que buscam serenidade e mudanças concretas, um tempo novo virá, eis o que significa Advento.

 

O que devemos fazer

13 Dez

A aporia dos gregos, a impropriedade (eu traduzo como irrazoabilidade) de Heidegger, o medo e a fragilidade de Martha Nussbaum, podem todos serem compostos em um suco que ajude a olhar para frente o momento atual, com serenidade e esperança.
Antes do advento do nascimento de Jesus, o Natal tem este significado simbólico mais profundo, esperamos uma “salvação” e ela deve ser concreta, João Batista pregava no deserto e a multidão que o seguia tinha apreensão e angustia, perguntavam-lhe: “Que devemos fazer?” João respondia: “Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo!” (Lucas, 3,11).
Iam para lá também cobradores de impostos, os corruptos de hoje que sujam toda a saúde financeira do estado, este é o protesto na França, e parece que também Teresa Mey no Reino Unido começa a dar sinais de fraquezas, a virada conservadora mostra sua impotência.
O que devemos fazer, não perder a solidariedade, a fraternidade, e que o espírito do advento do natal nos ajude naquilo que deve “advir” e virá, mas é preciso mentes e corações fortes.
O sentimento de morte, e até de certo abatimento nos corações desejosos do futuro podem estar presentes, mas não devem significar rendição nem paralisia, mas sim Aporia.
É preciso estar aberto ao novo, e desenvolver a solidariedade denunciando a violência e os abusos sociais, o prêmio Nobel o médico Denis Mukwege que socorre vitimas de abusos no Congo e que denuncia a violência ignorada pelo ocidente que acontece em seus pais, junto com Nadia Murad ativista contra o abuso sexual de mulheres, que foi ela própria vítima de violência dos
Denis Mukwege elogio o bom uso das novas mídias para denunciar estes fatos que a grande imprensa ignora ou torna-os menos graves do que são, assim a mudança digital, a inteligência artificial, a informação e a comunicação estão aí não para atrapalhar, mas para ajudar isto.
Os exemplos de Denis Mukwege e Nadia Murad nos servem para vencer o medo e seguir em frente, as mudanças que todos esperam virão com nosso empenho sereno e decidido.

 

O medo, a angústia e a mudança

12 Dez

O filósofo Martin Heidegger (1889-1976) convida aqueles que vivem no medo, a viver na impropriedade, ou seja um tipo de aporia que significa pensar sem atribuir valores e sentido, deixando que as circunstâncias o atribuam, parece uma alienação, mas é a alienação do eu.
Num mundo que vive sempre correndo, e alerto que isto já era reflexão de Nietzsche e também a Paulicéia Desvairada de Mario de Andrade da década de 20, e agora a Monarquia do Medo que é uma reflexão de Martha Nussbaum para os EUA, mas que serve ao Brasil e outros.
Nada está mais relacionado ao medo que a Morte, mas ela desperta também a angustia, seria de pensar qual a relação destas com a mudança, diria nenhuma, a menos da hipótese que Heidegger nos lança: a impropriedade, ou seja, deixarmos de atribuir sentido e permitir que os outros o atribuam, diria que é uma dialógica resignada.
Heidegger escreveu também que é na angústia que experimentamos nossa fragilidade.
Nela encontramos de forma inesperada a mudança, aonde nem a angústia e o medo alcançam, alem deles portanto, onde nasce a esperança e a “clareira”, luzes sobre a floresta.
Então o medo existe porque existe um perigo real, e significa que algo está em mudança, a angústia nos leva a pensar sobre qual é a mudança e o rumo dela.
Desconfio que o termo impropriedade usado na tradução nacional para a palavra de Heidegger unangemessenheit, possa ter outro significado, já que angemessen pode ser traduzido como o que é razoável, então eu traduziria irrazoabilidade, ou seja, o que não é em certo sentido como sendo razoável, mas que diante do medo e da angústia surgem como tendo novos horizontes, de onde podem emergir mudanças que antes eram impensadas.
O poeta alemão Hölderlin dizia que onde há medo há salvação, pode-se dizer nos dias de hoje de modo mais amplo, ou seja, na ciência, na política e porque não na espiritualidade.

 

Entre a Aporia e a Aletheia

11 Dez

A palavra grega Aporia (Ἀπορία) significava na Mitologia grega a impotência, a dificuldade e o desamparo, ou ainda a falta de meios, foi repensada pela escola aristotélica como impasse, paradoxo, dúvida, incerteza ou mesmo contradição, seus estudos são designados aporética.

