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Arquivo para a ‘Filosofia da Informação’ Categoria

O auge do idealismo e o Espírito

05 Fev

O espírito visto fora da Noologia, nome cunhado pelo Escritor brasileiro Mario Ferreira dos Santos ao estudo da Noosfera, o resto é puro idealismo na filosofia ou falsificação espiritual da teologia.
A influência na teologia contemporânea (entre muitas outras) pode ser vista na obra de Karl Ranner, tanto em Hörer des Wortes (HW) em sua tradução espanhola Oyente de la palabra (Ouvinte da Palavra), ou como no espírito do mundo, sua tese de O espirito do Mundo (1967), onde apesar da influência de Tomas de Aquino e até mesmo de Heidegger, não abandonou por completo sua influencia original de Kant.
Escreveu Francisco Taborda sobre Rahner: “O que Rahner faz em HW pressagia toda sua caminhada teológica posterior, caracterizada pela perspectiva transcendental que implica a presença de uma filosofia interna à teologia e traz a marca da virada antropológica da modernidade”, ou seja, apesar de tentar conciliar seu pensamento com Tomás de Aquino e Heidegger, sua matriz principal está em “Ouvinte da Palavra” (1963), onde afirma: “se o homem se acha defronte ao Deus de uma possível revelação, se esta revelação, caso tenha lugar, deve produzir-se na história humana … etc.” (RAHNER, 1967, p. 213).
Mas dialogar teologia é complexo atualmente, e infelizmente a simplificação levou ao fundamentalismo, que é a pior das tragédias, pois Deus é Omnisciente, então não é simples, pois o Amor é algo tão complexo que jamais alguém o codificou, poetas e filósofos tentaram.
Na filosofia o auge desta tentativa idealista foi Fenomenologia do Espírito, praticamente uma tentativa de desvendar a Trindade, usando as categorias em-si, de-si e para-si, mas cujo conceito de autoconsciência o trai, pois o para-si que poderia ser além de si, é na verdade um retorno ao eu do em-si.
Assim o Deus transcendente, está “morto” para Kant, pois é pura relação de imanência, o que é diagnosticado por Hegel (2007, p. 173) gerando assim a ideia que o Deus histórico, o mesmo de Rahner negando-se o aspecto absoluto, espiritual acima do temporal, “a sensação de que Deus Ele mesmo está morto” (idem).
Gadamer ao fazer a releitura de Hegel, desvela este Espírito visto como uma imanência: “Se trata de uma progressão imanente, que não pretende partir de nenhuma tese imposta, senão seguir o automovimento dos conceitos, e expor, prescindindo por inteiro de toda transição designada desde fora, a conseqüência imanente do pensamento em contínua progressão”. (GADAMER, 2000, p. 11)
Não é isto o Espirito Santo trinitário da cristandade, mas uma visão de espirito imanente apenas humano.

GADAMER, Hans-Georg. La dialéctica Hegel: Cinco ensayos hermenéuticos. 5ª ed. Trad: Manuel Garrido. Madrid: Ediciones Cátedra, 2000.
HEGEL, Georg Wilhem Friedrich. Fé e Saber. Trad: Oliver Tolle. São Paulo: Hedra, 2007.
RAHNER, Karl. Oyente de la Palabra: fundamentos para una filosofía de la religión. Barcelona: Hélder, 1967.

 

Pensamento e linearidade

04 Fev

A linearidade do pensamento está de tal forma impregnada na cultura contemporânea que até expressões como “um homem reto”, “retidão” ou equivalentes tornam-se sinônimos de justo, do bem e da harmonia social.

Isto está mais ligado ao raciocínio matemático que ao empírico, não por acaso os exemplos formulados pelos racionalistas do século XVI e XVII usavam os triângulos como exemplos da ideia dos universais, e mesmo neste caso separavam sujeitos de objetos, não por acaso tanto Descartes (1596  1650) e Leibniz (1646  1716), eram também matemáticos.

Para o racionalismo tanto os ideias éticos e estéticos, como de Justiça, de Virtude e de Beleza, também devem ser objetos do Mundo das Ideias, assim fez-se todo uma construção segundo esta forma de pensar que agora encontra-se em crise, pois a separação produziu um Ser que é estranho a Coisa, ao Ente, fazendo um trocadilho: o problema do Ser do Ente.

