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Arquivo para a ‘Antropotécnica’ Categoria

O auge do idealismo e o Espírito

05 Fev

O espírito visto fora da Noologia, nome cunhado pelo Escritor brasileiro Mario Ferreira dos Santos ao estudo da Noosfera, o resto é puro idealismo na filosofia ou falsificação espiritual da teologia.
A influência na teologia contemporânea (entre muitas outras) pode ser vista na obra de Karl Ranner, tanto em Hörer des Wortes (HW) em sua tradução espanhola Oyente de la palabra (Ouvinte da Palavra), ou como no espírito do mundo, sua tese de O espirito do Mundo (1967), onde apesar da influência de Tomas de Aquino e até mesmo de Heidegger, não abandonou por completo sua influencia original de Kant.
Escreveu Francisco Taborda sobre Rahner: “O que Rahner faz em HW pressagia toda sua caminhada teológica posterior, caracterizada pela perspectiva transcendental que implica a presença de uma filosofia interna à teologia e traz a marca da virada antropológica da modernidade”, ou seja, apesar de tentar conciliar seu pensamento com Tomás de Aquino e Heidegger, sua matriz principal está em “Ouvinte da Palavra” (1963), onde afirma: “se o homem se acha defronte ao Deus de uma possível revelação, se esta revelação, caso tenha lugar, deve produzir-se na história humana … etc.” (RAHNER, 1967, p. 213).
Mas dialogar teologia é complexo atualmente, e infelizmente a simplificação levou ao fundamentalismo, que é a pior das tragédias, pois Deus é Omnisciente, então não é simples, pois o Amor é algo tão complexo que jamais alguém o codificou, poetas e filósofos tentaram.
Na filosofia o auge desta tentativa idealista foi Fenomenologia do Espírito, praticamente uma tentativa de desvendar a Trindade, usando as categorias em-si, de-si e para-si, mas cujo conceito de autoconsciência o trai, pois o para-si que poderia ser além de si, é na verdade um retorno ao eu do em-si.
Assim o Deus transcendente, está “morto” para Kant, pois é pura relação de imanência, o que é diagnosticado por Hegel (2007, p. 173) gerando assim a ideia que o Deus histórico, o mesmo de Rahner negando-se o aspecto absoluto, espiritual acima do temporal, “a sensação de que Deus Ele mesmo está morto” (idem).
Gadamer ao fazer a releitura de Hegel, desvela este Espírito visto como uma imanência: “Se trata de uma progressão imanente, que não pretende partir de nenhuma tese imposta, senão seguir o automovimento dos conceitos, e expor, prescindindo por inteiro de toda transição designada desde fora, a conseqüência imanente do pensamento em contínua progressão”. (GADAMER, 2000, p. 11)
Não é isto o Espirito Santo trinitário da cristandade, mas uma visão de espirito imanente apenas humano.

GADAMER, Hans-Georg. La dialéctica Hegel: Cinco ensayos hermenéuticos. 5ª ed. Trad: Manuel Garrido. Madrid: Ediciones Cátedra, 2000.
HEGEL, Georg Wilhem Friedrich. Fé e Saber. Trad: Oliver Tolle. São Paulo: Hedra, 2007.
RAHNER, Karl. Oyente de la Palabra: fundamentos para una filosofía de la religión. Barcelona: Hélder, 1967.

 

