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Razão, crença e a guerra

21 abr

A evidência de duas guerras mundiais, onde a racionalidade foi desafiada pelas barbáries dos campos de concentração, das atrocidades cometidas, e inclui-se também a bomba de Hiroshima, dão provas que é preciso examinar com profundidade aquilo que construiu o que chamou-se de razão passando pela crítica da razão pura de Kant e  pelo seu desenvolvimento da razão prática.

Na abertura do livro “Desencantamento do Mundo”, Pierre Bourdieu introduz sua análise das estruturas econômicas e temporais assim: “Aqueles que colocam a pergunta ritual dos obstáculos culturais ao desenvolvimento econômico interessam-se de modo exclusivo (isto e, abstrato) pela “racionalização” das condutas , econômicas e descrevem como resistências, imputável somente a herança cultural (ou, pior ainda, a tal ou tal de seus aspectos, o Islã por exemplo), todas as omissões para com 0 modelo abstrato da “racionalidade” tal como a define a teoria econômica.” (BOURDIEU, 1979, p. 11).

A história recente de nosso processo civilizatório desenvolve o aspecto físico (e portanto apenas material) e o cálculo matemático, em especial as racionalizações das estruturas econômicas, ao citar Max Weber explica o autor: “o caráter próprio a época capitalista [escreve Max Weber] e – um na raiz da outra – a importância da teoria da utilidade marginal (assim como de toda a teoria do valor) para a compreensão desta época consistem em que. do mesmo modo como a história económica de um sem-número de épocas do passado) foi chamada acertadamente de «a história do não econômico”, nas condições presentes da vida, a aproximação desta teoria e da vida era, é, e pelo que se pede julgar, será cada vez maior e devera determinar 0 destino de camadas cada vez mais amplas da humanidade. E deste fato histórico-cultural que deriva 0 significado heurístico da teoria da utilidade marginal” (BOURDIEU, 1979, p. 17).

Sua análise é bastante extensa e quase completa (explico a frente) para ser sintetizada aqui, porém o aspecto que nos interessa da cosmovisão cultural “não-econômica” que é o da crença e pode ser explicitado numa frase sua sobre como vê a relação da ciência e da crença: “O empreendimento paradoxal que consiste em usar de uma posição de autoridade para dizer com autoridade, para dar uma aula, mas uma aula de liberdade … seria simplesmente inconse- quente, ou mesmo autodestrutivo, se a própria ambição de fazer uma ciência da crença não supusesse a crença na ciência” (Bourdieu, (1994, p. 62), que significa que é preciso conjugar razão e crença.

A guerra atual envolve estas crenças econômicas (e ideológicas, e incluem crenças religiosas), e não é assim nem uma razão prática, nem teórica, a paz é possível se limitarmos as crenças ao princípio comum de defender a paz para o processo civilizatório (já que o conceito de progresso é também uma crença em determinado sentido da “histórica econômica”).

BOURDIEU, P.  O desencantamento do mundo: as estruturas econômicas e estruturas temporais. Trad. Silvia Mazza, São Paulo: Editora perspectiva, 1979.

BOURDIEU, Pierre. Lições da aula. São Paulo: Ática, 1994.

 

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