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Arquivo para a ‘Virtual’ Categoria

Armação e artefacto

17 Jan

É um equívoco imaginar que a modernidade terminou com a discussão da metafísica, o que na verdade fez foi substituir o conjunto das reflexões essenciais pela objetividade da técnica, não vista como esquecimento do ser que ocorre na filosofia ocidental desde Platão até Nietzsche.
Aristóteles estabeleceu as quatro causas: a causa formal, cada coisa existe como forma que define a sua essência enquanto forma, causa material do que a coisa é feita, sua matéria; causa eficiente que é a origem da coisa, e, causa final, a razão de algo existir.
Para Heidegger estas causas são modos de trazer a coisa a uma presença no mundo, o que Platão chamou de poiesis, o ocasionar daquilo que passa e avança do não-presente a presença (Heidegger, 1949, p. 19), e trazer a presença é produzir, ou para usar o termo de Flusser, é o fabrico, o fato que a natureza é usada em função da produção e algo.
Assim, a arte e o artesanato são uma poíesis, e mesmo a phýsis pode ser considerada uma poíesis, por exemplo o emergir de uma floração, faz com a natureza produza a flor, assim recupera-se o conceito de techné com três aspectos emergentes da modernidade: a arte, o artesanato e a pýshis, o que faz o desocultamento do ser do ente, pelas suas causas.
A causa formal, a forma dada pelo artesão, a causa material, o material usado pelo artesão, a causa eficiente define de onde o material é proveniente e a causa final, o uso do artesanato.
A introdução o conceito de artefacto, é usando um argumento de Heidegger o fato que a técnica moderna provoca um ocultamento pelo fato de ser algo que o homem não domina, o seu recurso maquínico torna o homem dependente dela sem perceber sua causa final.
Chamamos de artefacto o recurso da técnica, enquanto arte que permite expressar o sentido e causa final da técnica, sem reduzi-la ao meramente técnico, e, portanto, tendo relação não apenas com o homem, mas com sua humanidade.
O reposicionamento do homem perante o mundo que se reconfigura devido ao artefacto não é um evento que acontece ao ser, mas que lhe corresponde, ou seja, que lhe afeta, a tomada de consciência do artefacto, que tem origem no ente, tem como imperativo sua apropriação.
Heidegger, M. Carta sobre o humanismo / Martin Heidegger (1946). 2ª. ed. rev. Tradução de Rubens Eduardo Frias. São Paulo: Centauro – 2005.

 

Caminhos, artefacto e arte em Heidegger

14 Jan

A origem da obra de arte (1936) é um texto de Martin Heidegger, onde desvela a questão da arte e da obra, que aqui iremos chamar de artefacto, e que o próprio Heidegger pensou em mudar, ao escrever a coletânea Caminhos da Floresta.
Em vez de escrever obra escreve Caminhos de Floresta (Holzwege) no qual foi acrescido um aditamento antes do epílogo em 1956.
A visão de Heidegger que o “artefacto” de arte, é um modo privilegiado de revelar o cotidiano, revela-se como uma compreensão poética do mundo, e traz dentro desta a ideia de “caminho” no sentido de alcance, duração e legitimidade da arte.
Esta é a importância de perguntar-se qual a origem da obra de arte? A origem está no artefacto, no observador ou no artista? Segundo sua pergunta: “O que é que, na obra, está em obra?” (Heidegger, 2002, p. 31), onde é possível ver já o “caminho”.
A filosofia medieval chamou de coisa a “quididade”, como aquilo que a coisa é, foi sobre ela que nominalistas como Ockham e Duns Scotto debateram com realistas, como o qual debateram realistas e ontólogos como Tomás de Aquino, que se inicia na discussão sobre a existência de universais, e de fundo é sobre o que é essência.
Para Heidegger origem significa Aquilo que é e como é sendo, ou seja sua essência.
A origem de algo provém então de sua essência, assim a pergunta pela origem da obra de arte é a pergunta sobre a proveniência de sua essência (HEIDEGER, 2002, p. 7), e que deseja-se extrapolar para a técnica e sua relação com a essência.
Heidegger em A origem da obra de arte, propõe uma discussão do conteúdo da arte, do estatuto singular de obra, do despontar da obra de arte a partir e por meio da atividade criadora do artista, assim conclui que a origem da obra é o artista (HEIDEGGER, 2002, p. 61), mas não recorre ao sentido da origem antropológica.
Fazendo como exemplo, o efeito da experiência estética a quem observa os sapatos na tela de van Gogh (1886), atualiza, a cada vez, a própria imagem retratada, isto dá sentido ao virtual, uma vez que o virtual é algo que se atualiza, e se torna arte cuja origem foi o artista, mas completa-se no observador, e para isto há o artefacto.
A atualização deste fundamento ontológico de Heidegger que vê no artista a origem, está em Rancière ao falar do “Espectador Emancipado” (2008), que abre a discussão sobre “os pressupostos teóricos que põem a questão do espectador no cerne da discussão sobre as relações entre arte e política” (Rancière, 2012, p. 8), essencial para os dias de hoje.
Rancière mostra duas premissas sobre o espectador que são falsas, a primeira que é o espectador como contrário ao conhecer, e a segunda que é contrário ao agir, e chama isto de paradoxo do espectador que é, no caso do teatro, um “não teatro sem espectador” (RANCIÈRE, 2012, p.8).
Propomos em oposição o estatuto ontoantropotécnico da obra de arte, ou do seu artefacto, ela existe enquanto é sendo, assim o artista empresta seu estatuto ontológico enquanto antropos (homem), e a exprime enquanto técnica.

