RSS
 

Arquivo para a ‘Política’ Categoria

Desaceleração e a técnica

18 Jul

Depois de criticar de modo convincente Baudrillard e de afirmar de modo categórico que “a mera velocidade não supõe grande influência na produção do sentido histórico” (p. 36).

O que conta sobretudo é a instabilidade da trajetória, o desaparecimento da própria gravitação, as irritações (irritationen) ou oscilações temporais.” (pag. 36), Byung-Chul Han cede a tentação de Baudrillard de que é a moderna tecnologia responsável por isto, ora, mas qual a origem disto?

O livro Cultura e Simulacro de Baudrillard é da década de 70, a internet era nascente com usuários acadêmicos, o Mal-estar na civilização de Freud é da década de 30, isto sem falar de Nietzsche que faleceu no início do século passado, mais precisamente em 25 de agosto de 1900.

Portanto é preciso retornar aos primeiros argumentos de Han que são mais sólidos, “a aceleração não é a única explicação plausível do desaparecimento do sentido” (pag. 35), e a “expressão ´átomos de sentido´ também conduz a um erro,  porque o sentido não é nuclear” (idem), dá um pequeno passo na direção correta: “o repouso não é causado pela aceleração e pelo movimento de trocas, mas pelo já não-se-saber-para-onde” (pag. 38), uma falta de metas.

Vai criticar também Bauman, para quem o homem moderno é um peregrino no deserto, que pratica uma “vida a caminho” (pag. 43), e num relance retorna ao sentido afirmando “a secularização não comporta uma desnarrativização (Demarratovosoerimg)”, mas volta a trás e diz que a modernidade continua a ser uma narrativa, porém a cultura impressa e reprodução não tem o caráter mítico e escatológico da cultura oral, é outra narrativa, a romântica, já esclareceu Gadamer.

A crítica a técnica e ao progresso técnico é a tentação comum, apontá-la como religiosa é no mínimo contraditório já que ela é herdeira legítima das luzes e da razão, não é história como história da salvação, mas como determinismo histórico romântico a moda de Dilthey.

A imersão na cultura digital, ou na cibercultura, não desterritorializou (o rádio, a TV e o cinema o fizeram antes) nem secularizou, quem o fez foram as luzes e o capital financeiro que não reconhece pátria nem lugar, a narrativa que omite o processo de produção de vídeos, imagens, fotografias e também de código digital em todo planeta não é só uma inversão técnica ou tecnológica, é uma inversão cultural, graças a elas culturas e povos renasceram.

Não é preciso andar pelo mundo, porque o mundo anda por você, e isto é o que estimula jovens a conhecer outros países e lugares, o enraizamento pátrio que é anti-evolutivo e conservador, o homem andou pelo mundo antes de fixar fronteiras, quem fixou foram os impérios, que agora erguem muros e discursos pátrios radicais, o mundo já é uma aldeia global, o que há agora é um sentimento saudosista de um mundo que não volta mais.

 

Unidade, complexidade e simplicidade

04 Jul

Aparentemente irreconciliáveis, há quem diga que o paradigma do mundo contemporâneo, a complexidade se opõe ao da simplicidade, mas analisemos bem melhor esta interpretação do pensamento de Edgar Morin, ao afirmar “… parte dos fenômenos, ao mesmo tempo, complementares, concorrentes e antagonistas, respeita as coerências diversas que se unem em dialógicas e polilógicas e, com isso enfrenta a contradição por várias vias.  Assim sendo, utiliza o conceito básico de ´sistema auto-organizado complexo” (Morin, 2000, p. 387) que remete a ideia de unidade como uma noção chave.

Esta complexidade necessidade de novas estratégias e modos coerente de dialogar para penetrar nos mistérios, observa Morin: “ (…) a necessidade, na sua coerência e no seu antagonismo as nações de ordem, de desordem e de organização obriga-nos a respeitar a complexidade física, biológica, humana” (Morin 2000, p. 180-181).

