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Arquivo para a ‘Política’ Categoria

Heidegger e a clareira

08 Jan

O termo é recorrente na filosofia, Platão falava de sair da caverna para aaClareira luz, na modernidade surgiu o iluminismo, e mais recentemente Heidegger falava  da clareira, significando uma abertura no meio da floresta, portanto, a questão da falta de luz e noite escura não é nova.
Mas estudando a etimologia da Clareira, retirando-a da filosofia de Heidegger, ela vem da palavra alemã Lichtung, onde além do significado de clareira na floresta (ele próprio viveu alguns anos na floresta negra da Alemanha), enquanto Licht é a palavra para luz, significará coisas ocultas, ou entes cuja verdade deve vir à tona, assim alguns tradutores usam desvelar.
A clareira é neste contexto o que está oculto dentro de um todo, onde deve emergir o ser, e isto parece mais apropriado a modernidade, visto que a fragmentação onde apenas emerge a parte, é na maioria das vezes oposta ao todo ao qual o ente pertence, assim a questão do Ser.
Assim a verdade, para os dias atuais, existe na abertura da parte para o todo, e é sensível o total fechamento da parte ao todo, não apenas como contexto, mas como parte integrante do Ser, e ao qual é preciso abertura para se chegar a verdade, não a afirmação referente ao objeto, mas a noção primordial da verdade que é a descoberta do ente em si mesmo.
O ente que se descobre, enunciou o próprio Heidegger: “deixa-se ver em seu ser e estar descoberto. O ser-verdadeiro (verdade) do enunciado deve ser entendido no sentido de ser-descobridor” (Heidegger, 1986, 219).
Primeiro vemos esta verdade ontológica como Ser, e não mais como lógica, segundo vemos esta relação entre conhecer o objeto e a própria relação com o Ser, o que na filosofia moderna poderia ser chamada de subjetividade, mas não é porque não são instâncias separadas.
O que se teoriza aqui, em conformidade com a teoria antropotécnica em extensão a sociotécnica, é que ao invés de  tratar a diferença entre pensar o homem como o ente que “tem” objetos, no sentido de ser ele possuidor como as capacidades de falar, e construir objetos “externos”, a concepção ontológica que pensa o homem como “sendo” por meio dos objetos (a linguagem e a produção da sua própria vida e dos meios necessários a ela), permite entender todos os meios não apenas como veículo de transmissão de informações, mas como o modo no qual se manifesta o próprio existir humano, chamamos isto de onto-antropotécnica.
Na foto, artigo de  Andrew Kessel para a revista SingularityHub, faz experimentos de recriação de objetos na vida real por computadores, em impressoras 3D, que é uma recriação dos objetos já ontologicamente criados.

HEIDEGGER, M. Sein und Zeit. 17 ed. Tübingen, Niemeyer, 1986.

 

