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Arquivo para a ‘Política’ Categoria

Desencantamento e esperança

15 Fev

Não só um há conservadorismo que retorna, nos EUA, no Brasil, agora na Europa também, mas também uma impotência de mudança expressa em discursos ultrapassados, sem qualquer apelo embora hajam fanáticos, como na Venezuela ou até na Rússia, tudo parece estagnado.
Pouca esperança a quem tem fome, a quem vive a desigualdade ou a intolerância social, é o grito também das minorias, vale lembrar que nenhuma ditadura lhes dá direitos, de onde podem vir esperanças e caminhos ?
O desencantamento não é devido as novas tecnologias, mas a desigualdade social, alerta o moçambicano Mia Couto: “A maior desgraça de uma nação pobre é que em vez de produzir riqueza, produz ricos”, ele e também o sociólogo francês Michel Maffesoli falam e insistem em reencantamento, e dizem é possível em meio a retrocessos olhar para o futuro.
Ambos falam de olhar o que há já de novo nos jovens, é desencantamento perceber só o negativo, repetimos o que não aceitávamos em nossos pais: não aceitar o novo dos jovens.
Lembro-me dos cabelos compridos, das calças desbotadas, da “música alta” no início dos Rolling Stones, depois Black Sabbath quando ainda jovem assisti o filme O último certo de rock (The Last Waltz, foto) pensei: será que começo a envelhecer.
O filme incluía Eric Clapton, Ringo Starr, Bob Dylan, Ronnie Wood, Muddy Waters, Neil Young, Neil Diamond, Van Morrison, Bobby Charles, Dr. John, e outros, falava de uma banda canadense, justamente com o nome The Band, que terminou numa boa, sem loucuras e sem escândalos, fez este último concerto, em filme dirigido por Martin Scorcese (1978), mas eu ainda era bem jovem, o que houve então ?
Começava um desencantamento isto sim, via que o pensamento que julgava revolucionário, não o era tanto assim, e que as mudanças que previa não aconteceriam, em meados de 90 começa a Grasnost (transparência em russo) e depois a Perestroika, o mundo de fato mudou.
Mas sobrou ainda a concentração de renda, a violência contra a natureza e uma sociedade cada vez mais do cansaço, haverá em reencantamento ?
Temos que ter esperança, diz a leitura bíblica (Lc 6:21): “Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis saciados! Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque havereis de rir!”.

Haverão sim uma reestruturação pois está no coração de muita gente, e ressurgirão as forças da mudança.

 

Verdade e diálogo

30 Jan

A falência dialógica e o crescimento da polarização política em nosso tempo, que tem como vítima a própria democracia, vem da ausência de pensamento hermenêutico que é essencialmente dialógico e paradigmático (no sentido de encontrar a fusão de horizontes) e um beco sem saída para os discursos ortodoxos.
A fenomenologia traz desde o princípio a questão de fazer um vazio para ouvir o Outro, o que os gregos chamam de epoché, ou a suspensão dos juízos sobre as coisas, o que pode parecer parecido com o cogito cartesiano, mas não o é, Husserl esclareceu isto em meditações cartesianas, que já fizemos alguns posts aqui.
O epoché é a chamada redução fenomenologia, é olhar uma coisa mudando os óculos (figurativamente é claro) para enxergar a essência das coisas, algo difícil nos dias de hoje, onde a aceleração dos juízos e dos pré-conceitos não permitem uma meditação, contemplação ou relação dialógica verdadeira, o que se chamou no post anterior de verstehen.
Uma vez que o diálogo depende de um círculo hermenêutico que envolve a relação com os nossos pré-conceitos, visto como positivo aqui é importante isto, significa que devemos fazer calar os nossos pré-juízos sobre as coisas que serão ditas e nunca optar pelo: isto não !!!
O problema central da filosofia racional-idealista da modernidade é que separou sujeito de objeto e isto foi para o dia-a-dia da cultura religiosa a mais alta filosofia acadêmica, as “coisas” são “impuras” e no entendo o mundo da vida (lebenswelt de Husserl), a visão de mundo (o que Heidegger chamou de weltanschauung) significam retornar as “coisas” como elas são.
O próprio conhecimento não é outra coisa que esta relação interprete-coisa: “O conhecimento, ou seja, o ato de eu dar ao mundo um caráter inteligível, se dá, portanto no encontro entre a consciência e as coisas” afirmou Husserl, explicando o que é ir a “coisa” mesma.
Ora nossos conflitos envolvem não apenas as relações humanas, como como elas se dão na relação com as coisas: o dinheiro, a saúde, o trabalho, os alimentos, a própria natureza (incluindo a nossa própria), a comunicação (que não nasceu no mundo digital), enfim quase tudo envolve a relação com a coisa e nossa consciência disto.
O diálogo, considerando os pré-conceitos, com a possibilidade de fusão de horizontes (que não é necessariamente o consenso), é fundamental em tempos de crise e de pré-conceitos.