Compreendendo a complexidade da cultura que para ele envolve: juvenilização, cerebralização, Culturalização, o que está explicado em um de seus livros básicos O paradigma perdido e a natureza humana, cuja edição portuguesa é de 1973.

Embora hajam outras ideias de complexidade, Morin afirma que a palavra complexidade: “nos empurra para que exploremos tudo e o pensamento complexo é o pensamento que, armado dos princípios de ordem, leis, algoritmos, certezas, ideias claras, patrulha no nevoeiro o incerto, o confuso, o Indizível” (MORIN, 2000, p. 180-181).

A ideia que complexidade não pode conviver com a simplicidade é a incompreensão não só da dialógica, mas da polilógica, que consubstancia e une os dois conceitos: “distinguir e fazer comunicar, em vez de isolar e de disjuntar, a reconhecer os traços singulares, originais, históricos do fenômeno em vez de liga-los pura e simplesmente a determinações ou leis gerais, a conceber a unidade-multiplicidade …” (MORIN, 2000, p. 354).

Esta alternativa de unidade na diversidade, é explicada pelo autor recorrendo a exemplos no campo biológico, que é na prática o exercício da simplicidade, onde a diversidade da natureza compõe a vida.

MORIN, E. Ciência com consciência. Rio de Janeiro: Bertrand, 2000.

 

O imaginário, a crença e a fé

29 Jun

Imaginário vem de imagem, as descobertas mais recentes do homem do paleolítico, como a caverna de Chauvet em dezembro de 1994, revelam uma alma humana desde o princípio envolta em imagens e no imaginário, praticamente todas as culturas existem a absurdidade.

A modernidade foi a primeira tentativa em criar uma sociedade totalmente distante de qualquer “superstição”, o “sapere audi” ousar saber, sobre o qual sentenciou Max Weber o “destino dos nossos tempos é caracterizado pela racionalização e intelectualização e, sobretudo, pelo desencantamento do mundo”.

O imaginário nos leva além, como disse também Max Weber: “A história ensina-nos que o homem não teria alcançado o possível se, muitas vezes, não tivesse tentado o impossível” e felizmente há “teimosos” poetas, artistas que também estão presentes no mundo digital, que insistem no imaginário, no virtual e até no impossível.

Este ir além significa ter esperança e fé, como aquela descria pelo evangelista Mateus, que respondia aos apóstolos sobre as dificuldades dele: “Porque a fé que vocês têm é pequena. Eu asseguro que, se vocês tiverem fé do tamanho de um grão de mostarda, poderão dizer a este monte: ‘Vá daqui para lá’, e ele irá. Nada será impossível para vocês.” Mt. 17:20.

Como diz a sabedoria popular: a fé remove montanhas, mas também há uma dose de extraordinário, algo inesperado, que é justo o encantamento do mundo, a alma humana quer ser surpreendida, busca isto em shows, teatros, cinemas e outras formas de manifestação.

Um mundo descrente do extra-natural (para não especular sobre o sobrenatural), é parte do mundo contemporâneo, afinal os desconfiados, os críticos da realidade e do desencantamento do mundo atual não fazem outras coisas que não profecias, pois geralmente estão falando de um futuro, mas de forma negativa e apolítica.

Afinal não se pode dizer se Paulo de Tarso realmente perdeu a visão e depois a recuperou, se estava preso e um anjo apareceu para libertá-lo ou não, o certo é que depois ele continuou a viver, então de alguma forma a fé o salvou, curiosamente o que Jesus mais repete e não há uma só passagem em que afirmasse: “Eu te salvei”, então é você que se salva, se quiser.

 

Hermenêutica e novos paradigmas

22 Jun

O importante da abertura a novos horizontes e a narrativas não convencionais, de propostas disruptivas que modificam não apenas a tecnologia, é que as próprias narrativas ao serem introduzirem novas formas de conhecimentos prévios (em outros narrativas do circulo hermenêutico são chamadas de pré-conceitos) significa uma ambiente de evolução e transformação do próprio conhecimento.

