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Arquivo para janeiro, 2014

Ontologia: entre a tradição e a inovação

31 Jan

Nos três capítulos finais do livro Introdução à ontologia,NovoAntigoFoto de Malfada F. Blanc que estamos lendo ela desenvolve as três dimensões complementares a fenomenologia do ser, a hermenêutica, a poiética e a metafísica.

 

Devo destacar um tópico especial, que é aquele dedicado a poiética humana, das páginas 94 a 113, que no seu tópico final discorre sobre o fazer da história: entre a tradição e a inovação.

 

Neste trecho a autora faz notar uma “certa visão negativa da moderna sociedade de massas”, com certa influência de Max Weber, que “impediram-no de explorar as virtualidades existenciais e metafísicas da intersubjetividade” (pag. 113).

 

Recupera neste contexto as leituras de Martin Buber: “numa atitude de apropriação e não numa dinâmica de participação e doação, que o ser-aí colhe nos outros – no mundo comum da história – possibilidades de ser, sem nunca verdadeiramente por eles se deixar transcender e significar” (pag. 114).

 

Vai sublinhar Claude Bruaire, “se a verdade da pessoa é ek-sistir a partir de e num dom contínuo de ser, não sendo fundamento de si mesma, então a sua liberdade só poderá consistir num poder de anuir ou recusar o movimento da liberalidade, que funda e atravessa espiritualmente” (pag. 114) citando esta autora.

 

E recupera os conceitos de Nédoncelle, que afirma “se o amor é uma promoção mútua de consciências na reciprocidade do dom, … ele não se efetiva porém, sem as dimensões do moral, do social e do histórico” (pag. 115)

 

Então saindo do âmbito do discurso apenas filosóficas, afirmará “a sua realização dialógica não ocorrem fora do âmbito da sociedade mas nela e por ela”, mostrando o dinamismo da ipseidade, apontando para a leitura de Xavier Zubiri sobre a Estrutura dinâmica da realidade.

 

Assim sublinha que o homem caminha e progride fazendo história, no risco partilhado de se tornar pessoa e comunidade (pag. 116).

 

A pragmática ontológica

30 Jan

Visto todo este contexto de redução gnoseológica e lógica daQuatroDimensões ontologia, a autora se volta no terceiro capítulo para a apresentação de um conceito pragmático de ontologia.

Propõe para isto quatro níveis principais em consideração: o fenomenológico, o hermenêutico, o poético e o metafísico.

O primeiro nível significa o acesso ao ser como fenômeno, que vai ressaltar seu aparecer e para isto vai diferenciá-lo do aspecto ôntico, como ela própria explica trata-se da dimensão fundamental e matriz da ontologia (pag. 33).

O nível hermenêutico refere-se ao como do aparecer do ser, ou seja, delimitar o âmbito e o caráter da sua verdade, “as estruturas da articulação pensante e discursiva do ser (pag. 33).

Segue o nível poiético, assim denominado em virtude de seu caráter construtivo, “deve elaborar as estruturas concretas do ser, referindo-o ao plano ôntico, de que fora inicialmente abstraído, por razões metodológicas” (pag. 33)

E no último desenvolve a dimensão metafísica, “regressando ao plano fenomenológico do aparecer, assume-o e transcende-o num mais além, abrindo a ontologia a um espaço de questionamento porventura teológico” (pag. 34).

O importante neste método é que “o ser requer um tipo específico de visualização intelectual, em que, desaparecidas todas as condições de singularidade, o pensar experimenta a apresentação imediata da ´coisa ela mesma’ (die Sache selbst).“ (pag. 35)

Sem esta “intuição intelectual” do saber ontológico e sua elaboração seria vazia.

