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O mistério e o espiritual

06 Fev

Tanto a física quanto a matemática já ultrapassaram não apenas as dimensões ideais: o ponto, a reta, o plano e o cubo, introduzindo as dimensões fracionarias as quais pertencem os fractais, imersos no espaço de Hausdorff, mas também pela adoção da quarta dimensão.
O trabalho pioneiro foi feito por Charles H. Hinton (post) em A New era of Thought (1888), anterior a dimensão quântica de Werner Heisenberg e a descoberta dos Buracos de Minhoca (Worm Holes) na qual já se imaginam viagens intergalácticas como vista no filme de ficção Interestelar (2014), e no filme Contacto (1997, baseado no livro de Carl Sagan).
Hinton após fazer um diálogo com o idealismo Kantiano dirá sobre a natureza sensorial humana: “na percepção instintiva e sensorial do homem e da natureza, tudo é oculto, o que a reflexão traz depois à consciência. Podemos estar conscientes um pouco mais alto do que cada homem individual quando olhamos para os homens. Em alguns, essa consciência atinge um ponto extremo, e se torna uma apreensão religiosa.”, ou seja, admitia o aspecto espiritual (post). 
É nesta dimensão acima do individual que Teilhard Chardin trabalhou sua noosfera, pode haver uma consciência maior quando as pessoas trabalham juntam, isto é, obvio no plano humano, mas não tão obvio no plano espiritual, não significa só estar de acordo, mas admitir uma esfera espiritual, uma noon (espírito) esfera, a noosfera.
Como é possível penetrar nesta dimensão, fazer os homens trabalhar espiritualmente juntos, isto está acima da oração ou meditação espiritual, na qual a pessoa se eleva individualmente e hoje até para o tratamento médico é recomendável, mas uma ação espiritual coletiva.
O interessante é observar que tanto Chardin que pensava numa espécie de consciência cósmica, que lhe valeu um afastamento dos dogmas católicos (ele era padre), mas também o matemático Charles Hinton parece caminhar na direção da quarta dimensão, Salvador Dali também falou disto em seu Manifesto Místico (1951) e em conversas com o matemático Thomas Banchoff.
Assim como o discurso filosófico de Hinton, a antropologia filosófica de Chardin em uma de suas obras seminais “O fenômeno humano” parecem discorrer sobre aspectos de um mesmo tema, uma espiritualidade que leve a uma consciência coletiva maior e a sentir o Universo como corpo e como parte da Noosfera, aproximando o que é substancial do que é espiritual.
A razão que tanto Chardin como Hinton foram descartados no seu tempo é que procuraram penetrar num mistério, que Einstein também penetrou junto ao físico Rosen, os buracos de minhoca são chamados também Ponte de Einstein-Rosen (figura), sendo consistente com a teoria da relatividade.
O que está além do físico, ou o meta-físico nem sempre lhe é contraditório, mas pode ser exatamente a solução de alguns dos mistérios da natureza, 90% do universo é massa ou energia escura, das quais pouco se sabe e as descobertas recentes são enormes, veja a partícula de Higgs (incorretamente chamada de Deus) e os buracos negros com várias descobertas novas.

 