Os fundamentalistas, tendo como base intuitiva os pensamentos contemporâneos argumentam que o Ser é “espirito”, o que pouco ou nada tem a ver com espiritualidade ou religião, de outro lado os materialistas argumento que somos puro Ente, ser da natureza e assim substância.

O empirista anterior a Kant, o filósofo escocês David Hume (1711  1776), mesmo admitindo que todas as ideias derivam da experiência negava o método com uso da indução: “Qual é o fundamento de todas as conclusões a partir da experiência?” (Hume, 1985, p. 37) ou, como se justifica a passagem dos enunciados observacionais para os enunciados universais?

Hegel pretendeu levar isto ao plano espiritual em Fenomenologia do Espírito, o auge do pensamento idealista.

Embora o idealismo/empirismo pudesse parecer um sistema epistemológico completo, em 1829 Lobachevsky desenvolveu as Geometrias Não-Euclidianas, depois vieram as superfícies esférias (foto) de Rieman (1826-1866) cuja generalização leva as dimensões de Haussdorf (1868-1942) e aos fractais, que também escreveu sobre filosofia como “Paul Mongré”.

Mas não se trata apenas da complexidade da física e matemática, a retomada ontológica do ser vai além do logicismo e empirismo, esta á a retomada ontológica.

HUME, D. Investigação sobre o entendimento humano. Lisboa: Ed. 70, 1985.

 

Pequena história da verdade

25 Jan

“A verdade não está com os homens, mas entre os homens!” esta frase seminal do filósofo Sócrates já trás em si duas partes da verdade, não confundir com meias verdades, a primeira é que ao estar nos “homens” significa um argumento onto-lógico e não apenas lógico, e a segunda que estando “entre” não poderá estar com apenas um homem, é preciso dia-logo, ou seja, dois lados.
Assim procedia Sócrates ao perguntar (o seu método), porém a própria questão é se perguntar não será apenas lógico, ou seja, a pergunta pode já fazer parte de uma resposta, enquanto qual é a pergunta para se ter a verdade?
Depois de Sócrates, Platão e Aristóteles se destacam sobre a verdade, Platão fará diferença entre a Doxa (em grego: δόξα) que é a crença comum ou opinião popular e embora seja diferença da Episteme (ἐπιστήμη) como conhecimento, levou a uma clássica oposição de erro á verdade, que tornou-se de grande interesse a filosofia ocidental.
Episteme de onde vem epistemologia é o conjunto do conhecimento construído metodologicamente, mas também não é apenas lógica, sua pretensão é criar campos de relações, continuidades e descontinuidades entre práticas discursivas.
Aristóteles vai acrescentar o conceito de “endoxa”, crenças que podem ser sustentadas por sábios ou pela tradição para reconhecimento das crenças da cidade, ela é testada e portanto mais estável que a “doxa” convencional.
Ao final da idade média debatiam-se nominalistas e realistas, sobre a existência de universais e particulares, sendo a verdade enquanto realidade tendo apenas particulares ou tendo a possibilidade de encontrar universais, por exemplo, se todo homem é um animal, então um homem particular é um animal.
Será a ideia que existem universais que construirá o iluminismo moderno, mas sua base de verdade é racional e também existencial, posso duvidar de tudo, mas não de que existo, ou seja, para a própria ação de duvidar é necessário que eu exista.
Mas o racionalismo leva a duvidar da existência exterior, a clássica divisão corpo e mente, Imannuel Kant afirma que as percepções dos sentidos são posteriores à experiência enquanto é necessário um a priori universal, usando o argumento dos realistas, chama-o de juízo analítico enquanto os primeiros são os sintéticos, feitos a partir da junção de informações.
O ápice do idealismo é Hegel, que estabelece vários conceitos ideais: o estado, o espírito e a ética, porém a crise da modernidade retornará a velhos dilemas: a linguagem, o discurso e o que é a coisa ou o Ser, há então três reviravoltas: a linguística, a ontológica e a do “sagrado”.
Karl Klaus (1874-1936) já reclamava sobre a verdade no meio jornalístico, é verdade que a indústria cultural movimentou massas, e as Mídias de redes agora também, mas e a verdade?
A grande revanche do sagrado no cristianismo, ocorre quando Jesus ao fazer a leitura numa sinagoga abre a passagem de Isaías 61: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa-nova … “, e disse hoje se realizou esta profecia.
A busca dos fundamentos perdidos, de formas de espiritualidade (as vezes bizarras é certo), de nova forma de conforto para a alma humana em tribulação não é outra coisa: ausência de uma verdadeira transcendência que leva a “clareira”, a “revelação” e ao desvelamento da verdade.

