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Qual é o mal de nosso tempo

05 Fev

A modernidade está em crise, e não é devido a tecnologia e as novas mídiasDesorientaçao, visto que o processo já foi detectado a muito tempo por pensadores, sociólogos e cientistas sociais, muito antes do aparecimento das modernas mídias, ainda que elas influenciem, não é causa fundamental e nem fundamento desta crise.

Um dos autores que aponta esta crise é Domenico de Mais, escritor de 79 anos, professor da Universidade La Sapienza de Roma, ele fala de uma desorientação, seu último livro o “Alfabeto da Sociedade Desorientada” (Objetiva) chegou às livrarias brasileiras em 2017, ele ficou famoso pelo seu livro “ócio Criativo”.

Em seu livro anterior m meu livro anterior, “O futuro chegou” (editora Casa da Palavra), ele diz que falta à sociedade atual modelo sociológico como referência, é interessante pois observa-se que esta volta as ideologias do século anterior revelam exatamente isto, o modelo binário de entender que ou vamos para o socialismo utópico ou para o capitalismo do período da “Riqueza das nações” de Adam Smith.

De seu livro anterior fico com uma análise que considero importante, onde diz que a falta de referência fez a sociedade der incapaz de distinguir o que é belo e o que é feio, o que é verdadeiro e o que é falso, o que é bom e o que é ruim, o que é direita e o que é esquerda e até o que é vivo e o que é morto, talvez entendamos a onda de “zumbis” e a pós-verdade aí.

Para apontar o que o autor pensa do futuro, ele aponta uma série de “acupunturas sociológicas”, alguns aspectos significativos da nossa sociedade, e explora vinte e seis, o que é a meu ver demasiada e que pode de certa forma confundir.

Ele próprio faz uma síntese ao apontar os fatores que foram “sólidos” (conceito que atribuo a ele em função do líquido baumaniano), da sociedade industrial (1750-1950), qual sejam: a racionalidade, velocidade, eficácia, padronização, consumismo e machismo.

Demonstra como problemas como a concentração de renda poderia ser resolvida a partir de uma visão da riqueza produzida, segundo dados do autor o mundo cresce 3 a 4% ano, e já produz, 65 trilhões de dólares ao ano, e usando um relatório da ONU sobre o Desenvolvimento humano, bastariam 100 bilhões de dólares ao ano para acabar com a fome no mundo.

Aponta visões enigmáticas da sociedade, como perda da privacidade (segundo ele, será impossível esquecer, se perder, se entediar e se isolar), e conseguiremos pela engenharia genética evitar a maioria das doenças (muito irrealista ao menos até este momento), e faz da tecnologia uma panaceia para muitos de nossos males: robôs afetivos (com uso de Inteligência artificial), impressoras 3D que substituiriam as máquinas industrias, etc.

Ainda que apele para a subjetividade, na velha dicotomia entre sujeito e objeto, não vê ainda a questão do Ser que só pode ser resolvida com a presença de outro Ser, conforme análise das correntes existenciais-ontológicas, substituí-lo artificialmente não me parece uma solução.

Mas vale a máximo de Sêneca que gosta de usar:  “Nenhum vento é a favor do marinheiro que não sabe onde querer ir”.

 

