RSS
 

Arquivo para a ‘Noosfera’ Categoria

Por uma ética sem autoritarismo

21 Set

Substituímos o teocentrismo do Estado pelo estado teocêntrico, a autoridadeAEticaEoutro até recentemente não podia ser questionada, agora o rei está nú, ou agora os políticos estão nus.
Como substituir o “comando e controle do Estado” e produzir cidadãos livres e responsáveis, eis o problema do filósofo Lévinas em seu ensaio “Liberté et commandement foi publicado originalmente na Revue de métaphysique et de morale, LVIII, 1953, p. 264-272, tradução italiana Libertà e comando (Liberdade e comando), In: E. Levinas, A. Peperzak, Ética prima come filosofia (Ética como filosofia primeira), organizado por F. Ciaramelli, Milão: Guerini e Associados, 1993, p. 15-19.
Levinas retoma a partir de Platão a ideia na qual podemos ser livres somente se aquilo que for comandado se apresentar como evidência ética para quem deve cumprir a ordem, ou como queria Kant em sua lei da razão: é a esta última que se obedece, e não à exterioridade do comando, diríamos em termos atuais a advertência da Autoridade.
Embora ser autônomo signifique entre outras coisas não seguir ao comando irracional, podendo haver um risco até mesmo de morte, se esse for o preço da liberdade.9 A morte de Sócrates é bela, ainda que injusta, talvez seja ainda mais bela exatamente porque injusta: ela atesta a possibilidade da rejeitá-la afirma Lévinas no ensaio.
O tirano pode matar, mas não pode sujeitar a vontade, enquanto permanecer livre a reserva interior, a oposição do pensamento, pois existe uma dimensão privada da consciência discordante, e isto significa que não há como negar a interioridade.
“Todavia as coisas não são tão simples assim” considera Levinas, pois o fato que há um espaço interior, o “logro” da autonomia, conceito caro a Kant e muitos idealistas, não é deve ser bem examinado, pois além da intimidação que pode chegar a tortura, temos hoje a propaganda televisiva, em rádios, mídias de redes e também em grupos de pressão, que vão dos lobbies econômicos aos grupos editoriais de jornais, TVs e sites.
O homem, cuja liberdade é por natureza “não heroica”, pois o homem é feito de “medo e amor”, e ambos podemos em certos momentos não agir com indignação julgando ser mais prudente o silêncio.
O que é minado ou obstruído, em grupos autoritários é a própria capacidade de divergência, reservada aos espíritos livres, não reconhecida nos tempos obscuros da escravidão interior, diz a Bíblia o Justo vive de sua fé, mas pode-se acrescentar de seus valores e de sua convicção, mas como permitir uma ética de diálogo e alteridade ?
A experiência do totalitarismo deveria ter-nos deixado um legado: criou-se uma “índole de escravo”, em que “o temor preenche a índole a tal ponto que não se enxerga mais, vê-se tudo pela ótica do temor”, dela se aproveitam tiranos e fundamentalistas.
Mas há um Levinas anterior a esta reflexão, nas páginas finais de O tempo e o outro, de 1947, que foram escritas seis anos antes do ensaio Liberdade e comando , foi desenvolvida de modo maduro a partir do texto de 1954, intitulado O eu e a totalidade, em que aparece a temática do “terceiro”, além do Mesmo e do Outro há o que ?
Talvez haja um Justo exatamente aí, onde não é exatamente a “justa medida” do meio, nem o temor e o amor, compreendido aqui como deixar de lado algo injusto, o terceiro talvez seja o justo quando ambos podemos abrir mão de sua posição, um epoché da equidade, em favor da humanidade como um todo.