 

Livros que lerei em 2019

26 Dez

Sem dúvida o primeiro da lisa, já comentei em alguns posts, o livro recente de Martha Nussbaum “A monarquia do medo” (Monarchy of fear, 2018) é o primeiro da lista, se não sair logo alguma tradução no português ou espanhol vou encarar o inglês mesmo.
Um livro que faz algum sucesso em Portugal é “A vida secreta das árvores” (Pergaminho, 2016), ainda não li nem vi comentários apenas sei que seu autor Peter Wohlleben é silvicultor e promete contar muitas histórias fascinantes e até espantosas sobre as características das árvores, como suas formas de comunicação que já são admitidas pela ciência.
Há algo brasileiro interessante, muitas coisas, Clovis de Barros Filho lançou “Deuses para Clarice”, da editora Benvira, seus comentários são sempre bem interessantes, e o autor promete mergulhar no mundo das mitologias no complexo mundo do Caos, Gaia, Chronos, Afrodite e outros personagens da mitologia grega, mas através de personagens reais colocados em diálogo, a proposta é interessante e inovadora.
Para fazer minha própria aporia (meu caminho sem saída), vou ler “Uma breve história da filosofia” (2011) de um filósofo.weblog com ele se intitula, o inglês Nigel Warburton é conhecido como divulgador e popularizador da filosofia, é professor titular da Open University que é outro interesse particular e por último já escreveu sobre “A questão da arte” ( ), haverá surpresas ?
Claro tenho meus deveres escolares, em particular a epistemologia: revisão de alguns textos de Hans Georg Gadamer, Edmund Husserl, Popper e Thomas Khun, e outros que geralmente aparecem e ocupam nossa mente.
Boas leituras no ano que se aproxima, acabo de ler que o Brasil é o 5º pais mais ignorante do mundo, triste … quem sabe um dia reverteremos isto, começando por nós: ler mais.

 

Phronesis e serenidade

28 Nov

Não por acaso Gadamer adota a Phronesis como um dos elementos chave em seu discurso sobre Verdade e Método, incompletamente traduzida como prudência, o termo na verdade dever-se-ia ser confundido com “sabedoria” prática da serenidade, tradução livre.

Isto porque a nosso ver, Gadamer é reabilitador da filosofia prática, os que clamam por pratica, objetividade (sic! bem idealista), são pouco práticos por ausência de sabedoria, são impulsivos e activos (no sentido de vita activa de Chul-Han), típicos da sociedade do cansaço.

No sentido grego, está agregada a ética, mas não é um saber privado no sentido da moral e sim público e social, que visa minimizar exacerbações da impulsividade egocêntrica do eu, quando colocada numa perspectiva da obra de arte atinge um patamar de princípio universal.

Esta inclui a obra de arte porque foi a excessiva centralização no eu que reduziu a relação da ética com a estética, a amoralidade pública, o escrachado não é uma nova estética, nem mesmo a negatividade as vezes necessária a arte, é a sua ausência por falta de relação com a ética e o processo formativo.

Gadamer recupera a phronesis a partir da proposta de Aristóteles na Ética a Nicômaco, onde busca estabelecer a articulação entre o universal e o particular, mais ainda entre o indivíduo e a sociedade, dentro de formas históricas da vida, mas com um ethos comum.

Pode-se assim estabelecer uma relação com a educação, num momento que se fala em escola sem partido é preciso pensar que há um outro, sem desejar a neutralidade porque ela será uma ilusão, exploramos num post a seguir.

Falta estabelecer a relação da phonesis com a techné e a episteme, que é o saber teórico e o saber fazer da techné, que está ligada etimologicamente a arte (τέχνη) e ao artesanato.

A harmonia entre as três formas de sabedoria resulta numa sabedoria prática, a práxis.

 

O dasein e a razão

17 Out

Antes de penetrar no conceito de ser-no-mundo, tradução provisória de dasein, é preciso compreender em que ponto a ontologia se distancia do racionalismo cartesiano, em que ponto se aproxima, para quem deseja um mergulho mais profundo “Meditações Cartesianas” é muito recomendável (post), já quem Husserl foi professor de Heidegger e este guardou alguns conceitos.