Aristóteles a definiu como “igualdade de conclusões contraditórias” (Tópicos, 6.145.16-20).

Ela é importante porque rompia, ainda que participialmente, como a lógica de Ser ou Não ser, não podendo haver contradição, o que veio dar no idealismo contemporâneo.

É radicalmente diferente da Aletheia, porque está é encobrimento, não a contradição e assim era designada pelos antigos gregos como verdade e realidade, simultaneamente.

Heidegger a retoma na tentativa de “desvelar” a verdade, esta considerada um estado descritivo objetivo, e, portanto, carente de um movimento metafísico ou subjetivo.

Aporia foi também usada por autores contemporâneos, como Derridá e Paul de Man, portanto na teoria literária pós-estrututalismo, é assim a própria leitura desconstrutiva do texto, que já alertamos anteriormente que nada tem a ver com negação da verdade, mas indeterminação ou indecidibilidade.

O sentido de as colocarmos juntos aqui é justamente buscar uma relação que na teoria contemporânea está desconexa, sendo ela própria uma aporia, a viragem linguística parece não ter nada e nenhuma ligação com a ontológica, assim aporia e aletheia estão desconexos, os gregos pouco ajudam, pois, a leitura é no particípio passado e não particípio presente.

É curioso, mas foi Portugal que me alertou para o fato, aqui não se usa o gerúndio: alguém está falando, está a falar dizem, assim nada estará sendo, mas está a ser, esclareceu-me padre Manuel Antunes ao dar características do povo português: povo místico, mas não metafísico.

Enquanto aporia é particípio passado ela torna-se fatalista, indeterminada como busca da verdade, já a aletheia enquanto desvelamento é uma constante busca de horizontes, onde não há verdade definitiva, mas verdade em construção: sendo, revelando, acontecendo.

O determinismo filosófico, político e principalmente o religioso leva a diversos tipos de fundamentalismo, vai da pura aporia a pura “verdade”, não há dialógica nem desvelar.

O círculo hermenêutico de Heidegger não é apenas um método, é u desvelar, admitir a ideia que todos temos pré-conceito é um desvelar para a crise da modernidade, o legalismo e o positivismo idealista deu no que deu, uma realidade aporética, que parece sem saída, mas a própria humanidade aponta caminhos, um já é claro: admitir que há pré-conceitos é o único remédio e diagnóstico capaz de superá-los.

Culturas, religiões e conceitos políticos estão em choque isto é aporético, podem e devem entrar em dialógica humanista, isto é, desvelamento e busca de horizontes.

 

Aporética e maiêutica digital

10 Dez

No período pré-socrático, a filosofia chamada sofista tinha como pressuposto criar discursos para favorecer os governantes e isto logo levou a democracia grega a definhar e a um relativismo moral, Sócrates que viveu no séc. IV a.C. propôs um método para enfrentar isto que foi desenvolver a maiêutica, um método de perguntar que desenvolvia o logos.

Porém o estado aporético que de vivia era necessário mais que perguntar, um interlocutor devia abandonar seus pré-conceitos e o relativismo das opiniões exigia algo mais do que apenas perguntar, algo que fizesse um parto no pensamento novo, daí o nome maiêutica que era a arte de parir, assim não se tratava de “criar” conhecimento, mas de o parir.

Não há dúvida que o meio digital tornou-se torcidas de “opiniões”, a doxa como chamava os gregos, mas pode-se parir e indagar no meio digital ? é possível uma maiêutica digital, o caso não é apenas o modo como torcidas (claques em Portugal) se organizam, mas como são manipuladas por sofismas, hoje atualizada como “fake news”.

O sofisma existe na história, nunca deixou nem deixará de existir, em tempos digitais o problema é o processo viral, mas os grupos editoriais através de jornais e canais de TV já fizeram isto e sempre houve uma maiêutica que se contrapôs a manipulação aos fatos.

Retornemos ao método de Sócrates, este não tinha inicialmente saber algum, não fazia seus juízos segundo a tradição, os costumes, as opiniões, nem era dono de um episteme, ou um método elaborado, apenas perguntava, o problema hoje é que as questões são amplas e a modernidade já criou um saber “organizado” (no sentido sistemático e não como verdade), mas podemos usar isto para uma nova maiêutica digital, repelindo discursos equivocados.