Princesa Léia: de Volta para o Futuro

03 Fev

Eu sei, são dois filmes distintos, porém a Universidade Brigham Young (BYU) parece retornaraPrincesaLeia ao caminho da transmissão e projeção de imagens holográficas 3D no ar.
“Nossa equipe tem como missão tornar realidade os hologramas em 3D das ficções científicas” disse Daniel Smalley, professor de engenharia computacional e informática, um especialista em holografia que publicou recentemente (25/01) um artigo na Revista Nature.
A técnica que desenvolveu baseia-se no fenômeno da fotoforese, na qual partículas suspensas em meio a um líquido gasoso (há experiências com gotículas de água que o obriga a serem aspiradas no ar), podendo ser as próprias partículas que estão no ar atmosférico, que precisam ser movimentadas por gradientes térmicos e que pode ser feito por raios laser, explica Smalley “essas telas são capazes de produzir imagens em um ´ar fino’ que são visíveis de qualquer direção e não estão sujeitas a recortes”, ou seja, é visto de qualquer posição do espectador.
O nome técnico deste efeito é mais precisamente: “photophoretic-trap volumetric display” (uma tradução pode ser ´display de projeção volumétrica por armadilha fotoforética´), e é superior a técnicas antigas que não conseguiram capturar a luz por meio do ar para criar um objeto virtual com a mesma noção de profundidade do objeto real.
Mas o mais espetacular é a possibilidade de projeção RGB (Red-Green-Blue, as três cores primárias que compostas foram o espectro visível pelo ser humano), como o ponto de luz é capaz de mover-se rapidamente e assim o ponto de luz produz a cor, a projeção dos rádios laser verde, vermelho e azul produzem o efeito visual da cor.
A imagem colorida em três dimensões volumétrica (3D), terão a resolução de 10-micrómetro (10^-6 do metro ou 10^-4 do centímetro), isto significa produzir 10 mil voxels (Pixels volumétricos) por centímetro ou um milhão por metro cúbico.
Em pouco tempo a comunicação mudou, em 10 anos falamos pela Web em interação visual, graças ao VoIP (voz sobre Internet), agora a interação volumétricas em hologramas, ou também, assistir imagens de objetos e pessoas a nossa volta que estão a milhares de quilômetros de distancias, ou simplesmente, em filmagens de outros tempos, estamos de volta ao futuro.

 

É preciso sair, mas de corpo e alma

02 Fev

A ideia de que o ócio venha dos gregos, e há até literatura exaltando-a para uma falsa sabedoria, aFadiganão corresponde a verdade, vejam o que diz Aristóteles sobre o assunto: “exaltar a inércia mais do que a ação não corresponde à verdade, porque a felicidade é atividade”, claro de outro lado o ativismo impede a reflexão e o descanso para uma atividade profícua.
Byung-Chul Han alerta que nossa cultura atual é de uma “Sociedade do cansaço”  (editado no Brasil pela Vozes 2017): “A sociedade do cansaço e do desempenho de hoje, apresenta traços de uma sociedade coativa, cada um carrega consigo um campo, um campo de trabalho. A característica específica desse campo de trabalho é que cada um é ao mesmo tempo detento e guarda, vítima e algoz, senhor e escravo.  Nós exploramos a nós mesmos.” (Han, 2017, p. 115)
Não damos trégua nem ao nosso corpo (claro outros dão demais), “malhar” e outras formas de exercícios (Sloterdijk vai chamar de “ascese desespiritualizada”), encherem-se de remédios e vitaminas (o princípio da imunologia em ambos os autores), e não se trata de uma busca, mas apenas de ir enchendo-se de bobagens até a auto exaustão.
Também o excesso de cursos (estou me referindo a cursos sem conteúdos e proveito), palestras motivacionais que custam 100 a 1 mil reais, fazem parte de uma nova onda.
É uma busca humana, compreensível, todos querem achar o novo, mas se observarem bem este conjunto de coisas não passam de ideias e atitudes velhas maquiadas, para “vender”.
Reeducar o pensamento, os relacionamentos e até mesmo o que pensamos de espiritualidade, que significa dar sentido as coisas subjetivas (já disse que não há nelas desapego ou crítica às objetividades que seria um dualismo), significa estruturar a alma humana e claro num corpo.
É preciso sair da rotina, da burocracia da vida cotidiana, sem atender aos apelos midiáticos.
No evangelho de Marcos que narra a cura da sogra, exaltada em muitas pregações por ter ido servi-los, mas há um detalhe também precioso que diz que Jesus saiu de madrugada para orar e nele quando os apóstolos dizem (Mc 1,37,38) “Todos estão te procurando” Jesus respondeu: “Vamos a outros lugares, às aldeias da redondeza! Devo pregar também ali, pois foi para isso que eu vim.”
O comodismo e a inércia precisam de cura, é preciso mover aqueles que têm um espírito novo devem sair a busca, devem sair para escutar os outros, para viver uma vida sã.

