RSS
 

Arquivo para a ‘Real’ Categoria

Físicos comprovam: a realidade não é objetiva

19 Mar

O que era uma hipótese é um fato demonstrado por experiência, o que por si já é contraditório uma vez que algo contraditório pode ser verdadeiro, no entanto a experiência feita na Universidade Heriot-Watt da Escócia mostrou que duas pessoas podem ver a mesma realidade de formas diferentes e ambas estarem certo, o artigo está publicado.
Desde o aparecimento do observador caiu a grande hipótese da ciência contemporânea que a realidade independe do observador, o nome sugestivo do artigo é exatamente isto: “Rejeição experimental da independência do observador no mundo quântico”, seus autores são: Massimiliano Proietti, Alexandre Pickston, Francesco Graffitti, Pedro Barrow, Dmytro Kundys, Cirilo Branciard, Martin Ringbauer, Alessandro Fedrizzi, e está publicado no arqXiv da Cornell University.
A experiência envolveu duas pessoas que observam o mesmo fóton, a menor unidade de luz que pode agir como partícula ou onda sob diferentes condições, sendo esta justamente a novidade, que ambos observando sobre as mesmas condição observam realidades distintas, então pode-se dizer que existe a superposição de realidade, ou seja, ambas estão ao mesmo tempo verdadeiras.
Enquanto um cientista analisa o fóton e determina seu alinhamento, o outro sem saber de sua medição, verifica se existe uma superposição quântica ou não, enquanto um experimenta a realidade enquanto partícula e o outro enquanto onda, e ambos estão tecnicamente corretos.
O experimento chamado de 6-fótons, de última geração que é o mais simples para experimentos, verifica a chamada desigualdade de Bell (qual Einstein usou para tentar contradizer o fenômeno quântico), e esta medida pode ser verificada experimentalmente através de 5 medidas de desvio padrão (estatística) associadas a ela, é um pouco complicado, mas o resultado é este para quem conhece o fenômeno. 

Uma introdução à física quântica pode ser começado com uma pequena história até 1932 das Teorias da Físicas, os vídeos seguintes da Univesp que aprofundam a questão podem ser encontrados na Web:

 

As Cinzas na Neve

06 Mar

O romance do estreante romancista americana Ruta Sepetys, é sobre o tema da repressão stalinista no início do stalinismo e da II Guerra Mundial, a personagem Lina é deportada da Lituânia para a Sibéria com sua mãe e o filho mais novo, o romance, traduzido em 27 idiomas, é de 2012, ganhou vários prêmios e agora vai para as telas.
O filme dirigido por Marius A. Markevicius, teve vários produtores, entre eles a própria Sepetys, terá entre outras participações: a atriz Isobel Dorothy Powley, ou Bel Powley de 26 anos, no papel de Lina Vilkas, Lisa Loven Kongsli como Elena Vilkas, Sophie Cookson como Ona, Sam Hazeldine como Kostas Vilkas, Peter Franzén como Comandante Komarov,, Martin Wallström como Nikolai Kretzky e outros.
Tão importante quanto o tema da repressão, é a resistência artística de Lina, que colocada separada da família em outro campo de prisioneiros luta para sobreviver documentando sua experiência com anotações artísticas e esperando que suas mensagens cheguem até o campo de prisioneiro do seu pai separado dela, para que saiba que ela está viva.
Ela arrisca tudo, esperando que suas mensagens na arte cheguem até o campo de prisioneiros de seu pai e espera que suas mensagens cheguem e o consolem.
Sepetys decidiu que era mais importante escrever um romance de ficção do que uma espécie de documentário de mais de uma dezena de pessoas que entrevistou, isto tornaria mais fácil aos sobreviventes conversar com ela sem receios.
O filme estreou 19 de janeiro e a fotografia, figurino e arte parecem muito boas:

 

