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Arquivo para fevereiro, 2021

A ascese da alma

26 fev

Vivemos tempos em que mesmo o pensamento organizado sofreu desvios e quem desejar encontrar a verdade terá dificuldade, a grande maioria das pessoas busca a ascese através daquilo que Peter Sloterdijk chama de “vida de exercícios”, receitas de como ter uma vida boa, em geral, apenas a financeira, mas em muitos casos também o cuidado com a alimentação e com o corpo e para ai, como fica a ascese da alma e onde encontra-la é a questão.

É certo que há aqueles que nem mesmo acreditam que existe a alma, porém vivem num desconforto de se apegarem apenas as coisas que passam e nunca encontrarem a que não passa, o desenvolvemos esta semana é a ascese do encontro com o Outro, aquele que não é o espelho.

As torcidas organizadas deste ou daquele tipo, desta ou daquela forma de espiritualidade, desta ou daquela corrente estão em busca apenas do espelho, alguém que pensa e que vive o modelo de ascese vinculado apenas a um grupo, por esta razão como são excludentes, não são um modelo para todos e não podem ser uma verdadeira ascese.

Mesmo em termos de religião, aquele que “ama a Deus que não vê e não ama o irmão que vê, é mentiroso” (Jo 1:4,20) também outras religiões têm fórmulas parecidas que se resumem na chamada “regra de ouro”, não fazer ao Outro aquilo que não gostaria que fosse feio a você.

Os mercados e shoppings lotam em tempos de pandemia, aparentemente até mais que em tempos normais, claro quando estão abertos e é permitido, as pessoas buscam lá o que uma falsa ascese deu, ou seja, uma vida de exercícios, neste caso de consumo.

Assim os tempos serão mais duros, e com mais dificuldade de encontrar a verdadeira paz que é aquela que nos leva ao alto, afinal ascese significa elevar-se, subir e chegar a uma região de conforto da alma, não material e nem mesmo aquele que entramos ali e ficamos bem (no nosso grupo ou torcida), e sim uma elevação do espírito e da alma que nos conforta, mesmo na crise.

A passagem bíblica que revela esta ascese é a passagem em que Jesus escolhe três discípulos e vai ao monte Tabor (cuidado porque a outra ascensão de Jesus é uma ascensão dívida, que foi depois de sua Morte e Ressurreição), diz esta passagem (Mc 9,2-3): “Naquele tempo, 2Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, e os levou sozinhos a um lugar à parte sobre uma alta montanha. E transfigurou-se diante deles. Suas roupas ficaram brilhantes e tão brancas como nenhuma lavadeira sobre a terra poderia alvejar”.

Depois do monte Tabor (foto acima) tiveram que voltar a realidade e descer de lá, Pedro queria ficar lá, esta é a diferença da outra ascensão na qual Jesus retorna a sua realidade divina (o céu é uma metáfora).

Tempo de ascensão verdadeira, a pandemia nos retirou tudo que era falso, ficamos diante do Ser.

O vídeo a seguir dá uma explicação cristã do significado litúrgico da leitura acima.

Transfiguração do Senhor, no Monte Tabor – YouTube

 