A mensagem universal e a paroquial

05 Jan

Os estados modernos foram construídos sobre a égide do iluminismo e daaos-reis cultura do liberalismo, que prega a liberdade entre as nações, mas esconde os interesses de grupos e millieus de cultura que não são outra coisa senão porta-vozes da cultura vigente.
Apesar da cultura dos estados se sobrepor a cultura dos povos que estão sobre sua tutela, independentemente dos estados existe uma rica diversidade cultural, na Europa isto pode ser visto pela diversidade de cultura e povos, após a queda do muro de Berlim, há pode-se dizer uma cultura da diversidade pós-queda do muro de Berlim, deem o nome que quiserem dar.
Os estados são a cultura paroquial, a ideia que todos os problemas estão circunscritos e são próprios daquele grupo estabelecido sobre a coação de um estado ou de uma força política e econômica que subjuga muitas vezes aquele povo que deseja viver sua “cultura”.
É o mesmo que aconteceu com o cristianismo, enquanto outras religiões monoteístas procuram se universalizar, ainda que subsistam correntes dentro delas os sunitas e xiitas, por exemplo, no mundo islâmico, a tendência “cultural” é de formar grupos isolados onde os gostos destes grupos ou destas pessoas não se expressam não de maneira integrada.
No cristianismo é um grande equívoco, a proposta vivenciada desde o nascimento de Jesus é universal, os ritos e a liturgia também, mas os sentimentos e grupos paroquiais estão lá, pela força da coação paroquial tentando se impor ao pensamento universal.
O fato narrado em Mateus para a liturgia no dia dos reis magos (amanhã), é simbólico, mas essencial (Mt 1,1-2): “Tendo nascido Jesus na cidade de Belém, na Judeia, no tempo do rei Herodes, eis que alguns magos do Oriente chegaram a Jerusalém” (1), perguntando: “Onde está o rei dos judeus, que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo” (2).
Ora os reis magos, não se sabe exato sua “cultura” mas não eram nem judeus e menos ainda cristãos porque esta cultura acaba de nascer através de Jesus, e somente como um “abortivo” (assim o apóstolo vai chamar-se) a um judeu ortodoxo que vivenciará uma experiência única, e depois levará para “fora” do judaísmo a proposta de JESUS a todos povos.
Talvez sem Paulo esta cultura permaneceria paroquial como uma seita judaica, mas apesar de presente em muitos países continua paroquial, provinciana e muitas vezes, o que é absurdo, sem conexão com a cultura dos povos locais, os reis magos hoje não entrariam na paróquia.
A limitação coercitiva do estado-nação de um povo é o que o impede de integrar-se na cultura universal mundial, a riqueza de cada um não é observada e admirada, como fizeram os reis magos ao conhecer “o rei dos judeus” que havia nascido

 

O autoritarismo e o antropotécnico

04 Jan

A construção dos estados modernos, essencial para uma etapa da construçãoaoElmauCastle da civilização moderna, já dissemos no post anterior, fundamentado nos textos de Petr Sloterdijk “Ira e tempo”, porém será uma conferência feita no final de século (não por acaso), com o título “Regras para o parque humano”, feita em 17 de julho de 1999, em conferência dedicada a Heidegger e Lévinas, no castelo de Elmau na Baviera (foto), que a questão da antropotécnica, visão mais ampla que a sociotécnica e a biopolítica, atinge a maturidade.
Dois pontos destacam-se na leitura deste trabalho depois transformado em livro (Sloterdijk, 2000) em ambos também tive uma reação pessoal na primeira leitura, uma visão humanista totalmente original dos meios de comunicação, o segundo especial para os heideggerianos (minha primeira leitura pré-conceituosa não permitiu),  que é uma visão sobre a “clareira” incorporando a história natural e social, mas intertendo a polaridade heideggeriana da dimensão ontológica sobre a ôntica (Sloterdijk, 1999, p. 61), o que parecia mais absurda mas não era, a dimensão ôntica precede a ontológica.
A polêmica na conferência entretanto foi a declaração da falência do humanismo em domesticar a animalidade humana, e ele se perguntou se uma reforma das qualidades da espécie não caminharia para uma “tecnologia antropológica, uma antropotécnica” (Sloterdijk, 2000, p. 45), o que é claro causou espanto e um burburinho na conferência.
A crítica da razão cínica, que parece se comprar mais ainda com a história recente: “o bolchevismo, o fascismo e o americanismo … “ são “três variações dessa mesma força antropocêntrica e três candidaturas a um domínio humanitariamente ornado do mundo – dentr as quais o fascismo errou o passo ao exibir, mais abertamente que seus concorrentes, seu desprezo por valores inibitórios pacíficos educacionais (idem, p. 31).
A ideia que o homem é um animal racional parecia verdadeira, a resposta existencial e ontológica, a clareira de Heidegger, para quem o Ser se apresenta e o Ser escolhe para sua guarda, a busca desta pacificação, almejada pelo humanismo (ele o coloca no singular por entender que é o mesmo), e esta “escuta” do Ser seria capaz de conduzir a uma pacificação do ser humano maior que a alcançada pelos métodos humanistas anteriores, o que inquietante para Sloterdijk é como se organizaria esta sociedade formando por ouvintes do Ser? Qual seria esta “clareira” nova.
Não temos a resposta pronta, a não ser que esta “escuta” não foi feita adequadamente, e talvez um método diferente da “ira” possa ser testado, ainda não o foi, chamaríamos isto não da inversão entre o ôntico e o ontológico, mas sua bivalência, há algo de “matter” que é mais que o ôntico, é mãe e matéria ao mesmo tempo.