 

A filosofia e ascese contemporâneas

19 Set

A crise civilizatória que levou a duas guerras foram consequências diretasACulturaFisicapt de pensamentos, filosofia e estruturas sociais que mesmo partindo de princípios aparentemente razoáveis, como os conceitos de nação, estado e moral, levaram a barbaridades e atrocidades que é fruto de uma consciência ingênua do papel da filosofia, do pensamento e do conhecimento.
Nietszche caracterizava isto, em especial referindo a cultura alemã como cultura “do rebanho”, Peter Sloterdijk mais atual fala da imunologia, o fato que queremos eliminar todos os vírus e doenças, mas que também leva a uma ideia que partindo da crise civilizatória verdadeira, devemos nos defender do Outro, de outras culturas e visões de mundo.
Nietszche afirma que isto tem origem na cultura grega, que jamais teria abandonado a ideia: “em seu instinto de direito popular, os gregos denunciaram, e mesmo no apogeu de sua civilização e de sua humanidade, jamais deixaram de pronunciar palavras como: Ó vencido pertence ao vencedor, com mulher e filho, com bens e sangue. É a violência que dá o primeiro direito, e não há nenhum direito que não seja em seu fundamento arrogância, usurpação, ato de violência”, em “O estado grego” (edição brasileira de 1996).
O que o homem depois da modernidade quer, esta é a tese de Sloterdijk não é mais uma ascese espiritual, mas física a partir de exercícios e da imunologia (alimentação perfeita, rigor atlético, etc.), aquilo que Nietzsche no final da Genealogia escreveu sobre valores que seriam capazes de orientar a vida dos homens no crepúsculo dos deuses: “a vitalidade, entendida somaticamente e espiritualmente, é o meio que contém um desnível entre o mais e o menos. Ela tem dentro de si o movimento vertical que orienta as subidas, ela não precisa adicionalmente atratores externos e metafísicos. Que Deus deva estar morto, neste contexto, não importa. Com ou sem Deus cada um chega somente tão longe quanto sua forma (física) permite”, que está em escrito em Você tem que mudar sua vida, (Du musst Dein Leben ändern. Über Antropotechnik. Frankfurt, Suhrkamp, 2009, ainda sem tradução para o português).
O fato de chamarmos técnicos de futebol, treinadores de mestres não é mero acaso, em breve também personal training, nutricionistas e diversos outros tipos de imunologistas serão também mestres de nossas vidas, eles direcionam nosso ser.
O renascimento do ser, a noosfera do espírito e da mente, são formas de retorno a verdadeira vida, ao Lebenswelt e a Lebensphilosophie, lógica e filosofia da VIDA.

 

Vita activa

11 Set

Ainda Chyul-Han, o coreano-alemão de “A sociedade do cansaço”, parte da análise Ativode Vita Activa de Hanna Arendt (traduzimos Vita do latim, para vida até aqui), explicando que ela parte da prevalência na vida cristã da vida contemplativa, esclarece em nota que ela busca “uma mediação entre vita activa e vida contemplativa… assim descrita por São Gregório: ´temos de saber: quando exigimos um bom programa de vida, que passe da vita activa para a vita contemplativa, então, muitas vezes, é útil se a alma retorna da vida contemplativa para a ativa, de tal modo que se chama da contemplação que se acendeu no coração transmita toda sua perfeição à atividade.” (HAN, 2015, p. 39)

Esclarece o autor, que ela [Arendt]: “uma nova ligação de sua nova definição da vita activa com o primado da ação” (pag. 40), ela vai para um ativismo heroico, mas que ao contrário de seu mestre Heidegger que “pautou um agir decisivo no tema da morte” (idem), ela se orienta na possibilidade do próprio “nascimento do homem e no novo começo, em virtude de seu caráter nascivo, os homens deveriam realizar esse novo começo pela ação.”

Explica o autor que esta ação como nascimento, contém uma dimensão quase religiosa: “o milagre consiste no fato de os seres humanos pura e simplesmente nascerem, e juntos com esses, dá-se o novo começo que eles podem realizar pela ação em virtude de seu ser-nascido… “ (pags. 40 e 41),  citando Hanna Arendt.

Mas concerta uma possível interpretação moderna, pois Arendt que via na ação heroica inaudita de todas as capacidades humanas um “findar numa passividade mortal” (pag. 41).