 

Para onde vai a Europa ?

22 Jan

Três assuntos tomam conta do noticiário europeu: as próximas eleições do parlamento europeu no final de maio, a saída do Reino Unido em março e os coletes amarelos na França.
Enquanto isto realiza-se a conferencia em Davos que parece pouco se incomodar com estas questões, as ausências da França, do Reino Unido e dos Estados Unidos mostra algo estranho.
Em relação as eleições europeias, a situação frágil de Makron na França e o mandato de Merkel chegando ao fim deixam incerteza, menos na Alemanha onde uma nova líder parece ter surgido, a nova líder dos União Democrata Cristã Annegret Kramp-Karrenbauer (AKK) eleita com 99% dos votos e poderá se tornar a próxima chanceler alemã em 2021.
“Aprendi que a liderança tem mais a ver com a força interior do que com o barulho que se faz no exterior”, diz AKK (na foto com Merkel) que rejeita o titulo de “mini Merkel” que diz que não diriam isto de um homem, é mais dócil e mais decidida que Merkel, tem 3 filhos e o marido a acompanha sempre.
Dois partidos europeus lideram o bloco o PPE (Partido Popular Europeu que são no fundo os democratas cristãos) que tem 265 deputados e o S&D (Socialistas e democratas progressistas) com 184 deputados, mas a direita com os liberais e reformistas promete crescer, basta olhar o cenário dos países e a saída do Reino Unido, que será em março.
França e Alemanha lideram em número de deputados, tem respectivamente com 96 e 74 deputados de um total de 751, aliás a líder alemã AKK fala bem o francês, e este bloco é fundamental para combater a onda nacionalista que pode fragilizar a união europeia.
O Brexit, a saída do Reino Unido cada vez menos unido e mais fragmentado por causa da saída da União Europeia afeta o bloco europeu no sentido que pode criar uma onda e também porque possui significativo número de deputados de centro esquerda devido a sua posição trabalhista ainda muito forte num Reino Unido dividido pelo próprio Brexit.
Os coletes amarelos parecem organizados demais para representarem de fato alguma contestação social, para alguns analistas parece algo orquestrado para fortalecer um novo tipo de nacionalismo que pouco ou nada tem a ver com a população de fato, guardadas as devidas proporções, lembram um pouco as manifestações de 2013 no Brasil.

 