 

Empirismo lógico e crítica da metafísica

29 Jan

Todo este quadro da ontologia contemporânea, se nãoLinguagem Ser remetêssemos a “nova forma de positivismo, nos países de língua anglo-saxônica, e a redução lógica e linguística por ele operada dos problemas de índole ontológica e metafísica” (do livro Introdução à Ontologia, de Mafalda F. Blanc, pag. 31)

 

O “empirismo lógico do Círculo de Viena, representado por Schlick e Carnap, entre outros, e da filosofia analítica da escola de Oxford, de que são figuras eminentes um Austin e um Searle” (pag. 31).

 

Todas as escolas ao nosso ver, e também da autora se baseiam no pensamento de Wittgenstein e têm em comum uma de suas ideias que é “a redução da filosofia a um estudo da linguagem” (pag. 31)

 

A influência de Viena, saída do “Tractatus Lógico-Philosophicus! De Wittgenstein (1921), “considerando que o problema do conhecimento não deve ser colocado do ponto de vista da consciência mas de uma linguagem construída rigorosamente, reduz a filosofia a uma análise lógica do discurso das ciências” (pag. 32).

 

Digo a influência porque Wittgenstein teve diálogos com o círculo não sendo seu integrante direto, mas seu discurso tem uma forte influência em especial nas construções de Carnap, onde “uma sintaxe, ou seja, uma teoria da coerência formal e, para as segundas, uma semântica ou teoria da referência, considerando que a sua verdade reside na confirmação empírica.” (pag. 32)

 

Pensar haver “uma correspondência entre a forma lógica da linguagem e o mundo, consideram ainda aqueles pensadores ser possível à filosofia efetuar o contorno epistemológico da realidade, ou seja, o dizer o modo como ela é, mas não o que ela é e que só se pode mostrar como puro fato.” (pag. 32)

 

Já o segundo Wittgenstein, cuja obra principal é “investigações filosóficas”, defende o “pluralismo de linguagens, com fundamento no uso, a determinar a significação e o nexo lógico dos termos.” (pag. 32)

 

Isto significará “a primazia da pragmática relativamente à semântica e à sintaxe, adscrevendo para a filosofia o estudo das linguagens naturais, do ponto de vista do seu uso e dos fins que com ela pretende atingir uma comunidade de falantes” (pag. 32).

 

Toda esta problemática como os termos indicam: sintaxe, semântica e pragmática; são bastante sensíveis as questões da tecnologia, mas como diz a autora “os problemas filosóficos derivam de um uso incorreto da linguagem” (pag. 32) e isto tem a ver com contexto e não com a correspondência ao dado empírico.

 

A retomada ontológica

28 Jan

A intencionalidade, uma subcategoria da filosofiaSerTempo medieval definida dentro do estatuto da consciência, foi recuperada por Franz Brentano (1838 – 1917) para qualificá-la como estando dirigida a algo, ou acerca de algo, por isto importante também para a psicologia, que foi usada por Edmund Husserl (1859 – 1938) para dizer que a consciência é sempre intencional, dirigida a um objeto, real ou imaginário.

Esse objetos estarão na ontologia de Husserl, entre entre noemas e noesis, porque estas recolocam a relação entre sujeitos e objetos.

Husserl chamou de noema a qualquer representação do objeto enquanto pensado e pensamento como objeto do pensar, e ao processo de apreensão do objeto por parte do sujeito (consciência), chamou de nòesis.  Representação do noema para Husserl tem: modalidades de presentação, caracteres de ser e de valor que formam, com o estrato nuclear, o noema completo.

Para esta leitura dos fenômenos, “as essências, obtidas por variação imaginativa a partir das correlações noético-noemáticas das vivências e apreendidas com evidência numa intuição, constituem a base de ontologias regionais ou materiais de domínios do ser correspondentes, a natureza, o homem, a cultura … “ (Mafalda Blanc, Introdução à Ontologia, pag. 26).

Husserl não fará só uma oposição a Kant, mas também ao “estender o domínio do a priori do plano formal do objeto em geral, obtido por abstração de todo o conteúdo material” de certa forma retoma o projeto kantiano de uma crítica a razão, “estabelecendo e determinando o valor dos conceitos e das leis da lógica, da ética e da axiologia, à luz das estruturas categorias últimas do objeto” (BLANC, pag. 26).