As duas categorias cartesianas bem conhecidas para “coisa” são a res extensa e a res cogitans, sobre as quais escreveu Heidegger: “Sem dúvida esse ente [com relação a Deus] necessita de produção e conservação, mas dentro dos entes criados [ou só considerando estes] … existe algo que não necessita de outro ente, no tocante a produção e conservação das criaturas, por exemplo do homem. Tais substâncias são duas: o res cogitans e o res extensa” (Heidegger, 2015, p. 144).

Assim o dualismo cartesiano não é só entre duas substâncias finitas, que são naturalmente distintas, mas entre as duas finitas e o infinito, e Heidegger esclarece logo a seguir retomando a ontologia medieval, as vezes chamada de fundamental ou ontoteologia por outros autores, a questão de como o ser é designado como “ente cada vez referido” (Heidegger, 2015,p. 145), ou seja, “nas afirmações Deus é ou o mundo é, predicamos o ser … a palavra ´é´ não pode indicar o ente cada vez referido no mesmo sentido (αυυωυúς, unívoce), já que entre ambos existe uma diferença infinita do ser, se a significação do ´é´ fosse unívoca, então o criado teria o mesmo sentido do não criado ou o não criado seria rebaixado a um criado” (idem).

Resolve a querela do universal, entre realistas e nominalistas, “Ser não desempenha a função de um simples nome [pensavam os nominalistas] pois em ambos casos compreende-se ´ser´ “ (ibidem), explicita e supera a escolástica que “apreende o sentido positivo de significação do ´ser´ como significação ”analógica” para distingui-la da significação unívoca ou meramente sinônima” (ibidem).

As aspas são do próprio Heidegger para indicar a analogia do ser enquanto substância, e estendendo para o contemporaneidade nem o analógico nem digital são ser, pertencem só ao ôntico, ou em nossa denominação aos artefactos. 

Finalmente rebaixa a ontologia cartesiana que “fica muito aquém da escolástica” que deixou sem discussão o sentido do ser e o caráter da ´universalidade´ desse significado contido na ideia da substancialidade” (ibidem), embora reconheça que mesmo a ontologia medieval questionou muito pouco este sentido.

Embora vá recuperar em alguns aspectos Descartes, constata para o seu tempo e vale ainda hoje, sequer nos libertamos da crise do pensamento europeu do século passado, “a ontologia cartesiana do mundo ainda é hoje vigente em seus princípios fundamentais”, a materialidade.

Heidegger, M. Ser e tempo, 10a. edição, Trad. Revisada de Marcia Sá Cavalcante, Bragança Paulista, SP: Editora Universitária São Francisco, 2015.

 

Desaceleração e a técnica

18 Jul

Depois de criticar de modo convincente Baudrillard e de afirmar de modo categórico que “a mera velocidade não supõe grande influência na produção do sentido histórico” (p. 36).

O que conta sobretudo é a instabilidade da trajetória, o desaparecimento da própria gravitação, as irritações (irritationen) ou oscilações temporais.” (pag. 36), Byung-Chul Han cede a tentação de Baudrillard de que é a moderna tecnologia responsável por isto, ora, mas qual a origem disto?

O livro Cultura e Simulacro de Baudrillard é da década de 70, a internet era nascente com usuários acadêmicos, o Mal-estar na civilização de Freud é da década de 30, isto sem falar de Nietzsche que faleceu no início do século passado, mais precisamente em 25 de agosto de 1900.

Portanto é preciso retornar aos primeiros argumentos de Han que são mais sólidos, “a aceleração não é a única explicação plausível do desaparecimento do sentido” (pag. 35), e a “expressão ´átomos de sentido´ também conduz a um erro,  porque o sentido não é nuclear” (idem), dá um pequeno passo na direção correta: “o repouso não é causado pela aceleração e pelo movimento de trocas, mas pelo já não-se-saber-para-onde” (pag. 38), uma falta de metas.

Vai criticar também Bauman, para quem o homem moderno é um peregrino no deserto, que pratica uma “vida a caminho” (pag. 43), e num relance retorna ao sentido afirmando “a secularização não comporta uma desnarrativização (Demarratovosoerimg)”, mas volta a trás e diz que a modernidade continua a ser uma narrativa, porém a cultura impressa e reprodução não tem o caráter mítico e escatológico da cultura oral, é outra narrativa, a romântica, já esclareceu Gadamer.