Coisa, objetividade e verdade

15 Jan

O problema essencial do idealismo moderno é a distinção entre subjetividade (o que seria próprio do sujeito) da objetividade (o que seria próprio do objeto), Kant pretendeu dar a estes conceitos um caráter universal que seria independente de cultura, época e religião.
Em epistemologia, o que se opõe a mera opinião (a doxa diziam os gregos) é o que caracteriza a validade de um conhecimento, boa parte da representação moderna torna-a relativa ao objeto, mas o objeto enquanto coisa não é investigado, o que seria descobrir a subjetividade.
Então o que é real, ou o que é verdadeira necessita dizer o que caracteriza e dá validade a um conhecimento ou sua representação relativa ao objeto, isto é uma “teoria” e não a prática, embora a prática (não o empirismo) possa servir para refutá-lo como não.
Por outro lado, não é possível representar um objeto sem regras normativas que são próprias de cada área, mas que seguem normas bibliográficas para referências gerais, porém é preciso dizer que não é sinônimo de verdade, ou seja não significa que a representação que serve para dar um “índice de confiança” ou “relevância” que significa a validade por uma “comunidade”.
Em ciência (empírica) a objetividade é a propriedade, característica das teorias científicas, que procura estabelecer as afirmações inequívocas que podem ser testadas, não exclusivamente por dados, experimentos ou práticas, mas como interpretação possível do mundo real.
Neste campo entra a hermenêutica, é possível que interpretações não únicas, sejam convergentes ou tenha um horizonte comum, o que Hans-Georg Gadamer chamou de fusão dos horizontes, mas talvez o nome seja forte demais, pois permanecem particularidades.
Ora isto não é relativismo, nem individualismo teórico ou prático, mas algo próprio daquilo que a filosofia idealista chamou de subjetividade, próprio do sujeito.
O dualismo desta ”teoria” que apela ao empirismo, é a eterna separação entre o mundo das ideias (eidos na Grécia antiga que era outra coisa), e o mundo da prática, por isto não se pode fazer (no campo da prática) aquilo que é próprio deste pensamento (teoria).
Em termos práticos, e, portanto, também boa teoria, a dicotomia entre o pensar e o fazer tem como raiz moderna o idealismo, separar o plano próprio do sujeito da relação ao objeto, com o qual de forma o conhecimento sobre o mesmo.

 

A economia, a justiça e a moral

08 Jan

É preciso falar nesta ordem, pois onde não há uma economia saudável e participativa, são raros exemplos no mundo contemporâneo, a justiça e a moral ficam debilitadas e esquecidas.
Qual a economia que vai reger o Brasil no seu novo governo ? é ingênuo pensar que não há fundamento para o que está se iniciando e Paulo Roberto Nunes Guedes, o novo ministro da Economia do Brasil chamado junto com o Sergio Moro de superministros, é doutor pela Universidade de Chicago (EUA) e por isso conhece bem a chamada escola de Chicago.
São fundadores desta escola George Stigler e Milton Friedman, e ambos já foram premiados com o Prêmio Nobel de Economia, esta política foi conhecida no Brasil por sua influencia no período militar, através de sua visão liberal, a rigor a favor de um laissez-faire quase total.
Pode-se dizer então que é uma escola neoclássica, rejeita o Keynesianismo da intervenção do estado, então o cambio é flutuante e a moeda deve seguir a “mão invisível” do mercado, ou seja, o câmbio flutuante com pouca intervenção do estado, até o momento parece funcionar.
Entretanto esta escola foi concebida no boom do pós-guerra, em 1950 e em crise não parece funcionar tão bem, o estado precisa controlar os mercados e a rigor isto acontece sempre.
Daqui partimos para a Justiça, onde a ideia de sufocar os grupos internacionais de drogas, de corrupções através do aperto financeiro parece já ter falhado na primeira semana de governo, curiosamente pelo pedido petista Ceará, a questão da corrupção a nomeação de Marun para Itaipu gerou até desconfianças dentro do governo, o onipresente porta-voz Onyx Lorenzoni e do senador que é filho do presidente envolvidos em esquemas com Flávio Queiroz.
Enquanto discutimos a questão do azul para meninos e rosa para meninas, os assuntos que são realmente relevantes ficam soterrados até por gente que se imagina consciente, a imprensa foi uma que embarcou neste lamentável debate.
Já os índices de feminicídio, a violência contra homossexuais com novos casos e outras minorias que não se trata apenas moral e sim de crime, por isto é moralismo ver pelo lado das “cores!”, pois a moral significa o respeito a cada pessoa e aos seus direitos.
Mas enquanto discutimos isto, a questão de Queiroz e assuntos econômicos essenciais passam ao largo da opinião pública, incluindo os jornalistas.

