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Arquivo para janeiro, 2019

A verdade em tempos de crise

31 Jan

A nova consciência hermenêutica, que procura estabelecer diálogos entre pré-conceitos, tornou o homem ora mais vulnerável a uma crise do pensamento, ora mais ortodoxo e rígido predisposto a intolerância, a uma verdade da “Monarquia do Medo” como define Martha Nussbaum em seu novo livro, favorável ao fechamento nas ditaduras e extremos atuais.
Mas o que é esta nova consciência ? define-a Hans Georg Gadamer assim: “consciência hermenêutica, que deve ser despertada e mantida desperta, reconhece que, na era da filosofia da ciência, a reivindicação de superioridade tem algo de quimérico e irreal sobre ela.” (GADAMER,  1997)
E acrescenta: “Mas embora a vontade do homem esteja mais do que nunca intensificando sua crítica do que fazia antes, a ponto de se tornar uma consciência utópica ou escatológica, a consciência hermenêutica procura confrontar essa vontade com algo da verdade da recordação: com o que ainda é e nunca mais real.” (Gadamer, 1997), ou seja, uma a-lethe (a Aleteia dos gregos), ou o não esquecimento (ou conhecimento da história).
O foco da subjetividade em oposição a objetividade é a verdadeira janela escura (Black Mirror fala apenas da cultura digital que tem apenas 30 anos), veja o que diz o hermeneuta: “O foco da subjetividade é um espelho distorcido. A autoconsciência do Indivíduo é apenas uma oscilação no circuito fechado da vida histórica“ (Gadamer, 1997), lembrando que autoconsciência é o grande construto hegeliano em substituição à consciência histórica.
O que acontece com a cilada história que nos metemos é além da crise do pensamento idealista e científico, os métodos neopositivistas estão ai, é fato que não conseguimos refletir de modo sobre a vida prático para a qual a má teoria se reivindica, a ausência da phronesis.
Para Gadamer, a Phronesis, ou sabedoria prática, emergente entre o ethos e o logos, diria indo mais além uma ontoética que admite a ontologia no Ser coletivo e no terceiro excluído entre o eu e o nós.
Afirma Gadamer sobre esta ontoética: “O entendimento não ocorre quando tentamos interceptar o que alguém quer nos dizer alegando que já o sabemos” (Gadamer, 1997), isto ocorre quando estabelecidos os pré-conceitos somos capazes de abertura a um verdadeiro epoché, que nos leva a uma fusão de horizontes e reorganiza o discurso.
Isto é muito difícil hoje, mas não impossível, se houver um mínimo de confiança entre dois discursos, mas a ciência positiva, o dogmatismo, o fundamentalismo e outros ismos não admitem isto, estão entrincheirados em sua “autoconsciência” que arrogam prática (apenas empíricas em geral) ou coletivas (círculos fechados muitos vezes).

GADAMER, H.G. Verdade e Método. tradução de Flávio Paulo Meurer. – Petrópolis, RJ: Vozes, 1997. (pdf)

 

