RSS
 

Arquivo para a ‘Tecnologia Calma’ Categoria

O abandono na literatura

16 Abr

O assunto parece escondido na literatura, mas não é, comecei a ler a trilogia Abandon da autora Meg Cabot porque havia referencia aos mitos de Hades e Perséfone.

                Mas o clima de excessivo suspense, a meu ver é claro, me fez desinteressado pelo livro e ao contrário de muitos outros que retomo e entendo o objetivo da autora, neste não o fiz.

                Para quem não conhece a mitologia Perséfone é filha de Zeus com Demeter, era uma deusa preocupada em colher flores, e aos poucos quando foi crescendo encantou o deus Hades, senhor dos mortos que pediu a filha em casamento, mas Demeter não queria que se casassem.

                Eles acabam se casando, mas Demeter pede a Zeus que a traga de volta no fim de uma complicada trama, Perséfone acaba ficando um período com Hades, que é o inverno no Olimpo, e um período com Demeter, que é a primavera no reino dos deuses gregos.

                Enfim, a trilogia não me parece no início nada disto, apenas era um toque “cult”.

                Outro livro mais realista me chamou a atenção, descubro a autora italiana Elena Ferrante, que escreve desde janeiro no The Guardian, sobre assunto de família, infância, gênero e envelhecimento.

                Enquanto esperava uma amiga, numa livraria de Lisboa, comecei a folhear o livro “Dias de Abandono” de Elena Ferrante, que conta a história (não sei se é verdadeira) de Olga que é abandonada por Mário e se vê presa a um cotidiano estilhaçado com dois filhos, um cachorro e nenhum emprego, mas vai lutar contra o sentimento de ser uma pobre mulher abandonada.

                Não fui até o fim, claro nem daria tempo e não comprei o livro para resistir a tentação de desviar de minhas leituras obrigatório que neste momento são muitas e a pilha é enorme, vi rapidamente na internet que 90% das pessoas que leram gostaram.

                O seu livro “A amiga genial” está indo para as TVs, em Portugal haverá uma série.

 

O (im)possível futuro da humanidade

11 Abr

Critica a parte dos tecnoprofetas, é possível fazer especulações, no campo das hipóteses, portanto, sobre o futuro da humanidade, este é o livro mais recente de Michio Kaku, onde ele explora em detalhes ricos de possibilidades físicas e teóricas como a humanidade poderá, em passos graduais e com certeza olhados por comitês éticos, desenvolver uma civilização sustentável no espaço sideral.

É preciso dar alguns passos atrás e ver quanta coisa já conseguimos, através da leitura de outro livro deste renomado físico e alguém que vai no campo das hipóteses com fundamentos e base teórica para as especulações.

No seu livro de 2008, em boa tradução portuguesa do Editorial Bizâncio, seu livro “A física do impossível” mostra em que campo está a física, os avanços já conhecidos e os prometidos.

Depois de passar pelos grandes físicos do século XIX, James Maxwell, que questionou o fato dos campos magnéticos poderem se tornar elétricos e vice-versa numa clara descontinuidade, e ir até as possibilidades de invisibilidade baseado na nanotecnologia de metamateriais, ele cai na realidade e diz: “a maioria das máquinas nanotecnológicas não passa de meros brinquedos.” (p. 51)

A segunda busca de Kaku é o teletransporte (na foto filmes de ficção), o famoso artigo de Einstein, em que ele e outros colegas põe a prova o fenômeno dos quanta se teletransportarem sem passar por um estágio intermediário, rompe com o princípio Aristotélico ir de A para B passando por C intermediário, foi nos últimos cinquenta anos demonstrado, apesar do questionário de Einstein, Poldoslky e Rosen, razão pela qual ficou conhecido como fenômeno EPR.

A idéia é que se dois elétrons vibram em uníssono, o que é chamado de coerência, estas partículas estão ligadas por um tipo de conexão profunda, chamada “entrelaçamento quântico” (pag. 78), na década de 1980 Alain Aspect na França fez a experiência e comprovou que esta ligação de “entrelaçamento” existe, mas a pergunta é ela transportaria informação?