 

Nem sim, nem não, o terceiro excluído

31 Dez

Entre os livros que não lerei estão do de William Davies sociólogo e economista político inglês, que escreveu “How Feeling Took over the world” (Estados nervosos: como as emoções dominaram o mundo) e o livro de Steven Levitsky & Daniel Ziblatt “Como as democracias morrem”, best seller do New York Times.
Além de trivialidades como a descoberta da desonestidade de políticos tradicionais, jornalistas e executivos, uma crítica a crescente fúria do conservadorismo crescente, que gera uma crise de confiança, pouco ou quase nada dizem de para onde iremos, exceção ao combate a corrupção, mas caberia a pergunta qual delas? A direita nunca foi honesta.
Entre o Sim e o Não, entre o Fora e o Fica, jamais houve terceira opção, salvo o caso da Islândia que fez uma constituição por crowdsourcing e deixou bancos e grandes empresas falirem banindo de forma prática o lixo estatal.
Portugal é um caso diferente, uma esquerda competente cria uma “geringonça”, no Brasil poderia ser uma gambiarra, mas vencer os ranços do “fora” e do “não” parece difícil, mas não é impossível, conseguiríamos dialogar, afinal tantos falam em dialogia.
A crescente onda de conservadorismo é uma bolha, o problema é o que poderá substituí-la, uma esquerda cômica do tipo da Venezuela e da Nicarágua está fadada ao fracasso, cria um Estado ainda mais forte que quer dominar todos os meandros da sociedade.
Assisti uma palestra de Florent Pasquier, da Sorbonne de Paris, que mostra que o terceiro excluído existe, partindo da lei de Aristóteles que afirma que qualquer proposição, ou ela é verdadeira, ou sua negação o é, parece neste momento histórica ter-se tornado falso.
Nem é verdade que a esquerda seja incorruptível, no caso de Portugal só esperam a condenação de Sócrates, no Brasil há controversas, mas é certo que alguém roubou de forma absurda o Estado, debaixo dos olhos da esquerda, nem é verdade que a direita vai combater.
A terceira via não é mais o purismo dos verdes, a new left ou uma direita que diz não ser política apenas “gestora”, uma terceira via deve vir de um amplo diálogo entre forças que são e podem ser ainda mais, representativas do povo de parcelas conscientes da sociedade.
Elas existem, mas a tragédia é que não dialogam ainda presas ao Sim e Não, dizem que o problema é o mundo digital que são apenas artefactos, mas o problema é a lógica destes artefactos levada ao mundo dos que devem ter consciência, ao menos que são seres dotados de consciência.
Que 2019 tenha mais dialógica, menos ranço emocional, não torcidas e claques organizadas, mas gente disposta a ouvir e conversar.

 

Black Mirror: é a bandersnatch experiência ?

29 Dez

A espectativa de lançamento do filme-evento, na verdade uma falsa iteratividade para o público pois há somente 5 finais possíveis de desfecho para Stefan, o personagem principal.
Voltemos atrás, a série Black Mirror para TV, produzida por Charlie Brooker em 2011 para a TV britânica tem lances obscuros, desconfiados e até satíricos com as novas tecnologias e para os que sabem a origem dos problemas da modernidade, pouco mergulha a fundo na sua crise.
A Netflix comprou a série e a dividiu em 12 capítulos, assisti pedaços o suficiente para ver o lado obscuro e pessimista das novas tecnologias, afinal elas ligaram o mundo e mesmo os críticos não abrem mão de celulares e de aplicativos importantes para a sociedade ubíqua.
Voltando ao filme, foi lançado ontem na Netflix e tem 5 finais possíveis para o personagem principal Stefan que a certa altura confunde a realidade e a irrealidade (virtual é outra coisa).
Os possíveis finais para o filme lançado ontem são: o mais realista é que Stefan descobre que o PAC (Program and Control) é um programa feito pelo pai que o usa desde a infância, e assim é monitorado por seu pai e sua terapeuta o tempo todo, é possível isto sem PAC algum.
O segundo final “interativo” ele descobre que foi a morte de sua mãe na infância, em um acidente que o trem se descarrilhou e que ele não foi por ter esquecido seu coelho de pelúcia e com isto ter perdido o trem, o coelho tinha sido escondido pelo pai, possível porém e o PAC?
O terceiro final possível o pai de Stefan morre, mas ao invés de enterrá-lo, escolha decide cortá-lo em pedaços, o jovem consegue escapar das acusões e termina o jogo Bandersnatch, bizarro e improvável.
No quarto final Stefan grita que alguém está o controlando, pode surgir na tela de alguns usuários o logo da Netflix (sic puro merchandising), ao escolher o computador de Stefan começa a explicar o que é a Netflix e há quase uma quebra de uma quarta parede, quem está assistindo diz que está controlando Stefan, é um passar a bola para o público.
Seguindo mais ou menos os mesmos passos anteriores, Stefan ao invés de lutar com o terapeuta, escolhe pular da janela, mas no final Stefan é um ator e recebe os créditos disto.
Dizem que há outros finais, mas a falácia é que o mundo das novas tecnologias seria uma forma de controle, ora bolas Nietzsche já reclamava do controle da sociedade muitos antes do cinema, da TV e das novas mídias, o big brother é o estado e o jogo de interesse que joga.