Nietzsche, biografias e idealismo

16 Jan

Por ser também biógrafo de Heidegger, tive a motivação para ler a biografia de Rudiger Safransky sobre este admirável critico do idealismo, e vê-lo como humano como ele próprio o desejaria, ao contrário de Nietzsche em Turim (Irvin D. Yalom) e Quando Nietzsche chorou (filme brasileiro do diretor Julio Bressane, 2001), que é contrário mesmo a sua filosofia ao idealiza-lo, impróprio para um critico do idealismo.
Tema atualíssimo, devido a emergência do fundamentalismo cristão, ao qual Nietzsche se opôs vorazmente e com conhecimento pois era de uma família de pastores luteranos, o autor discute com propriedade o evolucionismo de Charles Darwin e a “morte de Deus”, proclamada mas não promulgada, uma vez que para alguns teólogos não idealistas, como Teilhard de Chardin que oferece uma visão de um Cristo cósmico, e a relação entre a “luta pela sobrevivência” de Darwin é corretamente modificada pela “luta pela dominação” de Nietzsche.
A valorização da estética em Zaratrusta, ainda que possam haver quem discordo do corpo das argumentações, possui uma bela construção poética, na qual o interdito da “montanha proibida dos excluídos da graça divina”, ironia do autor com a exclusão dentro de um cristianismo (falso ao nosso ver) que se proclama não excludente, vê em Zaratrusta um profeta menor sem a força de um Daniel que entrou e saiu da cova dos leões, sem a dignidade de um João Batista arredio aos nobres e ricos, vivendo da alimentação de gafanhotos e favos de mel silvestre.
A sua posição estética, discussão do último capítulo, vai desde a análise do nascimento da tragédia, fundamental na antiguidade clássica, até a discussão da música de Wagner, onde ressalta a influencia em autor como Jaspers, Heidegger, Thomas Man, Bergson, Adorno, Horkheimer e Focault, e nega sua influencia no pensamento nazista, apesar do desejo de apropriar-se de sua filosofia.
O que alguns criticam nesta obra biográfica sobre Nietzsche é ao nosso ver o seu grande valor, o fato que aproxima a sua vida de seus escritos, indo a fundo ao erro clássico do idealismo, ao separar sujeito de objeto, separa pensamento da vida concreta, como se isto fosse possível, neste caso tragédia vital que é diversa da análise da tragédia grega onde desde Aristóteles, trata-se do destino dos homens, da sociedade e sua relação com os deuses.
A tragédia do idealismo é propor um modelo humano, religioso e societário que não se pode realizar uma vez que separado da “mundaneidade” é só um “ideal”.

Rudiger Safranski, Nietzsche: biografia de uma tragedia. Tradução de Lya Luft. Sao Paulo: Geração Editorial, 2001.

 

Caminhos, artefacto e arte em Heidegger

14 Jan

A origem da obra de arte (1936) é um texto de Martin Heidegger, onde desvela a questão da arte e da obra, que aqui iremos chamar de artefacto, e que o próprio Heidegger pensou em mudar, ao escrever a coletânea Caminhos da Floresta.
Em vez de escrever obra escreve Caminhos de Floresta (Holzwege) no qual foi acrescido um aditamento antes do epílogo em 1956.
A visão de Heidegger que o “artefacto” de arte, é um modo privilegiado de revelar o cotidiano, revela-se como uma compreensão poética do mundo, e traz dentro desta a ideia de “caminho” no sentido de alcance, duração e legitimidade da arte.
Esta é a importância de perguntar-se qual a origem da obra de arte? A origem está no artefacto, no observador ou no artista? Segundo sua pergunta: “O que é que, na obra, está em obra?” (Heidegger, 2002, p. 31), onde é possível ver já o “caminho”.
A filosofia medieval chamou de coisa a “quididade”, como aquilo que a coisa é, foi sobre ela que nominalistas como Ockham e Duns Scotto debateram com realistas, como o qual debateram realistas e ontólogos como Tomás de Aquino, que se inicia na discussão sobre a existência de universais, e de fundo é sobre o que é essência.
Para Heidegger origem significa Aquilo que é e como é sendo, ou seja sua essência.
A origem de algo provém então de sua essência, assim a pergunta pela origem da obra de arte é a pergunta sobre a proveniência de sua essência (HEIDEGER, 2002, p. 7), e que deseja-se extrapolar para a técnica e sua relação com a essência.
Heidegger em A origem da obra de arte, propõe uma discussão do conteúdo da arte, do estatuto singular de obra, do despontar da obra de arte a partir e por meio da atividade criadora do artista, assim conclui que a origem da obra é o artista (HEIDEGGER, 2002, p. 61), mas não recorre ao sentido da origem antropológica.
Fazendo como exemplo, o efeito da experiência estética a quem observa os sapatos na tela de van Gogh (1886), atualiza, a cada vez, a própria imagem retratada, isto dá sentido ao virtual, uma vez que o virtual é algo que se atualiza, e se torna arte cuja origem foi o artista, mas completa-se no observador, e para isto há o artefacto.
A atualização deste fundamento ontológico de Heidegger que vê no artista a origem, está em Rancière ao falar do “Espectador Emancipado” (2008), que abre a discussão sobre “os pressupostos teóricos que põem a questão do espectador no cerne da discussão sobre as relações entre arte e política” (Rancière, 2012, p. 8), essencial para os dias de hoje.
Rancière mostra duas premissas sobre o espectador que são falsas, a primeira que é o espectador como contrário ao conhecer, e a segunda que é contrário ao agir, e chama isto de paradoxo do espectador que é, no caso do teatro, um “não teatro sem espectador” (RANCIÈRE, 2012, p.8).
Propomos em oposição o estatuto ontoantropotécnico da obra de arte, ou do seu artefacto, ela existe enquanto é sendo, assim o artista empresta seu estatuto ontológico enquanto antropos (homem), e a exprime enquanto técnica.