Ver, visualizar e visão de mundo

01 Mar

A visão de mundo pode estar limitada aos sentido da visão apenas, isto significa ver, ter visão no sentido visionário significa entender os significados do que se vê, mas também ter uma visão alargada da vida, da cultura própria e a dos outros, e ser capaz de ir além de pré-conceitos, visto também de modo positivo, ou seja, os conceitos que temos em certo campo.
“O importante não é o que olhamos, mas o que vemos”, lembra o poeta, naturalista e filósofo americano H.D. Thoureau (1817-1867), precursor na defesa da natureza e na redução de impostos.
Na filosofia o vínculo aos sentidos criou uma visão de mundo limitada, onde os pré-conceitos podem estar cristalizados ao que sentimos e aceitamos, e nos tornar incapazes de ir além do que se vê, ultrapassando os sentidos e tendo uma visão de mundo culturalmente mais rica.
É a visão de mundo que produz fake news, a necessidade que temos que o Outro tenha nossa visão, muitas vezes limitada pelos horizontes, de como lemos o mundo, muitas vezes sem ver.
Assim está escrito na Bíblia Lc. 6:41: “Por que vês o cisco que está no olho do teu irmão, e não percebes a trave que há no teu próprio olho?”, saber ouvir e falar é também um complemento da visão, mas há uma visão além dos sentidos.
O pragmatismo destas visões penetrou e se consolidou no pensamento ocidental moderno, aprofundou-se como cultura e agora vivemos o que chamo de monarquia dos sentidos, uma visão parecida no nível da empatia e das relações sociais, ao que Martha Nussbaum chama de a Monarquia do Medo, que ainda não li, mas faço a especulação que antes do medo passamos por um processo cultural de aquisição de valores e entre eles o medo do diferente.
É urgente ampliar a visão de mundo, criar o cidadão do mundo, a volta do nacionalismo pode representar para alguns uma visão de paz, mas é um fechamento cultural, ético e religioso perigoso capaz de produzir novas guerras e conflitos ainda mais cruéis que as duas guerras.
É possível uma civilização comum, uma cidadania global ou como prefiro um mundo unido, Martha Nussbaum que é pouco conhecido fora do mundo anglo-saxão dá sua resposta:

 

O reencantamento do Mundo e do Ser

14 Fev

Na modernidade o homem tentou superar seu sentido de existência projetando-se sobre uma racionalidade subjetivista, transcender tornou-se apreender e compreender o objeto pelo sujeito cognoscente, aquele que é capaz de conhecer “tudo”, o “sapere audi” de Kant.
O projeto moderno desalojou o ser, e desencantou o mundo, fazer poesia ou música parece romântico demais, ainda que o projeto estético da modernidade seja exatamente este, mas o romântico moderno é idealista, quer o impossível, separado do mundo em falsa objetividade.
Fala-se do ter, a corrente utilitarista que vê o mundo e também o ser segundo o valor de uso, Marx lembra também o valor de troca, porém o encantamento reside fora destes dois valores, é um não-valor no sentido de moeda, mas é “tão útil quanto o útil!” afirma Victor Hugo sobre a Arte, reclamando um valor além do convencional, dir-se-ia falta poesia e beleza.
O sociólogo francês Michel Maffesoli é um estudioso do assunto e também de “tribos urbanas”, e seu primeiro esclarecimento sobre o encantamento é que “não é o futuro que importa, mas o presente” (Fronteiras do Pensamento), chama-a de presenteísmo, já as correntes tanto idealistas em geral estão sempre projetadas num futuro, e pouco realizam dentro de um mundo concreto.
Ao ver e estudar as tribos urbanas, vê nelas uma dimensão emocional, mas do lado positivo, vê que é possível observar nos movimentos dos indignados de Madri como outros de contestação, esta dimensão emocional, que pode ser perigosa é verdade, mas é parte do Ser.
Outro que fala do tema é o escritor moçambicano Mia Couto, conhecido em todo o mundo, fala sobre a importância de não “podarmos o encantamento, a capacidade de fascinação, do êxtase diante das pequenas coisas.
Estar em Portugal produziu em mim um reencantamento, o fado, a comida, a convivência e também as pequenas coisas, um respeito pessoal maior, o cumprimentar pelo nome, o ritmo mais compassado da vida, a arquitetura, a história, a poesia e enfim a vida.