O auge do idealismo e o Espírito

05 Fev

O espírito visto fora da Noologia, nome cunhado pelo Escritor brasileiro Mario Ferreira dos Santos ao estudo da Noosfera, o resto é puro idealismo na filosofia ou falsificação espiritual da teologia.
A influência na teologia contemporânea (entre muitas outras) pode ser vista na obra de Karl Ranner, tanto em Hörer des Wortes (HW) em sua tradução espanhola Oyente de la palabra (Ouvinte da Palavra), ou como no espírito do mundo, sua tese de O espirito do Mundo (1967), onde apesar da influência de Tomas de Aquino e até mesmo de Heidegger, não abandonou por completo sua influencia original de Kant.
Escreveu Francisco Taborda sobre Rahner: “O que Rahner faz em HW pressagia toda sua caminhada teológica posterior, caracterizada pela perspectiva transcendental que implica a presença de uma filosofia interna à teologia e traz a marca da virada antropológica da modernidade”, ou seja, apesar de tentar conciliar seu pensamento com Tomás de Aquino e Heidegger, sua matriz principal está em “Ouvinte da Palavra” (1963), onde afirma: “se o homem se acha defronte ao Deus de uma possível revelação, se esta revelação, caso tenha lugar, deve produzir-se na história humana … etc.” (RAHNER, 1967, p. 213).
Mas dialogar teologia é complexo atualmente, e infelizmente a simplificação levou ao fundamentalismo, que é a pior das tragédias, pois Deus é Omnisciente, então não é simples, pois o Amor é algo tão complexo que jamais alguém o codificou, poetas e filósofos tentaram.
Na filosofia o auge desta tentativa idealista foi Fenomenologia do Espírito, praticamente uma tentativa de desvendar a Trindade, usando as categorias em-si, de-si e para-si, mas cujo conceito de autoconsciência o trai, pois o para-si que poderia ser além de si, é na verdade um retorno ao eu do em-si.
Assim o Deus transcendente, está “morto” para Kant, pois é pura relação de imanência, o que é diagnosticado por Hegel (2007, p. 173) gerando assim a ideia que o Deus histórico, o mesmo de Rahner negando-se o aspecto absoluto, espiritual acima do temporal, “a sensação de que Deus Ele mesmo está morto” (idem).
Gadamer ao fazer a releitura de Hegel, desvela este Espírito visto como uma imanência: “Se trata de uma progressão imanente, que não pretende partir de nenhuma tese imposta, senão seguir o automovimento dos conceitos, e expor, prescindindo por inteiro de toda transição designada desde fora, a conseqüência imanente do pensamento em contínua progressão”. (GADAMER, 2000, p. 11)
Não é isto o Espirito Santo trinitário da cristandade, mas uma visão de espirito imanente apenas humano.

GADAMER, Hans-Georg. La dialéctica Hegel: Cinco ensayos hermenéuticos. 5ª ed. Trad: Manuel Garrido. Madrid: Ediciones Cátedra, 2000.
HEGEL, Georg Wilhem Friedrich. Fé e Saber. Trad: Oliver Tolle. São Paulo: Hedra, 2007.
RAHNER, Karl. Oyente de la Palabra: fundamentos para una filosofía de la religión. Barcelona: Hélder, 1967.

 

Pensamento e linearidade

04 Fev

A linearidade do pensamento está de tal forma impregnada na cultura contemporânea que até expressões como “um homem reto”, “retidão” ou equivalentes tornam-se sinônimos de justo, do bem e da harmonia social.

Isto está mais ligado ao raciocínio matemático que ao empírico, não por acaso os exemplos formulados pelos racionalistas do século XVI e XVII usavam os triângulos como exemplos da ideia dos universais, e mesmo neste caso separavam sujeitos de objetos, não por acaso tanto Descartes (1596  1650) e Leibniz (1646  1716), eram também matemáticos.

Para o racionalismo tanto os ideias éticos e estéticos, como de Justiça, de Virtude e de Beleza, também devem ser objetos do Mundo das Ideias, assim fez-se todo uma construção segundo esta forma de pensar que agora encontra-se em crise, pois a separação produziu um Ser que é estranho a Coisa, ao Ente, fazendo um trocadilho: o problema do Ser do Ente.

Os fundamentalistas, tendo como base intuitiva os pensamentos contemporâneos argumentam que o Ser é “espirito”, o que pouco ou nada tem a ver com espiritualidade ou religião, de outro lado os materialistas argumento que somos puro Ente, ser da natureza e assim substância.

O empirista anterior a Kant, o filósofo escocês David Hume (1711  1776), mesmo admitindo que todas as ideias derivam da experiência negava o método com uso da indução: “Qual é o fundamento de todas as conclusões a partir da experiência?” (Hume, 1985, p. 37) ou, como se justifica a passagem dos enunciados observacionais para os enunciados universais?