HEIDEGGER, M. A Origem da Obra de Arte, Lisboa: Edições 70, 2002.

RANCIÈRE, J. O espectador Emancipado, São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.

 

A ideia de ser e o puro ser

11 Jan

Enquanto a ideia de ser fica limitada apenas ao Ser-coisa, embora existente permanece idealizado e separado da própria “coisa”, natureza e substância que também é, o Ser-em- relação só existe enquanto a existência do Outro, senão não há relação, e a forma básica de relação é a linguagem.
Se admitimos a existência do Ser, como diria a filosofia existe algo e não o nada, que não é um porque (porque existe algo, por exemplo), uma uma ex-sistência que vai redefinir o que Freud havia chamado de inconsciência, segundo J. Lacan vai precisar: “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”, portanto é forma primária de relação, mas a linguagem não se limita a ela.
Como Lacan a define há três formas de registros – real, simbólico e imaginário, segundo a tríade freudiana: a inibição, o sintoma e a angústia, o inconsciente conforme Lacan habita um lugar inusitado, um lugar da ex-sistência em um plano de três consistências aplainadas conforme o esquema dos círculos ao lado, pela tragédia do fim da vida de Lacan pouca gente se dá conta de sua precisão, veja o esquema proposto acima.
O que é o ex-sistente ? Disse Lacan: “se define, em relação a uma certa consistência , se afinal de contas não é senão esse fora, que não é um não dentro, se essa ex-sistência é de alguma maneira isso ao redor do qual se evapora uma substância, (…) , disso não resulta menos que a noção de uma falha, que a noção de um buraco ainda em algo tão extenuado que a ex-sistência conserva seu sentido, que já lhes disse (….) que há no Simbólico um reprimido, há também no Real algo que faz buraco, há também no Imaginário”, o que de certa forma aproxima-se de Freud e não escapa de seu psicologismo.
Esta definição ainda que criticamos o seu psicologismo, aproxima-se do sentido ontológico Heideggeriano, existe fora, e aqui podemos dizer fora da consistência, ou seja, pois não é como afirma o próprio Lacan um é “não dentro”, na linguagem idealista separando sujeito de objeto, o ex-sistir existe em uma posição de ex-centricidade, no sentido de relação a algo, no dizer psicológico de Lacan “o um que cai da definição de outros lugares, mas que a eles não está incorporado”, aqui subsiste o dualismo.
A ideia de resistir a ideia de puro Ser, que significa existir Deus que é centricidade e extrapola a ex-centricidade e a justifica, porque o Ser é na filosofia antiga, e no sentido ontológico atual “não ser” também é criando uma terceira hipótese ao terceiro excluído da lógica idealista: o Ser é e Não-ser não é.
A má relação com os objetos através da transcendência idealista é aquela que faz uma separação entre sujeitos e objetos, típica da sociedade moderna, sendo também uma deturpação da relação com os objetos (dinheiro, objetos pessoais e as coisas da natureza) sendo e como religião tem equívocos, que justifica a desigualdade social e até mesmo a “sacralização” da relação com estes, como se riqueza fosse “presente de Deus” e não uma contingência humana.
O esquema proposto por Lacan embora válido possui uma lacuna ontológica, pois se de um lado podemos relacionar o Real, o Imaginário e o simbólico, aquilo que pertence somente ao imaginário-simbólico é na verdade fantasia humana, existe enquanto possibilidade Virtual, mas não se atualiza.
O Virtual é o Real passível de atualização, neste sentido é “Virtus” aquilo que pode existir enquanto Ser, mas que ainda é só presente, para ser real precisa se atualizar.
Esta lacuna surge daquilo que é novo, que ainda é potencial no sentido da ontologia antiga, e que é virtual no sentido da ontologia do fenômeno, pode fazer pouco sentido pois faz parte ainda do imaginário, tendo uma representação simbólica primária (poderá ter várias reinterpretações) e está no plano do inconsciente tanto da rejeição como da inibição pelo desconhecimento da novidade.
LACAN, J. O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1979.