 

Armação e artefacto

17 Jan

É um equívoco imaginar que a modernidade terminou com a discussão da metafísica, o que na verdade fez foi substituir o conjunto das reflexões essenciais pela objetividade da técnica, não vista como esquecimento do ser que ocorre na filosofia ocidental desde Platão até Nietzsche.
Aristóteles estabeleceu as quatro causas: a causa formal, cada coisa existe como forma que define a sua essência enquanto forma, causa material do que a coisa é feita, sua matéria; causa eficiente que é a origem da coisa, e, causa final, a razão de algo existir.
Para Heidegger estas causas são modos de trazer a coisa a uma presença no mundo, o que Platão chamou de poiesis, o ocasionar daquilo que passa e avança do não-presente a presença (Heidegger, 1949, p. 19), e trazer a presença é produzir, ou para usar o termo de Flusser, é o fabrico, o fato que a natureza é usada em função da produção e algo.
Assim, a arte e o artesanato são uma poíesis, e mesmo a phýsis pode ser considerada uma poíesis, por exemplo o emergir de uma floração, faz com a natureza produza a flor, assim recupera-se o conceito de techné com três aspectos emergentes da modernidade: a arte, o artesanato e a pýshis, o que faz o desocultamento do ser do ente, pelas suas causas.
A causa formal, a forma dada pelo artesão, a causa material, o material usado pelo artesão, a causa eficiente define de onde o material é proveniente e a causa final, o uso do artesanato.
A introdução o conceito de artefacto, é usando um argumento de Heidegger o fato que a técnica moderna provoca um ocultamento pelo fato de ser algo que o homem não domina, o seu recurso maquínico torna o homem dependente dela sem perceber sua causa final.
Chamamos de artefacto o recurso da técnica, enquanto arte que permite expressar o sentido e causa final da técnica, sem reduzi-la ao meramente técnico, e, portanto, tendo relação não apenas com o homem, mas com sua humanidade.
O reposicionamento do homem perante o mundo que se reconfigura devido ao artefacto não é um evento que acontece ao ser, mas que lhe corresponde, ou seja, que lhe afeta, a tomada de consciência do artefacto, que tem origem no ente, tem como imperativo sua apropriação.
Heidegger, M. Carta sobre o humanismo / Martin Heidegger (1946). 2ª. ed. rev. Tradução de Rubens Eduardo Frias. São Paulo: Centauro – 2005.

 

Nietzsche, biografias e idealismo

16 Jan

Por ser também biógrafo de Heidegger, tive a motivação para ler a biografia de Rudiger Safransky sobre este admirável critico do idealismo, e vê-lo como humano como ele próprio o desejaria, ao contrário de Nietzsche em Turim (Irvin D. Yalom) e Quando Nietzsche chorou (filme brasileiro do diretor Julio Bressane, 2001), que é contrário mesmo a sua filosofia ao idealiza-lo, impróprio para um critico do idealismo.
Tema atualíssimo, devido a emergência do fundamentalismo cristão, ao qual Nietzsche se opôs vorazmente e com conhecimento pois era de uma família de pastores luteranos, o autor discute com propriedade o evolucionismo de Charles Darwin e a “morte de Deus”, proclamada mas não promulgada, uma vez que para alguns teólogos não idealistas, como Teilhard de Chardin que oferece uma visão de um Cristo cósmico, e a relação entre a “luta pela sobrevivência” de Darwin é corretamente modificada pela “luta pela dominação” de Nietzsche.
A valorização da estética em Zaratrusta, ainda que possam haver quem discordo do corpo das argumentações, possui uma bela construção poética, na qual o interdito da “montanha proibida dos excluídos da graça divina”, ironia do autor com a exclusão dentro de um cristianismo (falso ao nosso ver) que se proclama não excludente, vê em Zaratrusta um profeta menor sem a força de um Daniel que entrou e saiu da cova dos leões, sem a dignidade de um João Batista arredio aos nobres e ricos, vivendo da alimentação de gafanhotos e favos de mel silvestre.
A sua posição estética, discussão do último capítulo, vai desde a análise do nascimento da tragédia, fundamental na antiguidade clássica, até a discussão da música de Wagner, onde ressalta a influencia em autor como Jaspers, Heidegger, Thomas Man, Bergson, Adorno, Horkheimer e Focault, e nega sua influencia no pensamento nazista, apesar do desejo de apropriar-se de sua filosofia.
O que alguns criticam nesta obra biográfica sobre Nietzsche é ao nosso ver o seu grande valor, o fato que aproxima a sua vida de seus escritos, indo a fundo ao erro clássico do idealismo, ao separar sujeito de objeto, separa pensamento da vida concreta, como se isto fosse possível, neste caso tragédia vital que é diversa da análise da tragédia grega onde desde Aristóteles, trata-se do destino dos homens, da sociedade e sua relação com os deuses.
A tragédia do idealismo é propor um modelo humano, religioso e societário que não se pode realizar uma vez que separado da “mundaneidade” é só um “ideal”.