Assim esclarece que as descrições de Arendt do animal laborans moderno não são aqueles da sociedade do desempenho, o animal “pós-moderno é provido do ego ao ponto de quase dilacerar-se. Ele pode ser tudo, menos passivo.” (pag. 41)

Acrescenta que a “perda moderna da fé, que não diz respeito apenas a Deus e ao além, mas á própria realidade, torna-se vida humana radicalmente transitória” (pag. 42).

Reivindica o homo sacer de Agamben, “são como mortos-vivos. Aqui, a apalavra sacer não significa ´amaldiçoado´, mas “sagrado”. Ora, a própria vida desnuda, que acabou se tornando radicalmente transitória, despida é sagrada, de modo que deve ser conservada a qualquer preço.” (HAN, 2017, p. 46).

HAN, B. C. A sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017

 

 

Quando ver é outra coisa que contemplar

08 Set

Há um mal estar naquilo que é sempre dizer SIM, os filhos não devem ser DizerNopTrepreendidos, mas o Estado tem o direito de direcionar a educação deles, os alunos não podem ser contrariados em sala de aula, a existência de uma “positividade” chegou ao absurdo de institucionalizá-la.

Este incomodo ao contrário do que parece leva o indivíduo em especial, e a sociedade como um todo diante de um fosso entre o que é realmente verdadeiro e o que é falso, já não é mais o relativismo, mas a positividade da “vida activa”, a ausência de qualquer vita contemplativa.

Mantemos a “vida activa” entre aspas, porque diferente da filosofia discutida aqui, há o conceito de “engagement”.

Mesmo em termos da Bíblia, aqueles que se recolhem em um grupo parecem ter alcançado de modo mais elevado esta positividade, no entanto, é contrário ao que ensina a Bíblia, Mateus18,15-16:

“Se o teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo,

mas em particular, à sós contigo!

Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão.

Se ele não te ouvir,

toma contigo mais uma ou duas pessoas,

para que toda a questão seja decidida

sob a palavra de duas ou três testemunhas.”

É preciso entender que isto refere-se a justiça, uma vez que testemunhas devem ser chamadas para dizer o que de fato está sendo corrigido, não é a moral maniqueísta e menos ainda aqueles assuntos, que são importantes, mas que ficam no âmbito da religiosidade.

É preciso, sobretudo separar o que é positivo do negativo fora do Maniqueismo, já o esclarecera no nosso post sobre o VER, onde o filósofo Chyul Han afirmara que: “capacitar o olho a uma atenção profunda e contemplativa, a um olhar demorado e lento.” (HAN, 2015, p. 51), o estar sujeito a estímulos sempre “positivos” na verdade nos frustra e não nos impele de fato para frente, para a “vita activa”.

 

Pedagogia do ver e negatividade

06 Set

Já falamos de potência aqui, a famosa categoria de “vontade de Potência” Contemplarprimeira em Nietzsche e depois em Schopenhauer, lemos em Além do Bem e do Mal §36 assim: “O mundo visto de dentro, o mundo determinado por seu ‘caráter inteligível’ – seria justamente ‘vontade de potência’, e nada mais”, no entanto, tem mais sim, pois é também Vontade de Poder.

Se Thomas de Aquino define potência dividindo em Ato e Potência, pode-se reler em Assim falou Zaratrusta deste modo: “Potência é aquilo que quer na Vontade. E o que é a potência? É um eterno dizer-SIM, e isto tem tudo a ver como nosso modo de pensar e sentir, o filósofo germano-coreano Chyul Han, vê nisto um equívoco do pensamento ocidental, no empuxo: “daquela positivação geral do mundo, tanto o homem quanto a sociedade se transformam numa máquina desempenho autista.” (HAN, 2015, p. 56).

A potência se afirma na vontade quando diz “Sim” ao devir, pois é a afirmação pura de sua própria efetivação, a alegria provém da afirmação. E o sentido é o resultado destas forças, afirmou Nietzsche em Assim falou Zaratrusta.