HEIDEGGER, M. A Origem da Obra de Arte, Lisboa: Edições 70, 2002.

RANCIÈRE, J. O espectador Emancipado, São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.

 

A ideia de ser e o puro ser

11 Jan

Enquanto a ideia de ser fica limitada apenas ao Ser-coisa, embora existente permanece idealizado e separado da própria “coisa”, natureza e substância que também é, o Ser-em- relação só existe enquanto a existência do Outro, senão não há relação, e a forma básica de relação é a linguagem.
Se admitimos a existência do Ser, como diria a filosofia existe algo e não o nada, que não é um porque (porque existe algo, por exemplo), uma uma ex-sistência que vai redefinir o que Freud havia chamado de inconsciência, segundo J. Lacan vai precisar: “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”, portanto é forma primária de relação, mas a linguagem não se limita a ela.
Como Lacan a define há três formas de registros – real, simbólico e imaginário, segundo a tríade freudiana: a inibição, o sintoma e a angústia, o inconsciente conforme Lacan habita um lugar inusitado, um lugar da ex-sistência em um plano de três consistências aplainadas conforme o esquema dos círculos ao lado, pela tragédia do fim da vida de Lacan pouca gente se dá conta de sua precisão, veja o esquema proposto acima.
O que é o ex-sistente ? Disse Lacan: “se define, em relação a uma certa consistência , se afinal de contas não é senão esse fora, que não é um não dentro, se essa ex-sistência é de alguma maneira isso ao redor do qual se evapora uma substância, (…) , disso não resulta menos que a noção de uma falha, que a noção de um buraco ainda em algo tão extenuado que a ex-sistência conserva seu sentido, que já lhes disse (….) que há no Simbólico um reprimido, há também no Real algo que faz buraco, há também no Imaginário”, o que de certa forma aproxima-se de Freud e não escapa de seu psicologismo.
Esta definição ainda que criticamos o seu psicologismo, aproxima-se do sentido ontológico Heideggeriano, existe fora, e aqui podemos dizer fora da consistência, ou seja, pois não é como afirma o próprio Lacan um é “não dentro”, na linguagem idealista separando sujeito de objeto, o ex-sistir existe em uma posição de ex-centricidade, no sentido de relação a algo, no dizer psicológico de Lacan “o um que cai da definição de outros lugares, mas que a eles não está incorporado”, aqui subsiste o dualismo.
A ideia de resistir a ideia de puro Ser, que significa existir Deus que é centricidade e extrapola a ex-centricidade e a justifica, porque o Ser é na filosofia antiga, e no sentido ontológico atual “não ser” também é criando uma terceira hipótese ao terceiro excluído da lógica idealista: o Ser é e Não-ser não é.
A má relação com os objetos através da transcendência idealista é aquela que faz uma separação entre sujeitos e objetos, típica da sociedade moderna, sendo também uma deturpação da relação com os objetos (dinheiro, objetos pessoais e as coisas da natureza) sendo e como religião tem equívocos, que justifica a desigualdade social e até mesmo a “sacralização” da relação com estes, como se riqueza fosse “presente de Deus” e não uma contingência humana.
O esquema proposto por Lacan embora válido possui uma lacuna ontológica, pois se de um lado podemos relacionar o Real, o Imaginário e o simbólico, aquilo que pertence somente ao imaginário-simbólico é na verdade fantasia humana, existe enquanto possibilidade Virtual, mas não se atualiza.
O Virtual é o Real passível de atualização, neste sentido é “Virtus” aquilo que pode existir enquanto Ser, mas que ainda é só presente, para ser real precisa se atualizar.
Esta lacuna surge daquilo que é novo, que ainda é potencial no sentido da ontologia antiga, e que é virtual no sentido da ontologia do fenômeno, pode fazer pouco sentido pois faz parte ainda do imaginário, tendo uma representação simbólica primária (poderá ter várias reinterpretações) e está no plano do inconsciente tanto da rejeição como da inibição pelo desconhecimento da novidade.
LACAN, J. O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1979.