 

Dos tempos homéricos à barbárie

03 Jan

Dos tempos dos romances épicos de Ilíada e Odisséia, até os dias de hoje aATroiaGrego violência fez parte da história, em especial na civilização ocidental, onde se lê o início do conflito entre gregos e troianos, narrados na Ilíada:

“Irritado, o herói retirou-se à sua tenda sem pretender mais combater. Os Troianos, notando a sua ausência, tomaram coragem, atacaram o campo dos Gregos ficando os navios destes em risco de serem queimados. ”
Para muitos historiadores esta é a obra fundadora da civilização ocidental, onde Alexandre encara o filósofo cínico Diógenes que passou a vida em um barril, ao qual teria dito que se não fosse imperador, gostaria de ser como ele um andarilho imundo de Atenas.
Petr Sloterijk vai reconstruir (a nosso ver) esse cinismo e ira que se encontram num evento para traçar parte fundamental de seu pensamos em duas obras fundadoras de seu pensamento, o Crítica da Razão Cínica (1983) e Ira e Tempo (2006), lançadas no Brasil pela Estação Liberdade, além do primeiro volume dos três das Esferas.
Além de cinismo e era queremos lançar a probabilidade da emergência de um novo pensamento, em tempos de ira e cinismo, uma solidariedade sincera e universal que abrace o mundo todo, seria possível ? talvez, mas não sem forças humanas que a propulsionem.
Qual humanismo pode nascer ou renascer hoje, visto que a nosso ver o Renascimento não foi outra coisa senão uma volta ao humanismo com ajuda da antiguidade clássica, mas o neoliberalismo e o iluminismo enveredaram por um caminho diferente.
Esclarecer o filósofo Byung-Chul Han em A Sociedade do Cansaço (editado no Brasil pela Vozes 2017): “A sociedade do cansaço e do desempenho de hoje, apresenta traços de uma sociedade coativa, cada um carrega consigo um campo, um campo de trabalho. A característica específica desse campo de trabalho é que cada um é ao mesmo tempo detento e guarda, vítima e algoz, senhor e escravo.  Nós exploramos a nós mesmos.” (Han, 2017, p. 115)
A política tornou-se cínica porque o que desejamos é aquilo que Saramago chamou de “a colonização do outro”, desejo que o outro tenha a mesma opinião que a sua, entramos num campo da psicopolítica, onde a coação se torna todas as armas, e a mesma quanto ao método.
O diálogo é feito com hipocrisia e proselitismo, tudo o que desejamos é que a “nossa verdade” prevaleça, não há hermenêutica, mas um só método: a coação.

 

