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Arquivo para dezembro, 2018

Nem sim, nem não, o terceiro excluído

31 Dez

Entre os livros que não lerei estão do de William Davies sociólogo e economista político inglês, que escreveu “How Feeling Took over the world” (Estados nervosos: como as emoções dominaram o mundo) e o livro de Steven Levitsky & Daniel Ziblatt “Como as democracias morrem”, best seller do New York Times.
Além de trivialidades como a descoberta da desonestidade de políticos tradicionais, jornalistas e executivos, uma crítica a crescente fúria do conservadorismo crescente, que gera uma crise de confiança, pouco ou quase nada dizem de para onde iremos, exceção ao combate a corrupção, mas caberia a pergunta qual delas? A direita nunca foi honesta.
Entre o Sim e o Não, entre o Fora e o Fica, jamais houve terceira opção, salvo o caso da Islândia que fez uma constituição por crowdsourcing e deixou bancos e grandes empresas falirem banindo de forma prática o lixo estatal.
Portugal é um caso diferente, uma esquerda competente cria uma “geringonça”, no Brasil poderia ser uma gambiarra, mas vencer os ranços do “fora” e do “não” parece difícil, mas não é impossível, conseguiríamos dialogar, afinal tantos falam em dialogia.
A crescente onda de conservadorismo é uma bolha, o problema é o que poderá substituí-la, uma esquerda cômica do tipo da Venezuela e da Nicarágua está fadada ao fracasso, cria um Estado ainda mais forte que quer dominar todos os meandros da sociedade.
Assisti uma palestra de Florent Pasquier, da Sorbonne de Paris, que mostra que o terceiro excluído existe, partindo da lei de Aristóteles que afirma que qualquer proposição, ou ela é verdadeira, ou sua negação o é, parece neste momento histórica ter-se tornado falso.
Nem é verdade que a esquerda seja incorruptível, no caso de Portugal só esperam a condenação de Sócrates, no Brasil há controversas, mas é certo que alguém roubou de forma absurda o Estado, debaixo dos olhos da esquerda, nem é verdade que a direita vai combater.
A terceira via não é mais o purismo dos verdes, a new left ou uma direita que diz não ser política apenas “gestora”, uma terceira via deve vir de um amplo diálogo entre forças que são e podem ser ainda mais, representativas do povo de parcelas conscientes da sociedade.
Elas existem, mas a tragédia é que não dialogam ainda presas ao Sim e Não, dizem que o problema é o mundo digital que são apenas artefactos, mas o problema é a lógica destes artefactos levada ao mundo dos que devem ter consciência, ao menos que são seres dotados de consciência.
Que 2019 tenha mais dialógica, menos ranço emocional, não torcidas e claques organizadas, mas gente disposta a ouvir e conversar.

 

Black Mirror: é a bandersnatch experiência ?

29 Dez

A espectativa de lançamento do filme-evento, na verdade uma falsa iteratividade para o público pois há somente 5 finais possíveis de desfecho para Stefan, o personagem principal.
Voltemos atrás, a série Black Mirror para TV, produzida por Charlie Brooker em 2011 para a TV britânica tem lances obscuros, desconfiados e até satíricos com as novas tecnologias e para os que sabem a origem dos problemas da modernidade, pouco mergulha a fundo na sua crise.
A Netflix comprou a série e a dividiu em 12 capítulos, assisti pedaços o suficiente para ver o lado obscuro e pessimista das novas tecnologias, afinal elas ligaram o mundo e mesmo os críticos não abrem mão de celulares e de aplicativos importantes para a sociedade ubíqua.
Voltando ao filme, foi lançado ontem na Netflix e tem 5 finais possíveis para o personagem principal Stefan que a certa altura confunde a realidade e a irrealidade (virtual é outra coisa).
Os possíveis finais para o filme lançado ontem são: o mais realista é que Stefan descobre que o PAC (Program and Control) é um programa feito pelo pai que o usa desde a infância, e assim é monitorado por seu pai e sua terapeuta o tempo todo, é possível isto sem PAC algum.
O segundo final “interativo” ele descobre que foi a morte de sua mãe na infância, em um acidente que o trem se descarrilhou e que ele não foi por ter esquecido seu coelho de pelúcia e com isto ter perdido o trem, o coelho tinha sido escondido pelo pai, possível porém e o PAC?
O terceiro final possível o pai de Stefan morre, mas ao invés de enterrá-lo, escolha decide cortá-lo em pedaços, o jovem consegue escapar das acusões e termina o jogo Bandersnatch, bizarro e improvável.
No quarto final Stefan grita que alguém está o controlando, pode surgir na tela de alguns usuários o logo da Netflix (sic puro merchandising), ao escolher o computador de Stefan começa a explicar o que é a Netflix e há quase uma quebra de uma quarta parede, quem está assistindo diz que está controlando Stefan, é um passar a bola para o público.
Seguindo mais ou menos os mesmos passos anteriores, Stefan ao invés de lutar com o terapeuta, escolhe pular da janela, mas no final Stefan é um ator e recebe os créditos disto.
Dizem que há outros finais, mas a falácia é que o mundo das novas tecnologias seria uma forma de controle, ora bolas Nietzsche já reclamava do controle da sociedade muitos antes do cinema, da TV e das novas mídias, o big brother é o estado e o jogo de interesse que joga.