Hegel pretendeu levar isto ao plano espiritual em Fenomenologia do Espírito, o auge do pensamento idealista.

Embora o idealismo/empirismo pudesse parecer um sistema epistemológico completo, em 1829 Lobachevsky desenvolveu as Geometrias Não-Euclidianas, depois vieram as superfícies esférias (foto) de Rieman (1826-1866) cuja generalização leva as dimensões de Haussdorf (1868-1942) e aos fractais, que também escreveu sobre filosofia como “Paul Mongré”.

Mas não se trata apenas da complexidade da física e matemática, a retomada ontológica do ser vai além do logicismo e empirismo, esta á a retomada ontológica.

HUME, D. Investigação sobre o entendimento humano. Lisboa: Ed. 70, 1985.

 

A hermenêutica e a confiança

01 Fev

O fato que parece imprópria a ideia de pré-conceitos e principalmente de pré-concepções religiosas, culturais e principalmente científicas, são delas que a hermenêutica trata como a compreensão (verstehen) é que mesmo em círculos familiares e fechados elas estão presentes.
Embora, para exercício didático, coloque-se a hermenêutica fora dos ambientes fechados, ou nas bolhas de Peter Sloterdijk (Esferas I), também estes círculos explodem em conflitos e intolerâncias, mas devido não aos aspectos científicos e metodológicos, mas a questão da confiança, não há um autor com tratamento rigoroso para este caso, mas há o fenômeno.
Publicada em além de 2000 a 2004, a trilogia de Sloterdijk: Bolhas, Globos e Espumas, já com tradução em espanhol e inglês, tem em português apenas o primeiro volume, que saiu em 2017, feito pelo tradutor José Oscar de Almeida Marques para a editora Estação Liberdade.
O conceito analisado esta semana ser-aí, conceito heideggeriano central nesta trilogia e que evoca a presença no mundo como condição necessária à existência, pode ser transformado na leitura de Sloterdijk em ser-juntos, é o nosso parecer que esta coexistência precedendo a existência permite uma abordagem (não feita pelo autor) da questão da confiança.
A confiança existe em círculos próprios pela partilha da vida, a coexistência e a convivialidade, então é justamente pela deterioração destes dois aspectos que a confiança cai e estabelece-se mesmo em ambientes próximos alguma hostilidade.
A moda é culpar as novas mídias, mas isto é tão antigo que já na Bíblia se encontra a ideia que “um profeta só não é aceito na sua terra” (Marcos 6, 1-6), ou seja, o problema da confiança é mais grave nos círculos fechados do que nos círculos abertos, assim a hermenêutica parece razoável ao propor a abertura epistêmica da verdade, mas isto pode ser problemática para a confiança dos mais próximos.
A pergunta filosófica é quando uma verdade em círculos “fechados” pode ser verdade, a nossa resposta é a confiança interna de seus convivas (não pode significar fechamento) e a abertura ao mundo exterior, na leitura bíblica é curioso observar que logo em seguida os apóstolos são enviados “dois em dois” em Marcos 6:7 está escrito: “Chamando os Doze para junto de si, enviou-os de dois em dois e deu-lhes autoridade sobre os espíritos imundos”, cuidado a interpretação de imundos, pode ser vista como outras “visões de mundo” e não como sujos.

 

