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A física quântica e a política

24 Set

A física mecânica, em especial a mecânica celeste de sir Isaac Newton, levou a ideia de causa e efeito nas mesmas proporções de uma máquina mecânica, diz-se popularmente a cada causa há uma reação contrária em sentido oposto, foi para a política como “homem lobo do homem” de Hobbes.

Depois veio o empirismo de Hume, na verdade é mais ligado a teoria do conhecimento, que vem da ideia que somente posso dizer algo a partir de minha experiência sensorial, assim como o mecanicismo, todo o conhecimento e objeto dele está fora do ser e só há percepções.

Levado a politica, é o que exploram os senhores do marketing político, trabalhar com as emoções das pessoas de modo não a dar-lhes uma referência da verdade, mas iludi-las.

A crítica a esta “filosofia” política, pois o assunto é mais abrangente ela vem lá da idade média onde em 1200 já era definida como “ciência dos estados”, porém toda a crítica a este conjunto de ideias empíricas e idealistas, é chamada de Empiro-criticismo, Marx a desenvolveu mas depois foi atualizado pela Microfísica do Poder, a ideia não mais do estado mas do poder que constitui-se no “indivíduo”, que Peter Sloterdijk, Gadamer, Ricoeur e outros consideram já também superada.

Se queremos adaptar a física quântica, que é do mundo físico, ao mundo na escala humana, que é ontológico, podemos pensar que há duas vertentes possíveis uma mais democrática que leva ao entendimento do mundo como Natureza e outro como a busca do “Justo”.

Destaco no empirocriticismo do Justo John Rawls, Habermas e Michael Sandel, todos ainda com uma forte influencia da chamada “teoria crítica”, e na questão da Natureza pensamentos Hannah Arendt, Raymond Aron, Norberto Bobbio, Phillip Pettit, Robert Nozick, e claro há outros.

As afirmações da física quântica com o infinitamente pequeno (as partículas) e o infinitamente grande (os corpos no universo) mudam a ideia que temos de causalidade, em política de que os vencedores contam a história, pois na física quântica a dimensão energética, a massa e energia que é 94% do universo, e tem uma influência nele, seria uma abordagem do inconsciente coletivo, as forças que não aparecem e que influenciam o processo político, presentes no “inconsciente”.

Outra parte importante é que o olhar do observador define a realidade, portanto a suspeita ideia de neutralidade foi superada, Werner Heisenberg, Eugene Wigner, Roger Penrose e Erwin Schorodinger desenvolveram esta visão quântica.

Em política significa que o olhar das pessoas simples influencia sim a política, educá-las é essencial para a democracia, e apenas manipulá-lo um desastre.

 

E vós quem dizeis que eu sou

21 Set

As verdades dos fatos só revelam na verdade dos atos, é assim para a vida cotidiana, é assim para a política e para os discursos, se vivemos na pós-verdade, ela tem o limite dos atos.

Gostamos no dia a dia de criar narrativas mais favoráveis a nossa conveniência e ao nosso ideário, mas quase sempre o desvelar existe além da linguagem e do discurso.

A criação de uma inteligência lógica, em camadas mais profundas chamadas agora de Deep Mind ou Deep Learning, não é senão a resposta artificial ao mundo virtual, parte do real junto ao atual, a uma lógica consistente com a ação, enquanto na humana sempre haverá alguma dislexia.

A plena consciência está ligada a plena dialogia, onde os discursos podem interpenetrar no circulo hermenêutico, a diferença com a inteligência artificial é que a máquina aprende com humanos, mas lhe será difícil de escapar da lógica formal, enquanto a humana é ontológica.

Isto significa que estamos na era do Ser, manifestação mais profunda do que somos, e ao contrário do que supõe o discurso anti-tecnologia, é justamente ela que pode ajudar o discurso humano nos aspectos essenciais da lógica, que as vezes falseamos para ter razão.

Historicamente a tecnologia não está deslocada das necessidades humanas, é muitas vezes a má adaptação ou uso da relação humana com a tecnologia que causa alguns transtornos e má compreensão do seu verdadeiro papel, que é o de auxiliar o ofício, a arte e a técnica, diz a origem grega da palavra techné.