 

Black Mirror: é a bandersnatch experiência ?

29 Dez

A espectativa de lançamento do filme-evento, na verdade uma falsa iteratividade para o público pois há somente 5 finais possíveis de desfecho para Stefan, o personagem principal.
Voltemos atrás, a série Black Mirror para TV, produzida por Charlie Brooker em 2011 para a TV britânica tem lances obscuros, desconfiados e até satíricos com as novas tecnologias e para os que sabem a origem dos problemas da modernidade, pouco mergulha a fundo na sua crise.
A Netflix comprou a série e a dividiu em 12 capítulos, assisti pedaços o suficiente para ver o lado obscuro e pessimista das novas tecnologias, afinal elas ligaram o mundo e mesmo os críticos não abrem mão de celulares e de aplicativos importantes para a sociedade ubíqua.
Voltando ao filme, foi lançado ontem na Netflix e tem 5 finais possíveis para o personagem principal Stefan que a certa altura confunde a realidade e a irrealidade (virtual é outra coisa).
Os possíveis finais para o filme lançado ontem são: o mais realista é que Stefan descobre que o PAC (Program and Control) é um programa feito pelo pai que o usa desde a infância, e assim é monitorado por seu pai e sua terapeuta o tempo todo, é possível isto sem PAC algum.
O segundo final “interativo” ele descobre que foi a morte de sua mãe na infância, em um acidente que o trem se descarrilhou e que ele não foi por ter esquecido seu coelho de pelúcia e com isto ter perdido o trem, o coelho tinha sido escondido pelo pai, possível porém e o PAC?
O terceiro final possível o pai de Stefan morre, mas ao invés de enterrá-lo, escolha decide cortá-lo em pedaços, o jovem consegue escapar das acusões e termina o jogo Bandersnatch, bizarro e improvável.
No quarto final Stefan grita que alguém está o controlando, pode surgir na tela de alguns usuários o logo da Netflix (sic puro merchandising), ao escolher o computador de Stefan começa a explicar o que é a Netflix e há quase uma quebra de uma quarta parede, quem está assistindo diz que está controlando Stefan, é um passar a bola para o público.
Seguindo mais ou menos os mesmos passos anteriores, Stefan ao invés de lutar com o terapeuta, escolhe pular da janela, mas no final Stefan é um ator e recebe os créditos disto.
Dizem que há outros finais, mas a falácia é que o mundo das novas tecnologias seria uma forma de controle, ora bolas Nietzsche já reclamava do controle da sociedade muitos antes do cinema, da TV e das novas mídias, o big brother é o estado e o jogo de interesse que joga.