Husserl consegue com isto viabilizar a ontologia, “ao conceber a mais importante das acepções do ser em Aristóteles – a categorial – já não como uma forma lógica de juízo, mas como um dado presente, realizável intuitiva e adequadamente num ver imanente” (pag. 27)

Assim Husserl, mostra como o real como tendo: “a individualidade, a temporalidade e a completa determinação, por oposição à universalidade e a intemporalidade do ideal, discernindo cinco estratos irredutíveis: … o inorgânico e o orgânico, o psíquico, o pessoal e a esfera do espírito objetivo (linguagem, tradição cultural)” (pag. 26).

O projeto de Heidegger será ainda mais ortodoxo como fenomenologia, ele irá “desenvolver esta concepção do tempo como possibilidade e matriz do próprio ser, invertendo a perspectiva clássica da filosofia, que pensava o tempo como a manifestação fenomênica do ser” (pag. 29).

 

O idealismo e a metafísica da razão

27 Jan

Kant havia dividido a metafísica em uma metafísica SerSaberespeculativa ou da natureza e uma metafísica prática ou moral (p. 22, do livro Introdução à Ontologia de Mafalda F. Blanc).

A primeira é fundamental para entendermos a ciência hoje, já que ela estabeleceu os conceitos da razão pura que  concernem o conhecimento teórico das coisas, mas como é próprio da razão dividiu-a “numa analítica do entendimento, adstrita ao plano formal do objeto em geral, e numa filosofia da razão pura, referida ao conteúdo dos objetos dados numa intuição sensível.” (pag. 23)

Estava completo o edifício kantiano que fecha o “espírito humano” condicionando-o “á indagação das condições transcendentes dos objetos da experiência”, e tornando a “coisa e si” (Ding as sich) distintos dos fenômenos, e inviabilizando a metafísica (BLANC, pag. 23).

O Idealismo Alemão tentará retomar a metafísica, mas a partir de uma posição idealista, ou seja começa por eliminar o próprio conceito de “noumeno”, e caminhava para a “praticidade, o caráter de fundamento instaurador do próprio ser” (BLANC, P. 23).

Assim, no idealismo ético e subjetivo de Fichte, “o dever-ser como fim moral é o princípio dominante de toda a vida da consciência, o motor do seu dinamismo criador, de que resulta como produto inconsciente a própria natureza” (pag. 24), e grande parte da filosofia da natureza contemporânea quando fala da natureza, está falando de idealismo.

Schelling irá recusar esta “redução idealista da natureza” (pag. 24) e colocará no “campo da ação recíproca entre o objeto e o sujeito, a natureza e o espírito” (pag. 24) mas cria uma nova hermenêutica estabelecendo que o verdadeiro em-si, “a totalidade da razão e do ser, desdobra no devir fenomênico do mundo para ascender ao seu autoconhecimento, atualizando a essência como consciência ou ser-para-si“ (pag. 24) e Hegel guardará grandes semelhanças com estas concepções de consciência, é o seu ápice e Marx tinha razão, mas também o início do declínio.

Voltando ao ponto importante para o conhecimento, “o elemento dominante, dinâmico e formador do processo é o conceito, que representa a unidade, ideal e subjetiva, do universal” e assim “o conceito efetivou a sua essência, tornou-se a universalidade concreta e plenamente determinada da Idea, realizou-se como Absoluto e verdadeira individualidade (Einzelheit)” (pag. 24).

Foi isto que nos levou, e leva grande parte do conhecimento, ao “exagero especulativo”.

 

Esquecimento do ser e a modernidade

24 Jan

Vimos que Tomás de Aquino discerniu, mas também SerModernidadehierarquizou a questão do ser.