Os que gostam da exegese, ela é também uma narrativa, dois personagens e paradigmas diferentes na Bíblia foi João Batista e evidentemente o próprio Jesus, no entanto, sob o mesmo background do judaísmo da época construíram narrativas diferentes, pois tinham missões diferentes, ainda que a proposta de mudança fosse a mesma.

A leitura bíblica de Lucas 1,60-62, quando o pai Zacarias diz que seu filho terá um nome diferente diz assim: “e perguntavam por acenos ao seu pai como queria que se chamasse. Ele, pedindo uma tabuinha, escreveu nelas as palavras: `João é o seu nome´, todos ficaram pasmados” para indicar que quebrou uma tradição e logo em seguida Zacarias volta a falar.

Ora a oralidade é fundamental neste período, e a fala se constituía a forma básica de transmissão do saber, mas João Batista veio para fazer um caminho novo, e este caminho será uma antecipação da vinda de Jesus, que depois abrirá sua própria narrativa em seu caminho.

Assim, a hermenêutica permite esta evolução da exegese que estuda a tradição também na filosofia e na literatura, para a hermenêutica que abre a possibilidade de novas narrativas e a interação com o saber contemporâneo, o que chamamos de “background” no post anterior.

As narrativas do mundo digital são novas, claro que nem todas são convergentes, mas o fato que existem narrativas novas, mesmo aquelas que contestam o irreversível ambiente digital, mostram que há um paradigma novo, sob o qual não é possível construir uma narrativa que seja ao mesmo tempo contemporânea, aberta e evolutiva, sem considerá-la.

 

Pode uma casa dividida sobreviver

08 Jun

A palavra é Bíblia, mas vale para muitos países em toda a Terra e para o próprio planeta como um todo, é preciso um mínimo de unidade para progredir e garantir o progresso a todos.

A unidade está comprometida e risco de guerras, além das intermitentes guerras na África, meio oriente e tensões em vários países da Europa, pode em algum momento romper como o vulcão da Guatemala e as consequências seriam imprevisíveis.

A tensão com Irá volta a acontecer, e também a Coréia do Norte ainda tem resquícios de ameaça, além das tensões sociais em toda America Latina.

Como reagir a tudo isto ? é preciso buscar pontos de unidade e diálogo, a guerra não tem vencedores todos perder, e claro, os poderosos e a indústria bélica a lucram.

A palavra Bíblica de Marcos 3,23-25 diz: “Então Jesus os chamou e falou-lhes em parábolas: “Como é que Satanás pode expulsar a Satanás? e um reino se divide contra si mesmo, ele não poderá manter-se. Se uma família se divide contra si mesma, ela não poderá manter-se”, e além da ideia do reino de Deus, que é evidente, há também uma palavra ao homem: unidade.

Unidade é uma palavra divina, é claro que ela está sempre sobre certa tensão: desigualdades, injustiças, exclusões, preconceitos são todas formas inerentes de divisões, mas mesmo nestes casos o diálogo é possível e fundamental, a ideia que só a violência destrói violência é bélica.

Olhando sobre as próximas eleições no Brasil é preciso buscar pontos de convergências, mais de uma dezena de candidatos é um absurdo em custo e em confusão para as pessoas simples, é preciso debater ideia e programas sob pena de aceitarmos um aventureiro ou ditador.

O diálogo pode ser duro e até áspero, mas é preciso se dobrar para não romper e construir frentes partidárias em torno de programas e propostas, e também ter esperança.

 

O dualismo pós-moderno

07 Jun

Poder-se-ia discorrer sobre o dualismo da pós-modernidade, mas ler Hegel é demasiado enfadonho, mesmo para aqueles que dominam o discurso filosófico, e penso particularmente que a questão do objetivismo x subjetivismo, natural x cultural e outras questões postas pelo pensamento da modernidade, e que são correntes no cotidiano, está já em outro ponto.

O ponto que situo é o das dicotomias infernais de Eduardo Viveiros de Castro: “Metafísicas caníbales: líneas de antropologia postestructural” (Katz Editores, 2010), ainda que possa haver uma edição em português caiu em minhas mãos uma edição espanhola, traduzida do francês.