Na passagem bíblica que Jesus testa seus apóstolos ele pergunta: “e vós quem dizeis que eu sou” (Mt, 16,15) , para uns foi um grande profeta, para outros um retorno de Elias ou até de Moisés, e só para alguns era o Messias, ou seja, a sabedoria Divina entre nós.

O uso condenável da mensagem evangélica em política, não é pelo fato que devam ser fora dos interesses do bem comum e da sociedade em geral, mas é a possibilidade de instrumentalizar e usar a favor de determinado discurso, nem sempre coerente ao evangelho.

 

 

Projeto avançado Deep Mind

20 Set

Projetos que tentavam simular sinapses cerebrais, a comunicação entre neurónios, foram anteriormente chamados de redes neurais ou neuronais, e tiveram um grande desenvolvimento e aplicações.

Aos poucos estes projetos foram se deslocando para estudos da mente e o código foi sendo dirigido para Machine Learning (Aprendizado por máquina) que agora usando redes neurais passou a ser chamado deep learning, um projeto avançado é o Google Brain.

Basicamente é um sistema para a criação e treinamento de redes neurais que detectam e decifram padrões e correlações em sistemas aplicados, embora análogo, apenas imitam a forma coo os humanos aprendem e raciocinam sobre determinados padrões.

O Deep Learning é um ramo da Machine Learning que opera um conjunto de algoritmos usado para modelar dados em um grafo profundo (redes complexas) com várias camadas de processamento, e que diferente do treinamento de redes neurais, operam com padrões tanto lineares como não lineares.  

Uma plataforma que trabalha com este conceito é a Tensor Flow, originada de um projeto anterior chamado DistBelief, agora é um sistema de código aberto, lançado pela equipe da Apache 2.0, em novembro de 2015, o Google Brain usa esta plataforma.

Em maio de 2016, a Google anunciava para este sistema a TPU (Tensor Processing Unit), um acelerador de programas de inteligência artificial programável com habilidade de alta taxa de transferência para a aritmética de baixa precisão (8 bts), que executa modelos e não mais treina como faziam as redes neurais, inicia-se uma etapa da Deep Compute Engine.

O segundo passo deste processo no Google Compute Engine, a segunda geração de TPUs alcança até 180 teraflops (10^12 números reais) de desempenho, e montados em clusters de 64 TPUs, chegam a trabalhar até 11.5 petaflops.

 

Revolucionário método para vídeos

19 Set

Os pesquisadores da Universidade Carnegie Mellon desenvolveram um método que sem a intervenção humana, modificam um conteúdo de um vídeo, de um estilo para outro.

O método é baseado num tratamento de dados conhecido como Recycle-GAN que pode transformar grandes quantidades de vídeo tornando-os úteis para filmes ou documentários.

O novo sistema pode ser usado por exemplo para colorir filmes originalmente em preto-e-branco, alguns já feitos como o que mostramos no vídeo abaixo, mas as técnicas eram dispendiosas e necessitavam de grande esforço humano em horas de trabalho.

O processo surgiu de experiências em realidade virtual, que além das tentativas de criar “mudanças profundas” (alterar objetos ou distorcer conteúdos, podiam aparecer uma pessoa inserida numa imagem, sem que houvesse permissão para isto, nas cenas cotidianas quase sempre acontece isto e muita gente não aceita.

Eu acho que há muitas histórias para serem contadas”, disse Aayush Bansal, um estudante de Ph.D. do Instituto de Robótica da CMU, dizendo de uma produção cinematográfica que foi a principal motivação para ajudar a conceber o método, explicou, permitindo que os filmes fossem produzidos de forma mais rápida e barata, e acrescentou: “é uma ferramenta para o artista que lhes dá um modelo inicial que eles podem melhorar”, conforme o site da CMU.

Mais informações sobre o método e vídeos podem ser encontradas em Recycle-Gan website.