Nomeando elefantes (ou bois) e visão de mundo

25 fev

Falecido em fevereiro do ano passado, o americano e filósofo cristão James W. Sire (1933-2018) fez uma ampla pesquisa por trás da questão da visão de mundo, disse que levou 30 anos, publicado em 2004, provavelmente começou a se debruçar sobre o tema em 1974.
Também sua visão de mundo deve ser relida, quero dizer que de 1974 a 2004 o mundo passou por transformações que ele não aprofundou, a queda do Muro de Berlim, o fim da guerra fria que parece agora renascer, a queda de ditaduras que parecem voltar em todo o planeta e mais recentemente ainda a pandemia.
Não li o livro, mas um de seus capítulos que encontrei na Web e também alguns de seus comentaristas que me ajudaram a formular uma ideia, ainda que imprecisa, do seu principal livro “Nomeando elefantes: visão de mundo como um conceito” (Naming the Elephant: Worldview as a Concept, editora IVP Academic), e o capítulo que referencio é o Definições de Cosmovisão: de Dilthey a Naugle, que já no título é sugestivo de algum idealismo o que o texto confirma logo no início, está disponível no google Books, sendo leitor de Dilthey está ao meu ver no fio da questão.
Diz no início do capítulo 2 que a origem do termo Weltanschauung teve origem com Kant (1724-1804) (pasmem! idealistas), “mas somente de passagem”, e cita textualmente Dilthey: “to denote a set of beliefs that underlie and shape all human thought and action” (Sire, 2004, p. 23), em tradução livre: denotam um conjunto de crenças que sustentam e moldam todo o pensamento e ação humanas, elas estão no cerne do que desejo analisar.
Embora apropriada a análise, talvez a mais completa sobre o termo, falta a leitura de Heidegger que atualizou e desenvolveu o tema num sentido mais amplo que o de Kant e Dilthey, e Hans Georg Gadamer irá criticar justamente a concepção de Dilthey como idealista.
Para fazer o caminho do conceito de Weltanschauung cita Nietszche, Wittgenstein, com digressões a Platão e Descartes, Foucault e até Rorthy de passagem, e ai começa a discorrer sobre autores cristãos evangélicos (reformados é o nome no exterior), James Orr, Abraham Kuyper, Herman Dooyeweerd, Ronald Nash até chegar ao que chama de nova síntese que seria David Naugle, entretanto, jamais foge do idealismo, diz passar da ontologia a hermenêutica (não seria o contrário) e diz que esta visão sintética é caracterizada por um “sistema semiótico de signos narrativos” (Sire, 2004, pag. 42) citando Naugle do qual fez tal síntese.
Entretanto a verdadeira síntese escondida atrás do texto, de clara visão nominalista veja-se a ideia de sistema semiótico, se revela ao citar o texto bíblico “Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim, referindo-se a passagem bíblica de Jo 14:1, pois ignora em seguida o texto que diz: “na casa de meu pai há muitas moradas”.
A ideia de signos, mitos e símbolos embutidos em narrativas que representam uma visão de mundo não é desprezível, e é mesmo importante, entretanto qualquer visão que se prenda unicamente a narrativa não faz o trabalho de retirar a visão antropológica e a real visão “histórica” do acontecido, sendo a visão do historicista de Dilthey idealista e irreal.
Há outra passagem mais significativa, a chamada volta do filho pródigo (Lc 15,10:32), que alguns autores e exegetas idealistas não gostam do nome, procurando idolatrar o filho mais velho que ficou em casa com o pai, sendo este mais conservador portanto, mas também o filho pródigo teu seu defeito, foi ao mundo fazer experiências, o fato que retornou é louvável, mas que visão de mundo ele trouxe de seu desvio, na verdade o pai de ambos é que é o misericordioso com os filhos conservador e rebelde.

É preciso recuperar esta visão de verdadeira misericórdia, e as leis dizem mais ainda: “pedi e vos será dado” (Mt 7,7) e porque parece que Deus não nos atende, é simples algo a ser corrigido.

Sire, J. W.Naming the Elephant: Worldview as a Concept, editora IVP Ademic, EUA: Illinois, 2004.

 

A cura do Outro

24 fev

Gandhi afirmava que “não se pode ferir o outro sem ferir a si próprio”, porém Carl Jung tem uma receita ampliada “aquele que cura o outro, cura a si próprio”, em termos de pandemia é bom pensar nisto, cuidar o distanciamento, as regras de higiene, etc.

Alguns dizem isto nunca vai acontecer comigo, são pessoas já com comorbidades, etc. sim eles estão no grupo de risco, mas a pandemia agora com as novas cepas ampliaram o “grupo de risco”, pode-se dizer toda a sociedade está vulnerável.

E junto com a pandemia, as economias estão ruindo, mas os modelos idealistas continuam aí, temos a resposta a tanto tempo, não se esqueçam que elas já foram testadas, assim não se trata deste ou daquele modelo, todos modelos atuais estão centrados na “economia” como centro de qualquer política e não no ser humano, isto valeu ainda mais profundamente nesta crise.

