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Arquivo para a ‘Cognição’ Categoria

O mistério e o espiritual

06 Fev

Tanto a física quanto a matemática já ultrapassaram não apenas as dimensões ideais: o ponto, a reta, o plano e o cubo, introduzindo as dimensões fracionarias as quais pertencem os fractais, imersos no espaço de Hausdorff, mas também pela adoção da quarta dimensão.
O trabalho pioneiro foi feito por Charles H. Hinton (post) em A New era of Thought (1888), anterior a dimensão quântica de Werner Heisenberg e a descoberta dos Buracos de Minhoca (Worm Holes) na qual já se imaginam viagens intergalácticas como vista no filme de ficção Interestelar (2014), e no filme Contacto (1997, baseado no livro de Carl Sagan).
Hinton após fazer um diálogo com o idealismo Kantiano dirá sobre a natureza sensorial humana: “na percepção instintiva e sensorial do homem e da natureza, tudo é oculto, o que a reflexão traz depois à consciência. Podemos estar conscientes um pouco mais alto do que cada homem individual quando olhamos para os homens. Em alguns, essa consciência atinge um ponto extremo, e se torna uma apreensão religiosa.”, ou seja, admitia o aspecto espiritual (post). 
É nesta dimensão acima do individual que Teilhard Chardin trabalhou sua noosfera, pode haver uma consciência maior quando as pessoas trabalham juntam, isto é, obvio no plano humano, mas não tão obvio no plano espiritual, não significa só estar de acordo, mas admitir uma esfera espiritual, uma noon (espírito) esfera, a noosfera.
Como é possível penetrar nesta dimensão, fazer os homens trabalhar espiritualmente juntos, isto está acima da oração ou meditação espiritual, na qual a pessoa se eleva individualmente e hoje até para o tratamento médico é recomendável, mas uma ação espiritual coletiva.
O interessante é observar que tanto Chardin que pensava numa espécie de consciência cósmica, que lhe valeu um afastamento dos dogmas católicos (ele era padre), mas também o matemático Charles Hinton parece caminhar na direção da quarta dimensão, Salvador Dali também falou disto em seu Manifesto Místico (1951) e em conversas com o matemático Thomas Banchoff.
Assim como o discurso filosófico de Hinton, a antropologia filosófica de Chardin em uma de suas obras seminais “O fenômeno humano” parecem discorrer sobre aspectos de um mesmo tema, uma espiritualidade que leve a uma consciência coletiva maior e a sentir o Universo como corpo e como parte da Noosfera, aproximando o que é substancial do que é espiritual.
A razão que tanto Chardin como Hinton foram descartados no seu tempo é que procuraram penetrar num mistério, que Einstein também penetrou junto ao físico Rosen, os buracos de minhoca são chamados também Ponte de Einstein-Rosen (figura), sendo consistente com a teoria da relatividade.
O que está além do físico, ou o meta-físico nem sempre lhe é contraditório, mas pode ser exatamente a solução de alguns dos mistérios da natureza, 90% do universo é massa ou energia escura, das quais pouco se sabe e as descobertas recentes são enormes, veja a partícula de Higgs (incorretamente chamada de Deus) e os buracos negros com várias descobertas novas.

 

Armação e artefacto

17 Jan

É um equívoco imaginar que a modernidade terminou com a discussão da metafísica, o que na verdade fez foi substituir o conjunto das reflexões essenciais pela objetividade da técnica, não vista como esquecimento do ser que ocorre na filosofia ocidental desde Platão até Nietzsche.
Aristóteles estabeleceu as quatro causas: a causa formal, cada coisa existe como forma que define a sua essência enquanto forma, causa material do que a coisa é feita, sua matéria; causa eficiente que é a origem da coisa, e, causa final, a razão de algo existir.
Para Heidegger estas causas são modos de trazer a coisa a uma presença no mundo, o que Platão chamou de poiesis, o ocasionar daquilo que passa e avança do não-presente a presença (Heidegger, 1949, p. 19), e trazer a presença é produzir, ou para usar o termo de Flusser, é o fabrico, o fato que a natureza é usada em função da produção e algo.
Assim, a arte e o artesanato são uma poíesis, e mesmo a phýsis pode ser considerada uma poíesis, por exemplo o emergir de uma floração, faz com a natureza produza a flor, assim recupera-se o conceito de techné com três aspectos emergentes da modernidade: a arte, o artesanato e a pýshis, o que faz o desocultamento do ser do ente, pelas suas causas.
A causa formal, a forma dada pelo artesão, a causa material, o material usado pelo artesão, a causa eficiente define de onde o material é proveniente e a causa final, o uso do artesanato.
A introdução o conceito de artefacto, é usando um argumento de Heidegger o fato que a técnica moderna provoca um ocultamento pelo fato de ser algo que o homem não domina, o seu recurso maquínico torna o homem dependente dela sem perceber sua causa final.
Chamamos de artefacto o recurso da técnica, enquanto arte que permite expressar o sentido e causa final da técnica, sem reduzi-la ao meramente técnico, e, portanto, tendo relação não apenas com o homem, mas com sua humanidade.
O reposicionamento do homem perante o mundo que se reconfigura devido ao artefacto não é um evento que acontece ao ser, mas que lhe corresponde, ou seja, que lhe afeta, a tomada de consciência do artefacto, que tem origem no ente, tem como imperativo sua apropriação.
Heidegger, M. Carta sobre o humanismo / Martin Heidegger (1946). 2ª. ed. rev. Tradução de Rubens Eduardo Frias. São Paulo: Centauro – 2005.

