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Caminhos, artefacto e arte em Heidegger

14 Jan

A origem da obra de arte (1936) é um texto de Martin Heidegger, onde desvela a questão da arte e da obra, que aqui iremos chamar de artefacto, e que o próprio Heidegger pensou em mudar, ao escrever a coletânea Caminhos da Floresta.
Em vez de escrever obra escreve Caminhos de Floresta (Holzwege) no qual foi acrescido um aditamento antes do epílogo em 1956.
A visão de Heidegger que o “artefacto” de arte, é um modo privilegiado de revelar o cotidiano, revela-se como uma compreensão poética do mundo, e traz dentro desta a ideia de “caminho” no sentido de alcance, duração e legitimidade da arte.
Esta é a importância de perguntar-se qual a origem da obra de arte? A origem está no artefacto, no observador ou no artista? Segundo sua pergunta: “O que é que, na obra, está em obra?” (Heidegger, 2002, p. 31), onde é possível ver já o “caminho”.
A filosofia medieval chamou de coisa a “quididade”, como aquilo que a coisa é, foi sobre ela que nominalistas como Ockham e Duns Scotto debateram com realistas, como o qual debateram realistas e ontólogos como Tomás de Aquino, que se inicia na discussão sobre a existência de universais, e de fundo é sobre o que é essência.
Para Heidegger origem significa Aquilo que é e como é sendo, ou seja sua essência.
A origem de algo provém então de sua essência, assim a pergunta pela origem da obra de arte é a pergunta sobre a proveniência de sua essência (HEIDEGER, 2002, p. 7), e que deseja-se extrapolar para a técnica e sua relação com a essência.
Heidegger em A origem da obra de arte, propõe uma discussão do conteúdo da arte, do estatuto singular de obra, do despontar da obra de arte a partir e por meio da atividade criadora do artista, assim conclui que a origem da obra é o artista (HEIDEGGER, 2002, p. 61), mas não recorre ao sentido da origem antropológica.
Fazendo como exemplo, o efeito da experiência estética a quem observa os sapatos na tela de van Gogh (1886), atualiza, a cada vez, a própria imagem retratada, isto dá sentido ao virtual, uma vez que o virtual é algo que se atualiza, e se torna arte cuja origem foi o artista, mas completa-se no observador, e para isto há o artefacto.
A atualização deste fundamento ontológico de Heidegger que vê no artista a origem, está em Rancière ao falar do “Espectador Emancipado” (2008), que abre a discussão sobre “os pressupostos teóricos que põem a questão do espectador no cerne da discussão sobre as relações entre arte e política” (Rancière, 2012, p. 8), essencial para os dias de hoje.
Rancière mostra duas premissas sobre o espectador que são falsas, a primeira que é o espectador como contrário ao conhecer, e a segunda que é contrário ao agir, e chama isto de paradoxo do espectador que é, no caso do teatro, um “não teatro sem espectador” (RANCIÈRE, 2012, p.8).
Propomos em oposição o estatuto ontoantropotécnico da obra de arte, ou do seu artefacto, ela existe enquanto é sendo, assim o artista empresta seu estatuto ontológico enquanto antropos (homem), e a exprime enquanto técnica.

HEIDEGGER, M. A Origem da Obra de Arte, Lisboa: Edições 70, 2002.

RANCIÈRE, J. O espectador Emancipado, São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.

 

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