 

Colaboração digital entre Museus de Arte

18 Set

Uma plataforma de software digital de código aberto para curadoria de arte e compartilhamento entre museus e outros ambientes de exposição artística, foi desenvolvida pela colaboração entre pesquisadores da Universidade de Nova York (New York University) e os analistas e historiadores de arte da Biblioteca Frick Art Reference de Nova York.

A plataforma ARIES, disponível gratuitamente no ARtImageExplorationSpace.com, simplifica a organização, exploração e análise de coleções digitais, permitindo aos especialistas que manipulem imagens.

O kit de ferramentas desenvolvido permite aos usuários ampliar recursos, filtrar imagens, adicionar anotações, alterar lentes, marcar imagens, selecionar e colorir imagens (foto) e compartilhar coleções.

Claudio Silva, da NYU Tandon, afirmou que “como o ARIES também é baseado na Web, ele é portável e livre das complexidades de instalação de um sistema. Isso é especialmente importante para nossos usuários-alvo, que tem pouca ou nenhuma experiência em computação”

O ARIES foi desenvolvido por uma equipe multidisciplinar, incluindo Claudio Silva e Juliana Freire, e por professores do Departamento de Ciência da Computação e Engenharia da NYU Tandon e membros do corpo docente do VIDA Center; Lhaylla Crissaff e Marcos Lage, em visita ao pesquisador da NYU Tandon João Rulff, ao pesquisador associado da VIDA R. Luke DuBois, artista, professor e co-diretor do programa de mídia digital integrada da NYU Tandon; e Louisa Wood Ruby e Samantha Deutch, diretora de pesquisa e diretora assistente do Centro de História da Coleta da Frick Art Reference Library, respectivamente.

Claudio Silva disse que a equipe está lançando novos recursos de forma incremental e planeja deixar o software mais sólido, de forma a melhorar a documentação, tutoriais e estudos de casos de forma a ampliar a base de usuários.

Como pode-se perceber pelos menos, o projeto teve parte do apoio em bolsas do CNPq-Brasil e é apoiada por uma concessão de infra-estrutura de pesquisa computacional (CRI) da National Science Foundation.

Frick Art Reference Library foi fundada há quase 90 anos (1934) pela filha de Henry Clay Frick (1849–1919), Helen Clay Frick, está no edifício na 10 E. da 71st Street, a Biblioteca é uma das principais referências em história e coleções de arte.

 

 

Estamos chegando perto, mas do que ?

17 Set

Aos 20 anos, o romance de Carl Sagan “Contato” (1985) me impressionou de tal modo que nunca mais saiu da minha imaginação, o livro

Contato,  Buraco de Minhoca e radioastronomia.

falava de buracos de minhoca (wormholes são caminhos possíveis para a quarta dimensão), de teologia e de busca de vidas em outros planetas, eu fazia um caminho em direção ao materialismo que durou 20 anos, mas foi um percurso intelectual.

Aos 42 anos, o filme Contato (1987) voltou a me impressionar, a protagonista a Ellie Arroway (Jody Foster), na ficção era do SETI (Search for Extraterrestrial Intelligence), descubro agora que o departamento existe na Universidade de Berkeley e lá estão captando sinais vindos de uma estrela vindos de uma estrela distante.

Curioso e instigante, é justamente a fase em que retorno a estudar a Noosfera de Teilhard de Chardin e pesquisar a quarta dimensão, estamos preparando um holograma e uma Ode ao Christus Hypercubus em Lisboa, justamente uma referência de Salvador Dali a 4ª. dimensão.

Os pesquisadores do SETI de Berkeley, liderados pelo estudante Gerry Zhang e alguns colaboradores, usaram aprendizado de máquina (machine learning) para construir um algoritmo novo para sinais de rádio que identificaram num período de 5 horas em 26 de agosto de 2017 (puxa meu aniversario), mas deve ser só uma coincidência.

Zhang e seus colegas com o novo algoritmo resolveram reanalisar os dados de 2017 e encontraram 72 explosões adicionais, os sinais não parecem comunicações como conhecemos, mas verdadeiras explosões, e Zhang e seus colegas preveem um novo futuro para a análise de sinais de radioastronomia com uso de aprendizagem de máquina.