 

Ideologia, visão de mundo e ontologia

10 Jan

Não é possível transcendência pela simples ligação com os objetos, isto é fetiche, reificação (res coisa), ou apenas uma má compreensão do que a coisa é, porém a negação da relação com esta coisa, seja pela transcendência idealista (separação de sujeitos e objetos) ou pela relação dualista, como as coisas do mundo e as coisas do céu, também são más relações.
O fato que existe corrupção é porque existe ganância, ou seja, pessoas que acham “justo” terem mais por ocupar cargo ou função na sociedade, que algo além do salário ou mesmo ter um salário legal, mas imoral, como gente que ganha acima de 35 mil reais (algo perto dos 10 mil dólares) usando cargos públicos.
São as sociedades mais pobres que estas pessoas aparecem, fruto de uma grande desigualdade, portanto combater a corrupção sem combater a desigualdade é não eliminar a raiz do mal, que é a imensa desigualdade em alguns países pobres.
Isto não é ideologia, mas justiça, as ideologias existem em quase todos planos, pois determinados esquemas de fechamento em grupos podem, e em geral acontecem, porque vivemos em círculos ou bolhas (quando são efémeras) que procuram manter seus “valores”.
A religião deveria representar por um lado uma visão mais ampla desta limitação de relação com as outras pessoas, com o mundo e com os objetos, eles são parte do mundo, e é claro nisto se inclui toda a tecnologia que emergem em determinados contextos.
A relação com os objetos através da transcendência idealista é aquela que faz uma separação entre sujeitos e objetos, típica da sociedade moderna, é também uma relação equivocada com os objetos (dinheiro, objetos pessoais e as coisas da natureza) sendo também uma religião com equívocos, aquela que justifica a desigualdade social e até a “sacraliza”, como se a riqueza fosse “presente de Deus” e não simplesmente construção humana.
Ao diferenciar a relação com Deus da relação com o mundo nada mais fazemos do que dar uma relação que Descartes chamou de res pensante (coisa pensante) ou res extensa (coisa extensa ou corpo), mas sem separá-las, pois, estão presentes na relação com o mundo.

A relação que integra coisa pensante e coisa extensa é o ser, como afirmou José Saramago: “há algo que não tem nome e é tudo aquilo que sou”.

O que diferencia é na verdade nossa visão de mundo, como afirma Heidegger, reintegrando a ontologia (O Ser) com a sua presença no mundo o seu “dasein”, que por hora está esquecido.

 

Uma releitura dos reis magos

04 Jan

Em tempos de fundamentalismo e intolerância religiosa, uma releitura dos reis magos que foram adotar e também “contemplar” o nascimento de Jesus é essencial para o diálogo.

A primeira necessária é que Deus se comunicou com os “magos” do oriente, ela pode reabrir corações fechados para re-ligações (religião do verbo em latim religare que é religar), pois eles não eram sequer religiosos no sentido convencional, mas magos e Deus os religou.

A segunda é que a comunicação divina foi através de astros, que significa que eles podiam entender esta linguagem e que Deus falou na língua humana deles, ou seja, há formas além das dogmáticas de comunicação entre Deus e os homens, mesmo não crentes.

A cosmologia é uma parte antiga e fundamental da filosofia, sua evolução e composição estuda o universo, e vem desde a antiguidade, os pré-socráticos a estudavam, buscam também a explicação da origem e da transformação da natureza e do universo e constroem mitos e divindades, criando uma relação entre seres mortais e imortais.

