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A narrativa e seus contextos

08 jun

A emergência de estudos para análises em metodologias não positivistas e interpretativas nas ciências humanas fez surgir no panorama cultural de nosso tempo uma crise do conhecimento (episteme) que tem atraído diversos estudiosos para o tema, entre eles: “as formas e gêneros da narrativa, especialmente, têm atraído atenção (Bamberg, 1997; L. P. Hinchman & S. K. Hinchman, 1997; Polkinghorne, 1987).

Bamber explora as três décadas da análise de narrativas, Hinchman e Hinchman organizam uma coletânea para discutir problemas de identidade e memória em comunidades, e, Polkinghorne  estuda o conhecimento como narrativa nas ciências humanas, o sentido inverso da ordem cronológica dos estudos é aqui proposital indo do mais geral para o mais específico.

Porém do ponto de vista histórico o tema é bem antigo, podendo ser analisado na Retórica de Aristóteles, e mais contemporaneamente há uma longa tradição destes estudos na teoria literária e na linguística.

Há uma dificuldade reconhecida de definição da narrativa, primeiro pelas formas e estilos que são bastante variadas, e assim sua fenomenologia cultural não só é diversificada como aberta, e, em segundo lugar existem elementos estruturais nas narrativas que estão presentes em outros tipos de discursos com os textos jurídicos, científicos históricos ou religiosos.

Destaco os estudos de Paul Ricoeur, em seu clássico Tempo e Narrativa Histórica (1981-1983) onde a reflexão filosófica está precisamente na relação entre “tempo vivido” e “narração”, que dito de maneira mais profunda significam “experiência” e “consciência” que torna o conceito em contato mais estreito com a filosofia contemporânea onde tempo, vivência estão em conexão.

Confronta o conceito de historiografia estruturalizante desde 1945 e meados dos anos 1970, e desloca o discurso do historiador para pertencer antes de tudo à ordem das narrativas, embora um tipo especial de narrativa que não é a analítica.

Sua análise faz um diálogo com a obra Confissões de Agostinho e Poética de Aristóteles.

A sua frase “toda história é narrativa”, não é apenas o desprezo pela mera relação ao factual, ou ao biográfico, nem mesmo a agitada situação da histórica política, seu intento é dar sentido ao vivido, da sensibilidade e da ação humana a uma historiografia que parece abstrair do homem.

O que Paul Ricoeur destaca em sua “narrativa” como “História Mestra da Vida”, que está além dos grandes estadistas e políticos, e disponível para o ser humano cuja vivência cotidianamente o desafia.

Referências:

Bamberg, M. (Org.) Oral versions of personal experience: Three decades of narrative analysis. Journal of Narrative and Life History, 7, 1-4, 1997.

Hinchman, L. P. & Hinchman, S. K. (Orgs.) Memory, identity, community: The idea of narrative in the human sciences Albany, NY: State University of New York Press, 1997.

Polkinghorne, D. Narrative knowing and the human sciences Albany, NY: SUNY Press, 1987.

RICOEUR, Paul,  Tempo e Narrativa Tomo I. Campinas. Papirus, 1994.

 

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