A usina de Fukushima por exemplo, houve tremores naquela região recentes, mostrou novos vazamentos, a água usada para resfriá-la será jogada no mar e então irá pelo mundo agora.

Se tivermos outros acidentes naturais, terremotos estão sempre acontecendo aqui e ali, e se forem perto de outras usinas, e se outro tipo de crise planetária, diferente da pandemia vier, e isto não é só pessimismo, é uma possibilidade que todos sabemos que existe.

Sim agora o problema é a doença, fonte da cegueira atual, ela é também um prolongamento da crise cultural e noite de Deus, vejam os diversos tipos de religiosidade que cresce, os apelos e profecias não faltam em todo canto, a meu ver alguma poderá ser verdadeira inclusive, mas não se trata disto e sim de perguntarmos como vai a vida “saudável” no planeta, e ai entra o Outro.

Diziam que a crise era das mídias, ou das redes que é uma coisa bem distinta, agora são a salvação para manter os contatos com a devida distância, hora não eram os celulares que faziam isto e porque não fazem agora, manter empresas e escolas funcionando, não é tão mal, o uso sim.

Claro que não, a perda das relações independe dos meios (as mídias) que usamos, e colocar-se em rede é ainda melhor, agora parece mais claro é colocar-se primeiro diante dos mais próximos, cuidar e se ocupar deles, coisas que lembramos de serem feitas pelos nossos avós, que pareciam fechados e atrasados, mas eles sabiam o que significava ser próximo, ser amoroso e ser fiel.

Salvar a economia mesmo que as pessoas morram, eis o fundamento de um mundo onde no fundo é a economia que todos estavam preocupados, talvez uma minoria pensasse realmente no bem-estar e no equilíbrio da vida vivida na essência, sem luxo e com um certo “conforto”.

Lembre-se que o oeconomicus em grego, tratava-se da economia doméstica e da agricultura, é verdade que a economia evolui muito, porém não devia ter perdido as origens, organizar a economia “doméstica” das pessoas e produzir alimentos, parece o essencial nesta crise.

Não temos só que nos curar, é preciso curar e cuidar do outro, assim nos ensinam nossos heróis da medicina, pois as consequências serão para todos, a descoberta desta interdependência é saudável para um mundo que começa a se fechar em nacionalismos e mentalidades autoritárias.

 

Empatia forçada e verdadeira

23 fev

O fato de sorrir sempre e ter necessidade de se mostrar feliz pode ser altruísmo e até mesmo heroísmo de muitas pessoas, o que deveria nos dar confiança e empatia deveria ser a transparência, que nem sempre é empática.
Claro isto não significa ser mal-educado ou grosseiro, nem desvio de personalidade, mas o alívio do dualismo interior diante da verdade, mesmo quando ela não é simpática, faz a pessoa ter maior coerência interna, que não se confunde com identidade.
Identidade pode ser pessoal, em grupo ou cultural, algumas vezes é confundida com ser conivente ou conveniente, mas na raiz isto é falsidade, portanto a empatia tem seu lugar diante da verdade e do ser, nem sempre da ética social que dita regras de conveniência e “legalidade”, o que passou a ser chamado de politicamente correto, mas bem poderia ser politicamente conveniente.
Desde a década de 30 se fala do brasileiro como o “homem cordial”, embora haja uma grande distância antropológica e histórica da politicamente correto, não seria isto apenas a atualização.
Empatia então deveria ser bom humor no sentido de capacidade de com serenidade entrar em problemas e questões polêmicas e com forte possibilidade de polarização, o mundo hoje precisa disto, e, portanto, confundi-la com hipocrisia, sorriso fácil ou apenas tolerância pode ser “cordial”, podendo não ser um sentimento verdadeiro.
Na verdade fazer ao outro o que gostaríamos que fosse feito para nós, não é o sistema empático, o que a neurociência mostra é que temos um conjunto de neurônios chamados neurônios-espelho que diz que imitar o outro é uma forma empática muito natural, que não é só a de fazer algo ao outro pelo simples fato que gostaríamos que fosse feito a nós, no fundo estamos “pedindo” algo que queremos, é saber como o Outro QUER que seja algo feito a ele, isto sim é empático.
A empatia significa o dom que todos tem, de poder sentir o que o outro sente, assim falar de Outro é a verdadeira forma tanto de encontrar um dom inato da humanidade, a neurociência revela, como também tornar esta verdade explícita, existimos e sentimos o Outro, só o negamos assumindo um falso eu, pois temos como “habilidade” natural a empatia, e só por um treino constante de negar-se ou por algum condicionamento social, perdemos a empatia.