 

O mal metafísico-ontológico

01 Fev

Entendemos o mal como ausência do Bem ou sua fragilidade, e com isto superamos o aBadOntologymaniqueísmo, entendemos de certa forma o mal moral como aquele que tem uma relação direta com o comportamento ético, e indiretamente com a religião e muita raramente com a história da filosofia, embora esta seja essencial para se entender o “mal moral”.
A ideia que desenvolveu-se durante vários aspectos analisando o Bem deste a antiguidade clássica, pode abordar o problema do mal metafísico-ontológico.
Agostinho de Hipona abordou o tema no livro I De libero arbítrio que Agostinho através de duas questões que está especificamente preocupado, a saber: Qual é a causa da prática do mal (malefacere)?  E o que significa proceder mal?
Em outra obra de Agostinho (Cidade de Deus) ele afirma: “Todo movimento da alma tende ou na direção de um bem a ser adquirido ou conservado, ou para longe de um mal a se evitar ou descartar: o movimento livre da alma para adquirir ou evitar algo é a vontade”.
Este conceito é importante numa sociedade marcada pelo cansaço e pela ansiedade, uma vez que toda vontade deve ser satisfeita imediatamente, só para exemplificar, apesar da proibição é comum se ver pessoas que consomem imediatamente o produto que estão comprando em supermercados ou lojas de vendas.
É de certa forma, entre muitos outros, o chamado “mal estar da modernidade”, atinge o ser humano no mais íntimo do sentido da vida, não apenas o social, mas chegando ao social.
Em confissões ele afirma: “O mal não é somente uma privação, é uma privação que reside num bem como em seu sujeito”, ou seja, uma relação direta entre objeto e sujeito, dito de outra forma: “o objeto do desejo” uma vez que a vontade é humana.
Assim, somos levados a fazer um raciocínio de Agostinho,  a vontade livre é caracterizada como um bem mediano cuja natureza é boa, mas cujo efeito pode ser mal ou bom, de acordo com a maneira pela qual o homem a usa, assim o mal não reside no objeto, mas no seu uso.
Assim o mal metafísico-ontológico, que já estava presente nos escritos de Agostinho, refere-se a contingência e a finitude humana, a imperfeição e a falta de harmonia no ambiente que temos a nossa vontade, desde o contexto história até o humano-existencial.

 

O bem entre Platão e Aristóteles

31 Jan

A razão que deste tema da antiguidade clássica para a contemporaneidade é o reconhecimento,AgreekPolis para diversas interpretações da prática do dia-a-dia para a mais alta teorização que ainda nosso pensamento está intrincado desta ideia de bem.
Hans-Georg Gadamer em seu livro “A ideia do bem entre Platão e Aristóteles” (2009) desmonta desde o início do texto “as comparações ideais e ingênuas, tal como “Platão, o idealista”, ‘Aristóteles, o realista’  “ (pag. 2) e afirma que este é o testemunho da parcialidade “no campo da consciência idealista.” (idem).
Demonstra isto com a interpretação neokantiana de Platão feita por Paul Natorp ao fazer a aproximação de Platão e Galileu, onde interpretou “a ideia” como “a lei natural”, e que fora alertado pela ruptura de Nicolai Hartmann com este tipo de idealismo, e foi o que fez inúmeros autores (Robin, Taylor, Ross, Hardie e Hicks) que mostraram a unidade da filosofia do Lógos com toda “a conceptualidade do pensamento ocidental” (pag. 3).
Reconhece que o conhecimento que goza de amplo reconhecimento é a tekhné, enquanto o conhecimento que é mais importante para o homem: “sobre o Bem parece de outro tipo, diferente de todo o conhecimento conhecido …” (pag. 25) então este tipo é ainda muito mais importante para nossos dias, como mostra a “banalidade do mal” de Hanna Arendt ou a “fragilidade do bem” de Martha Nussbaum, o tema está de volta.
Como isto pode ser dito de modo mais direto: corrupção, violência, terrorismo , fome e diversos tipos de intolerância demonstram a nossa ignorância ainda hoje sobre o tema.
Em densa e complexa análise, Gadamer mostra o fundamento ocidental deste tema,
Destaca o autor, a partir da República de Platão, que o mundo idealizado do Estado pelos autores da Antiguidade Clássica, pensavam que esta ideia de Estado ia harmonizar a sociedade,
Platão em vida observou a corrupção da polis grega, Gadamer cita sua Sétima Carta da República: “a não ser que ocorresse uma reforma de dimensões incríveis” (p. 70),
Fica a pergunta de Leo Strauss e Allan Bloom, citados por Gadamer: “Intenciona Platão nada mais a não ser caracterizar o conflito entre theoría e política?” (p. 72), a resposta de Gadamer caminhará (de modo complexo) para uma areté coletiva, bem ao gosto de seu círculo hermenêutico, mas pensamos que uma verdadeira ideia do “Bem comum” ainda precisa ser explicitada com uma reforma de “incríveis dimensões”.
GADAMER, H.G. O bem entre Platão e Aristóteles. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.