Rudiger Safranski, Nietzsche: biografia de uma tragedia. Tradução de Lya Luft. Sao Paulo: Geração Editorial, 2001.

 

Coisa, objetividade e verdade

15 Jan

O problema essencial do idealismo moderno é a distinção entre subjetividade (o que seria próprio do sujeito) da objetividade (o que seria próprio do objeto), Kant pretendeu dar a estes conceitos um caráter universal que seria independente de cultura, época e religião.
Em epistemologia, o que se opõe a mera opinião (a doxa diziam os gregos) é o que caracteriza a validade de um conhecimento, boa parte da representação moderna torna-a relativa ao objeto, mas o objeto enquanto coisa não é investigado, o que seria descobrir a subjetividade.
Então o que é real, ou o que é verdadeira necessita dizer o que caracteriza e dá validade a um conhecimento ou sua representação relativa ao objeto, isto é uma “teoria” e não a prática, embora a prática (não o empirismo) possa servir para refutá-lo como não.
Por outro lado, não é possível representar um objeto sem regras normativas que são próprias de cada área, mas que seguem normas bibliográficas para referências gerais, porém é preciso dizer que não é sinônimo de verdade, ou seja não significa que a representação que serve para dar um “índice de confiança” ou “relevância” que significa a validade por uma “comunidade”.
Em ciência (empírica) a objetividade é a propriedade, característica das teorias científicas, que procura estabelecer as afirmações inequívocas que podem ser testadas, não exclusivamente por dados, experimentos ou práticas, mas como interpretação possível do mundo real.
Neste campo entra a hermenêutica, é possível que interpretações não únicas, sejam convergentes ou tenha um horizonte comum, o que Hans-Georg Gadamer chamou de fusão dos horizontes, mas talvez o nome seja forte demais, pois permanecem particularidades.
Ora isto não é relativismo, nem individualismo teórico ou prático, mas algo próprio daquilo que a filosofia idealista chamou de subjetividade, próprio do sujeito.
O dualismo desta ”teoria” que apela ao empirismo, é a eterna separação entre o mundo das ideias (eidos na Grécia antiga que era outra coisa), e o mundo da prática, por isto não se pode fazer (no campo da prática) aquilo que é próprio deste pensamento (teoria).
Em termos práticos, e, portanto, também boa teoria, a dicotomia entre o pensar e o fazer tem como raiz moderna o idealismo, separar o plano próprio do sujeito da relação ao objeto, com o qual de forma o conhecimento sobre o mesmo.

 