A pandemia tornou muita gente amarga, insatisfeita e de certa forma acentuou o individualismo, em O sócio e o próximo (Le socius et le prochain), Paul Ricoeur explica esta diferença de relação.
Não há, portanto, eu verdadeiro sem o Outro, sem a empatia com o Outro, natural e não forçada, que feita assim é uma encenação e o Outro sentirá, a empatia é assim ontológica, parte do Ser.
A jovem Tati Fukamati explica num vídeo sua descoberta da empatia na neurociência, é uma boa iniciação para aqueles que desejam ser mais empáticos.

 

 

Variante, vacinação lenta e a terceira onda

22 fev

As variantes são várias, destacam-se a da África do Sul, a Brasileira e a Britânica, apesar de haver controvérsias sobre a gravidade delas o certo é que a propagação do vírus é mais rápida, e no caso brasileiro já parece estar presente em boa parte do território brasileiro, não há isolamento de regiões e o combate a pandemia é um dos mais ineficientes e titubeantes.

A vacinação segue lenta, porém os resultados na Europa são mais eficazes porque estão combinados com as políticas de restrições e confinamentos, e também estão no final do inverno, e espera-se que a chegada de novos lotes de vacinas, a AstraZeneca confirma um lote de 10 milhões de vacinas para o Brasil neste final de fevereiro, mas é lenta a vacinação também em outros países.

A chamada terceira onda é decorrente da Europa da liberação para o Natal e final de ano, muitos governos reconheceram o erro, aqui no Brasil as praias continuam registrando movimento e não há uma política clara de evitar aglomerações, não se trata apenas de fechar lojas e comércio, como algumas cidades fizeram até com supermercados, o problema central é a consciência.

A terceira onda veio então por causa da liberalidade das festas de fim de ano, e logo em seguida quase toda Europa fechou, incluindo a Suécia que era mais liberal até a chegada do inverno, o único país que começa a liberar aos poucos é a Grécia porém teve um #lockdown bastante austero.

Outra preocupação é com a terceira onda é a variante, a infecção é mais rápida e rapidamente lota os hospitais e cria uma situação de caos no já estressado sistema de saúde que luta a um ano com os casos mais graves, oficialmente os números da Covid caem no mundo todo e está freado na Europa, porém as medidas continuam severas.

O número de vacinados no Brasil supera 5,5 milhões, porém o ritmo poderia ser maior, o problema é o abastecimento, estão prometida para março mais 18 milhões de doses da Coronavac e 16,9 milhões da AstraZeneca, as outras União química/Gamaleya e Precisa/Bharat Biotech estão no cronograma, ainda para o primeiro semestre, os laboratórios produzem as vacinas Sputnik V e Covaxin, respectivamente.

O estado de Amazonas tem percentualmente o maior número de vacinados 4,87% enquanto São Paulo tem o maior em números absolutos um total de 1.620.182 vacinados num percentual de 3,5% população, já havendo um grande percentual de segunda dose.

O mapa acima mostra os percentuais no Brasil todo da vacinação.

 

A pandemia, o deserto e as tentações

19 fev

A pandemia nos colocou em xeque quanto as normas de conduta de nossas vidas, primeiro a ideia primária (mas muito usada) que podemos fazer tudo o que queremos se estiver ao nosso alcance, a segunda é imaginar a onipotência humana no caso da medicina humana para enfrentar qualquer dificuldade que nos impõe, e a terceira o jogo bruto do poder, que esquece os que sofrem.