 

Obediência ou desobediência?

28 Dez

Um quadro confuso se iniciará em 2019, claro sempre devemos acreditar e ter esperança no melhor, mas as razões para desconfiar são muitas: desrespeito as diferenças, ausência de um diálogo claro e propositivo, terminamos o ano com a teimosia de construir um muro nos EUA e os coletes amarelos na França (são oposição mesmo?).
Porém a arrogância e o ressentimento não devem conduzir caminhos que se propõe a um futuro mais igualitário, mais solidário, respeitando a diversidade e as culturas diferentes.
Devemos ir além do Sim e do Não, imaginar Geringonças como a portuguesa, quem sabe uma Gambiarra brasileira de oposição séria, que apoie aquilo que é bom e rejeite o negativo, isto inclui discutir a sério a crise econômica brasileira, começar mesmo que o ambiente seja pouco favorável uma reforma política e a moralização do serviço público incluindo o judiciário.
Nem sempre obedecer e aceitar o que é imposto é o melhor, discordar e até denunciar quando for o caso, mas fazê-lo sempre desmoraliza o próprio conceito e validade das denúncias.
O apelo bíblico cresce, até a agora deputada Gleisi apelou ao texto sagrado, então lembro a passagem em que Jesus fica no templo para dialogar com os “doutores da lei”, e os pais ao não encontrá-lo na caravana voltam ao templo e indagam Jesus Lc 2,48: “Meu filho, por que agiste assim conosco? Olha que teu pai e eu estávamos, angustiados, à tua procura”.
Receberam uma resposta pouco obediente Lc 2,49: “Por que me procuráveis? Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?”, mas mais a frente na leitura o texto sagrado diz Lc 2,51: “Jesus desceu então com seus pais para Nazaré, e era-lhes obediente”.
Ou seja, curiosamente apesar de uma contestação em pontos essenciais, o Mestre era obediente aos pais, e diz o texto que “crescia em sabedoria, estatura e graça”.
Assim é preciso sabedoria e muito discernimento para discordar, ser oposição apenas por o ser acabará em descrédito e dando mais argumentos ao autoritarismo, é preciso cautela.

 

Uma mulher avante do seu tempo

17 Dez

O Brasil é o quinto país do mundo em violência contra a mulher, não se pode adiar esta questão.

A feminista que admirei de minha geração foi Dóris Lessing, além de uma visão política muito clara, tinha um pensamento profundo e não aderia à moda ou ao senso comum, sua frase que marcou-me na época era: “não posso e não vou ferir minha consciência para aderir a moda do dia”.

Mas há outros raciocínios ainda mais provocantes e instigadores, dizia: “Qualquer ser humano, em qualquer parte do mundo, irá florescer em cem talentos e capacidades inesperadas, simplesmente por lhe ser dada a oportunidade de o fazer”, falta esta liberdade hoje, é fato conquistamos outras, mas junto aprendemos a ser machistas e fascistas disfarçados.