Verdade e diálogo

30 Jan

A falência dialógica e o crescimento da polarização política em nosso tempo, que tem como vítima a própria democracia, vem da ausência de pensamento hermenêutico que é essencialmente dialógico e paradigmático (no sentido de encontrar a fusão de horizontes) e um beco sem saída para os discursos ortodoxos.
A fenomenologia traz desde o princípio a questão de fazer um vazio para ouvir o Outro, o que os gregos chamam de epoché, ou a suspensão dos juízos sobre as coisas, o que pode parecer parecido com o cogito cartesiano, mas não o é, Husserl esclareceu isto em meditações cartesianas, que já fizemos alguns posts aqui.
O epoché é a chamada redução fenomenologia, é olhar uma coisa mudando os óculos (figurativamente é claro) para enxergar a essência das coisas, algo difícil nos dias de hoje, onde a aceleração dos juízos e dos pré-conceitos não permitem uma meditação, contemplação ou relação dialógica verdadeira, o que se chamou no post anterior de verstehen.
Uma vez que o diálogo depende de um círculo hermenêutico que envolve a relação com os nossos pré-conceitos, visto como positivo aqui é importante isto, significa que devemos fazer calar os nossos pré-juízos sobre as coisas que serão ditas e nunca optar pelo: isto não !!!
O problema central da filosofia racional-idealista da modernidade é que separou sujeito de objeto e isto foi para o dia-a-dia da cultura religiosa a mais alta filosofia acadêmica, as “coisas” são “impuras” e no entendo o mundo da vida (lebenswelt de Husserl), a visão de mundo (o que Heidegger chamou de weltanschauung) significam retornar as “coisas” como elas são.
O próprio conhecimento não é outra coisa que esta relação interprete-coisa: “O conhecimento, ou seja, o ato de eu dar ao mundo um caráter inteligível, se dá, portanto no encontro entre a consciência e as coisas” afirmou Husserl, explicando o que é ir a “coisa” mesma.
Ora nossos conflitos envolvem não apenas as relações humanas, como como elas se dão na relação com as coisas: o dinheiro, a saúde, o trabalho, os alimentos, a própria natureza (incluindo a nossa própria), a comunicação (que não nasceu no mundo digital), enfim quase tudo envolve a relação com a coisa e nossa consciência disto.
O diálogo, considerando os pré-conceitos, com a possibilidade de fusão de horizontes (que não é necessariamente o consenso), é fundamental em tempos de crise e de pré-conceitos.

 

A verdade tem um método ?

29 Jan

O objetivo de Gadamer em sua obra Verdade e Método (Gadamer, 1997) era de recriar o conceito de compreensão (Verstehen), que significava entender o conhecimento como o que tem como um atributo da experiência de mundo do ser humano, compatível a visão de mundo de Heidegger e que fez a partir de dois pressupostos, parte o conceito de Lebenswelt (mundo da vida) de Husserl, e a crítica da separação idealista que dividia o sujeito cognoscente, sendo que este já é objeto no mundo; daquilo que é o objeto de conhecimento.
Na sua definição de fenomenologia como hermenêutica através da retomada do sentido do ser no Dasein, que ficou conhecida sob o nome de hermenêutica da facticidade.
As ciências naturais, entendo-as como as matemáticas, físicas e químicas, faço restrição as zoológicas e biológicas, podem ser explicadas enquanto esclarecimento (já era o termo do iluminismo) ou entendimento, por causa de sua natureza lógica, o termo em alemão é erklären, enquanto a sociologia e a histórica passam pelo entendimento (verstehen) introduzido na filosofia pelo historiador filósofo alemão Johann Gustav Droysen (1808-1884), e adotado por Hans-Georg Gadamer.
Mas este termo é uma visão ampliada de entendimento uma vez que inclui o Outro, pois também está contido nele os sentidos de empatia e diálogo, é, portanto, uma ampliação do conceito de Heidegger de Weltanschauung, composto de Welt (‘mundo’) e Anschauung (visão, contemplação, ponto de vista ou convicção), de Cosmovisão ou visão de mundo.
O método então proposto por Gadamer é a explicitação do círculo hermenêutico já proposto em Heidegger, mas agora com a superação da historicidade idealista de Dilthey e a incorporação do Outro (verstehen) no mundo da compreensão.
Podemos dizer que admitindo a visão de mundo do Outro é possível um círculo hermenêutico que nos conduza a verdade, o problema do idealismo contemporâneo é que o Outro seguirá o conceito de Autoridade, as referências lógico-dedutivas que incorporam determinados dogmas ou círculos dogmáticos sem incluir o Outro.
Porém é preciso distinguir que entre dois discursos sem facticidade hermenêutica há conflito.

GADAMER, H.G. Verdade e Método. tradução de Flávio Paulo Meurer. – Petrópolis, RJ: Vozes, 1997. (pdf)

 