As tentações não são um problema apenas religioso, também elas existem no plano espiritual (a onipotência humana acima dos mistérios divinos), mas é também um problema social, queremos beber, sair de casa, ir aos shoppings enfim desfrutar dos benefícios sociais, e poucas vezes nos lembramos que eles não são acessíveis a todos, e que seu uso também deveria ser moderado.

O isolamento nos propôs um modo de vida mais restrito, uma maior convivência com aqueles que nos são mais próximos, mas também ao sair para alguma atividade lembrar dos que estão por obrigatoriedade enfrentando a pandemia: as pessoas da área da saúde, as pessoas responsáveis pelo abastecimento de gêneros alimentícios (lembrando dos que não os tem em quantidade necessária) e também as pessoas responsáveis pela segurança e serviços essenciais (são muitos, mas a polêmica aqui pode ficar de lado).

Temos que enfrentar um deserto próprio, o isolamento nos obriga, a enfrentarmos primeiro os nossos próprios limites, aceitá-los, não ter receio de solicitar ajuda nas questões necessárias para a nossa sobrevivência: o deserto, o silêncio, o refletir, o saber recolher-se é também um exercício.

Há uma tentação mais usual que é a de poder, somente a nossa ideia e os nossos conceitos são os que devem ser aceitos, e também a luta pelo poder numa polarização social crescente onde pouco ou quase nada se dialoga, apontamos neste blog está escalada que está agora num cume delicado.

A receita cristã para o poder é muito simples, além de valorizar a humildade e a escuta respeitosa do Outro, prestar culto e chamar de mestre somente o seu Deus, e seu filho único: Jesus, sem isto a luta pelo poder é crescente e pode levar a guerras e convulsões sociais.

Antes de começar sua vida pública Jesus foi ao deserto para enfrentar as suas fragilidades humanas (Mc 1,12-13), foi a sua grande ascese, os judeus acreditavam que no deserto vivia um espírito maligno chamado Azazel (Lev. 16 e Tb 8,3), porém uma leitura contemporânea, a pandemia é uma oportunidade, ainda que forçada e não seja exatamente um bem, é uma doença grave, o deserto que cada um teve que enfrentar pode ser uma ascese.

 

Rever a vida e reeducar-se para viver

18 fev

Parte da crise econômica mundial, esta é análise de Morin é além da econômica, a moral e ética, no seu sexto livro sobre o Método da complexidade, ele desenvolve a análise antropológica, histórica e filosófica do problema, explicando que ela parte de um conceito inspirado em Kant.

Define-se aí a ética como exigência moral auto-imposta, em lugar dos imperativos provindos da razão prática, na ética de Morin a partir da complexidade, ela provém de três fontes: uma interna, análoga a nossa consciência, outra externa simulada e orientada pela culturas, crenças e normas pré-estabelecidas na comunidade, e de fontes anteriores que são a própria organização dos seres vivos e transmitida geneticamente.

Sua ética apresenta assim uma ética que exige uma reflexão quanto as nossas escolhas morais, sociais e de valores que levamos ao nosso cotidiano, aqui a crise civilizatória é grave.

Porém a ética Kantiana favoreceu a uma ética autocentrada, egocêntrica, segundo meus interesses e minha vontade, ignorando que ela deve compartilhar com o outro, e isto significa que devemos também nos orientar a uma visão sensível ao conjunto da sociedade e aqueles sem voz.

Em tempos de pandemia fomos “obrigados” por razões de saúde pública, mas também de educação, a limitar nossos movimentos, a guardar um isolamento social seguro, e a olhar para cada pessoa e se sentir responsáveis por ela, será que é isto que todos fazem

Esta aparente limitação de liberdade é na verdade aquela que já devia estar incorporada em nossa ética social, sem uma educação consistente para a prática da fraternidade e de um olhar atento e sensível ao outro, podemos cair num vazio social e alimentar a crise civilizatória já presente.