Sabemos que toda filosofia e vida ocidental teve influência da filosofia clássica, e ela vem de Aristóteles e Platão, essencialmente, mas uma ruptura aconteceria no fim da idade média, “subordinando o ´ser comum´ ao conhecimento ‘ipsum esse subsistens´, fim último da metafísica, porque causa absolutamente primeira não apenas na ordem da eficiência e da finalidade, mas ainda e sobretudo na ordem radical da existência.” (pag. 20)

Assim, conforme a Autora Mafalda F. Blanc que estamos lendo a Introdução à ontologia, “privilegiou o ente concreto existente como objeto da metafísica, sublinhando a originalidade e até prioridade da existência como ato relativamente ao plano formal da essência”, enquanto outro filósofo também escolástico Duns Scoto, “preferiu, com o Avicena, a aceção nominal do ente, mais universal do que aqueloutra participial, situando a metafísica no plano abstrato da possibilidade enquanto estudo da essência” (pág. 20)

A autora esclarece que isto foi transmitido a filosofia por Francisco Suarez em sua obra “Disputaciones Metaphysicae” de 1957, que sistematiza a escolástica medieval.

Isto é importante para entender que o possível, concebido logicamente como não-contradição, iria permitir à filosofia moderna, principalmente concernada com o problema do conhecimento e da ciência, introduzir alterações importantes no conceito de ontologia, que preparariam em grande medida a educação gnoseológica da mesma, efetuada no século XVIII por Kant”  (pag. 21), ao meu ver a mais importante assertiva da autora.

Estas alterações ainda eram terminológica, pois “se tinha chamado filosofia primeira ou metafísica para as designações de Philosophia entis, como Maignan, Ontosophia, com Clauber”, enquanto Christian Wolff, discípulo de Leibniz, no seu estudo Philosofia prima sive Ontologia, “traduz uma emergência de uma nova concepção de filosofia primeira.” (pag. 21)

Também estas concepções estavam presentes em Crusius e Baumgarten: “para o primeiro, a metafísica estuda as verdades necessárias da razão, para o segundo  ela é … ” (pag. 21), a própria autora abre aspas para citá-la: “ (…) scientia primorum in humana cognitione principiorum”.

Assim, “recebendo por intermédio de Baumgarten, a sistemática wolffiana, Kant, ao negar a intuição intelectual, ver-se-ia obrigado a remodelar aquela profundamente, consumando a redução gnoseológica da ontologia, antes somente esboçada.” (pag. 22).

Foi assim que Kant tornou o ser “em si” (an sich) das coisas incognoscível, restringindo a ontologia “âmbito subjetivo e fenomênico do conhecimento humano” e estabelecendo os princípios de uma razão pura e “encerrou-se no âmbito antropológico do conhecer finito, inviabilizando a metafísica” (pag. 23) e preparando campo para o idealismo alemão.

 

Alterações indevidas no blog

23 Jan

Prezados leitores: informo que foram observadas Alteração no sitealgumas alterações de conteúdos e de design no blog que não são da responsabilidade do autor, peço desculpas se alguma coisa imprópria ou ofensiva for encontrada, mas estamos providenciando para rever todo o conteúdo. Em especial as colunas da direita do blog das categorias e dos arquivos foram alteradas, também alguns posts sumiram ou estão com conteúdo alterado.
Embora esteja em viagem, na medida do possível estou trabalhando para colocar todo o site e seus conteúdos novamente em ordem, grato pela compreensão.

 

A questão do ser na filosofia clássica

23 Jan

Seja qual for o âmbito da vida social, há um incômodo, HomemClassicoem geral, visto como econômico, de segurança, de bem estar, porém é certo que algo na civilização não vai bem.

Como se deu este processo na cultura ocidental, em especial, mas que influenciou todo mundo? É essencial respondermos isto para reencontrarmos o nosso “ser” e seu caminho.