Como caracterizar o ano de 2017

02 Jan

Se quisesse ser simplista diria que foi ano do retrocesso, a posse de Trump,ABarbarie as ameaças nas eleições holandesa, francesa e alemã onde os Nazi chegaram a 11% dos votos, porém esta é só uma face de uma mudança em curso, a descoberta dos Paradise Papers, onde aparecem alguns grandes nomes internacionais como Hamilton e Madonna e a maior surpresa foi a Coroa (nem tanto para quem conhecem as posses da inglesa em diversas ilhas de paraísos fiscais), Petr Sloterdijk caracteriza o nosso tempo como poderíamos pensar em 2018, como tempo da barbárie nunca esteve tão visível e a razão se tornou uma “razão cínica”
O problema é a impotência do discurso de mudança, incapaz de uma visão planetária, com soluções paroquiais, se vê impotente diante de um massacre do capital financeiro e das especulações que fazem em todo planeta, não isentas de paraísos fiscais e corrupções.
Petr Sloterdijk escreveu sobre o humanismo contemporâneo: “Podemos traçar a fantasia comunitária que está na raiz de todo o humanismo de volta ao modelo de uma sociedade literária, na qual a participação através da leitura do cânone revela um amor comum de mensagens inspiradoras. No coração do humanismo tão compreendido, descobrimos uma fantasia de culto ou clube: o sonho da solidariedade portentosa daqueles que foram escolhidos para serem autorizados a ler.

No mundo antigo – de fato, até o início dos estados-nação modernos – o poder da leitura realmente significava algo como pertencer a uma elite secreta, …” (Critica da razão cínica, 1983), construíram a bárbarie como retrata o quadro de Ruben de (1609): O massacre dos inocentes (foto).
E completa: “O conhecimento linguístico já contava em muitos lugares como a proveniência da feitiçaria. No inglês médio, a palavra “glamour” se desenvolveu com a palavra “gramática”. A pessoa que poderia ler seria pensada facilmente capaz de outras impossibilidades.” (Sloterdijk, Critica da Razão cínica, 1983).
O que aconteceu com a leitura, com a vulgarização da cultura, da leitura e até mesmo das artes, substituída por fundamentalismos, auto-ajuda e uma cultura do feio, do horror e até mesmo do terror, assinala Sloterdijk sobre o nosso tempo: barbarie.
Sloterdijk, que não é religioso, afirma que a desespiritualização do asceticismo moderno atual é: “é provavelmente o evento na atual história intelectual da humanidade que é o mais abrangente e, por sua grande escala, é o mais difícil de perceber, ao mesmo tempo, o mais palpável e atmosféricamente poderoso. Sua contrapartida é a informalidade da espiritualidade – acompanhada de sua comercialização nas subculturas correspondente.” (Sloterdijk, 1983).
Escreveu o autor em “Você pode mudar sua vida” (ainda sem tradução em português): “Somente a vontade artística de transformar o futuro em um espaço de oportunidades ilimitadas de elevação de arte nos permite entender o núcleo da regra de procriação: “um criador deve criar […] uma roda auto-propulsora, um primeiro movimento” (Sloterdijk, em (2009) Du musst Dein Leben ändern. Über Antropotechnik -Você pode mudar sua vida, sem tradução para o português).
Se o nosso tempo pode ser caracterizado conforme o autor pela “barbárie”, o próprio autor também dá respostas apontando para uma reviravolta na cultura, a recuperação de uma verdadeira ética, uma verdadeira religiosidade para construir uma nova cultura

 

 

