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Arquivo para janeiro 11th, 2019

A ideia de ser e o puro ser

11 Jan

Enquanto a ideia de ser fica limitada apenas ao Ser-coisa, embora existente permanece idealizado e separado da própria “coisa”, natureza e substância que também é, o Ser-em- relação só existe enquanto a existência do Outro, senão não há relação, e a forma básica de relação é a linguagem.
Se admitimos a existência do Ser, como diria a filosofia existe algo e não o nada, que não é um porque (porque existe algo, por exemplo), uma uma ex-sistência que vai redefinir o que Freud havia chamado de inconsciência, segundo J. Lacan vai precisar: “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”, portanto é forma primária de relação, mas a linguagem não se limita a ela.
Como Lacan a define há três formas de registros – real, simbólico e imaginário, segundo a tríade freudiana: a inibição, o sintoma e a angústia, o inconsciente conforme Lacan habita um lugar inusitado, um lugar da ex-sistência em um plano de três consistências aplainadas conforme o esquema dos círculos ao lado, pela tragédia do fim da vida de Lacan pouca gente se dá conta de sua precisão, veja o esquema proposto acima.
O que é o ex-sistente ? Disse Lacan: “se define, em relação a uma certa consistência , se afinal de contas não é senão esse fora, que não é um não dentro, se essa ex-sistência é de alguma maneira isso ao redor do qual se evapora uma substância, (…) , disso não resulta menos que a noção de uma falha, que a noção de um buraco ainda em algo tão extenuado que a ex-sistência conserva seu sentido, que já lhes disse (….) que há no Simbólico um reprimido, há também no Real algo que faz buraco, há também no Imaginário”, o que de certa forma aproxima-se de Freud e não escapa de seu psicologismo.
Esta definição ainda que criticamos o seu psicologismo, aproxima-se do sentido ontológico Heideggeriano, existe fora, e aqui podemos dizer fora da consistência, ou seja, pois não é como afirma o próprio Lacan um é “não dentro”, na linguagem idealista separando sujeito de objeto, o ex-sistir existe em uma posição de ex-centricidade, no sentido de relação a algo, no dizer psicológico de Lacan “o um que cai da definição de outros lugares, mas que a eles não está incorporado”, aqui subsiste o dualismo.
A ideia de resistir a ideia de puro Ser, que significa existir Deus que é centricidade e extrapola a ex-centricidade e a justifica, porque o Ser é na filosofia antiga, e no sentido ontológico atual “não ser” também é criando uma terceira hipótese ao terceiro excluído da lógica idealista: o Ser é e Não-ser não é.
A má relação com os objetos através da transcendência idealista é aquela que faz uma separação entre sujeitos e objetos, típica da sociedade moderna, sendo também uma deturpação da relação com os objetos (dinheiro, objetos pessoais e as coisas da natureza) sendo e como religião tem equívocos, que justifica a desigualdade social e até mesmo a “sacralização” da relação com estes, como se riqueza fosse “presente de Deus” e não uma contingência humana.
O esquema proposto por Lacan embora válido possui uma lacuna ontológica, pois se de um lado podemos relacionar o Real, o Imaginário e o simbólico, aquilo que pertence somente ao imaginário-simbólico é na verdade fantasia humana, existe enquanto possibilidade Virtual, mas não se atualiza.
O Virtual é o Real passível de atualização, neste sentido é “Virtus” aquilo que pode existir enquanto Ser, mas que ainda é só presente, para ser real precisa se atualizar.
Esta lacuna surge daquilo que é novo, que ainda é potencial no sentido da ontologia antiga, e que é virtual no sentido da ontologia do fenômeno, pode fazer pouco sentido pois faz parte ainda do imaginário, tendo uma representação simbólica primária (poderá ter várias reinterpretações) e está no plano do inconsciente tanto da rejeição como da inibição pelo desconhecimento da novidade.
LACAN, J. O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1979.