O Golden Notebook (livro de ouro) escrito em 1962, no qual há participação de diferentes tipos de mulheres, temos outro raciocínio inesperado: “Sabes o que é que as pessoas realmente querem? Todas as pessoas, digo. Toda a gente no mundo está a pensar: quem me dera ter alguém com quem pudesse realmente falar, que realmente me compreendesse, que fosse gentil comigo. É isso que pessoas querem, se estiverem a dizer a verdade”, hoje há sempre uma réplica contra fatos claros: a violência está presente e instalada entre nós.

Não falo da violência institucional, falo da não aceitação do Outro, do diferente, da perspectiva que não é a nossa, a comunicação em massa colocou diversas culturas em contato e a aceitação pode não ser simples, é preciso reconhecer como diz Gadamer os pré-conceitos, não como valores apenas negativos, apenas a constatação da diferença.

Escreveu Doris Lessing sobre a realização: “O que é terrível é pretender que aquilo que é de segunda classe seja de primeira classe. Pretender que não precisas de amor quando precisas; ou que gostas do teu trabalho quando sabes muito bem que serias capaz de melhor”, também no seu Golden Notebook, o que é diferente do raciocínio de hoje de fazer o mínimo.

O livro é uma tentativa da personagem da escritora Anna (Freeman) Wulf, que tenta juntar 4 pedaços de fragmentado em vidas diferentes em um único “caderno de ouro”, mostrando as etapas de libertação como mulher livre dos anos 60, onde ainda a repressão era enorme.

Doris Lessing, inglesa nascida em 1919 emigrou para os Estados Unidos, e foi também para a Africa do Sul, ganhou o Nobel de Literatura em 2007, faleceu em 2013.

O seu livro pode bem representar etapas na conquista de liberdade das mulheres, dizia no fim do livro: “Na verdade já atingi o patamar em que olho para as pessoas e digo – ele ou ela, eles são aquilo que são, porque escolheram ficar bloqueada numa determinada fase das suas vidas. As pessoas mantêm-se sãs bloqueando-se, limitando-se a elas próprias”, eis a lição de uma vida vivida de lutas, mas sempre consciente.

 

O medo, a angústia e a mudança

12 Dez

O filósofo Martin Heidegger (1889-1976) convida aqueles que vivem no medo, a viver na impropriedade, ou seja um tipo de aporia que significa pensar sem atribuir valores e sentido, deixando que as circunstâncias o atribuam, parece uma alienação, mas é a alienação do eu.
Num mundo que vive sempre correndo, e alerto que isto já era reflexão de Nietzsche e também a Paulicéia Desvairada de Mario de Andrade da década de 20, e agora a Monarquia do Medo que é uma reflexão de Martha Nussbaum para os EUA, mas que serve ao Brasil e outros.
Nada está mais relacionado ao medo que a Morte, mas ela desperta também a angustia, seria de pensar qual a relação destas com a mudança, diria nenhuma, a menos da hipótese que Heidegger nos lança: a impropriedade, ou seja, deixarmos de atribuir sentido e permitir que os outros o atribuam, diria que é uma dialógica resignada.
Heidegger escreveu também que é na angústia que experimentamos nossa fragilidade.
Nela encontramos de forma inesperada a mudança, aonde nem a angústia e o medo alcançam, alem deles portanto, onde nasce a esperança e a “clareira”, luzes sobre a floresta.
Então o medo existe porque existe um perigo real, e significa que algo está em mudança, a angústia nos leva a pensar sobre qual é a mudança e o rumo dela.
Desconfio que o termo impropriedade usado na tradução nacional para a palavra de Heidegger unangemessenheit, possa ter outro significado, já que angemessen pode ser traduzido como o que é razoável, então eu traduziria irrazoabilidade, ou seja, o que não é em certo sentido como sendo razoável, mas que diante do medo e da angústia surgem como tendo novos horizontes, de onde podem emergir mudanças que antes eram impensadas.
O poeta alemão Hölderlin dizia que onde há medo há salvação, pode-se dizer nos dias de hoje de modo mais amplo, ou seja, na ciência, na política e porque não na espiritualidade.