É preciso passar por um longo caminho de reflexão pessoal e estar disposto a mudar hábitos e atitudes para ajudar o conjunto da sociedade a sair de uma crise que é sanitária, mas também social.

 

A quarentena e a quaresma

17 fev

Aqueles que conseguem viver esta longa quarentena, que entra pelo segundo ano, como perspectivas e esperanças é verdade, mas também com angústias e preocupações, entendem que há para todos um motivo de atenção, alento e preocupação, em especial com os angustiados.

Não houve carnaval, e não há motivos para festa, é verdade alguns grupos insistem, mas se olharmos para o número de pessoas em comparação com o conjunto da sociedade são uma minoria, a maioria está preocupada e deseja que logo tenhamos uma saída deste sofrimento.

Para os cristãos é um período de oração, jejum e abstinência, significa abster-se de algumas coisas que o novo normal já está nos tirando, porém pode-se fazer isto voluntariamente, pensando no conjunto da sociedade que sofre.

Representante do catolicismo, mas também da cristandade, o papa Francisco sempre olha para toda a família humana com ternura e paixão como um bom latino, em sua mensagem do dia 12 de fevereiro convidou-nos “Vamos subir a Jerusalém … “ (Mt 20,18) que significa como ele próprio explica um “percurso de conversão, oração e partilha de nossos bens”, e assim viver esta Quaresma com o olhar atento a quem sofre o abandono e a angústia por causa da pandemia (na foto a porta que onde Jesus iniciou seu caminho final em Jerusalem).

Jesus ao aproximar-se de Jerusalém vai para lá para viver os dias da Pascoa judaica, os judeus já a comemoravam e comemoram até hoje, mas nem sempre coincide devido ao calendário judaico ser diferente do nosso cristão, porém o cordeiro que é “imolado” durante a Páscoa, referente ao sacrifício que Abraão fez no lugar de seu filho, é na Páscoa cristã o próprio Jesus este cordeiro.

A quarentena de todos é a pandemia, dizer palavras de incentivo que reconfortam, consolam, fortalecem, estimulam em vez de palavras que humilham, angustiam, irritam e desprezam enfatizou o papa.

Penso que devido a conjuntura de quarentena será uma Quaresma diferente, em que iremos em profundidade nas nossas dores como humanidade, e poderemos pensar num futuro muito mais a frente mais promissor e cheio de esperanças, a Quaresma não é apenas a morte, passamos por ela, mas a ressurreição que está do outro lado para aquele que aceita passar pela porta estreita.

Toda humanidade sofre, assim é um momento da paixão de toda humanidade, e aqueles que são fraternos e solidários saberão o caminho para aliviar as dores daqueles que sofrem.

É hora de pensar no essencial da vida, rever nossas falsas vias de progresso e nossa vida pessoal. 

 

A porta larga dos equívocos modernos

16 fev

Um grande número de enunciados, proposições e teorias científicas ou não emergem em meio ao período de pouca luz na cultura ocidental, crescem teorias apocalípticas e uma visão cada vez mais maniqueísta da realidade, a visão de uma lógica dualista e sem terceira hipótese.

Ao mesmo tempo descoberta como a física quântica, a holografia, e uma nova cosmovisão do universo emergem, porém há quem acredite que a terra é plana e que nunca fomos a Lua.

São demasiados problemas específicos para serem tratados, mas a filosofia de um modo geral contemporânea mais que neoliberal, este é seu aspecto pragmático econômico, ela é idealista e mesmo filosofo-youtubers que discursam sobre filosofia a seguem.

Kant é complexo, mas seu ponto central é a dicotomia entre sujeito e objeto, como elas não podem ser separadas, ao menos em termos de teoria do conhecimento, ele criou os juízos analíticos e sintéticos.  Quem curamos a doença ou o doente, para Kant seria a doença, com olhar “de fora”.

O juízo analítico é aquele que o predicado está dentro do sujeito, e assim é ele que especifica sua lógica, e esta lógica vem de uma visão físico-matemática do conhecimento na modernidade.