Me chamou a atenção porque ele começa o livro sobre questões que julgo fundamentais: o retorno às coisas, o perspectivismo, o multinaturalismo e a esquizofrenia antropológica.

O início do primeiro capítulo “Anti-narciso” confessa que abandonou a ideia de fazer um livro para escrever sobre ele, como fazia Borges, e lança uma pergunta: “o que deve ser conceitualmente a antropologia dos povos que estuda ?” e segue a esta: “Las diferenças e as mutações internas da teoria antropológica se explicam principalmente (e desde o ponto de vista histórico-crítico exclusivamente) por estruturas e conjunturas das formações sociais, dos debates ideológicos, dos campos intelectuais e dos contextos acadêmicos que surgiram os pesquisadores ? é esta a única hipótese pertinente? No seria possível proceder a um deslocamento da perspectiva que mostro que os mais interessantes entre os conceitos, os problemas, as entidades e os agentes introduzidos pelas teorias antropológicas tem sua origem na capacidade imaginativa das sociedades (ou dos povos, ou dos coletivos) que propõem explicar?” (Viveiros de Castro, 2010, p. 14).

A estas perguntas penetra finalmente na dicotomia infernal que considero essencial na modernidade: “Não será ali onde reside a originalidade da antropologia, nesta aliança, sempre equívoca, porém com frequência fecunda, entre as concepções e as práticas provenientes dos mundos do “sujeito” e do “objeto” ? “ (idem).

A pergunta então do “Anti-Narciso” é então epistemológica, isto é, política, e o autor afirma que se todos estão mais ou menos de acordo  que é preciso uma descolonização do pensamento, e nisto reside o “anti-narciso”.

O discurso de Viveiro de Castro é consistente porque afirma que o “outro” é sempre pensado e “inventado” de acordo com os sórdidos interesses do Ocidente, e depois irá discorrer sobre o “perspectivismo” e “multiculturalismo”, é impossível sintetizá-los num post, então só pontuamos estas perspectivas, chamadas pelo autor de “canibais” ou metafísicas da predação”.

O perspectivismo é a ideia que toda teoria é particular e depende da “perspectiva do sujeito”, ou multiculturalismo é a ideia da “convivência” de muitas culturas em diversas regiões, mas ambas carecem e uma “descolonização” do pensamento, então a dicotomia permanece.

 

O dualismo e o estado

04 Jun

Talvez em nenhuma área o dualismo seja tão “injusto” quanto no direito, é tão verdadeiro que para o direito internacional existem duas teorias: a do dualismo e do monismo.

A teoria dualista defende que o Direito Internacional e o Direito Interno (aquele que diz respeito a Estado em relação a outros) são dois sistemas totalmente distintos e independentes, o último regula as relações entre Estados e, portanto não é obrigatória entre os indivíduos, a alusão ao idealismo é clara por o “estado” assim como o “indivíduo” são elementos “ideais”.

Já a teoria monista defende que o Direito é único tanto nas relações do Estado com a sociedade, quanto nas relações entre Estados, e esta corrente divide-se em duas: a primeira que é chamada de monismo internacionalista prevendo que existam normas do Direito Internacional face ao Direito Interno, prevalece a do Direito Interno, e o outro chamado Monismo Nacionalista que defende que nesta mesma situação, a primazia é do Direito Interno sobre o Internacional, em tempos de nacionalismo exacerbado isto é importante ser debatido.

O Brasil em sua Constituição é omisso (em direito se diz silente) quanto à teoria adotada, mas a posição do Supremo Tribunal Federal é no sentido de uma Teoria Dualista moderada, recebendo o Tratado Internacional o Status de Lei Ordinária, por disposição constitucional, salvo os tratados sobre Direitos Humanos, cujo 2º. Do artigo 5º. Da Constituição Federal atribui eficácia a normal supralegal, quer dizer que é superior a lei na hierarquia jurídica.