 

O ser, o infinito e o puro Ser

12 Jan

Se tudo existe e não o nada, é porque algo ou alguém ou ambos É, e não-ser não significa necessariamente o nada, o nihilismo é fruto desta lacuna idealista.
A hipótese do terceiro excluído, de um lado é uma necessidade lógica e de outro é uma possibilidade de encontrarmos rações físicas para o Não-Ser, o que havia antes do Big Bang?
Ainda que a teoria dos universos paralelos ou de múltiplos Bing Bang, hipóteses não comprovadas, a ideia que haja algo além do ex-sistente é plausível, assim o Ser que é puro Ser, porque pré-ex-siste é altamente provável e viável, quanto ao seu nome seria apenas “O que é”, que é o significado da palavra Deus.
Deus ex-siste porque foi possível extrapolar seu puro ser, sua essência, e ex-sistir enquanto limitação humana, pura ex-sistência terrena e finita, o ser histórico e puro Ser: Jesus.
Conforme o texto bíblico, Jesus ao ser batizado por João Batista no dizer de Lucas (Lc: 3-22): “e do céu veio uma voz: ´Tu és o meu Filho amado, em ti ponho o meu bem-querer´”, o desvelar (a palavra re-velar é contraditória) ou a epifania e início da missão de Jesus se completam ai.
É incrível a ideia da ex-sistência divina em Jesus, é algo como afirmou o físico Michio Kiku sobre Deus: “tão aterrorizador é sua existência é a sua inexistência” (em Física do Impossível).
A entra de Deus na história, o Jesus histórico ex-siste, porém deverá no final dos termos negar-se como não-ser, e chamar a Deus que chamara de pai de apenas “Deus meu Deus meu, porque me abandonaste”, momento do ápice humano que ao mesmo tempo funde-se e integra o divino, o dualismo é rompido.
Ainda que aceitemos a hipótese da sua não existência, algo ou alguém houve antes do tudo, e não era o nada, o nihilismo não é só a negação da ex-sistencia é a negação do Ser.

 