Exemplifica usando figuras geométricas como o triângulo e o quadrado, claro este tem quatro lados, mas isto não é uma dedução e sim uma tautológica, definições circulares.

Já o juízo sintético ao contrário não pode estar contido no sujeito, assim acrescenta um raciocínio como algo completamente novo, ou seja, a novidade é o predicado.

Está muito simplificado, mas essencialmente desenvolve-se uma lógica onde Ser e Ente são coisas confusas e desmonta a possibilidade de uma ontologia, mesmo que seja parcial, e imaginava com isto jogar toda as “superstições” fora, o famoso “Sapere audi”, ousar saber.

Como a razão por si só não bastava, foi necessário introduzir a ideia do empirismo, que vinha das argumentações de David Hume (1711-1776, assim os juízos podem a priori, que já existem no sujeito, e a posteriori, adquirido experimentalmente.

Moritz Schlick (1882-1936), que fundou a escola neologicista do Circulo de Viena, criticou a base idealista de um conhecimento a priori, afirmando que uma vez que os enunciados têm uma verdade lógica, eles não são nem analíticos nem sintéticos, tal como argumentava Kant, pois era paradoxal; e que se a verdade depende do conteúdo factual, os enunciados são, portanto a posteriori e não a priori, uma vez que os fatos devem acontecer, Schlick foi assassinado pelo nazismo.

No círculo de Viena estiveram presentes Kurt Gòdel, Karl Popper, Hans Kelsen e outros.

Uma mesma proposição pode ser conhecida por agentes cognitivos tanto a priori como a posteriori, usando o mesmo exemplo de Kant, uma criação só sabe que o quadrado tem 4 lados depois que aprende a contar, enquanto para um adulto parece “indutivo”.

Assim o conhecimento é uma relação entre agentes cognitivos e as proposições, que primitivamente não são nem a priori nem a posterior, poderão ser conhecidas por fatos.

Em 1936 Husserl escreve sobre a “Crise dsa ciências europeias e a fenomenologia transcedental”, o conhecimento estava em plena crise, em meio a II guerra mundial.

O vídeo abaixo elucida o pensamento de Kant, com comentários de  Antonio Joaquim Severino;

 

Variantes do coronavírus e liberação

15 fev

Enquanto no Reino Unido já está confirmado que a vacina não funciona para a variantes do vírus, chamada de variante de Bristol e confirmada pelo governo britânico, a cientista britânica Sharon Peacock deu a péssima notícia na quinta-feira (11/2) que a variante já se espalhou pelo Reino Unido e irá varrer o mundo, então a crise da pandemia está longe do fim.

A AstraZeneca informou que levará 9 meses para a vacina estar pronta para esta variante, junto com a Universidade de Oxford a Fundação Oswaldo Cruz (FioCruz) participam da produção da vacina.

No Brasil, informa a Agência Brasil, já foram identificados pela FioCruz a presença da variante P.! em mais 5 estados, além do Amazonas, Pará, Paraíba, Roraima, Santa Catarina e São Paulo, também as secretarias da Saúde da Bahia, do Ceará e do Pernambuco já identificaram a variante.

De acordo com o site Bloomberg o Reino Unido já está chegando a 52 milhões de vacinados (o páis tem perto de 67 milhões de habitantes), mesmo assim o LockDown ainda não foi aliviado, serve de alerta para outros países, é provável que possa abrir aos poucos, e deverão ser tomadas medidas gradativas estudadas caso a caso.

More Than 172 Million Shots Given: Covid-19 Vaccine Tracker (bloomberg.com)4

Resta saber como será pensado o caso da variante, de um pico de 52 mil casos no início de fevereiro caiu para 13 mil no sábado (13/02), mas a comunidade científica inglesa está analisando intensamente o caso da variante para tomar as medidas de liberação.

No mundo há uma queda para 410 mil casos, é uma queda lenta, porém já é possível pensar que mesmo com a variante há uma esperança que a vacina funcione dentro dos limites de eficácia.

Cabe a cada manter os cuidados e não relaxar enquanto os efeitos da vacina não forem sentidos.