Sabemos que toda filosofia e vida ocidental teve influência da filosofia clássica, e ela vem de Aristóteles e Platão, essencialmente, mas uma ruptura aconteceria no fim da idade média.

Conforme indica nossa autora (estamos lendo Introdução à ontologia de Mafalda F. Blanc) “vai do objeto da filosofia primeira sofrer uma notável restrição, primeiro ao estudo da substância, depois ao estudo da forma pura, tal como ela existe realizada no primeiro motor”, com isto para ela haveria “um primeiro motor” que colocaria tudo em movimento, então o ente “vai constituir-se como ciência da substância e, num segundo momento, como teologia” (pag. 18).

Assim para Aristóteles a filosofia primeira deve esclarecer “a essência da substância, as suas causas … deve centrar-se na indagação das razões ou causas das substâncias sensíveis, designadamente, na análise das suas formas e essenciais, responsáveis pela atualização das virtualidades da matéria.” (pag. 18)

Desta forma “identificando o estudo do ser ao da substância e a inteligibilidade desta ao plano da forma … “ (pag. 19) ele acabaria por dar “à filosofia primeira o perfil de uma onto-teo-logia, que constituiria, doravante o modelo meta-físico da ontologia subsequente até a crítica kantiana.” (pag. 19)

Quase no final da idade média, o monge Tomás de Aquino, ao separar o objeto da metafísica do “ente enquanto ente” que chama de “ens comune” “aos diversos analogados (Deus e as criaturas)” (pag. 19), então a separação do estudo dos “ser comum” ao conhecimento do “Ipsum esse subsistens … fim último da metafísica, porque causa absolutamente primeira não apenas na ordem da eficiência e da finalidade, mas ainda e sobretudo na ordem radical da existência.” (pag. 20)

Ao contrário da falácia filosófica, a autora Mafalda F. Blanc afirma “é esta noção de causa criadora, legado do judeo-cristianismo, que faltou a Aristóteles para dar à metafísica uma articulação e estrutura sistemática enquanto onto-teo-logia” (pag. 20).

Mas logo a frente, no início da modernidade, este quadro se romperia, continuaremos a questão.

 

Diferenças entre Ser e Existir

22 Jan

A autora que estamos lendo (Mafalda F. Blanc no seu livroSerEnte Introdução a Ontologia) explica que o verbo “ser” (ƐĨναι, esse, être, Sein) nas línguas indo-europeias, “deriva de um mais genuíno sentido existencial e só foi possível porque a este se sobrepôs como complemento um atributo nominal ou adjetivo”, e isto significa que “juízo predicativo numa asserção do tipo ´há/existe P em S’ “ (pag. 14).

Isto parece redutivo, porém “do ponto de vista semântico o verbo ´ser´ contém, sob a aparente abstração da sua forma infinitiva, uma riqueza de conteúdo bem concreta, presente ainda nas flexões verbais das línguas indo-européias, significando viver (segundo a raiz ´es´, presente nas formas ´einai´, ´esse, ´ser, ´sein´), crescer (segundo a raiz ´bhu´ presente em ´be´, ´bin´, ´fuein´, ´fui´) e permanecer (segundo a raiz ´wes´, presente nas formas germânicas ´war´, ´gewesen´ e ´wesen)” (pag. 14 da autora mas citando o próprio Heidegger).

No cotidiano percebemos a existência do ente, “sensível e retiradas pela imaginação” (pag. 14) porém pode-se abstrair e encontrar os conteúdos essenciais do ente “a espécie e o gênero”, até alcançar a determinação mais abstrata da essência, na sua pura formalidade, no dizer da autora da “abstração formal do ser, caracterizando esta pela inteleção do intimo ato de existir (actus essendi), que põe e sutém como ente concreto o sujeito de determinada essencial – como fielmente denota o juízo existencial” (pag. 15).