Então Deus não é tão indiferente a isto, uma proposta universal não deve desconsiderar a cosmologia, e se deseja construir uma cosmogonia, isto é princípio e fim de toda a vida, então uma escatologia é também construída, e a escatologia cristã pode estar relacionada a esta, não é afinal Deus princípio e fim de tudo ?

Esta segunda releitura, a questão dos astros, de fato ainda hoje se buscam evidencias cosmológicas da estrela que os Reis Magos seguiam, um astro, um cometa, isto poderia ajudar a datar o natal de uma data mais precisa.

Teólogos como Teilhard Chardin não deixaram de considerar a hipótese cosmológica, a noção de um universo cristocêntrico ajuda a uma interpretação não fundamentalista de uma escatologia mais complexa, e por isso recorremos no post anterior a São Gregório de Nazianzeno.

A terceira é que os reis magos foram “contemplar” o menino-Deus, além da vita activa, Hannah Arendt também falou dela em A condição Humana (publicado em 1956, com edição brasileira de 2009), que vem da conferencia Trabalho, Obra e Ação (publicação brasileira de 2006), mas já falavam desta questão Aristóteles no bios politikos e a vita negotiosa ou actuosa em Agostinho, e, recentemente Byung Chull Han em A sociedade do cansaço.

Mas não vieram adorar apenas, onde o elemento oferecido incenso é essencialmente isto, mas também trouxeram ouro no sentido de riqueza e mirra no sentido de sacrifícios oferecidos.

Os reis magos deveriam significar a abertura do cristianismo a outras linguagens que também são uma expressão do infinito, do universo e da vida construída de modo sagrado em todos e em tudo.

 

Cultura e cristianismo

03 Jan

Uma das fortes reivindicações de pensadores da crise da modernidade é a abertura do pensamento a espiritualidade, ao universo metafisico e ao mistério de que mesmo os mais céticos devem reconhecer, mais de 90% do universo que são massa e energia escuras,  e são estudados.
A cultura contemporânea separou o saber dito científico, mas que é também cultural, do saber teológico, espiritual e cristão, não foi sempre assim, e o diálogo sempre é possível.
Ainda antes do período Romano, São Gregório Nazianzeno (ícone a direita), era conhecedor do helenismo e o cultivador da cultura antiga dentro da cultura cristã, por isso foi chamado Gregório Teólogo, logos é estudo e assim alguma sistemática e metodologia eram necessárias.
Gregório nasceu em Arianzo, na Capadócia, perto de Nazianzo, ele e o irmão realizaram estudos de retórica e filosofia e depois estudaram também em Alexandria e Atenas.
Quando falamos de ritos de Niceia e de Constantinopla, estamos fazendo dos cismas de seu tempo, entre o Concílio de Constantinopla (381), e o que Gregório foi chamado por seu arcebispo para liderar na tentativa de unificar a fé cristã, o Concílio de Antioquia, em 368, que discutia a Trindade.
No campo teológico além da contribuição para a compreensão do Espírito Santo, para o qual cunhou uma palavra nova que era a “processão”, em suas palavras: “O Espírito Santo é realmente um Espírito, vindo realmente do Pai, mas não da maneira do Filho, pois não é por geração e sim por ‘processão’,”, por isto o rito e credo niceno-constantonopolitano são diferentes.
Mas sua teologia mais compatível com os dias atuais a aposcatátase, a crença que no final dos tempos Deus colocará toda a criação em harmonia com o Reino dos Céus, compatível com as ideias de Teilhard Chardin e de teólogos que aproximam o sagrado do “profano”.
Sua contribuição concreta para o mundo contemporâneo e a crise da modernidade é a visão da “vita activa” e “vita contemplativa” como realidades não separadas, e que o filósofo atual Byung-Chull Han usa palavra analisar a sociedade atual que diz ser do “cansaço” pela ausência da vita comtemplativa.
O mundo contemporâneo tem sua própria ascese do corpo, do idealismo ou de uma fé sem qualquer espiritualidade, que Peter Sloterdijk chama de “desispiritualizada”, feita apenas de exercícios, ou como preferimos sem interiorização.
O mundo que pretendeu libertar-se das superstições caiu nas formas mais ridículas: jogar pedrinhas num poço, banhar-se de sal grosso, vestir roupa de certas cores no início do ano, evitar gato preto e outras mais ridículas ainda, “sapere aude” tornou-se “sapere ad ineptias” (saber coisas bobas).
Gregório Nazianzeno socorrei-nos.

