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Aroma, tempo e flores

11 Mar

O tempo urge, tempo é dinheiro, o ser e o tempo, porém a interpretação do tempo não é secundária, considerá-lo absoluto, ou mesmo a “quarta dimensão”, que depende dele, mas não o é, tempo é duração e quanto não o sentimos perde o “aroma”.
Assim o define Byung-Chul Han em seu “O Aroma do tempo: um Ensaio Filosófico sobre a Arte da Demora” (Relógio d´Agua, 2016) que usando Marcel Proust o define assim: “A sua estratégia temporal frente a essa época apressada consiste em contribuir para que o tempo recupere a duração, o Aroma” (Han, 2016, p. 57).
O romance de Proust que se refere é “Em busca do tempo perdido”, não se apresse não tem nada a ver com o universo digital, está falando de uma obra publicada em sete volumes entre o anos 1913 e 1925, em sete volumes, período da fundação da loja Pequeno Jardim em Lisboa, no Bairro Alto, na rua Garret, 61 (foto, ainda está lá).
Fala da “destemporalização” do Ser, perder a continuidade, a permanência, faz uma citação de Proust de algo que já senti, mas no sentido inverso: “O homem que fui já não existe, sou um outro”, e diz que isto é uma crise de identidade, senti a mesma crise porém num sentido oposto, algo que encontrei numa poesia portuguesa contemporânea chamada Café Orfeu.
Diz a poesia do português Manuel António Pina, ao final: “E a [vida] que eu regressava, lentamente como se antes do teu sorriso alguém (eu provavelmente) nunca tivesse existido”, claro fala de um encontro de uma pessoa, pode-se pensar o sorriso como vida (suposta no texto com meu acréscimo), ou como desejaria Marcel Proust um aroma encontrado, os cheiros que senti e provei em Lisboa.
Como penso em reflorescimento, tema de Martha Nussbaum para uma retomada do “aroma do tempo”, lembro de um fado de Amália Rodrigues que diz que “cheira bem, cheira à Lisboa”, a letra fala de flores na tapada, diz a letra do fado entre outros versos:
“Um craveiro numa água furtada
Cheira bem, cheira a Lisboa,
Uma rosa a florir na tapada
Cheira bem, Cheira a Lisboa”
Lisboa tem cheiro de flores e de mar, diz ao final, mas as flores são de plástico, e se não cuidarem (as sardinhas estão a desaparecer) o mar também será de plástico, mas estou a sonhar com um “reflorescimento”.
Segue o fado, da imortal Amália Rodrigues:

 

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