A verdade em tempos de crise

31 Jan

A nova consciência hermenêutica, que procura estabelecer diálogos entre pré-conceitos, tornou o homem ora mais vulnerável a uma crise do pensamento, ora mais ortodoxo e rígido predisposto a intolerância, a uma verdade da “Monarquia do Medo” como define Martha Nussbaum em seu novo livro, favorável ao fechamento nas ditaduras e extremos atuais.
Mas o que é esta nova consciência ? define-a Hans Georg Gadamer assim: “consciência hermenêutica, que deve ser despertada e mantida desperta, reconhece que, na era da filosofia da ciência, a reivindicação de superioridade tem algo de quimérico e irreal sobre ela.” (GADAMER,  1997)
E acrescenta: “Mas embora a vontade do homem esteja mais do que nunca intensificando sua crítica do que fazia antes, a ponto de se tornar uma consciência utópica ou escatológica, a consciência hermenêutica procura confrontar essa vontade com algo da verdade da recordação: com o que ainda é e nunca mais real.” (Gadamer, 1997), ou seja, uma a-lethe (a Aleteia dos gregos), ou o não esquecimento (ou conhecimento da história).
O foco da subjetividade em oposição a objetividade é a verdadeira janela escura (Black Mirror fala apenas da cultura digital que tem apenas 30 anos), veja o que diz o hermeneuta: “O foco da subjetividade é um espelho distorcido. A autoconsciência do Indivíduo é apenas uma oscilação no circuito fechado da vida histórica“ (Gadamer, 1997), lembrando que autoconsciência é o grande construto hegeliano em substituição à consciência histórica.
O que acontece com a cilada história que nos metemos é além da crise do pensamento idealista e científico, os métodos neopositivistas estão ai, é fato que não conseguimos refletir de modo sobre a vida prático para a qual a má teoria se reivindica, a ausência da phronesis.
Para Gadamer, a Phronesis, ou sabedoria prática, emergente entre o ethos e o logos, diria indo mais além uma ontoética que admite a ontologia no Ser coletivo e no terceiro excluído entre o eu e o nós.
Afirma Gadamer sobre esta ontoética: “O entendimento não ocorre quando tentamos interceptar o que alguém quer nos dizer alegando que já o sabemos” (Gadamer, 1997), isto ocorre quando estabelecidos os pré-conceitos somos capazes de abertura a um verdadeiro epoché, que nos leva a uma fusão de horizontes e reorganiza o discurso.
Isto é muito difícil hoje, mas não impossível, se houver um mínimo de confiança entre dois discursos, mas a ciência positiva, o dogmatismo, o fundamentalismo e outros ismos não admitem isto, estão entrincheirados em sua “autoconsciência” que arrogam prática (apenas empíricas em geral) ou coletivas (círculos fechados muitos vezes).

GADAMER, H.G. Verdade e Método. tradução de Flávio Paulo Meurer. – Petrópolis, RJ: Vozes, 1997. (pdf)

 

Verdade e diálogo

30 Jan

A falência dialógica e o crescimento da polarização política em nosso tempo, que tem como vítima a própria democracia, vem da ausência de pensamento hermenêutico que é essencialmente dialógico e paradigmático (no sentido de encontrar a fusão de horizontes) e um beco sem saída para os discursos ortodoxos.
A fenomenologia traz desde o princípio a questão de fazer um vazio para ouvir o Outro, o que os gregos chamam de epoché, ou a suspensão dos juízos sobre as coisas, o que pode parecer parecido com o cogito cartesiano, mas não o é, Husserl esclareceu isto em meditações cartesianas, que já fizemos alguns posts aqui.
O epoché é a chamada redução fenomenologia, é olhar uma coisa mudando os óculos (figurativamente é claro) para enxergar a essência das coisas, algo difícil nos dias de hoje, onde a aceleração dos juízos e dos pré-conceitos não permitem uma meditação, contemplação ou relação dialógica verdadeira, o que se chamou no post anterior de verstehen.
Uma vez que o diálogo depende de um círculo hermenêutico que envolve a relação com os nossos pré-conceitos, visto como positivo aqui é importante isto, significa que devemos fazer calar os nossos pré-juízos sobre as coisas que serão ditas e nunca optar pelo: isto não !!!
O problema central da filosofia racional-idealista da modernidade é que separou sujeito de objeto e isto foi para o dia-a-dia da cultura religiosa a mais alta filosofia acadêmica, as “coisas” são “impuras” e no entendo o mundo da vida (lebenswelt de Husserl), a visão de mundo (o que Heidegger chamou de weltanschauung) significam retornar as “coisas” como elas são.
O próprio conhecimento não é outra coisa que esta relação interprete-coisa: “O conhecimento, ou seja, o ato de eu dar ao mundo um caráter inteligível, se dá, portanto no encontro entre a consciência e as coisas” afirmou Husserl, explicando o que é ir a “coisa” mesma.
Ora nossos conflitos envolvem não apenas as relações humanas, como como elas se dão na relação com as coisas: o dinheiro, a saúde, o trabalho, os alimentos, a própria natureza (incluindo a nossa própria), a comunicação (que não nasceu no mundo digital), enfim quase tudo envolve a relação com a coisa e nossa consciência disto.
O diálogo, considerando os pré-conceitos, com a possibilidade de fusão de horizontes (que não é necessariamente o consenso), é fundamental em tempos de crise e de pré-conceitos.