 

Nem sim, nem não, o terceiro excluído

31 Dez

Entre os livros que não lerei estão do de William Davies sociólogo e economista político inglês, que escreveu “How Feeling Took over the world” (Estados nervosos: como as emoções dominaram o mundo) e o livro de Steven Levitsky & Daniel Ziblatt “Como as democracias morrem”, best seller do New York Times.
Além de trivialidades como a descoberta da desonestidade de políticos tradicionais, jornalistas e executivos, uma crítica a crescente fúria do conservadorismo crescente, que gera uma crise de confiança, pouco ou quase nada dizem de para onde iremos, exceção ao combate a corrupção, mas caberia a pergunta qual delas? A direita nunca foi honesta.
Entre o Sim e o Não, entre o Fora e o Fica, jamais houve terceira opção, salvo o caso da Islândia que fez uma constituição por crowdsourcing e deixou bancos e grandes empresas falirem banindo de forma prática o lixo estatal.
Portugal é um caso diferente, uma esquerda competente cria uma “geringonça”, no Brasil poderia ser uma gambiarra, mas vencer os ranços do “fora” e do “não” parece difícil, mas não é impossível, conseguiríamos dialogar, afinal tantos falam em dialogia.
A crescente onda de conservadorismo é uma bolha, o problema é o que poderá substituí-la, uma esquerda cômica do tipo da Venezuela e da Nicarágua está fadada ao fracasso, cria um Estado ainda mais forte que quer dominar todos os meandros da sociedade.
Assisti uma palestra de Florent Pasquier, da Sorbonne de Paris, que mostra que o terceiro excluído existe, partindo da lei de Aristóteles que afirma que qualquer proposição, ou ela é verdadeira, ou sua negação o é, parece neste momento histórica ter-se tornado falso.
Nem é verdade que a esquerda seja incorruptível, no caso de Portugal só esperam a condenação de Sócrates, no Brasil há controversas, mas é certo que alguém roubou de forma absurda o Estado, debaixo dos olhos da esquerda, nem é verdade que a direita vai combater.
A terceira via não é mais o purismo dos verdes, a new left ou uma direita que diz não ser política apenas “gestora”, uma terceira via deve vir de um amplo diálogo entre forças que são e podem ser ainda mais, representativas do povo de parcelas conscientes da sociedade.
Elas existem, mas a tragédia é que não dialogam ainda presas ao Sim e Não, dizem que o problema é o mundo digital que são apenas artefactos, mas o problema é a lógica destes artefactos levada ao mundo dos que devem ter consciência, ao menos que são seres dotados de consciência.
Que 2019 tenha mais dialógica, menos ranço emocional, não torcidas e claques organizadas, mas gente disposta a ouvir e conversar.

 

Entre a Aporia e a Aletheia

11 Dez

A palavra grega Aporia (Ἀπορία) significava na Mitologia grega a impotência, a dificuldade e o desamparo, ou ainda a falta de meios, foi repensada pela escola aristotélica como impasse, paradoxo, dúvida, incerteza ou mesmo contradição, seus estudos são designados aporética.

Aristóteles a definiu como “igualdade de conclusões contraditórias” (Tópicos, 6.145.16-20).

Ela é importante porque rompia, ainda que participialmente, como a lógica de Ser ou Não ser, não podendo haver contradição, o que veio dar no idealismo contemporâneo.

É radicalmente diferente da Aletheia, porque está é encobrimento, não a contradição e assim era designada pelos antigos gregos como verdade e realidade, simultaneamente.

Heidegger a retoma na tentativa de “desvelar” a verdade, esta considerada um estado descritivo objetivo, e, portanto, carente de um movimento metafísico ou subjetivo.

Aporia foi também usada por autores contemporâneos, como Derridá e Paul de Man, portanto na teoria literária pós-estrututalismo, é assim a própria leitura desconstrutiva do texto, que já alertamos anteriormente que nada tem a ver com negação da verdade, mas indeterminação ou indecidibilidade.