 

Ainda sobre o mal

30 Jan

Não completamos o nosso raciocínio sobre o mal, duas análises ainda podem ser feitas, e seaBadSimbol desejamos comentar Kant três análises: Kant, Paul Ricoeur e Gadamer.
Serei breve com Kant (1724-1804), embora seja necessária uma análise mais profunda indo até Hegel, o ponto central de seu pensamento nesta questão, é que o mal quanto à origem é insondável, mas para ele existe o “conceito” (idealista claro) de mal radical, e assim seria a escolha entre uma máxima boa ou má, a partir do qual todas as outras derivam.
Paul Ricoeur afirma que ele (Kant) explica a liberdade pelo mal e o mal pela liberdade, num raciocínio tautológico portanto, Ricoeur vai procurar em fonte originárias, ou seja, o resgate do conceito de mal deve vir fundamentado em fontes originárias, a partir delas encontramos a origem existencial do mal, e assim ela está nos símbolos e nos mitos.
Interessa-nos por questão de colocar a técnica e tecnologia (estudo e desenvolvimento da técnica) em questão, analisar os passos originários antropológicos, por isso a questão que os grupos nômades de 200 mil anos atrás de homo sapiens fazem migração e incursões em novos territórios em grupos é significado, porque revela intensão de expansão e de “ocupação”.
De forma embrionário este raciocínio está escrito também em Paul Ricouer, o autor fala da influência em seu pensamento de Jean Nabert da frase lapidar de Spinoza “desejo de ser e esforço para existir”, e que exerceu influência decisiva no pensamento de Ricoeur (RICOEUR, 1995, p. 23)
Ricoeur chama de “pequena ética” sua visão do mal como aquela que o sujeito se descobre envolvido, está com um mal-ser, um mal-substância, um mal-fazer que resulta do uso de modo equivocado de sua liberdade, ainda há nele um resto de maniqueísmo.
Só daí que ele vai para o mal simbólico (nome de sua obra principal no tema), num caminho do simbólico ao mitológico, e daí para os textos, implica no conceito de mal ligado a cultura.

Ainda que não sejam conclusivos, são raciocínios importantes para se entender o que a cultura contemporânea chama de “mal”.

RICOEUR, P. Da Metafísica á Moral. Trad.: Sílvia Menezes. Lisboa – Portugal: Instituto Piaget, 1995.