 

A verdade tem um método ?

29 Jan

O objetivo de Gadamer em sua obra Verdade e Método (Gadamer, 1997) era de recriar o conceito de compreensão (Verstehen), que significava entender o conhecimento como o que tem como um atributo da experiência de mundo do ser humano, compatível a visão de mundo de Heidegger e que fez a partir de dois pressupostos, parte o conceito de Lebenswelt (mundo da vida) de Husserl, e a crítica da separação idealista que dividia o sujeito cognoscente, sendo que este já é objeto no mundo; daquilo que é o objeto de conhecimento.
Na sua definição de fenomenologia como hermenêutica através da retomada do sentido do ser no Dasein, que ficou conhecida sob o nome de hermenêutica da facticidade.
As ciências naturais, entendo-as como as matemáticas, físicas e químicas, faço restrição as zoológicas e biológicas, podem ser explicadas enquanto esclarecimento (já era o termo do iluminismo) ou entendimento, por causa de sua natureza lógica, o termo em alemão é erklären, enquanto a sociologia e a histórica passam pelo entendimento (verstehen) introduzido na filosofia pelo historiador filósofo alemão Johann Gustav Droysen (1808-1884), e adotado por Hans-Georg Gadamer.
Mas este termo é uma visão ampliada de entendimento uma vez que inclui o Outro, pois também está contido nele os sentidos de empatia e diálogo, é, portanto, uma ampliação do conceito de Heidegger de Weltanschauung, composto de Welt (‘mundo’) e Anschauung (visão, contemplação, ponto de vista ou convicção), de Cosmovisão ou visão de mundo.
O método então proposto por Gadamer é a explicitação do círculo hermenêutico já proposto em Heidegger, mas agora com a superação da historicidade idealista de Dilthey e a incorporação do Outro (verstehen) no mundo da compreensão.
Podemos dizer que admitindo a visão de mundo do Outro é possível um círculo hermenêutico que nos conduza a verdade, o problema do idealismo contemporâneo é que o Outro seguirá o conceito de Autoridade, as referências lógico-dedutivas que incorporam determinados dogmas ou círculos dogmáticos sem incluir o Outro.
Porém é preciso distinguir que entre dois discursos sem facticidade hermenêutica há conflito.

GADAMER, H.G. Verdade e Método. tradução de Flávio Paulo Meurer. – Petrópolis, RJ: Vozes, 1997. (pdf)

 