Como no filme o sinal precisou de muito tempo para ser decodificado, Turing que estudou a máquina Enigma capturada do exército alemão durante a Segunda Guerra, adoraria estudar isto hoje, ele a decifrou.

O universo de código não é, portanto, artefacto humano, o espaço está cheio dele, não quer dizer que seja de alguma civilização, mas eles estão lá, a radiação de fundo por exemplo, descoberta em 1978 por Penzias e Wilson, ratificou o Big Bang e deu-lhes um Nobel de Física.

Os novos resultados serão publicados este mês no The Astrophycal Journal, e está disponível no site Breaktrough Listen.

 

A verdade e os atos

14 Set

Pode parecer estranho para o discurso moderno que a verdade esteja além dos fatos, é porque considera-se o que é factual aquilo que estaria além do agir e do pensar, mas não o é, diria o escritor brasileiro Rubem Alves: “A beleza está além das palavras”.
Por isso Heidegger, Gadamer e Byung-Chul Han e outros é claro, não puderam falar da verdade sem deixar de ter presente a obra de arte, não pela concepção idealista do “belo”, mas por aquilo que está entre a ação e a contemplação.
Uma das artes mais belas que é o teatro, não por acaso tem peças divididas em “atos”, porém que não deveria ser chamada de re-presentação, somente de presentação, vê-la ao vivo é quase uma imposição, vê-la filmada torna-se outra coisa ou cinema ou televisão, agora os vídeos da Web, que fazem sucesso, mas este sim são re-presentações, com muitos fakes.
E o que deve dirigir nossos atos, está no post anterior a citação de Gadamer: ““o que o homem precisa não é apenas o posicionamento persistente de questões fundamentais, mas o sentido do que é viável, o que é possível, o que é correto, aqui e agora” (Gadamer, 1987) e não uma nova mitologia moderna.
A verdade dos atos sempre foi difícil de ser aceita e até compreendida pelos homens, aquilo que sempre esteve “além das palavras” nos atos, diz o evangelista Marcos (8,27-29) sobre os atos de Jesus e que seu discípulos assistiram: “Quem dizem os homens que eu sou?” Eles responderam: “Alguns dizem que tu és João Batista; outros que és Elias; outros, ainda, que és um dos profetas”. Então ele perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?”, ainda que duvidassem Pedro disse que era o Messias, mas diziam “ele faz bem todas as coisas”.
O pós-factual ou a pós-verdade só é impactante atualmente pelo número de narrativas e a quantidade de pessoas capazes de seguir as pseudo-mitologias modernas, querem só os fatos que convém, mas a coerência dos atos continua tão rara quanto o foi em toda a história.
O educador brasileiro Paulo Freire dá a sentença: “É fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal maneira que num dado momento a tua fala seja a tua prática.“

 

Então o caminho é o método

13 Set

Além da verdade histórica, oposta a hermenêutica (Shcleimacher) e do historicismo românticos (Dilthey), Gadamer trata a questão da verdade ligada tanto a religião quanto a arte, uma antecipação transdisciplinar, e quem sabe talvez seu “método” (veja nosso post anterior a questão de Ricoeur), dito desta forma:

“Uma sociedade culta que se afastou de suas tradições religiosas espera mais da arte da consciência estética e do ‘ponto de vista da arte’ do que podem produzir. O desejo romântico por uma nova mitologia … dá ao artista e à sua tarefa no mundo a consciência de uma nova consagração. Ele é algo como um “salvador secular”, pois espera-se que suas criações alcancem em pequena escala a propiciação do desastre para o qual um mundo não salvo espera” (Gadamer, 1997), é claro que a salvação aqui é a terrena (secular) e não a celeste. 

Na verdade, é o que compreendemos por história que nos faz patinar em patamares da tradição, diz Gadamer sobre a história: “Na verdade, a história não nos pertence, mas sim nós a ela”, e se é ontológica, haverá um Ser que a faz cumprir.