A ideia de ser e o puro ser

11 Jan

Enquanto a ideia de ser fica limitada apenas ao Ser-coisa, embora existente permanece idealizado e separado da própria “coisa”, natureza e substância que também é, o Ser-em- relação só existe enquanto a existência do Outro, senão não há relação, e a forma básica de relação é a linguagem.
Se admitimos a existência do Ser, como diria a filosofia existe algo e não o nada, que não é um porque (porque existe algo, por exemplo), uma uma ex-sistência que vai redefinir o que Freud havia chamado de inconsciência, segundo J. Lacan vai precisar: “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”, portanto é forma primária de relação, mas a linguagem não se limita a ela.
Como Lacan a define há três formas de registros – real, simbólico e imaginário, segundo a tríade freudiana: a inibição, o sintoma e a angústia, o inconsciente conforme Lacan habita um lugar inusitado, um lugar da ex-sistência em um plano de três consistências aplainadas conforme o esquema dos círculos ao lado, pela tragédia do fim da vida de Lacan pouca gente se dá conta de sua precisão, veja o esquema proposto acima.
O que é o ex-sistente ? Disse Lacan: “se define, em relação a uma certa consistência , se afinal de contas não é senão esse fora, que não é um não dentro, se essa ex-sistência é de alguma maneira isso ao redor do qual se evapora uma substância, (…) , disso não resulta menos que a noção de uma falha, que a noção de um buraco ainda em algo tão extenuado que a ex-sistência conserva seu sentido, que já lhes disse (….) que há no Simbólico um reprimido, há também no Real algo que faz buraco, há também no Imaginário”, o que de certa forma aproxima-se de Freud e não escapa de seu psicologismo.
Esta definição ainda que criticamos o seu psicologismo, aproxima-se do sentido ontológico Heideggeriano, existe fora, e aqui podemos dizer fora da consistência, ou seja, pois não é como afirma o próprio Lacan um é “não dentro”, na linguagem idealista separando sujeito de objeto, o ex-sistir existe em uma posição de ex-centricidade, no sentido de relação a algo, no dizer psicológico de Lacan “o um que cai da definição de outros lugares, mas que a eles não está incorporado”, aqui subsiste o dualismo.
A ideia de resistir a ideia de puro Ser, que significa existir Deus que é centricidade e extrapola a ex-centricidade e a justifica, porque o Ser é na filosofia antiga, e no sentido ontológico atual “não ser” também é criando uma terceira hipótese ao terceiro excluído da lógica idealista: o Ser é e Não-ser não é.
A má relação com os objetos através da transcendência idealista é aquela que faz uma separação entre sujeitos e objetos, típica da sociedade moderna, sendo também uma deturpação da relação com os objetos (dinheiro, objetos pessoais e as coisas da natureza) sendo e como religião tem equívocos, que justifica a desigualdade social e até mesmo a “sacralização” da relação com estes, como se riqueza fosse “presente de Deus” e não uma contingência humana.
O esquema proposto por Lacan embora válido possui uma lacuna ontológica, pois se de um lado podemos relacionar o Real, o Imaginário e o simbólico, aquilo que pertence somente ao imaginário-simbólico é na verdade fantasia humana, existe enquanto possibilidade Virtual, mas não se atualiza.
O Virtual é o Real passível de atualização, neste sentido é “Virtus” aquilo que pode existir enquanto Ser, mas que ainda é só presente, para ser real precisa se atualizar.
Esta lacuna surge daquilo que é novo, que ainda é potencial no sentido da ontologia antiga, e que é virtual no sentido da ontologia do fenômeno, pode fazer pouco sentido pois faz parte ainda do imaginário, tendo uma representação simbólica primária (poderá ter várias reinterpretações) e está no plano do inconsciente tanto da rejeição como da inibição pelo desconhecimento da novidade.
LACAN, J. O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1979.

 

Uma releitura dos reis magos

04 Jan

Em tempos de fundamentalismo e intolerância religiosa, uma releitura dos reis magos que foram adotar e também “contemplar” o nascimento de Jesus é essencial para o diálogo.

A primeira necessária é que Deus se comunicou com os “magos” do oriente, ela pode reabrir corações fechados para re-ligações (religião do verbo em latim religare que é religar), pois eles não eram sequer religiosos no sentido convencional, mas magos e Deus os religou.

A segunda é que a comunicação divina foi através de astros, que significa que eles podiam entender esta linguagem e que Deus falou na língua humana deles, ou seja, há formas além das dogmáticas de comunicação entre Deus e os homens, mesmo não crentes.

A cosmologia é uma parte antiga e fundamental da filosofia, sua evolução e composição estuda o universo, e vem desde a antiguidade, os pré-socráticos a estudavam, buscam também a explicação da origem e da transformação da natureza e do universo e constroem mitos e divindades, criando uma relação entre seres mortais e imortais.

Então Deus não é tão indiferente a isto, uma proposta universal não deve desconsiderar a cosmologia, e se deseja construir uma cosmogonia, isto é princípio e fim de toda a vida, então uma escatologia é também construída, e a escatologia cristã pode estar relacionada a esta, não é afinal Deus princípio e fim de tudo ?

Esta segunda releitura, a questão dos astros, de fato ainda hoje se buscam evidencias cosmológicas da estrela que os Reis Magos seguiam, um astro, um cometa, isto poderia ajudar a datar o natal de uma data mais precisa.

Teólogos como Teilhard Chardin não deixaram de considerar a hipótese cosmológica, a noção de um universo cristocêntrico ajuda a uma interpretação não fundamentalista de uma escatologia mais complexa, e por isso recorremos no post anterior a São Gregório de Nazianzeno.