Sem noção e meias verdades

28 Jan

O fato que tudo possa ser mera “opinião” é que cria e desenvolve o sem-noção, termo popular para falar da doxa, o que era mera opinião sem um conhecimento organizado que fundamente e torne séria determinada opinião sobre assuntos, o que é chamado episteme na antiguidade clássica.
O fato que a verdade quase sempre permanece encoberta é que estamos em busca da re-velação, embora a use também, se atentarmos para o termo significa velar de novo, e não des-velar, tirar o véu, a antiguidade clássica também tinha um nome para isto: a-letheia (lethe, “esquecimento”), a como negação significa: não esquecer.
Revelação está mais próximo do que Aristóteles chamou de endoxa (ἔνδοξα), ao contrário de Platão que considerava a doxa mera opinião, Aristóteles a revaloriza entendendo que muitas das crenças e opiniões populares pode vir de consenso de sabedorias antigas, como diz no meio popular, nossos pais “sabiam das coisas”.
Pode-se encontrar na obra Tópicos traduzida do grego por Jacques Brunschwig (1967), uma definição direta de Aristóteles:
“Endoxa, por outro lado, são aquelas [opiniões] que se baseiam no que pensam todos, a maioria ou os sábios, isto é, a totalidade dos sábios, ou a maioria deles, ou os mais renomados e ilustres entre eles”. (Aristoteles, 1967, 100b20-22).
O fato que um conjunto de opiniões viram as chamadas “lendas urbanas”, para isto estou recorrendo ao termo popular sem-noção, é que determinadas verdades ditas de modo bastante incisivos e persuasivos tornam-se meias-verdades públicas, e assim tem necessidade de um desvelamento, mas a raiz disto está no pensamento e não nas mídias, que servem apenas de veículos propagadores de ideias, que também os jornais, rádios e TVs já fazem.
Na década de 20 Karl Kraus, um dramaturgo que escrevia contra o mau jornalismo, a serviço de meias-verdades e a favor de interesses bem determinados mostra que o fato é antigo, mas qual a origem ? Vejo duas bem claras.
Primeira uma episteme, os saberes construídos mesmo em academias e livros com muito pouca historicidade, usam-se aforismos (Karl Kraus tem um livro com este nome, mas dizia que eram meias-verdades ou mais que verdades), a própria organização do conhecimento com vícios de logicismo e visão unilateral das questões, devido a pouca transdisciplinaridade dos discursos.
Mas há uma razão pública, além da epistémica que é mais profunda, gostamos de omitir opinião sobre tudo e pensar pouco, aprofundar sobre certo tema ficou “fora de moda”, ou seja, a preguiça mental leva-nos a isto (as novas midias são posteriores ao fenômeno de superficialidade), não há como ser profundo sem duvidar do próprio pensamento, ser ouvir o outro, sem abrir-se a conhecimentos novos que acontecem todos os dias.
O já sei no que vai dar, já sei o que pensa ou não vale a pena estudar, ler e aprofundar, levou a uma cultura sem noção, pouca profundidade, imediatismo e isto não tem nada de líquido, é uma sólida ignorância, as vezes militante e relutante a abrir ou desvelar, fica no re-velar.
Aristóteles. Topiques. Tome I: Livres I-IV. Texte établiet traduit par Jacques Brunschwig. Paris, Les Belles Lettres, 1967

 