A crítica a técnica e ao progresso técnico é a tentação comum, apontá-la como religiosa é no mínimo contraditório já que ela é herdeira legítima das luzes e da razão, não é história como história da salvação, mas como determinismo histórico romântico a moda de Dilthey.

A imersão na cultura digital, ou na cibercultura, não desterritorializou (o rádio, a TV e o cinema o fizeram antes) nem secularizou, quem o fez foram as luzes e o capital financeiro que não reconhece pátria nem lugar, a narrativa que omite o processo de produção de vídeos, imagens, fotografias e também de código digital em todo planeta não é só uma inversão técnica ou tecnológica, é uma inversão cultural, graças a elas culturas e povos renasceram.

Não é preciso andar pelo mundo, porque o mundo anda por você, e isto é o que estimula jovens a conhecer outros países e lugares, o enraizamento pátrio que é anti-evolutivo e conservador, o homem andou pelo mundo antes de fixar fronteiras, quem fixou foram os impérios, que agora erguem muros e discursos pátrios radicais, o mundo já é uma aldeia global, o que há agora é um sentimento saudosista de um mundo que não volta mais.

 

O aroma e a significação

17 Jul

Assim como a arte, o aroma requer apreciação e sensibilidade, mas isto mais tempo do que significação, isto nos diz Byung-Chul Han: “o mundo está carregado de sentido. Os deuses não são mais do que portadores de sentido”. (HAN, 2016, p. 25).

Penetra no significado verdadeiro da narrativa, do oral primitivo e contemporâneo: “a narrativa cria o mundo do nada” (p. 25), mas não a deixa de liga-la a imagem: “o mundo pode se ler como uma imagem” (idem).

Sem citá-las Han parece penetrar na arte rupestre, ao desvelar a relação: “aqui tudo que tem sentido é a eterna repetição do mesmo, a reprodução do já sido, da verdade imperecível. É assim que o homem pré-histórico vive num presente que perdura.” (HAN, 2016, p. 26)

A cosmogonia de Han penetra no escatológico: “distingue de qualquer forma do tempo histórico que promete progresso … o eskáton indica o fim dos tempos … o tempo escatológico não admite ação alguma, projeto algum.” (HAN, 2016, p. 27).

Desvela também o sentido mais profundo da pós-verdade, “o tempo será desfactizado (defaktiziert) e, ao mesmo tempo, desnaturalizado (entnaturalisier)” (pag. 28), ao apontá-la já nas Luzes (o iluminismo): “a revolução refere-se a um tempo desfactizado. Livre de todo ser/estar lançado, de qualquer força natural ou teológica, o mundo, como um colosso a vapor, solta-se em direção ao futuro, onde espera encontrar a salvação” (pag. 29).

Cita Robespierre falando na cerimônia constitucional de 1793: “Les progrès de la raíson humaine ont préparé cette grande révolution, et c´est à vous que´est spécialement imposé le devoir le l´accélérer” (citado na página 29), era o triunfo da razão, também comenta a mesma experiência em “A morte de Danton” escrito por Büchner, ao citar Camille: “As ideias fixas comuns que passam por ser o senso comum são insuportavelmente aborrecidas.” (cit. P. 29).

Byung-Chul separa o tempo oral do histórico ao compreender “o mítico que funciona como uma imagem”, e vê a história da galáxia de Gutenberg como aquela que “cede lugar às informações” (p. 30), para dar a estas uma definição inédita: “na realidade, a informação apresenta um outro paradigma. No seu interior, habita outra temporalidade muito diferente. É uma manifestação do tempo atomizado, de um tempo de pontos (Punkt-Zeit).” (pag. 31).

Volto a página anterior para entender seu conceito de aroma: “A história ilumina … impõe uma trajetória narrativa linear … não tem aroma” (HAN, 2016, p. 30).

Contra a tese de Baudrillard, “a informação não se relaciona com a história como a simulação sempre perfeita do original ou da origem” (pag. 31), dirá por isto é um novo paradigma.

 Dirá ao final deste capítulo que o tempo “precipita-se, apinha-se para equilibrar uma falta do Ser essencial”, fazendo que “a falta do Ser se torne ainda mais penetrante” (p. 32).

HAN, Byung-Chul. O Aroma do Tempo: um ensaio Filosófico sobre a Arte da Demora, Lisboa. Relógio d´Água, 2016.

 

Porque é preciso pensar?