Sem noção e meias verdades

28 Jan

O fato que tudo possa ser mera “opinião” é que cria e desenvolve o sem-noção, termo popular para falar da doxa, o que era mera opinião sem um conhecimento organizado que fundamente e torne séria determinada opinião sobre assuntos, o que é chamado episteme na antiguidade clássica.
O fato que a verdade quase sempre permanece encoberta é que estamos em busca da re-velação, embora a use também, se atentarmos para o termo significa velar de novo, e não des-velar, tirar o véu, a antiguidade clássica também tinha um nome para isto: a-letheia (lethe, “esquecimento”), a como negação significa: não esquecer.
Revelação está mais próximo do que Aristóteles chamou de endoxa (ἔνδοξα), ao contrário de Platão que considerava a doxa mera opinião, Aristóteles a revaloriza entendendo que muitas das crenças e opiniões populares pode vir de consenso de sabedorias antigas, como diz no meio popular, nossos pais “sabiam das coisas”.
Pode-se encontrar na obra Tópicos traduzida do grego por Jacques Brunschwig (1967), uma definição direta de Aristóteles:
“Endoxa, por outro lado, são aquelas [opiniões] que se baseiam no que pensam todos, a maioria ou os sábios, isto é, a totalidade dos sábios, ou a maioria deles, ou os mais renomados e ilustres entre eles”. (Aristoteles, 1967, 100b20-22).
O fato que um conjunto de opiniões viram as chamadas “lendas urbanas”, para isto estou recorrendo ao termo popular sem-noção, é que determinadas verdades ditas de modo bastante incisivos e persuasivos tornam-se meias-verdades públicas, e assim tem necessidade de um desvelamento, mas a raiz disto está no pensamento e não nas mídias, que servem apenas de veículos propagadores de ideias, que também os jornais, rádios e TVs já fazem.
Na década de 20 Karl Kraus, um dramaturgo que escrevia contra o mau jornalismo, a serviço de meias-verdades e a favor de interesses bem determinados mostra que o fato é antigo, mas qual a origem ? Vejo duas bem claras.
Primeira uma episteme, os saberes construídos mesmo em academias e livros com muito pouca historicidade, usam-se aforismos (Karl Kraus tem um livro com este nome, mas dizia que eram meias-verdades ou mais que verdades), a própria organização do conhecimento com vícios de logicismo e visão unilateral das questões, devido a pouca transdisciplinaridade dos discursos.
Mas há uma razão pública, além da epistémica que é mais profunda, gostamos de omitir opinião sobre tudo e pensar pouco, aprofundar sobre certo tema ficou “fora de moda”, ou seja, a preguiça mental leva-nos a isto (as novas midias são posteriores ao fenômeno de superficialidade), não há como ser profundo sem duvidar do próprio pensamento, ser ouvir o outro, sem abrir-se a conhecimentos novos que acontecem todos os dias.
O já sei no que vai dar, já sei o que pensa ou não vale a pena estudar, ler e aprofundar, levou a uma cultura sem noção, pouca profundidade, imediatismo e isto não tem nada de líquido, é uma sólida ignorância, as vezes militante e relutante a abrir ou desvelar, fica no re-velar.
Aristóteles. Topiques. Tome I: Livres I-IV. Texte établiet traduit par Jacques Brunschwig. Paris, Les Belles Lettres, 1967

 

Pequena história da verdade

25 Jan

“A verdade não está com os homens, mas entre os homens!” esta frase seminal do filósofo Sócrates já trás em si duas partes da verdade, não confundir com meias verdades, a primeira é que ao estar nos “homens” significa um argumento onto-lógico e não apenas lógico, e a segunda que estando “entre” não poderá estar com apenas um homem, é preciso dia-logo, ou seja, dois lados.
Assim procedia Sócrates ao perguntar (o seu método), porém a própria questão é se perguntar não será apenas lógico, ou seja, a pergunta pode já fazer parte de uma resposta, enquanto qual é a pergunta para se ter a verdade?
Depois de Sócrates, Platão e Aristóteles se destacam sobre a verdade, Platão fará diferença entre a Doxa (em grego: δόξα) que é a crença comum ou opinião popular e embora seja diferença da Episteme (ἐπιστήμη) como conhecimento, levou a uma clássica oposição de erro á verdade, que tornou-se de grande interesse a filosofia ocidental.
Episteme de onde vem epistemologia é o conjunto do conhecimento construído metodologicamente, mas também não é apenas lógica, sua pretensão é criar campos de relações, continuidades e descontinuidades entre práticas discursivas.
Aristóteles vai acrescentar o conceito de “endoxa”, crenças que podem ser sustentadas por sábios ou pela tradição para reconhecimento das crenças da cidade, ela é testada e portanto mais estável que a “doxa” convencional.
Ao final da idade média debatiam-se nominalistas e realistas, sobre a existência de universais e particulares, sendo a verdade enquanto realidade tendo apenas particulares ou tendo a possibilidade de encontrar universais, por exemplo, se todo homem é um animal, então um homem particular é um animal.
Será a ideia que existem universais que construirá o iluminismo moderno, mas sua base de verdade é racional e também existencial, posso duvidar de tudo, mas não de que existo, ou seja, para a própria ação de duvidar é necessário que eu exista.
Mas o racionalismo leva a duvidar da existência exterior, a clássica divisão corpo e mente, Imannuel Kant afirma que as percepções dos sentidos são posteriores à experiência enquanto é necessário um a priori universal, usando o argumento dos realistas, chama-o de juízo analítico enquanto os primeiros são os sintéticos, feitos a partir da junção de informações.
O ápice do idealismo é Hegel, que estabelece vários conceitos ideais: o estado, o espírito e a ética, porém a crise da modernidade retornará a velhos dilemas: a linguagem, o discurso e o que é a coisa ou o Ser, há então três reviravoltas: a linguística, a ontológica e a do “sagrado”.
Karl Klaus (1874-1936) já reclamava sobre a verdade no meio jornalístico, é verdade que a indústria cultural movimentou massas, e as Mídias de redes agora também, mas e a verdade?
A grande revanche do sagrado no cristianismo, ocorre quando Jesus ao fazer a leitura numa sinagoga abre a passagem de Isaías 61: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa-nova … “, e disse hoje se realizou esta profecia.
A busca dos fundamentos perdidos, de formas de espiritualidade (as vezes bizarras é certo), de nova forma de conforto para a alma humana em tribulação não é outra coisa: ausência de uma verdadeira transcendência que leva a “clareira”, a “revelação” e ao desvelamento da verdade.