O sentido de as colocarmos juntos aqui é justamente buscar uma relação que na teoria contemporânea está desconexa, sendo ela própria uma aporia, a viragem linguística parece não ter nada e nenhuma ligação com a ontológica, assim aporia e aletheia estão desconexos, os gregos pouco ajudam, pois, a leitura é no particípio passado e não particípio presente.

É curioso, mas foi Portugal que me alertou para o fato, aqui não se usa o gerúndio: alguém está falando, está a falar dizem, assim nada estará sendo, mas está a ser, esclareceu-me padre Manuel Antunes ao dar características do povo português: povo místico, mas não metafísico.

Enquanto aporia é particípio passado ela torna-se fatalista, indeterminada como busca da verdade, já a aletheia enquanto desvelamento é uma constante busca de horizontes, onde não há verdade definitiva, mas verdade em construção: sendo, revelando, acontecendo.

O determinismo filosófico, político e principalmente o religioso leva a diversos tipos de fundamentalismo, vai da pura aporia a pura “verdade”, não há dialógica nem desvelar.

O círculo hermenêutico de Heidegger não é apenas um método, é u desvelar, admitir a ideia que todos temos pré-conceito é um desvelar para a crise da modernidade, o legalismo e o positivismo idealista deu no que deu, uma realidade aporética, que parece sem saída, mas a própria humanidade aponta caminhos, um já é claro: admitir que há pré-conceitos é o único remédio e diagnóstico capaz de superá-los.

Culturas, religiões e conceitos políticos estão em choque isto é aporético, podem e devem entrar em dialógica humanista, isto é, desvelamento e busca de horizontes.

 

Luta pela paz, com mansidão e justiça

02 Nov

A história da humanidade é até os dias de hoje uma história de guerra do Mesmo contra o Outro, o livro A expulsão do outro de Byung-Chul Han não é senão a constatação desta realidade, pode-se revolucionar esta história ?
É nosso destino, uma fatalidade, penso que não, quando mais se falou de paz se fez a guerra, talvez quando mais se fale de guerra possa ser pensada a paz, a Terra como pátria humana.
Os desafios são imensos, e os medos crescem a cada novo governo autoritário, é bom que se diga também há ilhas de esquerda, e fortaleza de direita que não são senão pessoas “eleitas”.
Não penso em resistência nem em oposição, continuo a pensar em transformação, o grande retrocesso que acontece em toda humanidade, se fosse localizado seria fácil tem uma só leitura: não conseguimos ir a frente, os saudosistas dizem: “como era bom aquele tempo”, qual ?
Lutar pela paz deve ser também pela justiça e contra toda sorte de opressão, engrandecer a sabedoria simples e entender que é preciso profundidade para ser simples, uma “sofisticação” como disse Leonardo da Vinci, e estabelecer um espírito de mansidão onde seja possível pensar.
Sem deixar de perceber uma dose excessiva de autoritarismo é hora de perguntar, qual o lugar exato do estado na vida cotidiana? sua abrupta interferência até na vida pessoal não é senão uma forma de autoritarismo? temos câmaras e radares a cada quilômetro, não é exagero.
Armas para a paz, não faz o menor sentido, mais armas mais violência, nunca o contrário.
Lembram as bem aventuranças bíblicas Mt 5,5: “bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra”, claro o que vejo hoje é o poder na mão de raivosos e autoritários, mas não é o fim.
O verso longo seguinte é praticamente um alerta para a justiça Mt 5,6: “Bem-aventurados os que têm fome e se de justiça, porque serão saciados”, e, mais a frente Mt 5,9: “os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus”, será que o humanismo morreu ?
O fato que todos, ou pelo menos uma grande parte da humanidade, tem uma percepção que algo precisa ser feito com urgência para superar os “perigos contra a humanidade” nos desafia.
É urgente uma governança mundial, e não menos urgência programas de distribuição de renda.
O colapso ecológico, e nas grandes metrópoles também o urbano pedem medidas mundiais.
Lembro as duas bem-aventuranças como estímulo para aqueles que lutando pela humanidade sofrem perseguições, injustiças e calúnias.
Mt 5,11 “Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim”, isto é cristianismo, é preciso conjugar Amor com paz e justiça.