Mas Han para tornar sua análise precisa divide a potência em duas formas: “A potência positiva é a potência de fazer alguma coisa. A potência negativa, ao contrário, é a potência de não fazer, para falar com Nietzsche: para dizer não … distingue-se da mera impotência, a incapacidade de fazer alguma coisa.  A impotência é simplesmente o contrário da potência positiva.” (HAN, 2015, p. 57).

O raciocínio que aproxima Han de Thomas de Aquino, e a meu ver define sua ontologia já que percebo este traço em outros trabalhos seus, é o aprender a ver, explica ele: “capacitar o olho a uma atenção profunda e contemplativa, a um olhar demorado e lento.” (HAN, 2015, p. 51).

A falta de espírito falta de cultura repousaria na “incapacidade de oferecer resistência a um estímulo” afirma o coreano HAN leitor de Nietzsche, e afirma que ele nada mais faz do que propor a “revitalização da vita contemplativa.” (HAN, 2015, p. 52)

Conclui, ou praticamente conclui porque volta neste capítulo a falar da negatividade, faz uma lógica absurda se “tivéssemos a potência apenas de pensar algo, o pensamento estaria disperso numa quantidade infinita de objetos. Seria impossível fazer a reflexão (Nachdenken),pois a potência positiva, o excesso de positividade, só admite o continuar pensando (Fortdenken). (HAN, 2015, p. 58).

Thomas de Aquino, Nietzsche, de certa forma Hegel, e vários filósofos contemporâneos discutiram isto antes do mundo virtual e maquínico, mas fica para o próximo post.

HAN, B.C. A sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes , 2015.

 

O belo e o líquido

05 Set

A ideia que há uma liquefação da estética na modernidade é tão moderna quanto os conceitosFalsoBelo de liberdade, estado e principalmente: sujeitos e objetos.

Nesta morte da estética, já escreveram alguns autores, o belo é mera exposição do sensível da ideia nas obras de arte, e seria a partir delas que estaria resolvida a contradição, criada na modernidade, entre sujeito e objeto, assim uma obra de arte seria: “o primeiro elo intermediário entre o que é meramente exterior, sensível e passageiros e o puro pensar” talvez fosse este menos líquido, seria “científico”.

Hegel reconhecia na filosofia kantiana um “avanço em relação a outras teorias estéticas”, uma vez que, segundo o filósofo ápice do idealismo, a possibilidade de unificação entre espírito e natureza de daria pela arte, mas recusa-a ao perceber que conduziria a um dualismo insuperável entre sujeito e objeto, em uma síntese meio rude diríamos: “o demônio idealista”.

Mas não supera este “demônio”, dito por Hegel assim: ““… o belo artístico foi reconhecido como um dos meios que resolve e reconduz a uma unidade aquela contraposição e contradição entre o espírito que repousa em si mesmo abstratamente e a natureza. […] a filosofia kantiana sentiu este ponto de unificação em sua necessidade, como também o reconheceu e o representou de modo determinado.” (HEGEL, 2001, p.74)

O livro do filósofo germano-coreano Byung-Chul Han, Die Errettung des Schönen (A salvação do Belo) (Fischer Verlag, 2015, sem tradução para o português) dá um novo fio condutor para a questão do belo, com aquilo que já chamou em outros livros de “falta de negatividade de nossa era”.

Usa em sua linguagem as ideias do “positivo” e “negativo”, para designar o super consumo, quer seja de mercadorias, de informação e de capital, prefere antes a diversidade que a alteridade, antes a diferença que o distinto, e assim no estético o liso ao rugoso, e estética é para Han uma apologia ao liso, o polido, o pornográfico e não o erótico (no sentido do eros).

A subjetividade é confusamente lisa, sem interioridade e dificuldades (sem sofrimento já o dissemos), submete-se a um simplismo que quer tudo aplainar e polir, terapias para superar o medo, a angústia, o culto religioso é o repetitivo e a pura “doutrinação”, leitura sem nenhuma hermenêutica e cheia de exegese antiga e superada, palestras deve divertir e não ensinar, meios de comunicação são confudidos com os seus fins (que é para-comunicação) .