A resposta de Kaku é categórica: “não podemos enviar uma verdadeira mensagem, ou um código Morse, através da experiência EPR, mesmo que a informação viaje mais depressa que a luz.” (p. 79)

Já postamos sobre os robôs, agora queremos falar sobre a inteligência artificial, escreveu Kaku: “A ironia suprema é que as máquinas podem efetuar com facilidade tarefas que os humanos consideram ´difíceis, como multiplicar grandes números ou jogar xadrez, mas fracassaram quando se lhes pede que efetuem coisas extremamente ´fáceis´ para os seres humanos, como andar numa sala, reconhecer rostos ou tagarelar com um amigo.” (p. 130)

Pega o discurso de Marvin Minsky, do MIT, um dos fundadores da IA, que resumiu o problema do seguinte modo: “A história da IA é engraçada, pois os primeiros feitos reais eram belas coisas, como uma máquina que fazia demonstrações em lógica ou saía-se bem num curso de cálculo.  Mas, depois, começámos a tentar fazer máquinas capazes de responder perguntas sobre os tipos de histórias simples que se encontram num livro do primeiro ano do ensino básico.  Hoje não há nenhuma máquina que consiga isto.” (p. 131).

Exploraremos no próximo post  (im) possibilidades que podem tornar-se reais, na visão de Kaku.

 

As artes e o mito adâmico

20 Fev

Citamos a obra de Eça de Queiroz: Adão e Eva no paraíso, mas uma obra que parece refletir muito o símbolo aHermingwayadâmico é a obra de Ernest Hemingway, ele parece a voz de uma experiência humana, que busca após a queda adâmica de luta contra o mal, incorporar uma busca de redenção, simbolizando assim a estrutura mítica do conceito de mal original, o mal adâmico.

Em outras palavras, um novo Adão, não apenas a figura de Jesus, mas a recuperação de uma falsa “inocência sábia”, uma busca da simplicidade de linguagem, um segundo Adão.

O que isto tem a ver com a realidade atual, quase tudo, é parte desta ascese do vem “aqui e todos seus problemas estão resolvidos”, e este movimento tanto na filosofia quanto na literatura é uma forma consciente ou subconsciente de utilizar uma apologia ao mito adâmico.

Os arquétipos dos personagens: Schorer, Murray e Frye são uma demonstração abrangente desta hipótese, que foi estudada na universidade de Rice pela estudante de mestrado Anna Gayle Ryan, e pode ser estendida a outros arquétipos utilizados por Hermingway.

O autor escreveu também “Por Quem os Sinos Dobram”, sobre a guerra civil espanhola, onde um soldado americano Robert Jordan, luta ao lado das Brigadas Internacionais que apoiam o governo democrático, com ele está um grupo de guerrilheiros/ciganos, que tem além de Pilar, uma mulher com extraordinária coragem, o perigoso Pablo e a bela Maria.

O romance escrito em Cuba, o que nos dá uma visão mais progressista, mas é possível fazer uma ligação figura com a inserção de americanos quase em todas as guerras do planeta posteriomente, não raramente tomando o lugar de protagonista, como no Vietnã, nas Coréias, no Oriente Médio, etc. para restaurar o “paraíso” do “american way of life” democrático.

A obra ficou marcada no cinema, no filme de 1943 dirigido por Sam Wood, com Gary Cooper e Ingrid Bergman nos papéis principais, o que aparentemente é uma obra de cunho revolucionário esconde os interesses americanos e a ideia de um paraíso adâmico representado pela democracia, o qual hoje é possível fazer esta relação com as guerras no planeta e a tensão atual com a Coréia.

É a ascese dos exercícios, que levadas ao extremo das guerras, impulsionam ideologias, e são parte deste mito moderno do “paraíso perdido”, a verdadeira ascese religiosa que é o ser-com-outro permanece oculta, e as relações humanas vão se tornando violentas.