Noosfera e vigilância

01 Dez

Existe uma consciência planetária e até mesmo cósmica, se pensamos no sentido daaOração noosfera do espírito ou mente (noon – espírito ou mente, esfera), como aquela que atinge toda a humanidade e quem sabe todo o corpo celeste, e se nela estamos ligados chegaremos a uma grande consciência cosmológica ou cosmogônica.
De modo concreto, o planeta passa por mudanças, que postamos durante esta semana alguns comentários das análises de Edgar Morin e Petr Sloterdijk, há outras é claro, como as diversas preocupações de grandes pensadores que estão em “O mundo não tem mais tempo a perder” (GOLDMAN, 2014).
Falamos de “visões” do Sloterdijk, e vigiar está ligado a “ver com atenção” e também é preciso pensar que podemos emanar bons pensamentos e sentimentos ao planeta e ao cosmos, por isto a passagem do evangelista Marcos que ficou consagrada como “Vigiai e orai”, mas que está em outras passagens bíblicas, esta porém é mais atual (Marcos 13:33-37), pois ele compara esta vigilância a chegada do administrador que deixou a casa (neste caso a nossa casa de morada a Terra ou o Cosmos) para que os empregados tomassem conta e espera que eles tenham cuidado dela.
Pode-se pensar em termos apocalípticos, mas o sentido escatológico verdadeiro que é “estar atentos” para o desenvolvimento dos povos (na plenitude é o reino de Deus) vai sendo construído e as vezes, caso do momento atual da humanidade, é preciso vigiar para ir em frente e não cair em retrocessos que são possíveis, como as guerras e aumento das desigualdades.
Portanto pedir, orar e falar deste “desenvolvimento futuro” tanto humano quanto em cada uma de suas dimensões (espiritual, material, intelectual e afetiva), significa interiorizar e meditar sobre estas mudanças, por isto “orar” não significa apenas pronunciar palavras sem nexo e sem sentido, mas desejar um progresso para todos.
Para cristãos católicos e luteranos o “advento”  (período do Natal) é um tempo propício para esta “vinda”, como uma destas “visões”, a fraterna da consciência humana, agora de cidadania planetária, esta é a noosfera deste tempo.

GOLDMAN, S. (coord). O Mundo não tem mais tempo a perder: Apelo por uma governança solidária e responsável, São Paulo: Civilização Brasileira, 2014.

 

A consciencia planetária e vigiar

30 Nov

Olhando a consciência planetária num olhar da Europa, embora seja um olhar viciado, é o olhar que aponta caminhos para o Ocidente, o filósofo Petr Sloterdijk em seu livro “Se a Europa despertar” (2002), aponta o ano zero da consciência atual como a derrota da possibilidade de um “Império do Centro” com o nazismo, segundo sua análise, numa reflexão que já dura a duas gerações.Misseis

Lembra o autor daquilo que Nietzsche afirmava sobre a “obrigatoriedade de grande política” ser preenchida de um novo conteúdo contemporâneo, após o fim do vácuo no qual se tragou a trágica safra de totalitarismo e guerras mundiais, num caminho parecido ao que Morin aponta no seu livro “Terra-Pátria”, qual seja, a busca de fundamentos para uma cidadania planetária, mas é preciso vigiar pois ainda rondam pelo planeta fantasmas de guerras mundiais e totalitarismos.
O capítulo 6 começa com um epígrafe significativo (Sloterdijk, p. 65): “A Europa precisa hoje inventar uma forma de unidade que não é a de um império” de Jacques Le Goff, isto é, criar uma nova forma de política que não seja mais o desenvolvimento fundamentado na exploração e opressão de outros povos.
É como afirma a Bíblia no evangelho de Marcos: “É como um homem que, ao partir para o estrangeiro, deixou sua casa sob a responsabilidade de seus empregados, distribuindo a cada um sua tarefa. E mandou o porteiro ficar vigiando.” (Mc 13, 34), e se no passado se disse que o preço da liberdade é a eterna vigilância, pode-se dizer hoje que o preço da superação da crise é vigiar para que não sejam desencadeados processos que impeçam o crescimento de uma consciência planetária sobre uma cidadania mundial.
Desenvolve ao longo do livro o que chama de política de “visões”, compatível com sua origem ontológico-hermenêutica (é herdeiro e crítico do pensamento de Heidegger e conviveu com Safranski que é o melhor biógrafo deste), o que significa promover o diálogo cultural entre povos, permitindo a cultura e a ‘visão” de cada um.
Assim se a Europa despertar terá “alcançado a façanha de produzir, sob sua própria direção e em debate público, a visão pela qual deve ser conduzida e impulsionada – e então agir sobre essa visão, como se esse novo motivo autoconstituído tivesse tanto poder de liberar forças aceleradoras quanto uma velha missão muito encarnada.” (SLOTERDIK, 2002, p. 72)
A edição brasileira, não sei as outras também, termina com uma entrevista do filósofo alemão a Michael Klonovski, jornalista da revista alemã Focus, em que revela (bem antes da era Trump e também da era Obama) que a única coisa que 11 de setembro fez os americanos a “abrirem mais fogo”, e agora “eles assumem seu unilateralismo sem reservas.” (SLOTERDIJK, 2002, p. 84)
Neste sentido é preciso também vigiar e reagir ao belicismo que pode fazer a consciência planetária retroceder, mas não a diversidade que implica no surgimento de nações e afirmação de etnias, isto não é oposto a consciência planetária, uma vez que permite a cada povo viver e cultivar suas tradições culturais sem reservas.
O papa Francisco está hoje em Miamar, a situação de violência a minoria muçulmana neste país gerou um crise humanitária na região, com muita violência e mais de 100 mil refugiados, esperamos algum alento para a questão.
SLOTERDIJK, P. Se a Europa despertar. São Paulo: Estação Liberdade, 2002.
 