Pequena história da verdade

25 Jan

“A verdade não está com os homens, mas entre os homens!” esta frase seminal do filósofo Sócrates já trás em si duas partes da verdade, não confundir com meias verdades, a primeira é que ao estar nos “homens” significa um argumento onto-lógico e não apenas lógico, e a segunda que estando “entre” não poderá estar com apenas um homem, é preciso dia-logo, ou seja, dois lados.
Assim procedia Sócrates ao perguntar (o seu método), porém a própria questão é se perguntar não será apenas lógico, ou seja, a pergunta pode já fazer parte de uma resposta, enquanto qual é a pergunta para se ter a verdade?
Depois de Sócrates, Platão e Aristóteles se destacam sobre a verdade, Platão fará diferença entre a Doxa (em grego: δόξα) que é a crença comum ou opinião popular e embora seja diferença da Episteme (ἐπιστήμη) como conhecimento, levou a uma clássica oposição de erro á verdade, que tornou-se de grande interesse a filosofia ocidental.
Episteme de onde vem epistemologia é o conjunto do conhecimento construído metodologicamente, mas também não é apenas lógica, sua pretensão é criar campos de relações, continuidades e descontinuidades entre práticas discursivas.
Aristóteles vai acrescentar o conceito de “endoxa”, crenças que podem ser sustentadas por sábios ou pela tradição para reconhecimento das crenças da cidade, ela é testada e portanto mais estável que a “doxa” convencional.
Ao final da idade média debatiam-se nominalistas e realistas, sobre a existência de universais e particulares, sendo a verdade enquanto realidade tendo apenas particulares ou tendo a possibilidade de encontrar universais, por exemplo, se todo homem é um animal, então um homem particular é um animal.
Será a ideia que existem universais que construirá o iluminismo moderno, mas sua base de verdade é racional e também existencial, posso duvidar de tudo, mas não de que existo, ou seja, para a própria ação de duvidar é necessário que eu exista.
Mas o racionalismo leva a duvidar da existência exterior, a clássica divisão corpo e mente, Imannuel Kant afirma que as percepções dos sentidos são posteriores à experiência enquanto é necessário um a priori universal, usando o argumento dos realistas, chama-o de juízo analítico enquanto os primeiros são os sintéticos, feitos a partir da junção de informações.
O ápice do idealismo é Hegel, que estabelece vários conceitos ideais: o estado, o espírito e a ética, porém a crise da modernidade retornará a velhos dilemas: a linguagem, o discurso e o que é a coisa ou o Ser, há então três reviravoltas: a linguística, a ontológica e a do “sagrado”.
Karl Klaus (1874-1936) já reclamava sobre a verdade no meio jornalístico, é verdade que a indústria cultural movimentou massas, e as Mídias de redes agora também, mas e a verdade?
A grande revanche do sagrado no cristianismo, ocorre quando Jesus ao fazer a leitura numa sinagoga abre a passagem de Isaías 61: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa-nova … “, e disse hoje se realizou esta profecia.
A busca dos fundamentos perdidos, de formas de espiritualidade (as vezes bizarras é certo), de nova forma de conforto para a alma humana em tribulação não é outra coisa: ausência de uma verdadeira transcendência que leva a “clareira”, a “revelação” e ao desvelamento da verdade.

 

A vida imita a Ficção Científica ?

24 Jan

Sim, já que para a sétima arte e também para a literatura da ficção científica esta é arte.
A questão é que boa parte da ficção não se realiza, o clássico Odisseia 2001 de Stanley Kubrick, baseado no livro de Arthur C. Clarke, não previu os portáteis em 2001, nem as midias de redes sociais, o próprio filme Redes Sociais contém um equívoco já no nome, pois é só uma midia e grandes questões das redes como os 6 graus de liberdade, mundos pequenos e laços fracos não são sequer lembrados.
Também o clássico Blade Runner e sua nova versão Blade Runner 2049 ainda tem a pergunta do teste de Turing, como diferenciar uma máquina e um ser humano por suas reações é mais um questionamento existencial-ontológico que ficcional, o que a crítica pouco percebeu é que as máquinas continuam tentando iludir o caçador de androides e ele continua a eliminá-las sem romper com sua própria crise existencial humana.
Fica a pergunta do autor Philip K. Dick do livro que inspirou o filme “Androides sonham com ovelhas elétricas? Será que sonham, terão experiências existenciais como no filme A.I., ou sairão do mundo das máquinas, para afirmar sua “humanidade” humanoide como filme Ex-Machina?
É fato que desde Júlio Verne, passando pelo filme Metrópolis, as séries Perdidos no Espaço e Jornadas nas estrelas de grande sucesso na TV em seu tempo, trouxeram novidades como os transmissores celulares, e quem sabe num futuro próximo o teletransporte, pois os hologramas já estão aí, mas ainda são apenas artefactos de transmissão.
Depois de anos seguidos de filmes de ficção científica: Gravidade (2013), Interestelar (2014) e Ex-Machina (2015), Perdido em marte (2015), A chegada (2016), It (2017), Blade Runner 2049 (2017), a ausência de 2018 talvez seja o que justifique a indicação do filme do super-herói Black Panther ao Oscar 2019 de melhor filme, faltou inspiração mas não imaginação.
A imaginação sobre o futuro continua a nos providenciar artefactos para a vida real, mas a vida real segue seu drama existencial, em tempos de ira e de ameaças de retorno ao passado, vale a pena pensar o que será o futuro, mesmo que seja apenas de artefactos e não da vida real, esta segue seu drama, ainda que Uma Dobra no Tempo (Wrinkle Time) com a excelente Oprah Wrinfey ficou devendo em efeitos e cenários.