 

Novas descobertas do homo sapiens

29 Jan

Em estudo publicado nesta quinta-feira (25/01) pela revista Science, numa caverna africanaaMandibula chamada Misliya, foram encontrados fragmentos faciais com a mandíbula e vários dentes pelos quais se pode fazer a datação com cerca de 200 mil anos, o homo sapiens é mais velho do que nós pensávamos, e então migrou da África para o continente asiático passando pelo Oriente Médio.
Foram encontrados no sítio arqueológico Caverna Misliya (próxima a Israel), localizada no Monte Carmel, os ossos têm entre 177 mil e 194 mil anos.
O coautor do estudo Rolf Quan, afirmou à revista: “é uma descoberta emocionante, ele fornece a clara evidência que nossos ancestrais migraram da África muito antes do que acreditávamos”.
O fóssil que foi chamado de Mislya-1 possui dentes como os humanos modernos, além de mostrar características da espécie humana, e outras evidenciam mostraram que caçavam animais grandes e já usavam o fogo, ferramentas de pedra e lâminas sofisticadas para a época foram encontradas também no local.
Recentemente outros fósseis de cerca de 300 mil anos foram encontrados no Marrocos, e depois em Israel, que já eram luzes sobre esta imigração, e isto reforçou a idéia que traçaram uma rota ao longo do vale do Nilo (a necessidade da água) e não por uma rota através do estreito Bab al-Mandeb, costa da Arábia Saudita, indo depois ao lesta da Ásia e ao subcontinente indiano, afirmou outro coautor Israel Hershkobitz, da Universidade de Tel Aviv.
Os humanos de Misliya eram nômades e migravam pela região no decorrer das estações do ano em busca de alimentos e buscavam cavernas para se abrigarem.

 

Um Espírito Novo de ver as coisas

26 Jan

Separação entre mente e espírito é uma construção contemporânea, assim aNovoEspiritocomo a relação com os objetos, com a tecnologia e com outras objetividades, como o dinheiro por exemplo, exercem sobre o pensamento ocidental, em especial, certa desconfiança.
O mundo objetivo que existe fora do homem precisa ser compreendido para se ter uma boa relação com ele, a modernidade diz que o homem deve “dominá-la”, mas a natureza e os objetos parecem se rebelar, não porque máquinas nos controlem, mas por que seu uso requer mudanças de comportamento e novas relações com a sociedade e o contexto.
A existência do mal, que Agostinho de Hipona dizia que era a “ausência do bem”, e ele foi um maniqueísta (a luta do bem e o mal), e que para a sociedade em crise é um conjunto de fatos simbólicos, armas de guerra, desafios entre torcidas rivais, xenofobia e outras fobias, está encerrado no fato que vivemos um contexto “mal” que precisa ser renovado.
Uma das primeiras coisas que deve-se renovar é o pensamento, diz Edgar Morin, mas dizem também boas espiritualidades e autores que trabalham a subjetividade humana.
Um mundo sem sentimento não é por causa das máquinas, mas do pensamento e das relações sociais que nos envolvem que se complicam dentro do contexto atual.
Em Mc 1,27 podem-se ler: “E todos ficaram muito espantados e perguntavam uns aos outros: “O que é isto? Um ensinamento novo dado com autoridade: Ele manda até nos espíritos maus, e eles obedecem!”
O fato que Jesus “curava” era para muitos naquele tempo um fato novo, com certa dose de “exorcismo” pelo fato que muitas doenças não eram conhecidas, o esclarecimento sobre muitas coisas era obscuro, mas nem por isto deixavam de entender que havia “um ensinamento novo dado com autoridade”, isto sim, um espírito novo de ver as coisas

 

