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A verdade em tempos de crise

31 Jan

A nova consciência hermenêutica, que procura estabelecer diálogos entre pré-conceitos, tornou o homem ora mais vulnerável a uma crise do pensamento, ora mais ortodoxo e rígido predisposto a intolerância, a uma verdade da “Monarquia do Medo” como define Martha Nussbaum em seu novo livro, favorável ao fechamento nas ditaduras e extremos atuais.
Mas o que é esta nova consciência ? define-a Hans Georg Gadamer assim: “consciência hermenêutica, que deve ser despertada e mantida desperta, reconhece que, na era da filosofia da ciência, a reivindicação de superioridade tem algo de quimérico e irreal sobre ela.” (GADAMER,  1997)
E acrescenta: “Mas embora a vontade do homem esteja mais do que nunca intensificando sua crítica do que fazia antes, a ponto de se tornar uma consciência utópica ou escatológica, a consciência hermenêutica procura confrontar essa vontade com algo da verdade da recordação: com o que ainda é e nunca mais real.” (Gadamer, 1997), ou seja, uma a-lethe (a Aleteia dos gregos), ou o não esquecimento (ou conhecimento da história).
O foco da subjetividade em oposição a objetividade é a verdadeira janela escura (Black Mirror fala apenas da cultura digital que tem apenas 30 anos), veja o que diz o hermeneuta: “O foco da subjetividade é um espelho distorcido. A autoconsciência do Indivíduo é apenas uma oscilação no circuito fechado da vida histórica“ (Gadamer, 1997), lembrando que autoconsciência é o grande construto hegeliano em substituição à consciência histórica.
O que acontece com a cilada história que nos metemos é além da crise do pensamento idealista e científico, os métodos neopositivistas estão ai, é fato que não conseguimos refletir de modo sobre a vida prático para a qual a má teoria se reivindica, a ausência da phronesis.
Para Gadamer, a Phronesis, ou sabedoria prática, emergente entre o ethos e o logos, diria indo mais além uma ontoética que admite a ontologia no Ser coletivo e no terceiro excluído entre o eu e o nós.
Afirma Gadamer sobre esta ontoética: “O entendimento não ocorre quando tentamos interceptar o que alguém quer nos dizer alegando que já o sabemos” (Gadamer, 1997), isto ocorre quando estabelecidos os pré-conceitos somos capazes de abertura a um verdadeiro epoché, que nos leva a uma fusão de horizontes e reorganiza o discurso.
Isto é muito difícil hoje, mas não impossível, se houver um mínimo de confiança entre dois discursos, mas a ciência positiva, o dogmatismo, o fundamentalismo e outros ismos não admitem isto, estão entrincheirados em sua “autoconsciência” que arrogam prática (apenas empíricas em geral) ou coletivas (círculos fechados muitos vezes).

GADAMER, H.G. Verdade e Método. tradução de Flávio Paulo Meurer. – Petrópolis, RJ: Vozes, 1997. (pdf)

 

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