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Verdade e diálogo

30 Jan

A falência dialógica e o crescimento da polarização política em nosso tempo, que tem como vítima a própria democracia, vem da ausência de pensamento hermenêutico que é essencialmente dialógico e paradigmático (no sentido de encontrar a fusão de horizontes) e um beco sem saída para os discursos ortodoxos.
A fenomenologia traz desde o princípio a questão de fazer um vazio para ouvir o Outro, o que os gregos chamam de epoché, ou a suspensão dos juízos sobre as coisas, o que pode parecer parecido com o cogito cartesiano, mas não o é, Husserl esclareceu isto em meditações cartesianas, que já fizemos alguns posts aqui.
O epoché é a chamada redução fenomenologia, é olhar uma coisa mudando os óculos (figurativamente é claro) para enxergar a essência das coisas, algo difícil nos dias de hoje, onde a aceleração dos juízos e dos pré-conceitos não permitem uma meditação, contemplação ou relação dialógica verdadeira, o que se chamou no post anterior de verstehen.
Uma vez que o diálogo depende de um círculo hermenêutico que envolve a relação com os nossos pré-conceitos, visto como positivo aqui é importante isto, significa que devemos fazer calar os nossos pré-juízos sobre as coisas que serão ditas e nunca optar pelo: isto não !!!
O problema central da filosofia racional-idealista da modernidade é que separou sujeito de objeto e isto foi para o dia-a-dia da cultura religiosa a mais alta filosofia acadêmica, as “coisas” são “impuras” e no entendo o mundo da vida (lebenswelt de Husserl), a visão de mundo (o que Heidegger chamou de weltanschauung) significam retornar as “coisas” como elas são.
O próprio conhecimento não é outra coisa que esta relação interprete-coisa: “O conhecimento, ou seja, o ato de eu dar ao mundo um caráter inteligível, se dá, portanto no encontro entre a consciência e as coisas” afirmou Husserl, explicando o que é ir a “coisa” mesma.
Ora nossos conflitos envolvem não apenas as relações humanas, como como elas se dão na relação com as coisas: o dinheiro, a saúde, o trabalho, os alimentos, a própria natureza (incluindo a nossa própria), a comunicação (que não nasceu no mundo digital), enfim quase tudo envolve a relação com a coisa e nossa consciência disto.
O diálogo, considerando os pré-conceitos, com a possibilidade de fusão de horizontes (que não é necessariamente o consenso), é fundamental em tempos de crise e de pré-conceitos.

 

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