Os liquefeitos é que liquefazem tudo, para ficarem segundo sua lisura, sua feiura e sua ausência de negatividade e contradição, é mais que idealismo é “puro idealismo”, corpos que parecem bonecos, rostos sem expressão ou de expressão única, ausência da mímesis, voltaremos a ela, mas aqui basta o repetitivo, imitativo, mera representação, falsa receptividade, ato de se assemelhar, e no fundo a-presentação do eu (não alter).

 

HAN, B.C. Die Errettung des Schönen (A salvação do Belo), DE: Fischer Verlag, 2015.

HEGEL, George W. Cursos de estética. São Paulo: Edusp, 2001.

 

A mente emergiu da matéria ?  

04 Set

Esta pergunta está no trabalho de Terrence W. Deacon  filósofo, antropólogo e cientistaIncompleteNature cognitivo de Berkeley, em Incomplete Nature: how mind emerge from matter (2013), onde Deacon considera a informação um fenômeno cuja existência é determinada respectivamente por uma ausência essencial, algo como um não realizado que pode ou não vir a ser o realizado. Se no século 19 o grande paradigma foi admitir a existência da energia e sua relação com a matéria, agora modificada por Constantino Tsallis (veja nosso post), o século 20 trás para nós suas dificuldades em assimilar a irrealidade existencial da informação.

Uma explicação completa sobre a real natureza da informação é tal que seria necessário distinguir a informação de relações meramente materiais ou energéticas que também requerem uma alteração de paradigma, então uma alternância forma/fundo que nós chamamos neste blog de in-forma-ação, seria ainda mais fundamentalmente uma visão contra-intuitiva que a exigida pela energia.(DEACON, 2013, p. 373)

Deacon usa para seu argumento, diversos exemplos vindos da biologia e da matemática para justificar sua ideia, em essência emergentes de um nada, na verdade não é nova na filosofia e na ciência, menos ainda na lógica e na matemática, mas ao contrário de Descartes onde a primeira certeza é o Eu, na matemática moderna a primeira certeza é o 0, o conjunto vazio e agora com o digital, o 0 e 1, que emerge uma metamatemática como quer Gregory Chaitin, que já abordamos em outro post.

O modelo de números cardinais do matemático Von Neumann define todos os números literalmente a partir do zero: existe o conjunto vazio. O conjunto do conjunto vazio tem um elemento: o próprio conjunto vazio, Alain Turing e Claude Shannon idealizaram a máquina, mas foi Von Neumann que a construiu, se pensamos que o Mark I e a máquina de Konrad Zuze, não eram mais que calculadoras eletromecânicas.

Um matemático ligado à teoria dos Conjuntos, Ernst Zermelo, embora faça um raciocínio distinto, também parte do zero para chegar a todos os cardinais.

A informação faz parte do homem moderna, não só na cidade, mas agora na chamada Sociedade da Informação, que nós mesmo vamos produzi-la a partir de situações onde identificamos que algo está faltando.

Essa aparenta ser a melhor postura para abordar a natureza da informação. Ela é sempre um quê que falta. Como se a todo instante a realidade estivesse se perguntando: e agora o que falta?, e providenciando o que pode.

Essa ideia é mesmo conhecida para nós. Ser previdente, eficiente, organizado, é sempre ter uma atitude preventiva e pró-ativa em relação a situações possíveis. É um antecipar-se. É detectar o que falta e providenciar. Segundo Deacon, essa lógica perpassa toda a realidade. Além da abundante infosfera em que nos situamos, a informação emergente é uma demanda constante, seja através de seres vivos ou não.