A crise e a consciência planetária

29 Nov

Se o quadro parece complexo para o homem do despertar do século XXI,Cultura não se podem fatores que aguçam a consciência planetária, Morin (2003) indica 6 processos nas páginas 36 e 37 do seu livro Terra-Pátria:
“A persistência de uma ameaça nuclear global A ameaça atómica foi e continua sendo um fator de consciência planetária. O grande temor virulento de 1945-1962, anestesiado sob o equilíbrio do terror, redesperta.”, por coincidência infeliz a Coréia do Norte acaba de lançar um míssil balístico no mar do Japão, a provocação permanece.
“A formação de uma consciência ecológica planetária O objeto da ciência ecológica é cada vez mais a biosfera em seu conjunto, e isso em função da multiplicação das degradações e poluições em todos os continentes e da detecção, desde os anos 1980, de uma ameaça global à vida do planeta”, dentre as muitas contestações do governo de Trump, a mais eficaz e contundente tem sido a questão ecológica porque ameaça até mesmo acordos com a Zona do Euro e também internamente, o governador da Califórnia Jerry Brown anunciou em vídeo que um grande encontro sobre mudança climática será realizado em San Francisco em 2018, numa clara contestação ao governo americano.
“A entrada no mundo do terceiro mundo A descolonização dos anos 1950-1960 fez surgir no proscénio do Globo 1,5 bilhão de seres humanos, até então refugados pelo Ocidente nos baixios da história”, note-se bem que Morin escreveu isto antes da crise humanitária provocada pela guerra na Síria, e a imigração africana e árabe é crescente na Europa.
“O desenvolvimento da mundialização civilizacional Esta se desenvolve, para o pior e para o melhor: para o pior, acarreta destruições culturais irremediáveis; homogeneíza e padroniza os costumes, os hábitos, o consumo, a alimentação (fastfood), a viagem, o turismo; mas essa mundialização opera também para o melhor porque produz hábitos, costumes, géneros de vida comuns através das fronteiras nacionais, étnicas, religiosas, rompendo um certo número de barreiras de incompreensões entre indivíduos ou povos”, a Europa vai mudando de feição e de costumes, enquanto os países do terceiro mundo adotam cada vez mais costumes mundializados.
“O desenvolvimento de uma mundialização cultural Enquanto a noção de civilização recobre essencialmente tudo o que é universalizável: técnicas, objetos utilitários, habilidades, modos e géneros de vida baseados no uso e consumo dessas técnicas e objetos, a noção de cultura recobre tudo o que é singular, original, próprio a uma etnia, a uma nação”, mas ao contrário do que se imaginava reapareceram nações como a Armênia e a Macedônia, diversas “antigas repúblicas soviéticas” e outras lutam para emergir: o Curdistão e a Chechênia,
Emerge um folclore planetário, como “o jazz que se ramificou em diversos estilos a partir de Nova Orleans, o tango nascido no bairro portuário de Buenos Aires, o mambo cubano, a valsa de Viena, o rock americano que por sua vez produziu variedades diferenciadas no mundo inteiro … a cítara indiana de Ravi Shankar, o flamengo andaluz, a melopeia árabe de Oum Kalsoum, o huayno dos Andes; suscitou os sincretismos da salsa, do rai, do flamengo-rock.” (Morin, 2003, pag. 39)
É inegável que a diversidade se afirmou, mas em sentido contrário a mundialização aconteceu, não só nos processos perversos econômicos, mas nos adversos da cultura.
MORIN,E. e KERN, A.B.Terra-Pátria. Traduzido do francês por Paulo Azevedo Neves da Silva. Porto Alegre : Sulina, 2003.