 

Imunologia e a verdadeira ascese

16 Fev
Para entendermos a ascese possível, temos que superar então o paradigma dosaQuaresma “afetos e paixões” presentes desde a origem da civilização ocidental, ele é uma abertura nas bolhas individualizadas em sistemas imunológicos, mas o que são os sistemas imunológicos ?
“Sistemas imunológicos são expectativas de danificação e violação, somatizados ou institucionalizados, que se baseiam na distinção entre o próprio e o estranho” (Sloterdijk, 2009, p. 709).
É fácil e possível reconhecer um sistema imunológico por uma metáfora do organismo biológico individual, este é o passo novo de Sloterdijk, ele vê em suas “Esferas” o indivíduo em círculos concêntricos cada vez maiores, criando dois sistemas imunológicos, e depois expandem na perspectiva cooperativa e convivencional.
A existência humana é um sistema imunológico social, e segundo o filósofo alemão quando funciona, segurança jurídica, prevenção social e sentimentos de pertencimento além do pequeno círculo da própria família, ele pode expandir-se.
Temos assim os círculos pessoal e familiar, ambos concêntricos, mas que devem ir além do em-si.
O terceiro, por isto postamos sobre o mal simbólico-ontologico, entramos num plano no qual a validação das normas intergeracionais, compensa (e recompensa) a certeza da morte individual e estabiliza a imagem do mundo, parece um plano ainda individual mas não é, é uma ascese na qual “expurgamos” o mal ontológico.
Asceses individuais e até mesmo familiar se não são solidárias e coletivas tendem a criar um “fechamento” do ser, um em-si do-ente.
Assim como o sistema imunológico biológico, tanto o sistema solidário como o simbólico podem passar por crises e superá-las (claro que podem fracassar também), o que significa esta morte individual ? no caso dos dois sistemas imunológicos sociais, é a morte e ressurreição coletiva.
Na passagem bíblica dos 40 dias de deserto de Jesus, se admitimos este humano como Deus não precisaria fazer isto, ele faz sua morte individual, é significativa a passagem em Marcos 1,12-13 “ … o Espírito levou Jesus para o deserto. E ele ficou no deserto durante quarenta dias, e aí foi tentado por Satanás. Vivia entre os animais selvagens, e os anjos o serviam”, depois começou sua vida pública, diria “coletiva”.
SLOTERDIJK, P. Du musst Dein Leben ändern. Über Antropotechnik. Frankfurt, Suhrkamp, 2009.
 

A antropotécnica e a ascese desespiritualizada

15 Fev

Para definir sua antropotécnica, Sloterdijk vai estabelecer a relação das relações dentro das religiõesaoVazio atuais como os mais puros procedimentos antropotécnicos:

“Se reduzimos essas “religiões” às suas características essenciais, surgem três complexos básicos dos quais cada um tem uma relação clara com a dimensão antropotécnica. Primeiro, do lado dogmático: um clube de exercícios ilusionistas, rigidamente organizado, cujos membros no decorrer do tempo estão sendo impregnados com as concepções do milieu. Em seguida, do lado psicotécnico: um roteiro de treinamento para a exploração de todas as chances na luta de sobrevivência. Observamos, por fim, o topo do movimento; podemos ver tudo, mas nenhum “fundador de religião”: na nossa frente está um inescrupuloso, radicalmente irônico, flexível para todos os lados, business-trainer” (Sloterdijk, 2009, p. 168).

Vendo também a Scientologia e o movimento olímpico como religiões, ele usa o conceito de habitus, mas sem deixar de criticar o desenvolvimento feito tanto por Pierre Bourdieu como por Marx, resolvendo o problema de como a base ou a “infraestrutura” social se refletiria na “superestrutura” ou como a concepção geral da sociedade consegue penetrar o indivíduo de forma duradoura, eis o seu habitus feito como um procedimento antropotécnico.

Para atualizar e historicisar seu conceito ele recorre ao conceito de habitus em Tomás de Aquino e de hexis em Aristóteles, que “…descreve um processo aparentemente mecânico sob os aspectos da inércia  da superação para explicar a encarnação do espiritual. Eles identificam o homem como aquele animal que pode o que deve, se alguém se importou em tempo com suas habilidades.” (idem, p. 289).

Segundo o autor ao apresentar sua própria teoria do desenvolvimento cultural, a própria humanidade, apesar do fato de encontrarmos costumes e tradições diferentes em cada momento da sua história, não seguiu o roteiro conservador da identidade, por isto esta questão é falsa, embora seja referencia para muitos autores contemporâneos.

A conclusão sobre esta ascese desespiritualizada é treinamento, deixar-se operar: deixar-se-informar, deixar-se-divertir, deixar-se-servir, deixar-se-curar, deixar-se-transportar, e se este é, para o autor, o ser-aí, sua contraposição não é a negatividade geral, mas deveria ser o epoché geral, o deixar-se esvaziar, pode haver o ser-aí-não-ser que poderia se complementar como onto-antropotécnica, a luz do habitus social, fazendo uma releitura das condições antropotécnicas atuais e capaz de criticá-las, seria um ser esvaziado total, um não-ser-aí que é também ser.