Deacon reivindica a ideia do matemático e teórico da comunicação Claude Shannon, que associou entropia máxima à informação mínima e vice-versa, trazendo a informação para a origem da dicotomia ordem/desordem, tão cara às teorias de sistemas complexos, à matemática do caos e à termodinâmica irreversível das estruturas dissipativas de Ilya Prigogini, Prêmio Nobel de Química de 1977, de onde emergem as ideias de Caos e Complexidade.

Terrence Deacon, Constatino Tsallis e Gregory Chaitin estarão no EBICC, evento da USP no fim de outubro.

DEACON, T. W. Incomplete Nature: the mind emerged from matter. 2013.

 

Oréstia: a tragédia desconhecida

31 Ago

Oréstia foi encenada pela primeira vez em 458 a.C., e foi vencedora do primeiro Orestiaprêmio nas festas dionisíacas de Atenas, embora tenha sido escrita por Ésquilo, e vencedora do primeiro prêmio nas festas dionisíacas de Atenas, ela é desconhecida e pouco apreciada hoje.

Tragédia está associada em nossos dias, e não por acaso, a dores, catástrofes, algo onde há muitas vítimas, ou ainda o desenrolar de alguma ação violenta como um assassinato, uma guerra ou um grave acidente natural, para os gregos era outra coisa.

Tragikós definia uma forma  artística inovadora, ou algo que somente ocorria entre os grandes eventos que mudavam a história. Na visão de Aristóteles, um dos primeiros a estudar o impacto dos espetáculos teatrais, a tragédia seria “uma representação imitadora de uma ação séria, concreta, de certa grandeza, representada, mas não narrada, era provocadora da Katarsis, a catarse, que é a purgação das emoções dos espectadores.

Oréstia, de Ésquilo é porisso uma grande representante desta modalidade de teatro, a peça pode ser dividida em três partes: na primeira Agamênon mostra a volta desse personagem da guerra de Tróia, onde foi bem sucedido em matar a própria filha, Ifigênia, em sacrifício aos deus, mas isto não é bem recebido pela mãe Clitemnestra que quer vingar a morte da filha com ajuda do amante Egisto.

Na segunda parte Coéforas, narra a volta de Orestes, filho de Agamênon, orientado pelo deus Apolo, para vingar a morte do pai, ele é ajudado por sua irmã, Electra, que era mantida como serviçal no sótão do castelo pela sua mãe, Clitemnestra, e, na terceira parte, Eumênides, traz a ira de Clitemnestra, já morta, materializada nas Fúrias, que são vistas somente por Orestes e responsáveis pela sua loucura. Narra também o julgamento do crime de Orestes: o assassinato da própria mãe, que será analisado pela deusa Atena.

Embora daí tenha surgido o complexo de Electra, que não é propriamente o amor dos filhos pela mãe, mas o desejo do matricídio, observado em sociedades machistas, o problema na verdade é de justiça e de política representado pela deusa Atena, proclama um tribunal para julgar o homicídio cometido por Orestes, e ficará instituído para sempre, mas a pergunta que resta é porque deuses precisam de sacrifícios ?

Tentamos responder no próximo post.

 

Uma constante e um possível Nobel da Física

28 Ago

Constantino Tsallis (1943- ), do Santa Fé Institute é um grego que está no Brasil,AentropiaMaxBoltz e é candidato ao Nobel da Fisica deste ano, embora não seja brasileiro, como ele gosta de dizer: “ele e a torcida do Flamengo torcem para este Novel da Física”.

Ele retrabalhou a constante de Boltzmann a ponto de torna-la mais genérica, mais aplicável e a ponto de mudar o nome dela (ou criar uma constante mais geral) chamada de Tsallis.

A constante de Boltzmann (k ou kB) é a constante física que relaciona temperatura e energia de moléculas, os kMols como aprendemos (ou não) nas aulas de Física.

O nome deve-se ao físico austríaco Ludwig Boltzmann (1844-1906), que fez as mais importantes contribuições para a mecânica estatística (sendo até considerado seu fundador), na qual a sua constante tem um papel fundamental. O seu valor experimental, em unidades SI, determinado em 2002, é:

k = 1,3806503. 10^-23 J/K

A forma mais simples de chegar à constante de Boltzmann é dividir a constante dos gases perfeitos pela constante de Avogadro.