 

A crise planetária e suas origens

28 Nov

Edgar Morin em seu livro Terra-Pátria explica que o crescimentoAMundialização desta era se deu na modernidade, começou com as navegações pelo globo, que fez Cristóvão Colombo chegar a América e Vasco da Gama fazer o caminho pela costa da África para as índias, mas isto foi uma forma de mudar a rota terrestre que passava pela Índia e pela China, historicamente o desprezo pelos “bárbaros civilizados”.

Escreveu Morin: “Desde os começos da era planetária, os temas do “bom selvagem” e do “homem natural” foram antídotos, muito fracos, é verdade, à arrogância e ao desprezo dos bárbaros civilizados. No século XVIII, o humanismo das Luzes atribui a todo ser humano um espírito apto à razão e lhe confere uma igualdade de direitos.” (MORIN, 2003, p. 26)

A ideia de que a Europa, primeiro Londres depois Paris, e atualmente a Alemanha, seriam as culturas mais avançadas levaram a: “ música de Beethoven, o pensamento de Marx, a mensagem de Victor Hugo e de Tolstoi se dirigem a toda a humanidade. O progresso parece ser a grande lei da evolução e da história humanas” (idem), mas será que isto envolvia de fato o globo, ou foi uma época de guerras coloniais, depois duas grandes guerras e hoje ainda um processo de desenvolvimento duvidoso.

Damos um salto e no pós-guerra, reapareceu a confiança e: “Imensas esperanças num mundo novo, de paz e de justiça, ganharam corpo com a destruição do nazismo, no esquecimento ou na ignorância de que o Exército Vermelho trazia não a libertação, mas uma outra servidão, e de que o colonialismo havia retomado sua ação na África e na Ásia.” (MORIN, 2003, p. 32).
Citando a Guerra do Golfo e do Kwait (1990 e 1991), mostraram que: “o desmoronamento do totalitarismo do Leste não ocultará por muito tempo os problemas de economia, de sociedade e de civilização no Oeste, não reduzirá em nada os problemas do terceiro mundo transformado em Mundo Sul, e não produzirá naturalmente uma ordem mundial pacífica.” (Morin, 2003, p. 32), mostrando uma linha de fratura no oriente médio e mundo árabe, o livro é anterior mas pode-se citar a questão da Síria e da Coreia do Norte, fraturas atuais.
Morin aporta para o futuro agora cheio de problemas: “Mas o certo é que a história mundial retomou sua marcha turbulenta, correndo a um futuro desconhecido, ao mesmo tempo em que retorna a um passado desaparecido” (Morin,2003,  p. 33), chama esta fase de democleana: “em 1945, a bomba de Hiroshima fez a idade de ferro planetária entrar numa fase damocleana.” (idem).
Apontava bem antes da crise mundial de retorno ao nacionalismo nas eleições, que isto já estava em curso: “Numa dialógica tornada mundial entre as forças de integração e de desintegração culturais, civilizacionais, psíquicas, sociais, políticas, a própria economia se mundializou cada vez mais e se fragilizou cada vez mais; assim, a crise econômica surgida em 1973 de uma escassez de petróleo passa por diversos avatares sem estar realmente resolvida.” (Morin, 2003, p. 34)
E mostra o lado perverso da crise atual: “A mundialização económica unifica e divide, iguala e desiguala. Os desenvolvimentos económicos do mundo ocidental e do Leste asiático tendem a reduzir nessas regiões as desigualdades, mas a desigualdade aumenta em escala global, entre “desenvolvidos” (em que 20% da população consomem 80% dos produtos) e subdesenvolvidos.” (MORIN, 2003, p. 34)
Como dar um fundo mais panorâmico sobre a crise atual e qual seriam as respostas possíveis para esta crise ?
Referência:
MORIN,E. e KERN, A.B. Terra-Pátria. Traduzido do francês por Paulo Azevedo Neves da Silva. Porto Alegre : Sulina, 2003.