A terceira é que os reis magos foram “contemplar” o menino-Deus, além da vita activa, Hannah Arendt também falou dela em A condição Humana (publicado em 1956, com edição brasileira de 2009), que vem da conferencia Trabalho, Obra e Ação (publicação brasileira de 2006), mas já falavam desta questão Aristóteles no bios politikos e a vita negotiosa ou actuosa em Agostinho, e, recentemente Byung Chull Han em A sociedade do cansaço.

Mas não vieram adorar apenas, onde o elemento oferecido incenso é essencialmente isto, mas também trouxeram ouro no sentido de riqueza e mirra no sentido de sacrifícios oferecidos.

Os reis magos deveriam significar a abertura do cristianismo a outras linguagens que também são uma expressão do infinito, do universo e da vida construída de modo sagrado em todos e em tudo.

 

Que crise é esta ?

02 Jan

Sem dúvida não é apenas uma crise do ser humano, é também do que se pensa como humano, aquilo que muitos intelectuais chamam de “crise das humanidades”, entre os que a chamam-na assim está Martha Nussbaum.

Sua formação em estudos clássicos de literatura e filosofia, na NYU e em Harvard, o texto já publicado em português A fragilidade da Bondade, original de 1986 e na versão do Brasil em 2009, trata-se na verdade uma revisão do pensamento grego clássico.

Seguiu-se Love´s Knoledeg (1990), sem edição em português, reuniu ensaios de Platão, Aristóteles, e os contemporâneos Henry James e Samuel Beckett, depois veio Poetic Justive (1995) uma visão incomum do direito, e Cultivating Humanity (1998) seus escritos políticos.

A crise que não é de hoje, que não é portanto do mundo digital e muito menos da era eletrônica (cinema, radio, TV e telecomunicações) é na verdade uma crise do pensamento que veio de um  sociedade com estrutura idealista, pseudo-científica e desumana, sem utopia, mistério e poesia.

O livro da autora, Nor for profit: Why Democracy need the humanidades, de 2010, pela Princeton University Press, foi a primeira tentativa, mas não é ainda uma resposta á crise.

É enganoso pensar que o campo de Nussbaum se restringe aos EUA, conhece bem a India, fez trabalho em parceria com Amartya Sem, e tem dados da Alemanha, Suecia e Inglaterra.

O campo privilegiado de observação de Nussbaum não se restringe aos Estados Unidos. Conhece bem a Índia, onde desenvolve trabalhos sistemáticos de pesquisa, alguns ao lado do Nobel de Economia Amartya Sen, além de referir dados genéricos de Alemanha, Suécia e Inglaterra.

Defende uma reeducação no estilo Socrático, este seu maior acerto, pois a própria filosofia antiga já é revista pelo do terceiro excluído, o princípio quântico (A e não A, não haveria uma terceira hipótese), já não é mais verdadeiro.

Em seu trabalho com o educador indiano Rabindranath Tagore, entre tantos outros autores, de diversas correntes, como Rousseau, Dewey, Froebel, Pestalozzi, Alcott , Monstessori etc. faz a critica que é sempre uma educação generalista, e não diz, mas fundamentalmente idealista.

Defende acima de tudo que a filosofia deve ser útil (não é utilitária) e beira o exotérico.

Seus último livro The monarchy of fear: a philosopher looks at our political crisis ( A monarquia do medo: uma filósofa observa nossa crise política , não há tradução para o português) é uma radiografia da crise atual do avanço do conservadorismo.

A ideia de criar o ser humano para o utilitarismo, para a produção e a economia, corrompeu a base humanista e criou uma hecatombe desumanizada e fria, é claro, ela não deixa de ter críticos conservadores, mas ao contrário da filosofia vulgar é erudita e com ideias claras.

 

Serenidade, diagnóstico e educação

29 Nov

A aparente causa de nossos problemas cotidianos parecem ser os avanços mais recentes, as inovações, a vida social, as “midias” de redes sociais e o sobre trabalho humano em diversas áreas, embarcamos no discurso fácil da liquidez, da hipercomunicação e do excesso de informação, este diagnóstico está correto.

Com diagnóstico errado receitamos o remédio errado, colocamos em nossas vidas mais exercícios, uma “vida de exercícios” diria Sloterdijk, mais alimentação natural e mais vida activa para isto, culpa do erro de diagnóstico e de ausência de um futuro claro.