Penso que não por acaso que a Inteligência Artificial esteja evoluindo, mas a inteligência prática, a phronesis unida a techné e a própria práxis (que é, portanto, uma parte da prática) poderão ajudar, então o discurso de Martha Nussbaum faz muito sentido.

Muita gente fala em manter o “foco” (mas ele pode estar errado) ou inteligência emocional, que desligada de uma sabedoria prática (a phronesis) pode cair em paralisia ou alienação.

Tudo o que temos hoje não é devido o mundo digital, embora afete o mundo, ele é um complexo meio e por isto é incorreto vê-lo como causa final ou inicial, nem mesmo foi a revolução industrial que causou isto, mas o conjunto de valores e sentimentos construídos na sociedade moderna, que nada mais são que uma forma de ser-no-mundo, um dasein como Heidegger mostrou.

Os recursos digitais parecem bem-vindos, mas ainda temos a barreira dos pré-conceitos, uma hermenêutica humana elaborada é necessária.

 

 

A aporia e o deserto

07 Dez

O que acontece em momentos de profunda crise é retornar ao porto seguro, infelizmente o porto seguro para as massas é aquilo que elas conhecem: um estado moderno forte e quando não o fundamentalismo religioso que parece devolver as raízes de cada povo.
Não são poucos os exemplos no mundo, até mesmo aqueles que se recusam, a rediscutir o estado, percebem que alguma coisa vai muito mal: cansaço da democracia ou até ódio à democracia, não é tão simples, não se cansa nem se odeia o que é bom, há algo errado.
A aporia é neste momento, mais que o vazio, porque este significa ouvir alguma coisa que vem a mente (o cogito cartesiano que não vai além do ego), o alter que é ouvir aquilo que não é o Mesmo, a aporia é o reconhecimento de uma falácia, mesmo que seja enquanto etapa histórica.
O diagnóstico de Sloterdijk é duro, devemos abandonar as profundezas de nossas interpretações antropológicas: todas as interpretações do homem enquanto “trabalhador” ou “comunicador” agora devem se traduzir na linguagem do exercício o que conhecemos até então como manifestações do homo faber ou homo religiosus, uma vida de “exercícios”.
Claro que é questionável, mais seu diagnóstico acertou até agora, os dualismos: sagrado vs. profano, pculturas aristocratas nobre vs. comum, culturas cognitivas conhecimento vs. ignorância, culturas militares vs culturas liberais, e vai por aí agora, é como se para diversos sistemas houvessem apenas a lógica dual binária, . Niklas Luhmann seguiu na mesma direção e chega a dizer que se constitui sua identidade, possibilita sua comunicação interna e regulamenta e restringe, ao mesmo tempo, sua comunicação com seu ambiente (Luhmann).
O que estaria além disto? A compreensão de cultura como regra e não como ancestralidade, é na verdade uma nova compreensão do humanismo ou mesmo o seu fim querem alguns.
Sob cultura entendem, desde Wittgenstein até Sloterdijk, são o conjunto de todas as formas comportamentais possíveis dentro de uma determinada sociedade, ou seja, todas as formas de vida que passam pelo crivo da regra; regra esta colocada num nível tão alto de exigência, que somente uma vida de exercícios pode alcança-la.
Assim poucos seriam capazes de cumpri-la. Wittgenstein, Nietzsche, Heidegger e até Foucault seriam todos representantes de uma filosofia enquanto disciplina, assim a filosofia, é mais que uma matéria escolar: ela é engajada e caracterizada por uma “tensão vertical”.
Se a politica conservadora brasileira requer uma escola sem partido, ela não pensa outra coisa que não seja o retorno a uma vida de exercícios: morais, religiosos e culturais, porque pouco ou nada sabe da origem de lemas como: “ordem e progresso”, lembra do positivismo de Augusto Comte do qual foi retirado a palavra “amor”, dispensável para ditadores.
A aporia necessária é o reconhecimento de uma noite cultural, filosófica e até mesmo religiosa que o ocidente enfrenta, mas também o budismo e o hinduísmo outrora pacifistas já dão sinais de “intolerância” em casos atuais em regiões da India e do Myanmar.
Somente uma “aporia moderna” será capaz de abrir um novo horizonte, esquemas antigos estão falidos, sou mais otimista que Sloterdijk e outros, o humanismo não morreu, há um humanismo de novo tipo que deve nascer: de todo homem e de toda cultura, sem exclusões.
Como está escrito em Lucas 3,4: “palavras do profeta Isaías: Esta é a voz daquele que grita no deserto: ‘preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas’ ”.