 

Que crise é esta

27 Nov
Postamos uma longa análise do filósofo brasileiro Mario Ferreira dos Santos, pouco conhecido, masEdgarMorin não menos importante,  afirma em seu livro (na verdade foi recompilado) A filosofia da Crise, que apesar de afirmar que já nos salvamos: “salvamo-nos do ceticismo e do dogmatismo, que são duas posições de crise sobre a possibilidade gnosiológica do homem” (Santos, 2016, p. 79), temos que ir além disto para ter uma cosmovisão (ou cosmogonia que eu prefiro): “e, consequentemente, de se ter uma visão crítica da crise do existir finito.” (idem)
Assim precisamos ir além, Edgar Morin em palestra afirmou que está além da crise da economia (não diz mas diria além da crise política), é “uma crise do pensamento, da civilização ocidental”, Mário Ferreira também faz esta distinção já que a oriental e ainda a árabe (pouco citada) são diferentes, se é que estão em crise, penso que estão.
Afirmou em sua palestra “O caminho para o futuro da humanidade” que a crise da atualidade “é a crise desta humanidade que não consegue se tornar humanidade”, e, portanto, não está “fora dela”, nos objetos e nos esquemas política, mas “dentro dela” porque os processos que são conduzidos hoje nos conduzem “a uma catástrofe futura”, no vídeo pode ser compreendido.
Afirma que a mundialização é a pior e a melhor das coisas que poderiam acontecer, pior porque produziu-se armas em escala mundial capazes de destruir o planeta e os diversos tipos de fanatismos e fundamentalismo podem nos conduzir a guerra, e é melhor porque “todos os seres humanos de todos os continentes se encontram reunidos, sem que eles saibam, reunidos em uma mesma comunidade de destino.”
Sabemos que a “economia mundial não tem nenhuma verdadeira regulamentação”, e a crescente degradação da biosfera, além da má distribuição de renda pode nos conduzir a uma crise ainda maior que a que vivemos em 2008 e que parece latente.
Es se estamos “reunidos na mesma comunidade de destino”, estamos diante da possibilidade de que “nasça um novo mundo”, e será um novo tempo que há de vir, um advento, uma nova “chegada”.
É preciso desenvolver uma sociedade em escala mundial, na qual “a internet possa desempenhar um papel especial nesta democracia”, pois não se trata de criar um mega estado mundial, mas um novo modelo de cidadania global.
Temos um problema fundamental que esta comunidade mundial nos “revela”, eu diria que se desvela, pois não será mais possível nada permanecer “velado” nem re-“velado”, que neste caso seria como alguns querem tornar o mundo “desglobalizado”, em sua palestra Morin lembra-nos dos efeitos positivos da “interdependência”, “dos intercâmbios” e de se chegar a um “mundo novo”, onde as culturas locais sobrevivam.
Explica que é possível conciliar o positivo da “globalização” o positivo das “culturas regionais”, mas é preciso um “pensamento novo” para isto, sem radicalismos.
SANTOS, Mario Ferreira. Filosofia da Crise, 1ª. ed. São Paulo: É Realizações, 2017.