 

Filmes em 2018

27 Dez

Entre os que assisti, de melhores dramas “Infiltrado na Klan”, cujo nome em Portugal é o original Blackkksman e Bohemian Rapsody merecem destaque, além deles estão indicados “Pantera Negra” e “If Beale Street Could Talk” que está na minha lista para ver, e “Nasce uma estrela”.
Do que assisti realmente o filme do policial negro Ron Stallworth (John David Washignton) que em 1978 conseguiu se infiltrar na Ku Klux Khan, merece o prêmio de melhor filme, talvez filme com o prêmio de consolação de melhor ator.
Bohemian Rapsody bombou pelos comentários do homossexualismo de Fred Mercury, no entanto acho exagerado o contexto do filme é mostrar sua banda Queen sucesso dos anos 1970 quando a questão da vida de Fred Mercury era pouco comentada e a banda elogiada, foi mais polemico, por exemplo, a demissão de Bryan Singer substituído por Dexter Fletcher.
Entre os indicados para melhor comédia ou musical, “Podres de ricos” é boa comédia e “O retorno de Mary Poppins” é mau musical, mas indico para crianças, elas vão gostar, Green Book: O guia e “Vice” são segunda linha, se ganhar vai ser surpresa.
Entre as indicadas de melhor atriz aparece Lady Gaga, há uma fixação curiosa por ela como atriz, mas é melhor como cantora mesmo, já Glenn Close em “The Wife” e Melissa McCarthy “Can Your Ever Forgive Me?” são boas indicações, aparecem ainda a sempre lembrada Nicole Kidman “Destroyer” e Rosamund Pike em “A Private War”.
Em melhor atriz de comédia ou musical, Emily Blunt em “O retorno de Mary Poppins” é uma barbada, mas podem haver surpresas com Olivia Colman em “A favorita” e Constance Wu, em “Podres de Ricos”.
Entre melhores diretores a luta está acirrada, Bradley Cooper dirigiu “Nasce uma estrela”, Alfonso Cuaron de “Roma”, Spike lee de “Infiltrado na Klan”, Peter Farrelly “Green Book: o Guia”, e o bom diretor Adam McKay “Vice”.
Faltou “O Primeiro Homem” do diretor Damien Chazelle (la la land), que descreve os primeiros passos do homem na Lua Neil Amstrong (interpretado por Ryan Gosling), e desenvolve detalhes desconhecidos de Amstrong como a perda da filha, mostrando desde o existencial até o desejo humano de superar-se em busca do desconhecido.
Ah sim foi lembrado por melhor trilha original de Justin Hurwitz, uma consolação.
Há muitas outras indicações, é claro, mas paro por aqui os meus destaques, vamos esperar o Oscar, mas o Globo de Ouro dá boas dicas.

 

A Monotização do mundo

14 Nov

Assim começa o texto de Stefan Zweig sobre a sua impressão do mundo contemporâneo: “Tudo está se tornando mais uniforme em suas manifestações externas, tudo nivelado em um esquema cultural uniforme. Os hábitos característicos dos povos individuais estão sendo desgastados, a vestimenta nativa dando lugar aos uniformes, os costumes tornando-se internacionais. Os países parecem cada vez mais ter deslizado simultaneamente uns para os outros; a atividade e vitalidade das pessoas segue um esquema único; cidades crescem cada vez mais parecidas na aparência.” (Zweig, 1925)
Com esta citação também começo o folheto de apresentação com o Dr. Jônatas Manzolli, professor de Artes da Unicamp, no nosso trabalho conjunto: “Transmediatic architecture of th Ode To Christus Hypercubus”, que é apresentada sexta-feira (16/11) no Palácio de Ceia em Lisboa, conta com a pianista Dra. Helena Marinho e a solista Beatriz Maia, ambas da Universidade do Aveiro.
Este pequeno relato pretende apresentar além da ode, o Trabalho fotográfico e a animação que relacionam música, imagens e um holograma em dimensões 3D com um imaginário espaço hipercubo que extrapola esta dimensão, inspirados na obra de Salvador Dali: Christus Hypercubus.
É por isso inspirada no Manifesto Místico de Salvador Dali de 1950 é uma fase decisiva e que muda a própria concepção de Salvador Dali, pode-se dizer para um pós-surrealismo, no qual a influência mística unida a nova concepção quântica do Universo, emergente e já muito influente em seu tempo, as obras Galateia de Esferas (1952) (foto), a desintegração da Persistência da Memória (1954), A última Ceia (1955), a Descoberta da América (1958-59) são obras desta fase.
O evento Artefacto 2018, ocorre em Lisboa no palácio de Ceia, nos dias 16 e 17 de novembro, com diversos outros trabalhos que podem ser encontrados no site do evento.