A clareira só pode vir do pensamento, o apelo a prática é o pior remédio deixamos de ter um fim de semana de descanso e de atividades recreativas pois há assuntos “urgentes”.

O diagóstico deste drama atual estava já em Nietzsche (1834-1900), escreveu em Humano demasiado Humano: ‘’Por falta de repouso nossa civilização caminha para uma nova barbárie. Em nenhuma outra época os ativos, isto é, os inquietos, valeram tanto. Assim, pertence às correções necessárias a serem tomadas quanto ao caráter da humanidade fortalecer em grande medida o elemento contemplativo’’, uma mostra clara da datação do problema atual.

Pode ser até mesmo anterior, Kierkegaard (1813-1855) escreveu: “o remédio para a ansiedade é sermos como verdadeiramente somos”, apontando no início da modernidade o problema ontológico do qual padece grande parte da humanidade, querer ser o que não se é, ainda que seja bom a ousadia e a busca de novos horizontes, ela deve ser feita solidariamente com o Outro.

O diagnóstico, apontou o Padre Manuel Antunes, cujo nascimento comemorou 100 anos dia 3 de novembro, é contrapor o homo misericors ao homo mechanical, fruto da modernidade, que criou o que o sábio português chamou de “homem espuma”: ligeiro, sem consistência, sem fidelidades e sem convicções fortes.

A educação que deve decorrer daí precisa ser altamente dialógica, abrangente e transdisciplinar, defendeu isto o padre Manuel Antunes, defender Edgar Morin, Basarab Nicolescu e tantos outros, porém é necessário método para que não pare no discurso.

O método proposto por Gadamer, em sua leitura de Heidegger é o círculo hermenêutica, a possibilidade que a partir de pré-conceitos chegamos a uma fusão de horizontes e uma maior possibilidade de releitura da atualidade delineando caminhos para o futuro.

 

Phronesis e serenidade

28 Nov

Não por acaso Gadamer adota a Phronesis como um dos elementos chave em seu discurso sobre Verdade e Método, incompletamente traduzida como prudência, o termo na verdade dever-se-ia ser confundido com “sabedoria” prática da serenidade, tradução livre.

Isto porque a nosso ver, Gadamer é reabilitador da filosofia prática, os que clamam por pratica, objetividade (sic! bem idealista), são pouco práticos por ausência de sabedoria, são impulsivos e activos (no sentido de vita activa de Chul-Han), típicos da sociedade do cansaço.

No sentido grego, está agregada a ética, mas não é um saber privado no sentido da moral e sim público e social, que visa minimizar exacerbações da impulsividade egocêntrica do eu, quando colocada numa perspectiva da obra de arte atinge um patamar de princípio universal.

Esta inclui a obra de arte porque foi a excessiva centralização no eu que reduziu a relação da ética com a estética, a amoralidade pública, o escrachado não é uma nova estética, nem mesmo a negatividade as vezes necessária a arte, é a sua ausência por falta de relação com a ética e o processo formativo.

Gadamer recupera a phronesis a partir da proposta de Aristóteles na Ética a Nicômaco, onde busca estabelecer a articulação entre o universal e o particular, mais ainda entre o indivíduo e a sociedade, dentro de formas históricas da vida, mas com um ethos comum.

Pode-se assim estabelecer uma relação com a educação, num momento que se fala em escola sem partido é preciso pensar que há um outro, sem desejar a neutralidade porque ela será uma ilusão, exploramos num post a seguir.

Falta estabelecer a relação da phonesis com a techné e a episteme, que é o saber teórico e o saber fazer da techné, que está ligada etimologicamente a arte (τέχνη) e ao artesanato.

A harmonia entre as três formas de sabedoria resulta numa sabedoria prática, a práxis.

 