Isso admito como uma universalidade própria, afirma a autora, dá-se o nome de transcendental (pag. 15) mas como espécie “a unidade só retém as determinações comuns às diversas espécies, excluindo as diferenças, que se lhe acrescentam do exterior, no caso do ser, não há diferença que o possa contrair exteriormente, pois que teria ou de já ser ou de ser coisa nenhuma” (pag. 15).

O ser inclui portanto todas as diferenças, como afirma a autora, “quer dos indivíduos quer as suas determinações”, então embora abstrata, está presente em toda a humanidade, independente da cultura, quer dizer “não é, assim, um gênero máximo, a nota comum e mais abstrata de uma diversidade extrínseca de tempo que transcende … “ pag. 15.

Então as diferentes determinações, dadas por línguas, hábitos e formas de sociabilidade, enfim da cultura ainda devem permanecer em essência enquanto ser, e isto significa que aquilo que se vê na humanidade planetária é capaz de encontrar denominadores comuns, mesmo considerando o que afirma Edgar Morin (que acabo de ler), citando M. Murayama que cada cultura tem qualquer coisa de “disfuncional (defeito de funcionalidade), de misfuncional (funcionando num mau sentido), de subfuncional (efetuando uma performance ao nível mais baixo) e de toxifuncional (criando prejuízos no seu funcionamento)” (pag. 116 do livro Terra-Pátria) podemos ainda encontrar algo essencial deste “ser” enquanto Ser.

 

A pátria-mundo e o ser-no-mundo

21 Jan

Credita-se aos objetos, e também a tecnologia, a ideia que seriaNovoMundo a exterioridade que de fato impossibilitaria o homem de fazer este desenvolvimento ético, moral e assim encontrar seu ser, mas esta oposição entre ser interior e ser exterior não é verdadeira se não entendermos o que é o ser, conforme afirma Mafalda de Faria Blanc, “deixando-se ocultar e preterir pela instância das coisas em torno e a urgência da ação” (pag. 11, do livro Introdução à Ontologia, Instituto Piaget, Portugal, 2011).

Citando o filósofo Gabriel Marcel, a autora afirma “imerso na densidade do ´mistério ontológico´ … vive o homem geralmente dele alheado, preferindo, ao confronto com o enigma da existência, o refúgio junto ao que de imediato se apresenta, buscando aí um ilusório conforto contra a constitutiva insegurança de viver” (pag. 11) e portanto isto não se refere a tecnologia ou a qualquer objeto específico do mundo contemporâneo, mas a tudo.

Então o que incomoda o homem contemporâneo? responde a autora que há algumas situações “incontornáveis” que pela “via imediata do sentimento” ou outra experiência súbita “se abre e des-cobre isso que é e ” (pag. 11, grifos da autora) e no espanto, na dúvida, a admiração ou a angústia “revelando-nos já sendo no meio dos outros entes” (pag. 11).

Quer dizer nas palavras de Heidegger, o grande mestre da ontologia contemporânea, há um esquecimento do ser pelo ente, entendendo este de dois modo, como explica a autora: “no primeiro caso, significa direta e formalmente a essência, ou seja, a entidade (ousía), princípio da atividade e de inteligibilidade da coisa, conforme refere a ´natureza´ ou a ´quididade’, que é o objeto de definição” (pag. 13), ou seja, o ser como coisa ou ‘enti’-dade.

Significa que somos lançados a “ação”, onde “parte-se da essência e do seu dinamismo expressivo de possibilitação para procurar explicar a emergência da existência” (pag. 13).

Tudo muito complicado ? pense quantas vezes questionou a própria existência, e quantas vezes dentro da própria essência do seu ser conseguiu encontrar paz e felicidade, não dentro de situações de lazer, prazer e outras coisas imediatas, mas “dentro de seu ser”, nós trocamos sentimentos imediatos por serenidade, que aliás vem da palavra “ser”.

A pátria-mundo requer um “homem-mundo”, um ser mais pleno e sereno capaz de compartilhar o planeta com os outros seres.  Este processo ainda que confuso está a caminho.