 

A ilustre casa de Ramires, a venda

23 Jan

Este romance no mais maduro e também típico de Eça de Queiroz porque reflete sua técnica narrativa em uma linguagem um pouco arcaica, faz uma trama bem pensada na qual traz aspectos de Portugal do século XII, um povo heróico e até violento, e outros aspectos de Portugal do século XIX já com feições modernas.
A trama usa para isto uma técnica surpreende, usando um conto do século XII, o período heróico de Portugal e uma realidade do século XIX, em contraste.
O jovem Gonçalo Ramires procura através da política e de viagens para a África arranjar a vida, depois de reconstruir suas finanças retorna a Portugal e vai incorporando a estrutura e os valores de seus ancestrais, neste ponto Eça de Queiroz retrata os antepassados
No Seculo XII viveu Tructesindo Mendes Ramires, narrado como de espírito integro rígido e audaz e vai vingar seu filho Lourenço que viu morrer no alto da sua torre em uma emboscada de Lopo de Baião, antigo noivo da filha e traidor de Ramires e do rei Sancho I.
A história é de certa forma revivida pelo jovem Ramires que vê a irmã Gracinha Ramires que vê o ex-noivo a acedia-la e esta acaba casando-se com o inocente Barolo, revivendo o problema de seus antepassados.
A casa de Ramires existe na vida real, inclusive a famosa Torre, e está em ruínas e a venda é a notícia em Portugal, a Casa da Torre da Lagariça, em Resende (de Portugal), norte de Portugal na região de Viseu, está a venda por valores perto de 1 milhão de euros.
Vou quase todo dia a Confeitaria Cister, local predileto de Eça de Queiroz, perto de onde trabalho, brinco que não o encontro ali … mas sua alma e pensamento parecem presentes.

Queiroz, Eça. A ilustra casa de Ramires. Primeira versão em 1900  (em epub, em pdf).

 

Para onde vai a Europa ?

22 Jan

Três assuntos tomam conta do noticiário europeu: as próximas eleições do parlamento europeu no final de maio, a saída do Reino Unido em março e os coletes amarelos na França.
Enquanto isto realiza-se a conferencia em Davos que parece pouco se incomodar com estas questões, as ausências da França, do Reino Unido e dos Estados Unidos mostra algo estranho.
Em relação as eleições europeias, a situação frágil de Makron na França e o mandato de Merkel chegando ao fim deixam incerteza, menos na Alemanha onde uma nova líder parece ter surgido, a nova líder dos União Democrata Cristã Annegret Kramp-Karrenbauer (AKK) eleita com 99% dos votos e poderá se tornar a próxima chanceler alemã em 2021.
“Aprendi que a liderança tem mais a ver com a força interior do que com o barulho que se faz no exterior”, diz AKK (na foto com Merkel) que rejeita o titulo de “mini Merkel” que diz que não diriam isto de um homem, é mais dócil e mais decidida que Merkel, tem 3 filhos e o marido a acompanha sempre.
Dois partidos europeus lideram o bloco o PPE (Partido Popular Europeu que são no fundo os democratas cristãos) que tem 265 deputados e o S&D (Socialistas e democratas progressistas) com 184 deputados, mas a direita com os liberais e reformistas promete crescer, basta olhar o cenário dos países e a saída do Reino Unido, que será em março.
França e Alemanha lideram em número de deputados, tem respectivamente com 96 e 74 deputados de um total de 751, aliás a líder alemã AKK fala bem o francês, e este bloco é fundamental para combater a onda nacionalista que pode fragilizar a união europeia.
O Brexit, a saída do Reino Unido cada vez menos unido e mais fragmentado por causa da saída da União Europeia afeta o bloco europeu no sentido que pode criar uma onda e também porque possui significativo número de deputados de centro esquerda devido a sua posição trabalhista ainda muito forte num Reino Unido dividido pelo próprio Brexit.
Os coletes amarelos parecem organizados demais para representarem de fato alguma contestação social, para alguns analistas parece algo orquestrado para fortalecer um novo tipo de nacionalismo que pouco ou nada tem a ver com a população de fato, guardadas as devidas proporções, lembram um pouco as manifestações de 2013 no Brasil.

 

A voz na Web, volta da oralidade primária?