 

Aporia e esperança

06 Dez

O que podemos ter além da aporia, uma paralisação diante do impensável, retorno aos extremismos ?

Já postamos aqui sobe a phronesis, a sabedoria prática, que junto a techné e a práxis forma uma forma mais elaborada de entender a relação dualista e idealista de teoria e prática, mas foi Martha Nussbaum que colocou isto em novos patamares, apesar de desconfiança da crítica.

Martha Nussbaum foi a primeira ao desfilar em seu livro The Monarchy of Fear (A Monarquia do medo, poderá haver outras traduções pois o livro é de 2018), a obra que era uma visão clara do medo nos EUA, é agora também aplicada ao Brasil e ao crescimento dos fundamentalismos no mundo de hoje.

O nome pode parecer estranho, mas vai na linha de Rousseau o democrata “contratualista” mais lúcido e menos autoritário, onde a autora argumenta que numa monarquia a criança nasceu para “escravizar” as pessoas, mas ela evolui e vira um ser humano maduro quando consegue ver seus pais como uma extensão de si mesmo e passa a respeitá-los e a retribuir a vida que recebeu.

Partindo da teoria política, psicanálise, estudos psicológicos e clássicos, a filósofa argumenta que algumas emoções estão sabotando a democracia: o medo, a repulsa e a inveja, se antes não a levaram a sério, agora é hora de levar ao menos em conta.

Ela se contrapõe a esta teoria a escolha da esperança como um hábito prático, que significa colocarmos em contato com aquilo que a priori repelimos: a religião, as artes, a educação e o que parece mais fundamental: o estudo em detalhe das teorias da Justiça.

É um dos caminhos da transdisciplinaridade, mas antes devemos considerar o que está além do senso comum, pois também nestas áreas um certo nível de aprofundamento é necessário, além do autoritário e liberal, do justo e injusto social, da arte e das belas artes, há algo além e não é nem inter nem multi, mas trans, ou seja, além e nisto há algo de metafísico.

A esperança prática é também uma boa receita porque além de colocar algum luz no quadro atual de crise do pensamento, da cultura e até da religião, coloca-nos em movimento não na vida activa, mas em atividades que podem ser inseridas no dia a dia e alteram a vida e os resultados (incorporam assim phronesis e techné, embora a autora não a chame assim), ela trás para a conversa o tema das emoções, diz sobre si mesma: “não se tinha aprofundado o bastante”, disse em entrevista a Fronteiras do Pensamento.

Martha Nussbaum além de ser reconhecida estudiosa da cultura clássica, recebeu em 2016 o prêmio Kyoto, o equivalente japonês ao Nobel, que receberam também Karl Popper e Jürgen Habermas.

Não li o livro só esta entrevista e comentários em jornais, mas estou compondo minha lista de leitura para 2019, ele está nesta lista e que o espírito de paz e de fraternidade nos traga esperança.

 

O Natal e o Inverno

05 Dez

O Natal é diferente na Europa, o contraste entre o calor dos corações e o gelado das ruas dá um clima de recolhimento muito especial, diferente de países tropicais.

Pensava ser mais triste, mas não é, há corações atentos às luzes, ao burburinho das ruas, mesmo que alguém critique o consumismo ou o exagero, as pessoas querem se cumprimentar, querem fazer alguma coisa quase da mesma forma que no Brasil, sinto aqui até mais quente.

Fizemos um almoço com os colegas de meu ambiente de trabalho, e era mesmo festa, colocaram até as músicas de Natal de minha infância, não as convencionais, mas aquelas de criança como “deixei meu sapatinho”, é um clima gostoso, ao menos em Portugal.

Fui as ruas do centro iluminadas, uma bela árvore de Natal num dos lados da Praça do Comercio, a conversa nas ruas é curiosa, até mesmo islâmicos ou evangélicos, talvez seja só em Portugal, mas aqueceu meu coração.

Não estarei aqui na noite de Natal, nem no final de ano, mas ganhei uma visão mais otimista.

Difícil imaginar que em meio a tantas inclusive as religiosas, as políticas são fruto de uma volta a sentimentos nacionais e xenófobos, ainda há espaço para o aconchego, o amor e a amizade.