Explica Gadamer as dificuldades não só histórica, mas principalmente dos preconceitos ligados a tradição: “É a tirania dos preconceitos ocultos que nos faz surdos ao que nos fala na tradição.” (Gadamer, 1997)

E acrescenta sobre esta dificuldade dialógica: “Não podemos entender sem querer entender, isto é, sem querer deixar que algo seja dito … O entendimento não ocorre quando tentamos interceptar o que alguém quer nos dizer alegando que já o sabemos.”, em geral não fazemos um vazio conceitual para ouvir o outro.” (Gadamer, 1996)

Indica como colocar isto em planos práticos e reais: “o que o homem precisa não é apenas o posicionamento persistente de questões fundamentais, mas o sentido do que é viável, o que é possível, o que é correto, aqui e agora. O filósofo, deve ser aquele que dentre todas as pessoas, deve, penso eu, estar ciente desta tensão entre o que ele alega alcançar e a realidade em que se encontra.” (Gadamer, 1997)

É preciso antever (virtualmente) possibilidades, mas ser capaz de adaptá-las dentro das possibilidades reais, assim não há hermenêutica ou historicismo românticos, ambos devem ter presente as realidades e interpretá-las.

GADAMER, H.G. Verdade e Método, trad. Flavio Paulo Meurer. Rio de Janeiro, Petrobolis: 1997.

 

 

Sobre a verdade, mas qual é o método ?

12 Set

A verdade positiva, estabelecida pela ciência e pelo iluminismo tiveram dois alicerces: a ideia (idealismo) ligada a experiência (empirismo), cuja tentativa inglória foi criar uma enciclopédia universal do conhecimento, o “sapere audi” (ousar saber) de Kant, com grandes feitos da modernidade foram insuficientes para abolir a guerra, criou uma crise de valores, uma concentração de riquezas e uma visão de mundo com sinais de fragilidade.
O que a transdisciplinaridade e os educadores sóbrios estão exigindo, uma volta as ciências que deem sentido a vida, ao humanísticos perenes, a Carta sobre o Humanismo de Heidegger, em que bradava: “mas nisto não se deve esquecer que “sujeito e objeto” são expressões inadequadas da Metafísica que se apoderou, muito cedo, da interpretação da linguagem, na forma da “Lógica” e “Gramática” ocidentais.” (Heidegger, 2005, p. 8).
O que chamamos de interpretação, afirma Heidegger no parágrafo 32 de “Ser e Tempo” (é mencionado em “Verdade e Método”), é na verdade desenvolver “as possibilidades projetadas da compreensão”, significa um processo dialógico onde seja possível reaver os pré-conceitos e uma nova “fusão de horizontes”, neste sentido o hermético é contraposto ao hermenêutico.
O pré-conceito, visto como antecipação da experiência humana, atesta o nosso vínculo a tradição na qual estamos mergulhados, mas é preciso o que Gadamer chama de “consciência-da- história dos efeitos” (tradução possível de “Wirkungsgeschichtliches Bewusstsein”), conforme explicação em seu texto “determinada por um devir histórico real, de tal forma que ela não possui a liberdade de situar-se em face ao passado”, dai sua critica a Dilthey.
O nosso distanciamento da verdade, Gadamer começa pela estética, uma cultura das aparências- pela qual começa seu livro, recapitula nos idealistas as ideias de gosto e de vivência (“Erlebnis”), esta última posta sempre com mais enfase, ainda que de modos distintos em Dilthey e Husserl , se desenvolverá de modo a falsear as “ciências do espírito” (ver em sua obra “A Extensão da Questão da Verdade à Compreensão nas Ciências do Espírito”), num esforço analítico de concretizar a chamada consciência histórica, nisto fundamenta-se toda sua crítica à hermenêutica romântica de Schleiermacher, à “Aufklärung” (Ilustração) e ao historicismo de Droysen, Ranke, Dilthey e Hegel.
Sua crítica vai ao fundo da noção de estética de uma obra de arte, quando um pintor, com certa técnica ou estilo, vai a pintura com uma certa técnica, o que se lê no quadro não é a alma do pintor, mas uma técnica própria da época, claro salvo raras exceções, em geral, é isto.
Sua análise é também a partir da analítica hermenêutica, ao criticar Schleiermacher dá-lhe também razão ao dizer que na obra de um artista, de um poeta, um escritor seria fundação perceber a intenção autoral, assim o exegeta a conheceria mais de perto do que o seu próprio autor e não apenas sua letra ou pintura, conhecer o Evangelho de São João seria, antes de nada, conhecer São João, nisto Gadamer rejeita o postulado da escola romântica.
Mas aceitará a escola romântica no “Vamos aos fatos” da “Aufklärung”: “este lê o texto joanino como protestante, aquele como católico, um terceiro como historiador da Palestina. Se varrêssemos todas essas pressuposições, talvez nas linhas escritas pudesse assomar um sentido prístino”, ora o Aufklärung” desejava o encontro de uma interpretação não preconceituosa, que afastasse tanto a tradição da autoridade, como a autoridade da tradição (isto é idealismo!), nisto os românticos estavam certos.
Restam dois senões, a resposta de Sloterdijk a Heidegger (Regras para o Parque Humano) e a pergunta de Ricoeur (O conflito das interpretações): seria então Verdade ou Método (ou, e não e), isto é, verdadeiramente ontológica?