Trocando em miúdos, devemos ter ou não leis internacionais além das disposições gerais de direitos humanos da ONU, as humilhações e preconceitos com estrangeiros em muitos países do mundo tem gerado uma odiosa relação que muitas vezes explodem em violência.

A necessidade de discussão destas questões “doutrinárias” já é tempo, e não devemos mais falar apenas em Nações Unidas, mas em algum tratado de “unidade” entre as nações, algo na linha que já vai a União Européia, talvez um bom caminho, seriam União da America Latina, a União Pan-Africana e quem sabe a Asiática, recompondo o globo fragmentado em nações.

Não significa de forma alguma a submissão ou a negação das culturas locais, muito ao contrário, acordos internacionais poderão evitar a submissão de algumas culturas “com maior prevalência” seja financeira, colonial ou bélica sobre as outras.

É preciso olhar para o planeta como um todo e pensar numa cidadania mundial.

 

A lei, o farisaísmo e a figueira

01 Jun

O excesso de legalismo e de regras mata a vida, a figueira é uma árvore que fica muito tempo “seca” e depois saem as folhas e os frutos, mas por algum tempo parece morta.

O farisaísmo são aquelas regras morais, religiosas e em nosso tempo “do estado” que se tornou um deus, que mata a vida no desejo de controla-la, Petr Sloterdijk escreveu sobre isto em “Regras para o parque humano”, embora não concorde com tudo, em essência o diagnósticos dele é correto, exceto pelo fato que fez dista contestação uma “religião”.

Suas propostas, que eram uma resposta a Cartas sobre o Humanismo de Heidegger, que me fez deplorá-lo por muito tempo, aos poucos entenderam filósofos e teólogos, que estavam uma conferência em Elmaus, na Basiléia, que depois fez uma compilação e transformou em livro.

O diagnóstico de Sloterdijk que a figueira humana secou devido “a domesticação”, pode ser lida claramente no trecho de seu livro:
“O que ainda domestica o homem se o humanismo naufragou como escola da domesticação humana? O que domestica o homem se seus esforços prévios de autodomesticação só conduziram, no fundo, à sua tomada de poder sobre todos os seres? O que domestica o homem se em todas as experiências prévias com a educação do gênero humano permaneceu obscuro quem ou o quê educa os educadores, e para quê? Ou será que a pergunta pelo cuidado e formação do ser humano não se deixa mais formular de modo pertinente no campo das meras teorias da domesticação e educação?” (Sloterdijk, 1999a, p. 32).

Eis a figueira humana, eis o farisaísmo e suas regras “religiosas” ou “estatais”, depois de retomar a leitura, leio logo no início uma frase de Jean-Paul que Sloterdijk cita escrevendo a Heidegger “livros são cartas dirigidas a amigos, apenas mais longa”, e entendi que no fundo é um Heideggeriano, mas com uma crítica justa e bem colocada: onde está o humanismo ?

Nosso saber é antropocêntrico, rejeita até mesmo a técnica que é produção humana como “estranha”, temos no fundo um desprezo por processos de mudanças, os que o criticam como fascista devem lembrar que foi a ideia de estado “forte” que motivou o fascismo e ditaduras.

A ideia de autoridade farisaica que assustava Jesus nos escritos bíblicos, embora Sloterdijk critique também a religião recupera-a ao dizer que existe uma “ascese desespiritualizada” , que transformou os templos em locais de roubos e de imundices, não é diferente do estado moderno, a todos que o cultuam e reverenciam, há uma desconfiança geral sobre políticos.

Sloterdijk, Petr. Regeln für Menschenpark, Frankfurt/M. Suhrkamp (1999).  Tradução brasileira: Regras para o parque humano – uma resposta à carta de Heidegger sobre humanismo, São Paulo, Estação liberdade, 2000.

 

A lei e as redes

31 Mai

A proliferação de atos de intolerância, de provocações e diversos tipos de violência pelas redes faz muita gente pensar que seria melhor proibir isto tudo e talvez até fechar estes sites de relacionamento.