ZWEIG, Stefan “The Monotonization of the World”   Disp. em: germanhistoryDocs.gh.dc.org, 1925.

 

Simplicidade e profundidade: problemas modernos

01 Nov

Aprendi na infância com a simplicidade de meu pai que pode haver sabedoria e pensamento profundo onde não há cultura erudita, a razão é muito simples, algumas pessoas ficaram imunes a contaminação dos argumentos racionalistas, iluministas e idealistas.

Isto porque muita coisa no senso comum tem presente estes raciocínios, por exemplo, a visão mecanicista da relação causa e efeito, não vale mais com a física quântica, os argumentos muito usados como autoajuda contemporânea é contestado pelo poeta Fernando Pessoa: “querer não é poder”, pelo simples fato que existe o Outro, mas no argumento do poeta: “Quem pôde, quis antes de poder [para] só depois de poder”, mas conclui: “quem quer nunca há-de poder, porque se perde em querer”, poderia acrescentar à mansidão do post anterior.

Quanto a profundidade, não é pensador ou filósofo quem lê pensadores ou filosofia, mas quem aprendeu com treino de audição e leitura também, a meditar, pensar em contemplação, quase impossíveis em tempos ruidosos e ansiosos.

Pode pensar quando se tem tempo para isto, quando consegue sentir o Aroma do Tempo, diz no livro com este nome Byung-Chul Han: “o aroma não é de uma eternidade atemporal”, mas de estratégia de duração, diríamos de dilatação do tempo pela contemplação e aquietação do Ser, tão necessários a vida moderna.

Isto pode parecer por demais dispendioso, usar o tempo para em não “gastá-lo” em não “utilizá-lo”, é sim usar também o tempo de modo não consumista ou utilitarismo, como tempo do Ser.

E as pessoas simples, porque aprenderam na sua simplicidade a apreciar uma paisagem, uma flor ou mesmo uma boa música ou um belo quadro, na realidade estão educados a “ser”.

Lembro de meu pai na infância dizendo: “é melhor acender uma vela que amaldiçoar a escuridão”, parecia então provinciano e demasiado simplista, mas era pura sabedoria: a clareira.

Em termos bíblicos é minha interpretação hermenêutica dos “pobres de espírito”, num sentido que deixam passar fatos claramente e sem sentido e mergulham nos essenciais.

Disse o multifacetado artista Leonardo da Vinci: “A simplicidade é o último grau de sofisticação.”

 

O tempo do ser

29 Out

Há um tempo do ser e um do não ser, reclama-se hoje da aceleração, mas o diagnóstico de Chul-Han em A sociedade do Cansaço não é tão distante daquele feito por Santo Agostinho 14 séculos atrás: “O que é o tempo? Como são o passado e o futuro, uma vez que o passado já não é e o futuro ainda não é?” e o presente? Mal dizemos “agora” e já caiu no passado”, isto num tempo em que nem a tecnologia da imprensa existia, o que muda hoje então ?

O direito ao esquecimento sancionado pela corte da União Europeia em 13 maio de 2014 dá o diagnóstico de uma “doença” moderna: a híper conectividade, na gíria brasileira: estar na “pilha”.

O auxílio de máquinas que nos deveria dar tempos de repouso ao transmitir parte de nosso trabalho a elas, e a poder executar tarefas longas mais rápido deveria nos dar descanso, mas não sabemos mais ter o período de contemplação e lazer, parece ser “um tempo perdido”.

Culpamos esta aceleração pela máquina do eficientismos, a concentração de capital, e outros fenômenos que são anteriores a internet, há inúmeros autores do século passado que tocam o assunto como a Paulicéia Desvairada, um conhecido romance de Mário de Andrade de 1922, o quadro d de Salvador Dali nos dá uma ideia sobre a “persistência da memória” ou os primeiros estudos da explosão da informação que fizeram Vannevar Bush pensar na máquina Memex na década de 40,

A mesmice do Mesmo que nunca é Outro, não é devido a tecnologia e sim ao não-futuro.

Diz Mário de Andrade sobre o ser artista, em seu poema dedicado a este:

O meu desejo é ser pintor – Lionardo.

cujo ideal em piedades te acrisola;

fazendo abrir-se ao mundo a ampla corola

do sonho ilustre que em meu peito aguardo.