 

A vida imita a Ficção Científica ?

24 Jan

Sim, já que para a sétima arte e também para a literatura da ficção científica esta é arte.
A questão é que boa parte da ficção não se realiza, o clássico Odisseia 2001 de Stanley Kubrick, baseado no livro de Arthur C. Clarke, não previu os portáteis em 2001, nem as midias de redes sociais, o próprio filme Redes Sociais contém um equívoco já no nome, pois é só uma midia e grandes questões das redes como os 6 graus de liberdade, mundos pequenos e laços fracos não são sequer lembrados.
Também o clássico Blade Runner e sua nova versão Blade Runner 2049 ainda tem a pergunta do teste de Turing, como diferenciar uma máquina e um ser humano por suas reações é mais um questionamento existencial-ontológico que ficcional, o que a crítica pouco percebeu é que as máquinas continuam tentando iludir o caçador de androides e ele continua a eliminá-las sem romper com sua própria crise existencial humana.
Fica a pergunta do autor Philip K. Dick do livro que inspirou o filme “Androides sonham com ovelhas elétricas? Será que sonham, terão experiências existenciais como no filme A.I., ou sairão do mundo das máquinas, para afirmar sua “humanidade” humanoide como filme Ex-Machina?
É fato que desde Júlio Verne, passando pelo filme Metrópolis, as séries Perdidos no Espaço e Jornadas nas estrelas de grande sucesso na TV em seu tempo, trouxeram novidades como os transmissores celulares, e quem sabe num futuro próximo o teletransporte, pois os hologramas já estão aí, mas ainda são apenas artefactos de transmissão.
Depois de anos seguidos de filmes de ficção científica: Gravidade (2013), Interestelar (2014) e Ex-Machina (2015), Perdido em marte (2015), A chegada (2016), It (2017), Blade Runner 2049 (2017), a ausência de 2018 talvez seja o que justifique a indicação do filme do super-herói Black Panther ao Oscar 2019 de melhor filme, faltou inspiração mas não imaginação.
A imaginação sobre o futuro continua a nos providenciar artefactos para a vida real, mas a vida real segue seu drama existencial, em tempos de ira e de ameaças de retorno ao passado, vale a pena pensar o que será o futuro, mesmo que seja apenas de artefactos e não da vida real, esta segue seu drama, ainda que Uma Dobra no Tempo (Wrinkle Time) com a excelente Oprah Wrinfey ficou devendo em efeitos e cenários.