09 Jul

Sonhava em escrever um livro de filosofia, não o escreverei mais, talvez faça considerações, como as que farei aqui, mas ao encontrar inesperadamente o autor Thomas Nagel em: “Que quer dizer tudo isto? Uma introdução à filosofia” em sua 5ª. edição (Gradiva, 2018) penso que ele fez o trivial: apresentar questões fundamentais em palavras do cotidiano.

Assim, farei apenas comentários, não é um resumo, são apenas apontamentos, e talvez seja interessante dizer como o encontrei, foi até de outra obra: Como é ser um morcego? (The Philosophical Review LXXXIII, pp. 435-50, 1974), onde diz que esta pergunta pode fazer sentido, mas não faz sentido perguntar como é ser um tostadeira, atualizando para os dias de hoje como é ser a Robô Sophia, embora hajam pessoas fazendo esta pergunta.

Não é esta questão que responde diretamente, mas questões atuais que estão no pensamento cotidiano, ou seja: Como sabemos seja o que for, o que são as outras mentes, o significado das palavras, a liberdade (o livre arbítrio), a morte e o sentido da vida.

A filosofia parece não tratar disto, mas trata só que em diálogo com outros pensadores, esclarece o autor logo no início do livro: “a filosofia é diferente da ciência e da matemática … não se assenta em experimentações nem na observação, mas apenas no pensamento.” (p. 8).

Todos nós pensamos, é equivocado pensar que só filósofos e cientistas pensam, a questão da filosofia é; “questionarmos e compreendermos ideias muito comuns que usamos todos os dias sem pensar nelas” (p. 8), e ao fazermos isto somos levados “na onda” para onde ela queira nos levar, em tempos de crise e profundas mudanças isto pode ser fatal.

Explica o autor, entre outras coisas duas perguntas que considero essenciais: “Um físico perguntará de que são constituídos os átomos ou o que explica a gravidade, mas um filósofo irá perguntar como podemos saber que existe qualquer coisa fora das nossas mentes” (p. 9),

Isto é essencial porque esta é a pergunta idealista contemporânea, e o idealismo é a grande filosofia de nosso tempo, ele é a base do que convencionou-se chamar de modernidade.

NAGEL, T. Que quer dizer tudo isto? Uma iniciação a filosofia. 5a. ed., Lisboa: Gradiva, 2018.

 

Simplicidade e Sabedoria

06 Jul

Simplificar não é reduzir conceitos ou coisas que são naturalmente profundas, entre elas, o amor, a sabedoria e o próprio conhecimento são difíceis de serem tratados de modo simples, e não devem ser vistos com simplismos e pouca sabedoria, porém é possível com a vida e com exemplos do dia a dia muito concretos mostrar e demonstrar o que é o conhecer humano.

Porém em tempos de pós-verdades e de acesso livro a produção e difusão do conhecimento, os equívocos do simplismo e da cultura rasa podem ter efeitos devastados, o que não significa confundir e tornar complexo desnecessariamente aquilo que se explica ou que se demonstra.

Assim como o conhecimento reduzido de determinado assunto ou objeto de estudo pode e em geral leva a um reducionismo, termo usado em termos científicos para dizer que a redução da complexidade não explicou o fenômeno que se propunha estudar, é uma das maiores causas do empobrecimento cultural contemporâneo, ao qual a Web é apenas um “meio” de difusão.

Estudos que levam a uma melhor estruturação do conhecimento como as Ontologias, a Web Semântica e agora um novo alvorecer da Inteligência artificial, levam sem dúvida a um maior progresso do pensamento humano e do conhecimento científico.

É preciso, volta-se a enfatizar não complicar além do necessário e também não reduzir além do possível para a essência de um fenômeno ou objeto de estudo não seja perdida ao estudá-la.

Em termos sociais, geralmente se impõe pela autoridade muito mais pela forma que de fato pelo conteúdo, a pompa que tem determinados conhecimentos não significa necessariamente a sabedoria ou profundidade de conhecimento, muitas vezes troca-se a forma pelo conteúdo.

Assim, se alguma divindade ou suprema sabedoria estivesse entre nós dificilmente seria reconhecida, como na cultura cristã a passagem bíblica de Marcos 6,3 reflete: ´Este homem não é o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? Suas irmãs não moram aqui conosco?´ E ficaram escandalizados por causa dele.”

Não se escandalizem pela simplicidade, mas justamente pela ausência dela entre aqueles que se arrogam conhecimento e sabedoria.