 

Obediência ou desobediência?

28 Dez

Um quadro confuso se iniciará em 2019, claro sempre devemos acreditar e ter esperança no melhor, mas as razões para desconfiar são muitas: desrespeito as diferenças, ausência de um diálogo claro e propositivo, terminamos o ano com a teimosia de construir um muro nos EUA e os coletes amarelos na França (são oposição mesmo?).
Porém a arrogância e o ressentimento não devem conduzir caminhos que se propõe a um futuro mais igualitário, mais solidário, respeitando a diversidade e as culturas diferentes.
Devemos ir além do Sim e do Não, imaginar Geringonças como a portuguesa, quem sabe uma Gambiarra brasileira de oposição séria, que apoie aquilo que é bom e rejeite o negativo, isto inclui discutir a sério a crise econômica brasileira, começar mesmo que o ambiente seja pouco favorável uma reforma política e a moralização do serviço público incluindo o judiciário.
Nem sempre obedecer e aceitar o que é imposto é o melhor, discordar e até denunciar quando for o caso, mas fazê-lo sempre desmoraliza o próprio conceito e validade das denúncias.
O apelo bíblico cresce, até a agora deputada Gleisi apelou ao texto sagrado, então lembro a passagem em que Jesus fica no templo para dialogar com os “doutores da lei”, e os pais ao não encontrá-lo na caravana voltam ao templo e indagam Jesus Lc 2,48: “Meu filho, por que agiste assim conosco? Olha que teu pai e eu estávamos, angustiados, à tua procura”.
Receberam uma resposta pouco obediente Lc 2,49: “Por que me procuráveis? Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?”, mas mais a frente na leitura o texto sagrado diz Lc 2,51: “Jesus desceu então com seus pais para Nazaré, e era-lhes obediente”.
Ou seja, curiosamente apesar de uma contestação em pontos essenciais, o Mestre era obediente aos pais, e diz o texto que “crescia em sabedoria, estatura e graça”.
Assim é preciso sabedoria e muito discernimento para discordar, ser oposição apenas por o ser acabará em descrédito e dando mais argumentos ao autoritarismo, é preciso cautela.

 