No meu cantinho festejei, certo de que será um pouco mais difícil no Brasil, mas não impossível, é preciso tentar mantar laços e evitar armar mais bombas do que as que estão ai.

Tempo de advento, que significa algo virá, ainda que seja contrário ao que desejamos é preciso manter a esperança, o espírito atento a injustiças e não fazer com os outros, o que não queremos que façam a nós.

Ainda que o Natal seja frio pelo clima natural ou pelo clima político, mantenhamos o calor.

 

O caso do nascimento de Jesus

03 Dez

É dogma cristão que Jesus era Deus, e se de fato ressuscitou então o era, mas o fato que nasceu não é dogma, apesar de controversas no texto bíblico de Lucas (2,1-5), houve um recenseamento em seu tempo e ficou registrado.
“Naqueles dias apareceu um edito de César Augusto, ordenando o recenseamento de todo o mundo habitado. Esse recenseamento foi o primeiro enquanto Quirino era Governador da Síria. E todos iam-se alistar, cada um na própria cidade. Também José subiu da cidade de Nazaré na Galiléa para a Judéia, na cidade de Davi, chamada Belém, por ser da casa e da família de Davi, para se inscrever com Maria, sua esposa, que estava grávida”.
Mas a controversa não é o Censo e o nascimento de um menino chamado Jesus, e sim o fato que quando Quirino era prefeito da Síria e Herodes rei da Judéia, lembre-se que Herodes queria matar o menino que seria “rei” achando que roubaria seu trono, e depois faz um infantíssimo, acontece que isto não é simultâneo com Quirino na Síria, mas é só uma querela.
O fato é que também não foi fácil, primeiro tiveram que ir a Belém, terra Natal de José uma imposição do censo, e não encontraram casa, depois tiveram que fugir para o Egito devido a morte das crianças que Herodes mandou por não saber quem era o menino-rei.
Enfim os tempos não eram fáceis, comparado ao nosso tempo podemos dizer que é Natal sim, apesar da data ser imprecisa, para nós cristãos, os que não creem também fazem festa, é um tempo para ter esperança, desejar a “clareira” e lutar para um futuro melhor.
Desculpem os que fazem outra leitura do cristianismo, mas quem perseguiu, quem matou e torturou foi o império romano, os cristãos e o povo simples, as crianças mortas por Herodes, eram inocentes.
Serão tempos difíceis, mas aqueles que lutam pela justiça não devem perder a esperança, em Lc 3,6: “E todas as pessoas verão a salvação de Deus”.

 

Olhar os sinais dos tempos com serenidade

30 Nov

Apesar de todo cansaço, de um estímulo cada vez maior a vida activa, a sobrecarga de trabalhos e até de emoções, é possível encontrar atalhos para vida simples e bem vivida, ainda que em tempos bicudos.

O primeiro passo essencial é ter o diagnóstico certo, tantos livros de autoajuda, de boa alimentação, receitas de felicidade que parecem não mover as pessoas das crises de ansiedade, de medo, de angústia e com síndromes cada vez mais graves como a de Burnout.

O diagnóstico é uma sociedade que nos empurrou para um sobre trabalho, não apenas funcional que é necessário, mas com cargas suplementares de ativismo politico, social, religioso e até mesmo familiar como sendo “necessários” para se viver bem e enfrentar as dificuldades.

Não há espaço para contemplação, para repouso mesmo, para atividades de lazer, pois nelas também colocamos mais ativismo, filas intermináveis de carros para praias, campos ou outros retiros que nada mais são do que levar a agitação na mala.

Não sabemos ler os sinais dos tempos, e com isto o ativismo apenas aumenta o vazio e o senso de preocupação, o diagnóstico já apontado por Nietzsche tem uma receita em Kierkegaard voltar a ser o que somos, e dali caminhar para mudanças e evoluções com serenidade.

Os apocalípticos dirão sinais dos tempos, os pragmáticos dirão a humanidade é assim, sempre foi e sempre será, incapacidade de leitura dos tempos, a leitura não fundamentalista sobre o final dos tempos “Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida, e esse dia não caia de repente sobre vós” (Lc 21, 35), pode servir para nossos tempos, bem antes do final do mundo que vai demorar.

Não importa se isto seria o fim dos tempos, o problema é nos tornarmos insensíveis, ou ainda embriagados ou demasiado preocupados com a vida, ela se torna obscurecida.