No Brasil em tempos de pré-eleições o clima promete esquentar, e a tentação de criar leis e regras pode parecer tentadora, mas esconde autoritarismo e falta de liberdade, porém é claro que injuria, difamação e calúnias são crimes, seja no facebook, em vias públicas ou nas midias que o dono do poder mantém.

Todo este processo nas redes é educativo, por mais desconfortável que seja as pessoas aprenderão a não romperem relações e criarem conflitos sem nenhuma necessidade, a se despirem de preconceitos e intolerâncias (há diferenças entre os dois) e principalmente a partirem para atos de violência que são crime inaceitável, a violência verbal também.

As leis estão aí para serem cumpridas, mas também neste campo um pouco de tolerância ajuda a amenizar o clima, o excesso de lei faz tornos nos tornarmos farisaicos, dizer aquele rouba mais, este é pior que o outro, de minha parte procuro o bem, e o honesto, mas sem o rigorismo da lei.

Aquilo que em termos bíblicos dizia o apóstolo Marcos sobre uma das falas de Jesus (Mc 2, 25-26) “Jesus lhes disse: “Por acaso, nunca lestes o que Davi e seus companheiros fizeram quando passaram necessidade e tiveram fome? Como ele entrou na casa de Deus, no tempo em que Abiatar era sumo sacerdote, comeu os pães oferecidos a Deus, e os deu também aos seus companheiros? No entanto, só aos sacerdotes é permitido comer esses pães”.

É preciso então até mesmo tolerância com os intolerantes, isto é, muita gente está indignada com a situação gravíssima do país, dos políticos e dos escândalos que não cessam de serem denunciados, mas é preciso retomar a serenidade e discutir as “propostas e programas”.

Que encontremos espaços de verdadeiro diálogo onde a sabedoria pode brotar.

 

As redes e a crise mundial

22 Mai

As redes sociais estão provocando uma mudança orgânica no conjunto da sociedade, ela já é mais evidente do que era a 10 anos atrás, mas ainda se confunde a organização em rede com a descentralização e há fortes forças conservadoras que pedem uma nova “hierarquia” social, ainda que descentralizada com poder central.

A percepção de que este ou aquele país é um país em “crise” mais aguda que outros é válida, mas a verdade é que são aqueles que mais aprenderem com a crise que poderão sair dela mais rápido, a primeira lição é que há uma sociedade mais atenta, mais diversificada e menos capaz de suportar esquemas centralizados e autoritários, mas por que então esta onda ?

Justamente porque a grande maioria dos “silenciosos” agora revelam a verdadeira face , a da conveniência e a da convivência com valores que no fundo eram apenas “suportados” pelos que sofriam alguma forma de exclusão, e não falo só a financeira, ainda que seja grave.

Edgar Morin ressalta que agora o espaço “público reúne a sociedade em sua diversidade. A direita, a esquerda, os malucos, os sonhadores, os realistas, os ativistas, os piadistas, os revoltados – todo mundo. Anormal seriam legiões em ordem, organizadas por uma única bandeira e lideradas por burocratas partidários.  É o caos criativos, não a ordem preestabelecida.”

Pode tudo isto desandar numa guerra civil, concordo com Manuel Castells: “guerra civil e movimentos sociais são incompatíveis!”, mas os movimentos sociais agora não são somente as massas manobradas por sindicatos e partidos, é isto que temem os caudilhos, há muita desconfiança e segundo Castells “partidos são universalmente desprezados pela maioria das pessoas”, por que sabemos que pagamos o salário dele (alto) e não fazem o que deviam fazer.

Mas é preciso salvar valores sociais para não cair na tentação da violência e do autoritarismo que é o que desejam os radicais e suas massas de manobra, Castells afirma “você preciso de muito mais valor para não ser violento. Ser violento é fácil.”

Estou em Portugal que viveu uma crise profunda e ainda sente reflexos dela, mas aprenderam a conviver, a dialogar e a ter um pouco mais de paciência com graves problemas sociais, mas este fim de semana havia uma mega manifestação de professores que tiveram salários afetados e aposentadoria (reforma aqui) atrasada, alguns podem ter direito só aos 70 anos.