SLOTERDIJK, P. Du musst Dein Leben ändern. Über Antropotechnik. Frankfurt, Suhrkamp, 2009.

 

 

Meus azarões do Oscar 2018

29 Dez

Mudbound, lágrimas sobre o Mississipi é um dos meus favoritos, claro aindaaoBladeRunner não foi lançado no Brasil (previsto para 22 de fevereiro), mas a temática me atrai e também talvez saia na frente por tratar a temática inédita do racismo e feminismo durante a Segunda Guerra Mundial, tem no elenco  Garrett Hedlund, Jason Mitchell e Carey Mulligan.
O meu segundo na lista, não poderia deixar de ser pela paixão por tecnologia e ficção, Aniquilação (Annihilation) é um filme na linha das grandes ficções, que impressionou muito a crítica (talvez ganhe só efeitos especiais), e após o grande sucesso de Ex-Machina: Instinto Artificial (vencedor do Oscar de melhores efeitos especiais), o diretor Alex Garland prepara outra ficção científica, sobre uma bióloga participando de uma experiência na qual as leis da natureza não existem, no elenco estão Natalie Portman no papel principal, ao lado de Oscar Isaac, Tessa Thompson, Gina Rodriguez e Jennifer Jason Leigh.
Um dos bons filmes esquecidos do ano passado foi A lagosta do grego Yorgos Lanthimos, talvez por ser um dos roteiristas e diretores  dos mais criativos do cinema contemporâneos, agora com um drama familiar poderá ter alguma chance, com uma parceria com Colin Farrell nesta nova mistura de drama e suspense, sobre um cirurgião e sua esposa (Nicole Kidman), transformando a vida de uma família problemática, o Sacrifício do Cervo Sagrado está previsto para lançamento no Brasil em 8 de fevereiro.
Um filme que pode surpreender, é O rei do show , do desconhecido diretor Michael Gracey, um especialista em efeitos digitais, mas o filme é sobre um circo que encantou os EUA, o Barnum & Bailey, justamente é a história de P. T. Barnum, com bons atores Rebecca Ferguson, Michelle Williams, contando ainda com os efeitos especiais e o visual da época é uma boa promessa.
Esperava alguma coisa para Blade Runner 2049 (do diretor Ridley Scott),  Harrison Ford repetindo o papel 20 anos depois, o K (Ryan Goslind) e Joi (Ana de Armas) (foto), mas o filme cult de mais e com bilheterias de menos, tem poucas chances, talvez uma homenagem pelo conjunto da obra para Harrison Ford, continuo torcendo, é um épico das ficções.
Fico fora do Glamour dos melhores atores e atrizes, diretores e coadjuvantes, desde o Oscar “branco” de 2016, considero as indicações mais políticas do que artísticas.

 

E a Computação Quântica

23 Out

Enquanto a computação digital trabalha com 0 e 1, a computaçãoaCompQubit quântica poderá usar um conceito de 0 e 1 simultâneos, efeito conhecido pelos físicos como “entrelaçamento” e quando foi enunciado foi chamado por “efeito fantasmagórico” por Einstein, Podoslki e Rosen, sendo assim conhecido pela sigla EPR.
Este fenômeno permite o processamento de várias operações simultâneas, os qubits (bits quânticos) poderão usam os seguintes princípios do processamento de fótons:
– partículas de luz, a luz tem propriedades de partículas,
– íons presos ou armadilha de íons, área conhecida com spintrônica,
– qubits supercondutores, processamento a velocidade da luz praticamente, e,
– centro de vacância de nitrogênio, fenômeno já observado em diamantes imperfeitos.
Computadores quânticos criarão novas aplicações, tais como, modelar variações de reações químicas para descobrir novos medicamentos, desenvolver novas tecnologias de imagem (hologramas aplicados a comunicação, e desenvolvimentos baterias e novos materiais e eletrônica flexível).
Mas a aplicação mais revolucionária será a internet quântica, totalmente usando as partículas de luz (fótons), havendo também uma proposta que usa a luz interagindo com a matéria, o futuro nos espera.
Os projetos ainda estão em desenvolvimento, mas já com muitos resultados.