Filmes em 2018

27 Dez

Entre os que assisti, de melhores dramas “Infiltrado na Klan”, cujo nome em Portugal é o original Blackkksman e Bohemian Rapsody merecem destaque, além deles estão indicados “Pantera Negra” e “If Beale Street Could Talk” que está na minha lista para ver, e “Nasce uma estrela”.
Do que assisti realmente o filme do policial negro Ron Stallworth (John David Washignton) que em 1978 conseguiu se infiltrar na Ku Klux Khan, merece o prêmio de melhor filme, talvez filme com o prêmio de consolação de melhor ator.
Bohemian Rapsody bombou pelos comentários do homossexualismo de Fred Mercury, no entanto acho exagerado o contexto do filme é mostrar sua banda Queen sucesso dos anos 1970 quando a questão da vida de Fred Mercury era pouco comentada e a banda elogiada, foi mais polemico, por exemplo, a demissão de Bryan Singer substituído por Dexter Fletcher.
Entre os indicados para melhor comédia ou musical, “Podres de ricos” é boa comédia e “O retorno de Mary Poppins” é mau musical, mas indico para crianças, elas vão gostar, Green Book: O guia e “Vice” são segunda linha, se ganhar vai ser surpresa.
Entre as indicadas de melhor atriz aparece Lady Gaga, há uma fixação curiosa por ela como atriz, mas é melhor como cantora mesmo, já Glenn Close em “The Wife” e Melissa McCarthy “Can Your Ever Forgive Me?” são boas indicações, aparecem ainda a sempre lembrada Nicole Kidman “Destroyer” e Rosamund Pike em “A Private War”.
Em melhor atriz de comédia ou musical, Emily Blunt em “O retorno de Mary Poppins” é uma barbada, mas podem haver surpresas com Olivia Colman em “A favorita” e Constance Wu, em “Podres de Ricos”.
Entre melhores diretores a luta está acirrada, Bradley Cooper dirigiu “Nasce uma estrela”, Alfonso Cuaron de “Roma”, Spike lee de “Infiltrado na Klan”, Peter Farrelly “Green Book: o Guia”, e o bom diretor Adam McKay “Vice”.
Faltou “O Primeiro Homem” do diretor Damien Chazelle (la la land), que descreve os primeiros passos do homem na Lua Neil Amstrong (interpretado por Ryan Gosling), e desenvolve detalhes desconhecidos de Amstrong como a perda da filha, mostrando desde o existencial até o desejo humano de superar-se em busca do desconhecido.
Ah sim foi lembrado por melhor trilha original de Justin Hurwitz, uma consolação.
Há muitas outras indicações, é claro, mas paro por aqui os meus destaques, vamos esperar o Oscar, mas o Globo de Ouro dá boas dicas.

 

Livros que lerei em 2019

26 Dez

Sem dúvida o primeiro da lisa, já comentei em alguns posts, o livro recente de Martha Nussbaum “A monarquia do medo” (Monarchy of fear, 2018) é o primeiro da lista, se não sair logo alguma tradução no português ou espanhol vou encarar o inglês mesmo.
Um livro que faz algum sucesso em Portugal é “A vida secreta das árvores” (Pergaminho, 2016), ainda não li nem vi comentários apenas sei que seu autor Peter Wohlleben é silvicultor e promete contar muitas histórias fascinantes e até espantosas sobre as características das árvores, como suas formas de comunicação que já são admitidas pela ciência.
Há algo brasileiro interessante, muitas coisas, Clovis de Barros Filho lançou “Deuses para Clarice”, da editora Benvira, seus comentários são sempre bem interessantes, e o autor promete mergulhar no mundo das mitologias no complexo mundo do Caos, Gaia, Chronos, Afrodite e outros personagens da mitologia grega, mas através de personagens reais colocados em diálogo, a proposta é interessante e inovadora.
Para fazer minha própria aporia (meu caminho sem saída), vou ler “Uma breve história da filosofia” (2011) de um filósofo.weblog com ele se intitula, o inglês Nigel Warburton é conhecido como divulgador e popularizador da filosofia, é professor titular da Open University que é outro interesse particular e por último já escreveu sobre “A questão da arte” ( ), haverá surpresas ?
Claro tenho meus deveres escolares, em particular a epistemologia: revisão de alguns textos de Hans Georg Gadamer, Edmund Husserl, Popper e Thomas Khun, e outros que geralmente aparecem e ocupam nossa mente.
Boas leituras no ano que se aproxima, acabo de ler que o Brasil é o 5º pais mais ignorante do mundo, triste … quem sabe um dia reverteremos isto, começando por nós: ler mais.

 