21 Jan

Escrever pode estar com dias contados na Web, fomos da cultura oral para a escrita e para a eletrônica, agora podemos estar voltando a cultura oral ou fundindo as três galáxias ? nome dado por McLuhan a estas três formas históricas de comunicação.

As mudanças de IoT (Internet of Things, das coisas) prometem uma maior comunicação pela voz, relógios inteligentes, eletrodomésticos inteligentes prometem maior interação e controle por voz, as gigantes Google, Amazon e outras estão investindo neste mercado.

Seus dados estarão mais e mais disponíveis pelo comando de voz, o último evento CES (Consumer Eletronic Show) de Las Vegas apontou nesta direção (veja o post).

Os assistentes de voz nada mais são do que inteligências artificiais que responde a comandos de voz dos consumidores, pequenas tarefas como pedir músicas, perguntar o tempo e a temperatura estarão cada vez mais disponíveis no mercado, o touch vai ser substituído aos poucos.

O limite é o que acontece no fime “Ela” onde o usuário apaixona-se por seu assistente de voz, e no plano da fantasia os filmes AI e o Ex Machina, onde a robô amante do seu criador, o aprisiona e o condena a morte e sai do seu “laboratório” para a vida comum.

Os dados já são claros, o site Recode afirma que 70% já usam para música, 64% para saber o tempo e 53% para fazer perguntas divertidas.

Ainda que as estatísticas mostrem que a maioria das pessoas estejam satisfeitas com os assistentes de voz, tais como o Alexa, Google Assistant Conect, o Cortana e a Siri, a maioria fica preocupada quando imagina que suas conversas podem ser ouvidas e armazenadas.

Mas o futuro chegou? novos tecnoprofetas aplaudem séries como Black Mirrow, a Netflix fez um filme recente sem sucesso, o filme Ela, AI e Ex machina que faze um discurso pessimista, mas nem imaginam o que está por trás dos algoritmos e nas nuvens de dados.

 

Da água para o vinho

18 Jan

Os artefactos humanos não são em si maus, ainda que hajam perigos.
O fato ocorrido nas bodas de Canaa na Galileia, o primeiro milagre público de Jesus, antecipando o seu tempo de vida pública, a pedido da mãe Maria, trás pelo menos três constatações não fundamentalistas que saltam os olhos, a primeiro evidente é o vinho.
Jesus gostava de vinho, o fato narrado em João (Jo 2:1-11), significa que o Mestre não só gostava de festas e vinho, mas também o queria em boa quantidade, a ponto de responder ao pedido da mãe, mas não sem antes contestá-la, a segunda evidencia não fundamentalista, disse a mãe (Jo 2,4): “Mulher, por que dizes isto a mim? Minha hora ainda não chegou”.
Não há dúvida que a bebia causa não apenas acidentes de transito, brigas e confusões como chega a desagregar família, o alcoolismo e a dependência são uma doença é claro, mas há quem saiba beber e estabelecer limites para suas ações após a bebida.
Porém o fato mais fundamental é que ao escolher o vinho e mais tarde o pão para deixar sua memória, significa que não apenas usa os filhos da natureza ou da terra, mas os artefactos, ou seja, aquilo que preciso da interferência humana para tornar-se alimento, o trigo transformado em pão, a uva transformada em vinho.
Isto significa que a natureza espiritual “divina” não nega e ao contrário valoriza o trabalho e o fruto das mãos humanas, não dessacraliza o humano, mas ao contrário ao valorizá-lo torna-o mais digno, e poder-se-ia dizer mais divino.
Assim cada artefacto humano produzido em função de um bem da humanidade, traz em si já uma dignidade e uma valorização que não devem ser desprezadas, não havendo, portanto, separação, ou se houver é ténue, entre o que é sagrado e o que é humano.
A ascese desespiritualizada do mundo contemporâneo nada mais é que “uma vida de exercícios” como diz Peter Sloterdijk desprovida de sentido humano no sentido mais profundo, até mesmo daquilo que entendemos por alegria e prazer.
Foi o esvaziamento do sentido de Ser que levou a uma espiritualidade idealista e fora do sentido da vida, transformá-la da água para o vinho significará, portanto, entender que o vinho veio naturalmente da água e precisou do artefacto humano para transformar a uva esmagada em vinho e depois servi-la como dádiva dos deuses.