Meu anseio é, trazendo ao fundo pardo da vida.

a cor da veneziana escola, dar tons de rosa e de ouro, por esmola.

a quanto houver de penedia ou cardo.

Quando encontrar o manancial das tintas

e os pincéis exaltados com que pintas,

Veronese! teus quadros e teus frisos.

irei morar onde as Desgraças moram;

e viverei de colorir sorrisos

nos lábios dos que imprecam ou que choram !

Talvez seja um tempo duro para fazer poesia, ou para contemplar, porém não podemos deixar o Ser morrer por causa de um Tempo cuja fragilidade do Ser sempre se esvai.

 

E vós quem dizeis que eu sou

21 Set

As verdades dos fatos só revelam na verdade dos atos, é assim para a vida cotidiana, é assim para a política e para os discursos, se vivemos na pós-verdade, ela tem o limite dos atos.

Gostamos no dia a dia de criar narrativas mais favoráveis a nossa conveniência e ao nosso ideário, mas quase sempre o desvelar existe além da linguagem e do discurso.

A criação de uma inteligência lógica, em camadas mais profundas chamadas agora de Deep Mind ou Deep Learning, não é senão a resposta artificial ao mundo virtual, parte do real junto ao atual, a uma lógica consistente com a ação, enquanto na humana sempre haverá alguma dislexia.

A plena consciência está ligada a plena dialogia, onde os discursos podem interpenetrar no circulo hermenêutico, a diferença com a inteligência artificial é que a máquina aprende com humanos, mas lhe será difícil de escapar da lógica formal, enquanto a humana é ontológica.

Isto significa que estamos na era do Ser, manifestação mais profunda do que somos, e ao contrário do que supõe o discurso anti-tecnologia, é justamente ela que pode ajudar o discurso humano nos aspectos essenciais da lógica, que as vezes falseamos para ter razão.

Historicamente a tecnologia não está deslocada das necessidades humanas, é muitas vezes a má adaptação ou uso da relação humana com a tecnologia que causa alguns transtornos e má compreensão do seu verdadeiro papel, que é o de auxiliar o ofício, a arte e a técnica, diz a origem grega da palavra techné.

Na passagem bíblica que Jesus testa seus apóstolos ele pergunta: “e vós quem dizeis que eu sou” (Mt, 16,15) , para uns foi um grande profeta, para outros um retorno de Elias ou até de Moisés, e só para alguns era o Messias, ou seja, a sabedoria Divina entre nós.

O uso condenável da mensagem evangélica em política, não é pelo fato que devam ser fora dos interesses do bem comum e da sociedade em geral, mas é a possibilidade de instrumentalizar e usar a favor de determinado discurso, nem sempre coerente ao evangelho.

 

 

Revolucionário método para vídeos

19 Set

Os pesquisadores da Universidade Carnegie Mellon desenvolveram um método que sem a intervenção humana, modificam um conteúdo de um vídeo, de um estilo para outro.

O método é baseado num tratamento de dados conhecido como Recycle-GAN que pode transformar grandes quantidades de vídeo tornando-os úteis para filmes ou documentários.

O novo sistema pode ser usado por exemplo para colorir filmes originalmente em preto-e-branco, alguns já feitos como o que mostramos no vídeo abaixo, mas as técnicas eram dispendiosas e necessitavam de grande esforço humano em horas de trabalho.

O processo surgiu de experiências em realidade virtual, que além das tentativas de criar “mudanças profundas” (alterar objetos ou distorcer conteúdos, podiam aparecer uma pessoa inserida numa imagem, sem que houvesse permissão para isto, nas cenas cotidianas quase sempre acontece isto e muita gente não aceita.

Eu acho que há muitas histórias para serem contadas”, disse Aayush Bansal, um estudante de Ph.D. do Instituto de Robótica da CMU, dizendo de uma produção cinematográfica que foi a principal motivação para ajudar a conceber o método, explicou, permitindo que os filmes fossem produzidos de forma mais rápida e barata, e acrescentou: “é uma ferramenta para o artista que lhes dá um modelo inicial que eles podem melhorar”, conforme o site da CMU.

Mais informações sobre o método e vídeos podem ser encontradas em Recycle-Gan website.