 

O belo e a dor do samaritano

13 Out

O filósofo coreano-alemão Byung-Chul Han reivindica a ferida na participaçãoapieta do Belo, nada mais significativo do que A Pietá de Michelangelo, um economista italiano anuncia no seu livro “A ferida do outro”, que as relações de mercado as relações além de serem interpessoais, são também uma fonte de alegria e “benção” para o homem, e poderíamos dizer de beleza também, apesar de ser “ferida”.
A beleza se situa na reciprocidade, e não se trata de devolver o “valor” conforme o que foi pago, a sociedade onde a medida é apenas um valor matemático, o “wound” e a “benção” são dois polos inexplicáveis, que caracterizam as relações interpessoais e são também, uma fonte de felicidade, alegria e beleza para o homem, mas não deixam de passar pela “dor”.
A palavra wound, em português ferimento, é interessante porque wonderfull é maravilhoso, bem que poderíamos criar o vocábulo wounderfull, para o além-da-ferida do outro.
Uma criança que nasce é uma dor, as dores do parto, a cultura do polido e a imunologia, termo de Sloterdijk que é usando também por Chul Han, são irrealidades que estas sim podem levar a uma dor irracional, a da indiferença e a do desprezo pelo dolorido e pelo excluído.
Não basta dar uma “medalha” a professora heroína que lutou até a morte para salvar as crianças, é preciso que a cultura, o belo e a ideologia economicista valorizem as relações, o afeto e o apreço pelos que sofrem virar as costas ao sofrimento é o princípio da exclusão.
A parábola bíblica do samaritano (bom é um eufemismo para dizer que os samaritanos eram maus) havia um homem ferido numa estrada passaram diversas pessoas, inclusive sacerdotes e seguiram adiante, o samaritano que é podemos dizer um tipo “comum” parou e o socorreu, não era nem um religioso e nem um “engajado”.

É possível nesta releitura ver Maria como uma samaritana com Jesus na Pietá.

Ligo esta parábola com outra em que o rei preparou uma festa e os convidados não vieram, o banquete de Platão e a mesa de diversas liturgias e cosmologias são referencias a relação entre os homens, no lugar dos convidados o rei mandou que fossem as “periferias” e convidassem o povo comum para vir ao banquete (Mt 22,1-14).
Não se preparam para o verdadeiro banquete os que se afastam da dor, criam o ambiente polido e imunológico, onde os que sofrem e que são excluídos não participam, a verdadeira festa é aquela de quem lutou com sacrifícios e solidariedade para que todos participem.
L. BRUNI, La ferita dell’altro. Economia e relazioni umane, Il Margine, Trento 2007.

 

Porque matam os profetas

06 Out

As ideias e conjecturas que fazemos do futuro podem passar por uma bola de AsColinasDeNagasakicristal, algum tipo de clarividência, mas não podem deixar de passar por uma análise clara da realidade.
É fato, desde o início do século passado e até antes para quem leia mais profundamente a modernidade, que há uma grave crise na cultura, no pensamento e até mesmo na religião.
Atribuir esta crise a processos recentes como a internet, o uso de tecnologias ou mesmo o fanatismo religioso e no mínimo, uma superficialidade de análise, pois há ainda a crise no pensamento.
Dela falam Husserl, Heidegger, e outro mais recente Edgar Morin, Peter Sloterdijk, Levinas entre muitos dizem de modo claro, a crise de duas guerras mundiais, a crise ideológica que está renascendo com todas as forças, todos são unanimes em afirmar uma crise do pensamento, da visão de mundo e principalmente dos valores.
Preferem dar ouvido ao fanatismo cotidiano de análises simplistas ou fundamentalistas, pois é mais fácil que pensar aonde se perdeu o processo civilizatório, porque não fazemos do diálogo e da reflexão uma arma mais eficaz para entender o real ponto da crise, e até mesmo o que é a crise, fizemos aqui um caminho com a filosofia de Mario Ferreira dos Santos (post).
Matam os profetas porque eles veem e dizem o necessário para hoje: uma cidadania planetária, a distribuição de renda, o equilíbrio entre desenvolvimento e sustentabilidade, o respeito a diversidade e uma mudança de valores que se fundamente na dignidade humana.
Há uma parábola bíblica em Mateus 21, 33-43, aonde um dono de uma vinha  a arrendou, e chegando a colheita manda empregados para a colheita estes são mortos, depois manda mais empregados que também são mortos, e o dono por último manda o filho, que sendo o herdeiro , também o matam, que fará o dono da vinha ? o que fez o dono, eis a charada.
Se não nos pusermos a mesa do diálogo com a visão de uma cidadania planetária, e com respeito as diferenças não restará muito para uma nova hecatombe mundial, eis que pedimos que os que se dizem de diálogo, dialoguem de verdade e não sejam arrogantes e tiranos.
Notem foi dado o premio Nobel de Literatura ao japonês que migrou para Inglaterra Kazuo Ishiguro, que entre outras coisas escreveu “As Colinas de Nagasaki” (editora Relógio D´Agua,  2015) alguns anos depois da bomba de Nagasaki (foto) , e agora de manhã acaba de ser dado o prêmio Nobel para ICAN (sigla em inglês do Campanha contra Armas Nucleares), não faltam profetas apenas é preciso que não os matemos culturalmente.