Coisas desconhecidas do Natal

24 Dez

A primeira que deveria ser óbvia é que é o nascimento de Jesus, claro que a data é imprecisa, porém o recenseamento no tempo do imperador Caio Julio César Otaviano Augusto, que foi imperador de 27 a.C. a 14 d.C. é incerto a data, mas o ano é provavelmente alguns anos antes, ou seja estamos defasados de 6 a 8 anos, devido uma defasagem no calendário de Julio Cesar.
Foi o Papa Gregorio XIII (1502-1585) que em 24 de fevereiro de 1582, através da Bula Inter gravíssimas, substantiu o calendário de juliano, corrigindo-o com anos bissextos, como o mês de fevereiro que alterna para 29 dias de seis em seis anos, e os meses alternando de 30 e 31 dias, mas a defesagem do nascimento de Jesus permaneceu
O nascimento de Jesus entretanto é fato isto, ainda que a data seja incerta, pois segundo o Momentum Ancyranun, Augusto realizou três recenseamentos em seu Império.
O presépio foi criado por São Francisco de Assis, e provavelmente os animais foram inseridos pelo amor de Francisco pelos animais e pela natureza, mas a árvore veio depois na Alemanha.
Os pinheiros eram colocados no Natal na Alemanha, nele eram colocadas maçãs e pedras preciosas, as bolas vieram bem mais tarde, mas foi a Inglaterra que popularizou os pinheiros.
A Música Noite Feliz foi criada pelo padre Joseph Mohr que pediu ao músico amigo nada menos que Franz Gruber que transformasse seu poema em música, a poucas horas do Natal fez uma melodia simples para violão, a história do órgão quebrado e outras são lendas, em 1818 foi cantada pela primeira vez e tornou-se a musica mais popular de Natal.
A Música Jingle Bells foi criada por James Pierpoint em 1857, talvez por causa dela apareceram os sinos, mas as girandolas já existiam quando os pinheiros foram para a Inglaterra, ali fala de correr na neve num trenó puxado pelo cavalo, então o trenó e a neve entraram no Natal.
Em 1965 foi tocada na nave Apolo no espaço, tornando-se a primeira música no espaço.
A estátua da Liberdade, projetada pelo escultor francês Frédéric Auguste Bartholdi, foi realizada por Gustave Eiffel, embora dedicada em 28 de outubro de 1886, foi um presente de Natal do povo francês ao povo americano.
A figura bondosa do velho barbudo de Natal que doa presentes deve-se a São Nicolau, bispo católico do século IV que na Noite de Natal levava presentes as crianças mais humildes, a figura do Papai Noel (papai Natal em Portugal) deve-se a refrigerante popular, fizemos um post em anos anteriores esclarecendo a propaganda do refrigerante iniciada em 1920.

Para os cristãos é a chegada do Emanuel, o Deus conosco, a presença do divino entre os homens para nunca mais se apagar, a salvação vem não só da crença neste fato, mas principalmente na vivencia de seus ensinamentos no dia-a-dia: amar a todos, construir um mundo justo, lembrar de quem sofre e tornar o mundo melhor.

 

A ascese mariana

21 Dez

Alguém pode perfeitamente perguntar: se Deus existe porque não se apresenta logo e mostra sua cara? Seria mais fácil reconhecê-lo e aceitá-lo, ora isto foi feito, o problema é aceitar um menino Deus nascido em Belém.
Era justo, porém a espera do povo judeu no período anterior da vinda do Messias, disse o profeta Miquéias (Mq 5:2) “Deus deixará seu povo ao abandono, até o tempo em que uma mãe der à luz; e o resto de seus irmãos se voltará para os filhos de Israel”.
Quando nasce Jesus duas realidades são preparatórias, a ascese de João Batista, seu primo que o reconhecera ainda no ventre de sua mãe Isabel, quando Maria a visita já grávida, e depois de adulto João vai para o deserto, vive de comer insetos e mel, uma ascese dura e uma pregação de preparação para mudanças que viriam.
A ascese de Jesus começa com Maria grávida que recebe a saudação de Isabel (Lc 1:42-43): “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar?”.
O que dizem os exegetas e estudiosos da Bíblia deste pequeno trecho, centro da revelação e da ascese de um menino que está para nascer? O que significa a mãe do meu Senhor ?
A ascese e a revoluções deste menino-Deus começam por sua mãe Maria, que permanecerá quase em silencio em toda Bíblia, mas não ausente, a capacidade de excuta, de “vita contemplativa” que reclama o filósofo Byung-Chul Han, um mundo barulhento sem escuta.
A ascese é extremamente útil para o mundo contemporânea, e começa pela Paideia mariana, a escuta, a presença feminina no mundo machista, autoritário e ruidoso; o mundo atual precisa de silencio, abertura e aceitação do Outro.
A pintura de Fra Angelico chamada “a virgem da humildade” do pré-renascimento (1395-1455) ilustra bem esta face de Maria (foto).
A ascese de João Batista não é desprezível, foi preparação para a vinda, é preciso ir além encontrar alegria, conforto e porque não prazer na escuta, no silêncio e na meditação.
O homem que se arroga prático, activo e protagonista, precisa de parada, de recuperar os sentidos para poder sentir que é também “bendito” e não “maldito”.
Que uma nova ascese se inicie no Natal, alegria e esperança de um mundo novo.