Oscar 2018 e estréias

25 Jan

Estava pronto para nem comentar o Oscar, mas para minha surpresa o filme ThePostThe Post – A Guerra Secreta, dirigido por Steven Spielberg aparece entre os indicas, com Meryl Streep (candidata a melhor atriz) e participação de Tom Hanks, conta a história real sobre a guerra do Vietnã e os bastidores do jornal The Washington Post, em 1971, que chega as telonas nesta quinta-feira em muitos cinemas nacionais.
Outras duas estréias com indicados ao Oscar 2018 foram Artista do Desastre e Visages, Villages que também são estreias no cinema nacional e valem a pena serem assistidos.
Outras surpresas boas foram às indicações dos filmes: “Blade Runner 2049” para direção de arte, fotografia, efeitos especiais, edição de som e mixagem de som, assim como o diretor Jordan Peele, por “Corra!” que é indicado também para melhor filme.
Também foi surpresa a atriz Mary J. Blige é a primeira indicação em um ano em duas categorias: melhor atriz coadjuvante e melhor canção original em “Mudbound”
Decepções 13 indicações para “A Forma da Água”, a fantasia romântica dirigida pelo mexicano Guillermo del Toro, parece muito exagerada, e a omissão do filme O Rei do show, que teve várias indicações ao Globo de Ouro, ganhou apenas melhor música “This is me”.
Surpreendentes as indicações de “Dunkirk”, do britânico Christopher Nolan (oito indicações), e a produção independente “Três Anúncios para um Crime” (com sete).
“O Destino de uma Nação”, filme politico centrado na figura de Winston Churchill, obteve seis indicações, mesmo número do drama “Trama Fantasma”, justas, mas exageradas.

 

A fragilidade da bondade

24 Jan

O livro A fragilidade da bondade: fortuna e ética na tragédia e na filosofia gregaMarthaJustica [The fragility of goodness: luck and ethics in greek tragedy and philosophy] foi publicado em 1986, sua autora, Martha Nussbaum, era relativamente desconhecida fora do mundo acadêmico, mas já era respeitada como uma estudiosa da antiguidade clássica.
Até a publicação da edição brasileira, tornou-se conhecido no mundo anglo-saxão por um envolvimento no debate político norte-americano, com ênfase especial na filosofia política.
Pode-se fazer um resumo grosseiro do livro, dizer que a partir da discussão da tragédia grega do século V a.C. e assim como dos filósofos do século IV a.C., que o livro aborda as tensões entre o papel da fortuna  (no sentido grego é mais sorte que dinheiro) na existência humana e a aspiração a uma vida moralmente realizada.
Então esta discussão reside na ideia de que pode existir “uma lacuna entre ser uma pessoa boa e conseguir viver uma vida humana florescente”, assim ela fala de um “reflorescimento”.
Uma das forças do texto é no modo como o significativo conhecimento do corpus textual da antiguidade clássica e a competência filológica de sua autora se conjugam à abordagem, então é como se estivéssemos revisitando a filosofia grega, então o “reflorescimento” é também filosófico, até certo ponto questionável porque este foi o projeto do renascimento.
Seu mérito é ler a filosofia ocidental a partir dos gregos, e não exclusivamente nos gregos, onde ela destaca o papel central da moral que vai chegar até nossos dias, o reflorescimento é então uma adesão da autora ao “método” aristotélico de abordagem das coisas humanas, porem pode-se dizer que há três questões numa espécie de “fenomenologia” da vida ética humana e do papel que a fortuna aí desempenha, e isto pode ser observado no texto:
São três os aspectos aristotélicos, a boa via: o amor, a amizade, atividade política, etc., seriam por definição vulneráveis ao risco, ao perecimento e impregnadas de incerteza.
Em segundo, as coisas tidas como valiosas são plurais, podem ser incompatíveis entre si e, em última análise, são irredutíveis a um valor superior, que podem gerar, em momento específicos, quando não estão sujeitas ao controle humano, exigências conflitantes e incontornáveis.
Em terceiro lugar: as emoções, os desejos, os sentimentos nos vinculam a objetos, por definição, particulares e contingentes, expondo-nos à precariedade e à indeterminação constitutiva desses últimos.
É um bom traço aristotélico, mas considero a análise de Gadamer sobre a questão mais profunda, pois ele a une ao tratamento das virtudes platônicas: a coragem, a sabedoria, a temperança e a justiça.
Não sou platônico, mas parece que todas estão em falta.
NUSSBAUM, Martha. The fragility of goodness: luck and ethics in greek tragedy and philosophy. 2. ed. Cambridge, Cambridge University Press, 2001.