O que é clarificação para Charles H. Hinton

13 Nov

O escrito que antecedeu a física quântica, a filosofia hermenêutica e uma nova (ou antiga no sentido de verdadeira) espiritualidade, trazia raciocínios novos e curiosos.
Ao falar de uma dimensão maior do espaço (Higher Space) e maior do Ser (Heigher Being):
Estamos sujeitos a uma limitação de características mais absurdas. vamos abrir nossos olhos e ver os fatos.” (Hinton, 1888), parece simples mas requer treino: “Eu trabalhei no assunto sem o menor sucesso. Tudo era mero formalismo. Mas ao adotar os meios mais simples e por um conhecimento mais completo do espaço, o todo brilhou claramente. ”(Idem)
Já falamos no tópico anterior, mas agora desenvolve o estágio de ser “conscientes de um mais que cada homem individual quando olhamos para os homens. Em alguns, essa consciência atinge um tom extremo e se torna uma apreensão religiosa” (Hinton, 1888), como foi dito no post anterior, “Mas em nenhum é diferente de instintivo. A apreensão é suficientemente definida para ter certeza. Mas isso não é expressável para nós em termos de razão …” (idem)
Parte do aspecto físico, a ideia que “nosso isolamento aparente como corpos um do outro não é de modo algum tão necessário pra assumir como pareceria”, aqui sua relação intuitiva com a física quântica que só tornaria realidade no início do século XX que admite que naquele momento era só uma possibilidade, mas acrescenta mais um ponto: “e viéssemos examinar o assunto de perto, deveríamos encontrar uma relação natural que explicava nossa consciência ser limitada como atualmente é” (Hinton, 1888)
Afirma Hinton: “nosso isolamento aparente como corpos um do outro não é de modo algum tão necessário para assumir como pareceria”, podemos dizer estamos relacionados ao todo, faz um argumento matemático para isto.
Se as formas espaciais só podem ser simbólicas de formas quadridimensionais: e se não lidamos diretamente com as formas espaciais, mas a tratamos apenas por símbolos no plano – como na geometria analítica – estamos tentando obter a percepção do espaço superior através de símbolos de símbolos, e a tarefa é sem esperança” (Hinton, 1888).
Dirá num todo quase místico, mas compatível com o pensamento de Teilhard Chardin por exemplo, “Em vez de uma abstração, o que temos que servir é uma realidade, para a qual até nossas coisas reais são apenas sombras. Somos partes de um grande ser, em cujo serviço e com o amor de quem, as maiores exigências do dever são satisfeitas.” (Hilton, 1888)
Então dará a sentença: “O poder de ver com nosso olho corporal é limitado à seção tridimensional” (Hinton, 188) e será a partir daí que criará sua visão da 4ª. dimensão: o Tesseracto.

HINTON, Charles H. The new era of thought. Lonson: S. Connenschein & Co., 1888. (Chapters 7, 9, 10, and 11)

 

A cura do cego de nascença

26 Out

Em seu Ensaio sobre a cegueira (Companhia das Letras, 2002), José Saramago dá uma lição muito simples sobre ontologia: “Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”, o convívio social, a cultura e a política revela-nos aos poucos aos outros.

De certa forma todos vemos um pouco e todos temos “pontos cegos” e precisamos do Outro para ver melhor.

Entre todos os milagres bíblicos, certamente muitos consideram a ressurreição de Lázaro algo extraordinário, mas lembro muitos casos de pessoas que ficaram em coma até durante anos e voltaram a vida, considero o caso do cego de nascença a mais fantástica (João 9:6-7), porque?

Uma pessoa que nunca enxergou não tem a parte funcional cognitiva preparada para discernir os mundos, até os 2 anos são as sensações de distância e obstáculos que são estimuladas ligadas aos movimentos, até a criança andar, até chegar a idade das construções simbólicas onde cada objeto do universo complexo das coisas é identificado.

Portanto curar a cegueira, é em última instância reconfigurar o sistema simbólico de um cego, numa democracia significa ir tateando a partir do universo “infantil” até chegar a um universo simbólico dos valores que devem estar presentes numa democracia madura: respeito, tolerância e discussões essenciais sobre o universo simbólico.

Diríamos que a democracia em amadurecimento no Brasil, ela teve pouco espaço na história para se desenvolver, está no final da idade crítica da adolescência, pais enérgicos parecem resolver os problemas, mas ao mesmo tempo afastam os jovens do diálogo.

Mas há outra passagem que é a do cego Timeu, que quer ardentemente ser curado da cegueira, é o caso de alguns na democracia brasileira, e pede a Jesus: “Jesus filho de Davi, tem piedade de mim!” Mc (10,49) e Jesus o cura e diz: “tua fé te salvou”.

O voto daqueles que tem fé verdadeira, e que querem a cura da cegueira verdadeira, pode decidir uma eleição, se desejamos a paz, a justiça e um país que nos orgulhe a todos, podemos refletir sobre nossa própria cegueira, a dificuldade de ver tudo claramente e pedir a cura.

Há uma grande noite sobre o pensamento ocidental por isto somos todos um pouco cegos.