 

O belo e o líquido

05 Set

A ideia que há uma liquefação da estética na modernidade é tão moderna quanto os conceitosFalsoBelo de liberdade, estado e principalmente: sujeitos e objetos.

Nesta morte da estética, já escreveram alguns autores, o belo é mera exposição do sensível da ideia nas obras de arte, e seria a partir delas que estaria resolvida a contradição, criada na modernidade, entre sujeito e objeto, assim uma obra de arte seria: “o primeiro elo intermediário entre o que é meramente exterior, sensível e passageiros e o puro pensar” talvez fosse este menos líquido, seria “científico”.

Hegel reconhecia na filosofia kantiana um “avanço em relação a outras teorias estéticas”, uma vez que, segundo o filósofo ápice do idealismo, a possibilidade de unificação entre espírito e natureza de daria pela arte, mas recusa-a ao perceber que conduziria a um dualismo insuperável entre sujeito e objeto, em uma síntese meio rude diríamos: “o demônio idealista”.

Mas não supera este “demônio”, dito por Hegel assim: ““… o belo artístico foi reconhecido como um dos meios que resolve e reconduz a uma unidade aquela contraposição e contradição entre o espírito que repousa em si mesmo abstratamente e a natureza. […] a filosofia kantiana sentiu este ponto de unificação em sua necessidade, como também o reconheceu e o representou de modo determinado.” (HEGEL, 2001, p.74)

O livro do filósofo germano-coreano Byung-Chul Han, Die Errettung des Schönen (A salvação do Belo) (Fischer Verlag, 2015, sem tradução para o português) dá um novo fio condutor para a questão do belo, com aquilo que já chamou em outros livros de “falta de negatividade de nossa era”.

Usa em sua linguagem as ideias do “positivo” e “negativo”, para designar o super consumo, quer seja de mercadorias, de informação e de capital, prefere antes a diversidade que a alteridade, antes a diferença que o distinto, e assim no estético o liso ao rugoso, e estética é para Han uma apologia ao liso, o polido, o pornográfico e não o erótico (no sentido do eros).

A subjetividade é confusamente lisa, sem interioridade e dificuldades (sem sofrimento já o dissemos), submete-se a um simplismo que quer tudo aplainar e polir, terapias para superar o medo, a angústia, o culto religioso é o repetitivo e a pura “doutrinação”, leitura sem nenhuma hermenêutica e cheia de exegese antiga e superada, palestras deve divertir e não ensinar, meios de comunicação são confudidos com os seus fins (que é para-comunicação) .

Os liquefeitos é que liquefazem tudo, para ficarem segundo sua lisura, sua feiura e sua ausência de negatividade e contradição, é mais que idealismo é “puro idealismo”, corpos que parecem bonecos, rostos sem expressão ou de expressão única, ausência da mímesis, voltaremos a ela, mas aqui basta o repetitivo, imitativo, mera representação, falsa receptividade, ato de se assemelhar, e no fundo a-presentação do eu (não alter).

 

HAN, B.C. Die Errettung des Schönen (A salvação do Belo), DE: Fischer Verlag, 2015.

HEGEL, George W. Cursos de estética. São Paulo: Edusp, 2001.