Mas a contribuição não para aí, o mais importante conceito que vem da física é o da entropia, e juntamente com Maxwell (embora nunca tenham trabalhado junto), constituíram o que é chamado de distribuição de Maxwell-Boltzmann para visualizar a distribuição da velocidade das partículas em temperaturas diferentes.

Constantino Tsallis, um físico grego-americano que atualmente trabalha no Brasil, ao revisar a constante de Boltzmann, segundo ele próprio apenas pela beleza das equações,

Formulada em 1988 por Constantino Tsallis como uma base para generalizar a mecânica estatística padrão, pode-se dizer quase a refundando, é uma generalização da Entropia de Boltzmann–Gibbs, já que a Particúla de Gibbs foi recentemente confirmada experimentalmente e é também um resultado fundamental para a Física Padrão.

A relevância física da teoria de Tsallis já é amplamente debatida no cenário da literatura física mundial, mas foi só na década passada, que pesquisadores mostraram que a matemática de Tsallis descreve mais precisamente os comportamentos em lei de potência em uma larga gama de fenômenos, desde a turbulência de fluidos até os fragmentos criados nas colisões de partículas de altas energias.

Constantino Tsallis é candidato ao Nobel da Física e estará no evento EBICC da USP-SP.

 

 

A consciência e qual a origem da Vida

25 Ago

Já pontuamos aqui, em posts anteriores, o problema da consciência histórica, TeoriaDasCordasna leitura romântica de Dilthey cujo “seu ideal é decodificar o Livro da História” (Gadamer, 2006, p. 11), e a questão da consciência apontada pelo próprio Gadamer como o “problema de introduzir o problema hermenêutico a partir da perspectiva de Husserl e Heidegger” (idem, p. 10), e que na verdade o autor aborda sua Lebensphilosophie (idem), a filosofia da vida.

O problema da consciência agora visto como uma metamatemática , ou ainda como um problema da complexidade, não é apenas um problema de uma constante, de uma sequência previsível, que pode explicar muita coisa, mas não um Alfa e Omega, princípio e fim, diríamos quase simultâneos.

Sejam quais forem as cosmogonias e escatologias pensadas por seres humanos, todas terão algo em comum, temos consciência de um princípio e fim, e assim podemos dizer que temos consciência de que a consciência “escatológica” existe.

A pergunta na cultura cristã que deveria ecoar sobre a consciência, e indiretamente da nossa existência já que ela é vida, Jesus faz uma pergunta certeira aos seus seguidores, no evangelho de Marcos: “Quem dizem os homens que eu sou?” Eles responderam: “João Batista; outros, Elias; outros, ainda, um dos profetas”. “E vós”, perguntou ele, “quem dizeis que eu sou?” perguntando sobre qual o tipo de verdade eles se deparavam ao caminhar com Ele e ver os fatos e ideias que divulgava.

O fato que não temos resposta definitiva para a questão da consciência, já atentava Gadamer é um problema da Lebensphilosophie, isto é, do que pensamos sobre a vida, e em ultima instância sobre a vida dos Outros, não são os Mesmos, isto é, o Ego.

O que deve ecoar em nossos corações é que não podemos dizer o que somos, ou quem somos e tomar consciência de nossa própria consciência se não pensamos o nosso Ser como parte de uma humanidade diversa, onde o Outro é parte do Ser.

As equações e complexidades que definem a vida, não podem anular a vida que se escoa numa escatologia terrena que se dirige a uma eternidade divina, seja na Teoria do Big Bang (um início do tempo) ou na Teoria das Cordas (na ilustração, um abismo no tempo), a explicação física (algo existe) ou ontológica(o Ser existe), temos sempre consciência da necessidade da consciência, e ela deveria nos guiar.

 

GADAMER, H.G. O problema da consciência histórica, 3ª. Edição. Rio de Janeiro: FGV, 2006