 

Paideia mariana

20 Dez

Platão considerava a essência de toda educação, ou a Paideia: “é a que dá ao homem o desejo e a ânsia de se tornar um cidadão perfeito e o ensina a mandar e a obedecer, tendo a justiça como fundamento” (Jaeger, 1995, p. 147), isto é, torna-lo um ser social pleno e responsável perante a sociedade e defensor da justiça.

 Ainda que se possa considerar o texto bíblico como fora do contexto epistemológico clássico ou moderno, a metáfora de “parir” o mundo novo, o homem novo e por consequência uma sociedade nova é bem-vinda em tempos de crise e obscuridade.

A maiêutica socrática de onde vem as reflexões platônicas, tinham como significa “dar a luz”, “parir” o conhecimento e não ligada a paideia platônica, mas também como metáfora a ideia de vir a fora, dar a luz ao conhecimento novo do qual emergirá um mundo novo.

Hora muitos são os sinais destas dores de parto, as crises económicas, emigratórias, social e ecológica, mas também e mais profundamente a crise do pensamento.

Apenas ouvimos resmungos contra os efeitos colaterais: os efeitos líquidos, o mal uso da tecnologia, mas não penetramos na essência deste parto que é o pensamento moderno.

A paideia Mariana no texto bíblico, é sua aceitação da aporia evangélica: “faça-se em mim segundo sua palavra” (Lc 1, 38), significando a aceitação da gravidez da qual nascerá um homem novo, um menino-Deus como sua mensagem para o mundo novo.

Acreditar e ter esperança que este mundo virá, que estamos num advento da Nova Humanidade, de novos horizontes em fusão de horizontes culturais diferentes de todo o planeta, é aceitar a gravidez deste futuro “parto”, que não virá sem dores.

A pintura Natividade de Paul Gauguin, de 1896, mostra um Jesus inculturado do Taiti.

Esperança num mundo novo, as culturas em contato e em conflito serão fermento e só com elas se poderá formar uma humanidade planetária, uma dialogia planetária nova.

A terra-patria descrita por Edgar Morin, necessita de um homem novo: um homem-mundo.

Jaeger, Werner. Paidéia, a Formação do Homem Grego. São Paulo: Martins Fontes, 1995, p. 147

 

Uma Maria mais humana

19 Dez

Uma menina de 15 anos fica sabendo que vai ser mãe de uma maneira difícil de compreender, apesar de ser profundamente religiosa, e ter coragem de assumir aquilo que para ela era uma Vontade de Deus, certamente ficaria abalada, como de fato ficou, diz a leitura bíblica Lc 1, 27-28:
“O anjo, aproximando-se dela, disse: “Alegre-se, agraciada! O Senhor está com você!”
Maria ficou perturbada com essas palavras, pensando no que poderia significar esta saudação.