Caminhos, artefacto e arte em Heidegger

14 Jan

A origem da obra de arte (1936) é um texto de Martin Heidegger, onde desvela a questão da arte e da obra, que aqui iremos chamar de artefacto, e que o próprio Heidegger pensou em mudar, ao escrever a coletânea Caminhos da Floresta.
Em vez de escrever obra escreve Caminhos de Floresta (Holzwege) no qual foi acrescido um aditamento antes do epílogo em 1956.
A visão de Heidegger que o “artefacto” de arte, é um modo privilegiado de revelar o cotidiano, revela-se como uma compreensão poética do mundo, e traz dentro desta a ideia de “caminho” no sentido de alcance, duração e legitimidade da arte.
Esta é a importância de perguntar-se qual a origem da obra de arte? A origem está no artefacto, no observador ou no artista? Segundo sua pergunta: “O que é que, na obra, está em obra?” (Heidegger, 2002, p. 31), onde é possível ver já o “caminho”.
A filosofia medieval chamou de coisa a “quididade”, como aquilo que a coisa é, foi sobre ela que nominalistas como Ockham e Duns Scotto debateram com realistas, como o qual debateram realistas e ontólogos como Tomás de Aquino, que se inicia na discussão sobre a existência de universais, e de fundo é sobre o que é essência.
Para Heidegger origem significa Aquilo que é e como é sendo, ou seja sua essência.
A origem de algo provém então de sua essência, assim a pergunta pela origem da obra de arte é a pergunta sobre a proveniência de sua essência (HEIDEGER, 2002, p. 7), e que deseja-se extrapolar para a técnica e sua relação com a essência.
Heidegger em A origem da obra de arte, propõe uma discussão do conteúdo da arte, do estatuto singular de obra, do despontar da obra de arte a partir e por meio da atividade criadora do artista, assim conclui que a origem da obra é o artista (HEIDEGGER, 2002, p. 61), mas não recorre ao sentido da origem antropológica.
Fazendo como exemplo, o efeito da experiência estética a quem observa os sapatos na tela de van Gogh (1886), atualiza, a cada vez, a própria imagem retratada, isto dá sentido ao virtual, uma vez que o virtual é algo que se atualiza, e se torna arte cuja origem foi o artista, mas completa-se no observador, e para isto há o artefacto.
A atualização deste fundamento ontológico de Heidegger que vê no artista a origem, está em Rancière ao falar do “Espectador Emancipado” (2008), que abre a discussão sobre “os pressupostos teóricos que põem a questão do espectador no cerne da discussão sobre as relações entre arte e política” (Rancière, 2012, p. 8), essencial para os dias de hoje.
Rancière mostra duas premissas sobre o espectador que são falsas, a primeira que é o espectador como contrário ao conhecer, e a segunda que é contrário ao agir, e chama isto de paradoxo do espectador que é, no caso do teatro, um “não teatro sem espectador” (RANCIÈRE, 2012, p.8).
Propomos em oposição o estatuto ontoantropotécnico da obra de arte, ou do seu artefacto, ela existe enquanto é sendo, assim o artista empresta seu estatuto ontológico enquanto antropos (homem), e a exprime enquanto técnica.

HEIDEGGER, M. A Origem da Obra de Arte, Lisboa: Edições 70, 2002.

RANCIÈRE, J. O espectador Emancipado, São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.

 

A ideia de ser e o puro ser

11 Jan

Enquanto a ideia de ser fica limitada apenas ao Ser-coisa, embora existente permanece idealizado e separado da própria “coisa”, natureza e substância que também é, o Ser-em- relação só existe enquanto a existência do Outro, senão não há relação, e a forma básica de relação é a linguagem.
Se admitimos a existência do Ser, como diria a filosofia existe algo e não o nada, que não é um porque (porque existe algo, por exemplo), uma uma ex-sistência que vai redefinir o que Freud havia chamado de inconsciência, segundo J. Lacan vai precisar: “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”, portanto é forma primária de relação, mas a linguagem não se limita a ela.
Como Lacan a define há três formas de registros – real, simbólico e imaginário, segundo a tríade freudiana: a inibição, o sintoma e a angústia, o inconsciente conforme Lacan habita um lugar inusitado, um lugar da ex-sistência em um plano de três consistências aplainadas conforme o esquema dos círculos ao lado, pela tragédia do fim da vida de Lacan pouca gente se dá conta de sua precisão, veja o esquema proposto acima.
O que é o ex-sistente ? Disse Lacan: “se define, em relação a uma certa consistência , se afinal de contas não é senão esse fora, que não é um não dentro, se essa ex-sistência é de alguma maneira isso ao redor do qual se evapora uma substância, (…) , disso não resulta menos que a noção de uma falha, que a noção de um buraco ainda em algo tão extenuado que a ex-sistência conserva seu sentido, que já lhes disse (….) que há no Simbólico um reprimido, há também no Real algo que faz buraco, há também no Imaginário”, o que de certa forma aproxima-se de Freud e não escapa de seu psicologismo.
Esta definição ainda que criticamos o seu psicologismo, aproxima-se do sentido ontológico Heideggeriano, existe fora, e aqui podemos dizer fora da consistência, ou seja, pois não é como afirma o próprio Lacan um é “não dentro”, na linguagem idealista separando sujeito de objeto, o ex-sistir existe em uma posição de ex-centricidade, no sentido de relação a algo, no dizer psicológico de Lacan “o um que cai da definição de outros lugares, mas que a eles não está incorporado”, aqui subsiste o dualismo.
A ideia de resistir a ideia de puro Ser, que significa existir Deus que é centricidade e extrapola a ex-centricidade e a justifica, porque o Ser é na filosofia antiga, e no sentido ontológico atual “não ser” também é criando uma terceira hipótese ao terceiro excluído da lógica idealista: o Ser é e Não-ser não é.
A má relação com os objetos através da transcendência idealista é aquela que faz uma separação entre sujeitos e objetos, típica da sociedade moderna, sendo também uma deturpação da relação com os objetos (dinheiro, objetos pessoais e as coisas da natureza) sendo e como religião tem equívocos, que justifica a desigualdade social e até mesmo a “sacralização” da relação com estes, como se riqueza fosse “presente de Deus” e não uma contingência humana.
O esquema proposto por Lacan embora válido possui uma lacuna ontológica, pois se de um lado podemos relacionar o Real, o Imaginário e o simbólico, aquilo que pertence somente ao imaginário-simbólico é na verdade fantasia humana, existe enquanto possibilidade Virtual, mas não se atualiza.
O Virtual é o Real passível de atualização, neste sentido é “Virtus” aquilo que pode existir enquanto Ser, mas que ainda é só presente, para ser real precisa se atualizar.
Esta lacuna surge daquilo que é novo, que ainda é potencial no sentido da ontologia antiga, e que é virtual no sentido da ontologia do fenômeno, pode fazer pouco sentido pois faz parte ainda do imaginário, tendo uma representação simbólica primária (poderá ter várias reinterpretações) e está no plano do inconsciente tanto da rejeição como da inibição pelo desconhecimento da novidade.
LACAN, J. O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1979.