Heidegger, M. Carta sobre o humanismo 2 ed. rev. Tradução de Rubens Eduardo Frias. São Paulo: Centauro , 2005

 

Breve história da mentira

11 Set

Desde sempre as pessoas contam estórias de maneira que sua história parece um pouco melhor do que é, entenda história com h não são aquelas dos livros, mas dos fatos para os quais há artefactos, o que em direito chama-se prova instrumental.

Poder-se-ia ir na antiguidade clássica, onde encontraríamos Diógenes a procurar um homem honesto com uma lanterna, diria hoje um homem verdadeiro. 

Em tempos de partidarismo, que mais parecem torcidas fanáticas de futebol ou algum tipo de crença fundamentalista, a verdade se distorce para todo lado, o fato recente no Brasil da facada do Bolsonaro haviam desde teorias conspiratórias de um crime mal-executado, até quem defendesse que era tudo uma encenação, isto dito por intelectuais … pasmem.

Na história recente encontro o pensador e poeta do Modernismo espanhol António Machado y Ruiz, que escreveu La verdade también se inventa, portanto fake news são mais antigos, o que mudou agora é que intelectuais de pouca notoriedade e gente ignorante mesmo também o pode fazê-lo e com isto ganhar notoriedade mentirosa, mas é de fato notoriedade.

Encontro de Antonio Machado y Ruiz três frases muito interessantes: “Nunca percas o contato com o chão porque só assim terás dimensão uma ideia aproximada de sua estatura”, e “se é bom viver, ainda melhor é sonhar, e o melhor é despertar”, mas devemos despertar sempre e as vezes isto exigem podas, cortes diria, que quanto mais maduro mais profundos.

Lembro-me da frase de Cecília Meirelles: “Aprendi com as primaveras a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira“, lembro também do Poema de Mário de Andrade, O valioso tempo dos Maduros.

No romance O Caminho Menos percorrido, Scott Peck faz uma afirmação para pensar: “Pode parecer menos censurável enganar os ricos do que os pobres, mas não deixa de ser um engano.  Perante a lei, existem diferenças entre cometer uma fraude num negócio, entregar a declaração de rendimentos falsa, usa cábulas num exame ou dizer em casa que se ficou a trabalhar até tarde quando se é infiel. É certo que uns enganos são piores que outros, mas na realidade não passam todos de mentiras e traições”, diria em politica, aos “crentes”.

Lembro mais uma vez Antonio Machado y Ruiz: “É próprio de homens de cabeças medianas investir contra tudo aquilo que não lhes cabe na cabeça”, os que mais se investem contra os outros tem verdade dogmáticas, sabedoria mediana (se as tem) e arrogância aos quilos.

Poderia fazer um longo tratado sobre o círculo hermenêutico e Verdade e Método (vols I e II) de Hans-Georg Gadamer, mas não.

Continuo a investir na educação que não seja a dogmática, nem a pragmática, mas a hermenêutica daqueles que sempre duvidam e sempre estão abertos ao pensamento do Outro.