Ela diz não conhecer (ter se relacionado com) homem algum, então o anjo explica Lc 1,35:
“O Espírito Santo virá sobre você, e o poder do Altíssimo a cobrirá com a sua sombra. Assim, aquele que há de nascer será chamado Santo, Filho de Deus”.
Diante da perplexidade da adolescente, o anjo lhe dá uma chave de leitura Lc 1,36:
“Também Isabel, sua parenta, terá um filho na velhice; aquela que diziam ser estéril já está em seu sexto mês de gestação.”
“O anjo respondeu: “O Espírito Santo virá sobre você, e o poder do Altíssimo a cobrirá com a sua sombra. Assim, aquele que há de nascer será chamado Santo, Filho de Deus.”
E diz aqui que é usado por religiosos em diversos contextos e não deveriam ser Lc 1, 37:
“Pois nada é impossível para Deus”.
Curiosamente é quase sempre quem usa o texto bíblico os que menos acreditam que Maria era especial, aos olhos de Deus e dos homens, mas também há aqueles que não veem a fragilidade e as dúvidas desta jovem adolescente que vai em corrida a casa da prima, justamente pela chave de leitura dada pelo anjo: “também Isabel, sua parenta, terá um filho na velhice”, e provavelmente isto instigou Maria a visitá-la (na foto o quadro Visitación de Rafael de 1517).
Diz a leitura seguinte, que dias mais tarde, Maria foi “apressadamente ás terras montanhosas da Judeia”, a vila onde morava Isabel, grávida de João Batista, o precursor de Jesus e Zacarias seu marido que ficara mudo ao saber da concepção.
Ora Maria até este momento não entoara seu canto, o chamado Magnificat, e é muito provável que seu coração ainda tinha dúvidas e conservava parte do abalo inicial.
Diz que assim que Maria saudou o a prima, o menino de Isabel (João Batista) saltou no seu ventre, e Isabel ficou “cheia do Espirito Santo”, ora falamos no post anterior o papel deste Deus pouco compreendido, o Espírito Santo.
Assim como a relação ontoantropológica com Eva, há uma relação ontoteológica com Izabel, sua prima, e só então Maria entoa seu canto Lc 1,46-48)
“Disse então Maria: A minha alma engrandece ao Senhor, E o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador; Porque olhou para a humildade de sua serva; Pois eis que desde agora todas as gerações me chamarão bem-aventurada”, que é um proto-evangelho de Maria, de onde se pode tirar também relação com a Ave Maria dos católicos, que tem referência bíblica Lc 1,42.

 

Uma visão não maniqueísta de Maria

18 Dez

Maria é a mãe de Jesus, mulher sem mácula, mãe de Deus (Teotokos) voltaremos no próximo post, aqui desejamos explorar sua relação coma Eva, a primeira criatura criada, o sentido metafórico é evidente para não criacionistas.
O que é o mal em Eva, a maçã que comeu oferecida pela cobra, também o sentido é metafórico, o mal para evolucionistas é o longo caminho que percorreu a humanidade, as lutas as guerras, irmão contra irmão, homem contra o homem, as guerras que muitas vezes tornou-se ódio e violência no sentido mais cruel e desumano da palavra.
Portanto o mal existe, como mal ontológico, é possível que o homem dentro de uma estrutura que seja hostil a sua existência pratique o mal contra si, contra os outros e contra a natureza.
Diz o genesis, “mas Deus criou tudo e viu que era bom” (Gn 1:31), quer dizer caminhamos para uma nova realidade onde será possível viver sem guerras, e ver “céus novos e terras novas”, mas isto é missão humana, a intervenção divina é sobre o “extra” ordinário, podemos no mundo atual construir uma terra onde não hajam mais fronteiras, uma terra-mundo.
Uma pintora mística americana pintou Maria assim (foto), em relacionamento com Eva, onde Maria pisa na cabeça da cobra que dominara Eva, ambas se relacionam, e Eva cansada e triste toca o ventre de Maria grávida, onde um menino vai nascer.
A pintora chamou o quadro de “Virgin Mary Consoles Eve”, o consolador por excelência no sentido bíblico é o Deus Espírito Santo, talvez o menos claro e conhecido pelos hermeneutas e exegetas, alguns o confundem com a clarividência, outros com o próprio sentido do batismo.
Um pouco de exercício de exegese ajuda a compreensão, diz Jesus quando eu for enviarei o Paráclito, o defensor, ou ainda, o Espírito Santo habita em nós, neste sentido o batismo é o início de um processo, preferimos a hermenêutica de relação entre o Pai e o Filho.
A era que vivemos é da comunicação global, de relação, e só é ruim quando não há relação, colocar Eva e Maria “em relação” é superar esta barreira, ou seja, o tempo das divisões.
Também a divisão entre bem e mal é ruim, existem guerras, violência e injustiças, mas o contato e a relação transforma ou pelo menos inicia o processo de transformação.
A falta de contato é quase sempre um indicativo que o mal vai se prolongar ou aumentar, os métodos de violência na história da humanidade construíram a história, mas não sem ressentimentos e revides, é tempo de mudança sem violenta, pela educação e consciência.
O advento que esperamos neste Natal e para o ano que se inicia é o advento da Paideia, da educação humanística sem violência ou imposições, aliás Paideia do grego vem de parir, o fruto do ventre de Maria que Eva toca, o novo que há de vir, o Advento do Natal.