 

A economia, a justiça e a moral

08 Jan

É preciso falar nesta ordem, pois onde não há uma economia saudável e participativa, são raros exemplos no mundo contemporâneo, a justiça e a moral ficam debilitadas e esquecidas.
Qual a economia que vai reger o Brasil no seu novo governo ? é ingênuo pensar que não há fundamento para o que está se iniciando e Paulo Roberto Nunes Guedes, o novo ministro da Economia do Brasil chamado junto com o Sergio Moro de superministros, é doutor pela Universidade de Chicago (EUA) e por isso conhece bem a chamada escola de Chicago.
São fundadores desta escola George Stigler e Milton Friedman, e ambos já foram premiados com o Prêmio Nobel de Economia, esta política foi conhecida no Brasil por sua influencia no período militar, através de sua visão liberal, a rigor a favor de um laissez-faire quase total.
Pode-se dizer então que é uma escola neoclássica, rejeita o Keynesianismo da intervenção do estado, então o cambio é flutuante e a moeda deve seguir a “mão invisível” do mercado, ou seja, o câmbio flutuante com pouca intervenção do estado, até o momento parece funcionar.
Entretanto esta escola foi concebida no boom do pós-guerra, em 1950 e em crise não parece funcionar tão bem, o estado precisa controlar os mercados e a rigor isto acontece sempre.
Daqui partimos para a Justiça, onde a ideia de sufocar os grupos internacionais de drogas, de corrupções através do aperto financeiro parece já ter falhado na primeira semana de governo, curiosamente pelo pedido petista Ceará, a questão da corrupção a nomeação de Marun para Itaipu gerou até desconfianças dentro do governo, o onipresente porta-voz Onyx Lorenzoni e do senador que é filho do presidente envolvidos em esquemas com Flávio Queiroz.
Enquanto discutimos a questão do azul para meninos e rosa para meninas, os assuntos que são realmente relevantes ficam soterrados até por gente que se imagina consciente, a imprensa foi uma que embarcou neste lamentável debate.
Já os índices de feminicídio, a violência contra homossexuais com novos casos e outras minorias que não se trata apenas moral e sim de crime, por isto é moralismo ver pelo lado das “cores!”, pois a moral significa o respeito a cada pessoa e aos seus direitos.
Mas enquanto discutimos isto, a questão de Queiroz e assuntos econômicos essenciais passam ao largo da opinião pública, incluindo os jornalistas.